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CHAPTER IV: STRATEGIC FRAMEWORK

4.4. Logical framework

A fim de compreendermos um pouco melhor a realidade pronominal de segunda pessoa do singular encontrada no português brasileiro atual, faremos um breve histórico das formas de tratamento. Partimos do entendimento de que a história dessas formas relaciona-se diretamente com a história do próprio homem. “Em tempos remotos, quando as sociedades eram altamente hierarquizadas, estáticas, com suas classes sociais bem delimitadas e estabelecidas, era natural que as relações de poder fossem marcadas por formas de tratamento específicas a cada classe social” (MODESTO, 2006, p. 3).

Menon (1995, p. 93) afirma que as mudanças no sistema de representação da segunda pessoa começaram pela forma plural, por ser considerada a menos marcada. Até o século XIV, o pronome vós podia ser usado para referir-se a mais de um interlocutor, como também a apenas um interlocutor de posição hierárquica superior, ou como uma

48 Ao final da pesquisa, será realizada a cartografia dos dados, seguindo os procedimentos metodológicos do Projeto ALiB.

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forma de tratamento respeitoso por motivos de idade. O pronome tu era usado entre iguais ou de superior para inferior, como uma forma bem

marcada.

Sobre a noção de marca, Menon (1995, p. 93) afirma que “uma pessoa não podia empregar tu ao se dirigir a outra, desconhecida”. Uma vez que o fizesse, implicaria em violação das regras de conduta da sociedade da época. Ao contrário do tu, o pronome vós podia ser utilizado irrestritamente, visto que denotava um tratamento respeitoso. Segundo Lopes e Duarte (2003), a oposição estabelecida entre tu/vós (plano da intimidade) versus vós (plano de cortesia ou distanciamento) continua ainda hoje em francês.

Em decorrência das transformações ocorridas tanto na economia como na sociedade portuguesa, que resultaram numa maior hierarquização da sociedade, nos fins do século XIV surgem formas consideradas mais respeitosas para se dirigir ao rei: Vossa Mercê, Vossa

Senhoria, Vossa Alteza, Vossa Excelência, Vossa Majestade. Menon (1995,

p. 94) informa que “tais construções, por equivalerem a uma locução substantiva, empregavam o verbo na 3ª pessoa: Vossa + Nome”.

De acordo com Cintra (1986), Vossa Mercê, que aparece como tratamento próprio para o rei nos fins do século XIV, chegando a ser o tratamento mais usual para o monarca em 1460, deixa de sê-lo em 1490. Essa forma passa a ser utilizada para “duques e infantes, depois para simples fidalgos, e já no início do século XVI, na época de Gil Vicente, para patrões burgueses” (CINTRA, 1986, p. 21). Vossa Alteza se especializa como tratamento ao rei no século XV, sendo encontrado também ao longo de todo o século XVI, “até ao reinado de Filipe II de Espanha, I de Portugal”. Vossa Senhoria, que também se inicia como tratamento próprio para o rei, passa a ser utilizado para fidalgos da mais alta nobreza, fixando-se num nível superior ao de Vossa Mercê. O autor destaca a publicação das “leis das cortesias” em 1586, na Espanha, e em 1597, em Portugal. Essas leis estabeleciam como deveriam ser empregadas as formas de tratamento. Tal postura, de acordo com Lopes e Duarte (2003, p. 65), sugere duas hipóteses: “1) havia uma grande flutuação no emprego dessas formas de tratamento entre as pessoas da época e 2) a sociedade tinha uma grande preocupação em determinar

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os papéis sociais desempenhados pelos membros que a constituíam”. Seguindo essa mesma linha, Loregian-Penkal (2004) destaca que:

As “leis das cortesias” surgiram como reação à crescente expansão de uso das formas nominais, especialmente fora da nobreza, sendo uma tentativa de proibir a igualdade, ou seja, de espelhar linguisticamente a organização hierárquica da sociedade da época. (LOREGIAN-PENKAL, 2004, p. 40)

Sobre o uso de Vossa Mercê, sob o qual o rei não legislava, Cintra (1986, p. 23) afirma que seu campo de utilização era mais vasto, situando-se a um nível superior ao do pronome vós – que ainda continuava a ser cortês, muito diferente do tu, de extrema confiança ou usado de superior para inferior.

Dessa forma, Vossa Mercê desaparece do uso honorífico das cortes em 1490, passando a ser utilizado amplamente pela população, ainda com valor respeitoso. A essa expansão no uso são atribuídas as mudanças de ordem fonética. Vários autores se ocuparam das diversas formas da evolução Vossa Mercê > você nas variedades brasileira e portuguesa49.

Menon (1995) destaca que a forma você passa de um tratamento não íntimo para um tratamento íntimo; primeiramente utilizado nas relações de inferior para superior e, em seguida, nas relações entre iguais e de superior para inferior. Assim, nas palavras da autora:

[...] a forma você(s) origina-se de uma locução nominal (constituída de um pronome possessivo mais um substantivo) e, nessa categoria, passa a requerer o verbo na terceira pessoa. No entanto, durante o processo de modificação fonética e de valor social, a forma se pronominalizou, isto é, passou por um processo de gramaticalização, mudando a categoria: de nome (visto que uma locução nominal, segundo a gramática tradicional, equivale a um nome – substantivo ou adjetivo –, exercendo as mesmas funções gramaticais) para pronome. Este novo pronome é de segunda pessoa; logo a forma verbal que o acompanha também passa a ser uma forma de segunda pessoa. (MENON, 1995, p. 96) (grifos da autora)

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A fim de traçar um percurso da pronominalização de Vossa

Mercê a você, Lopes e Duarte (2003) analisam peças brasileiras e

portuguesas escritas nos séculos XVIII e XIX. Com relação às peças brasileiras, verificam que na primeira metade do século XVIII há uma distribuição regular entre as formas Vossa Mercê (33%), tu (29%), vós (25%) e que a partir da segunda metade o pronome tu tem seu uso elevado significativamente (63%). Na primeira metade do século XIX, o uso deste pronome chega a 90%, quando começa a sofrer um declínio. No fim do século XIX, seu uso volta aos índices do final do século XVIII. O pronome você mantém-se de maneira estável ao longo dessas duas fases (10%), mas inicia sua implementação a partir da segunda metade do século XVIII, polarizando-se basicamente com o pronome tu50.

Por fim, Menon (1995) assinala que, diferentemente de Portugal, a forma você passou