CHAPTER III: ALIGNMENT WITH NATIONAL POLICY FRAMEWORK AND METHODOLOGY
3.2. Main issues at District level
O interesse pelos estudos dialetais no Brasil, conforme assinala Antenor Nascentes em 1952 (cf. NASCENTES, 2003), manifesta-se já na primeira metade do século XIX, mais precisamente em 1826, com a publicação do trabalho do brasileiro Domingos Borges de Barros, Visconde de Pedra Branca, no livro Atlas ethnographique du globe, de Adrien Balbi. Esse trabalho de Borges de Barros, um estudo contrastivo no nível lexical entre o português do Brasil e o português de Portugal, assim como vários outros que o seguiram, marca o início da primeira fase dos estudos dialetais no Brasil, que, de acordo com Nascentes (2003), se estende de 1826 a 192044, compreendendo mais de duas
44 Conforme Nascentes, em seu trabalho de 1952, aqui citado pela edição de 2003, a história dos estudos dialetais no Brasil se divide em duas fases: a primeira, de 1826 a 1920, em que predomina o interesse pelo léxico; a segunda, de 1920, inaugurada com a publicação de O dialeto caipira, de Amadeu Amaral, se
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C ONTRIBUIÇ ÕES DE ES TUDOS GE OLINGUÍS TIC OS P ARA O POR TUGUÊS BRASILEIRO: UMA HOMENA GEM A SUZANA C ARDOSOdezenas de trabalhos, todos eles voltados, fundamentalmente, para o estudo do léxico.
Nesse conjunto de trabalhos, sua quase totalidade é de caráter regional; são vocabulários, glossários que objetivam reunir o que seus autores consideram como particular de um determinado estado ou região do Brasil. A outra parte é formada por dicionários que dão uma contribuição do português falado em terras brasileiras aos dicionários produzidos em Portugal.
Como visto, no momento em que se buscava, no Brasil, encontrar os elementos que caracterizariam a identidade da língua portuguesa em sua variedade brasileira, foi no léxico que os estudiosos foram buscar seus primeiros subsídios, pois é o léxico o componente linguístico que evidencia, sobremaneira, a dinamicidade da língua, por ser o que mais diretamente reflete o universo não linguístico e, consequentemente, melhor espelha a dinâmica social.
Nosso estudo se situa, pois, nessa linha de interesse, já que buscamos, por meio da análise de algumas unidades fraseológicas, examinar fatores de natureza histórica, social e cultural que se fazem presentes no falar nordestino. Para tanto, selecionamos, com base nos critérios expostos no tópico anterior, 21 fraseologismos extraídos de textos literários de romancistas nordestinos. Esses textos se situam num lapso temporal que vai de 1928, com A bagaceira, do paraibano José Américo de Almeida, a 1975, com Dôra, Doralina, da cearense Raquel de Queiroz, tendo ao longo desse marco temporal obras do paraibano José Lins do Rego. Esse marco se amplia, estendendo-se até 1979, com as pesquisas em textos literários do maranhense Domingos Vieira Filho.
Com relação ao uso do texto literário para realização de estudos linguísticos que tenham como foco a linguagem popular, é importante destacar que a língua oral popular, como elemento indispensável para o delineamento do perfil sociocultural, sociolinguístico do personagem, ganha espaço a partir da segunda metade do século XIX, “[...] com o advento de um processo de valorização político-social das classes mais populares [...]” (PRETI, 2004, p. 118). Mas, como destaca Preti (2004,
estende até nossos dias. Nesta segunda fase predominam os estudos gramaticais. Nesse estudo, Nascentes lista ainda os trabalhos representativos de cada uma dessas fases e os comenta brevemente.
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FRASE OL OGISMOS D A GEMA NOS F AL ARES RE GIONAIS DO NORDES TEp. 120), “foram os prosadores do século XX que aproveitaram melhor as sugestões da sintaxe falada, dos regionalismos, da gíria”.
Feitas estas considerações, seguimos com a apresentação dos dados45, distribuídos por estado e por autor.
2.1 PARAÍBA
O universo sócio-linguístico-cultural paraibano se faz presente, como mencionado, com os romancistas José Américo de Almeida (1887-1980) e José Lins do Rego (1901-1957). De Almeida, tomamos A
bagaceira, obra considerada como marco inicial do romance regionalista
e publicada em 1928. Nesse romance, que se volta, principalmente, para o sofrimento do ser humano diante da estrutura social arcaica dos engenhos no Nordeste, o autor consegue entrelaçar o regional com o universal, isto é, consegue fundir a realidade brasileira, nordestina com questões de caráter universal. Na construção do romance, o autor recorre a elementos do léxico regional, lançando mão de vários fraseologismos, a exemplo destes que destacamos:
Andar com uma pele-de-ceará nos olhos – Definição: Ser conivente.
Fazer de conta que não vê as coisas. Contexto: “Faz e acontece, e quando acaba, não tem um tiquinho de sentimento. Anda com uma
pele-de-ceará nos olhos...” (A bagaceira, p. 66).
Bater a passarinha – Definição: Incomodar-se. Contexto: “– Nem me
batia a passarinha. E aguentei o rojão. Foi um teitei como ninguém não
magina...” (A bagaceira, p. 25).
Dar de mamar à enxada – Definição: Apoiar-se, descansando, no
cabo da enxada. Contexto: “– Moambeiro! Só vive dando de mamar à
enxada!” (A bagaceira, p. 22).
Andar com uma mosca na orelha – Definição: Suspeitar. Contexto:
“Papai já anda com uma mosca na orelha, é capaz de fazer uma das dele.” (A bagaceira, p. 86).
45 As edições dos romances utilizadas neste estudo são as que constam na seção dedicada às referências. Quanto às obras citadas por Domingos Vieira Filho, como não as consultamos, decidimos não inclui-las nas referências e indicar apenas o título e o ano de sua publicação.
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C ONTRIBUIÇ ÕES DE ES TUDOS GE OLINGUÍS TIC OS P ARA O POR TUGUÊS BRASILEIRO: UMA HOMENA GEM A SUZANA C ARDOSOAndar de capas encouradas – Definição: Dissimular. Contexto: “Há
gente que anda de capas encouradas; quando menos se pensa, bota as mangas de fora...” (A bagaceira, p. 38).
Meter-se a rabequista – Definição: Ser saliente, intrometido, namorador.
Contexto: “– Ela não dança com bangalafumenga daqui. – Foi bom, que ele é metido a rabequista.” (A bagaceira, p. 46-47).
De José Lins do Rego, selecionamos três romances que têm como foco o Nordeste: dois deles – Banguê (1934) e Fogo morto (1943) – compõem o Ciclo da Cana-de-Açúcar e se voltam, portanto, para a realidade dos trabalhadores da região canavieira; o terceiro –
Cangaceiros (1953) –, como o próprio título evidencia, tem como
temática o cangaço e compõe o Ciclo do Cangaço, Misticismo e Seca. A última obra selecionada, Eurídice (1947), faz parte do conjunto de obras independentes, em que o cenário se desloca do Nordeste para o Rio de Janeiro. A linguagem das obras dos dois primeiros ciclos se caracteriza, principalmente, pela presença de vocábulos regionais e ênfase na oralidade. Dessas obras, extraímos os seguintes fraseologismos:
Botar canga – Definição: Dominar, subjugar alguém. Contexto: “É
verdade que senhor de engenho nunca me botou canga. Vivo nesta casa
como se fosse dono.” (Fogo morto, p. 7).
Estar de novilho – Definição: Estar com amante jovem. Contexto: “A
velha está de novilho.” (Eurídice, p. 263).
Fazer-se na faca – Definição: Empunhar uma faca, agredir com arma,
brigar com faca. Contexto: “Alípio se fez na faca, espalhou a feira.” (Banguê, p. 19).
Meter-se a besta – Definição: Tornar-se atrevido, fazer-se de importante,
provocar, insultar. Contexto: “O cabo ficou para um canto de bofe de fora, e um soldado, que se metera a besta não ficou para contar a
história.” (Cangaceiros, p. 19).
Novilho de chifre apontado – Definição: Rapaz novo. Contexto: “É
esta história de Aparício. Tudo que é novilho de chifre apontado, neste sertão, só cuida de cangaço.” (Cangaceiros, p. 91).
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FRASE OL OGISMOS D A GEMA NOS F AL ARES RE GIONAIS DO NORDES TE(Ser) duro de roer – Definição: Situação ou coisa de difícil solução ou
difícil de suportar; pessoa de difícil trato. Redução da expressão “osso duro de roer”. Contexto: “Está aí, o seu Álvaro do Amora custa a pagar.
É duro de roer, mas gosto daquele homem.” (Fogo morto, p. 5).
2.2 CEARÁ
Como representante do Ceará escolhemos Raquel de Queiroz (1910-2003), com os seguintes romances: O quinze (1930) e Dôra,
Doralina (1975). É perceptível em suas obras seu empenho em dar
espaço para a língua em seu uso real, seus personagens falam a língua oral ouvida nas ruas, e em trabalhar com temáticas que fomentam debates acerca das conjunturas sociais vigentes, quer o cenário seja o sertão cearense, quer seja os vários lugares por onde passou e viveu. Dessas obras, extraímos os seguintes fraseologismos:
Botar de banda – Definição: Abandonar, desprezar. Contexto: “Hein,
minha comadre! Botou o luxo de banda...” (O quinze, p. 43).
Pau-de-virar-tripa – Definição: Pessoa alta e magra. Contexto: “– Logo
quem fala, esse pau-de-virar-tripa.” (Dôra, Doralina, p. 17).
Tratar à vela de libra – Definição: Acolher regiamente. Contexto: “Aquilo
é uma doida, uma vagabunda. Danou-se para vir pro Ceará, porque ouviu dizer que estavam tratando retirante à vela de libra.” (O quinze, p. 76). 2.3 MARANHÃO
O universo linguístico-cultural maranhense está representado pelo trabalho de um dos maiores estudiosos maranhenses do século XX, o pesquisador Domingos Vieira Filho (1923-1981), com as seguintes obras: Folclore brasileiro: Maranhão (1977) e A linguagem popular do
Maranhão (1979)46. No primeiro livro, o autor aborda diversos temas,
tais como a linguagem popular, a culinária, as danças e os folguedos, os cultos populares, a literatura oral, o artesanato folclórico; já no segundo,
46 A primeira edição de A linguagem popular do Maranhão é de 1953. Neste estudo citamos a terceira edição, que foi ampliada e publicada em 1979.
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C ONTRIBUIÇ ÕES DE ES TUDOS GE OLINGUÍS TIC OS P ARA O POR TUGUÊS BRASILEIRO: UMA HOMENA GEM A SUZANA C ARDOSOcentra seu foco na linguagem coloquial. Nessas duas obras, ao tratar da linguagem, Vieira Filho tentou apresentar, sempre que possível, abonações para validar a definição por ele apresentada nos verbetes. Dessas obras, extraímos os seguintes fraseologismos:
Bater o cachimbo – Definição: Morrer. Contexto: “[...] havia lá um
empregado superior muito doente, que, sem dúvida, bateria o cachimbo por todos aqueles três meses [...]” (Folclore brasileiro: Maranhão, p. 10, com abonação extraída da obra de Aluísio Azevedo, O mulato, publicada em 1881).
(Ser) ariri-de-festa – Definição: Pessoa que não perde uma festa, que se
faz presente a todas. Contexto: “[...] mas é que talvez você conheça na vida algum ariri-de-festa.” (A linguagem popular do Maranhão, p. 17- 18, com abonação extraída da obra de Odylo Costa Filho, Ariri-de-festa, publicada em 1957).
Empinar a curica – Definição: Prosperar, vencer na vida. Contexto: “[...]
dinheiro suficiente para que a mesma levantasse a curica.” (A linguagem
popular do Maranhão, p. 46, com abonação extraída do jornal Estado do Maranhão, edição de 17 de abril de 1974).
(Ser) arroz-de-casca – Definição: Pessoa que se suscetibiliza pela
menor coisa. Contexto: “Não compre um substituto. Cá não sou arroz-
de-casca.” (A linguagem popular do Maranhão, p. 18, com abonação
extraída da obra de Arthur Azevedo, Carapuças, publicada em 1871).
Ir na talha – Definição: Ficar bêbado e ser conduzido nos braços dos
companheiros de esbórnia. Contexto: “Ainda que eu vá na talha! Mas quero tudo virar!” (A linguagem popular do Maranhão, p. 92, com abonação extraída da obra de José Nascimento Morais Filho, Pé de
conversa, publicada em 1957).
(Ser) levado da carepa – Definição: Pessoa brincallhona, travessa,
danada. Contexto: “Aranha era um homem levado da carepa. Em todos os bairros de São Luís lhe sabiam o nome pelas bravatas que praticava.” (Folclore brasileiro: Maranhão, p. 10, com abonação extraída da obra de José Nascimento Morais, Vencidos e degenerados, publicada em 1915).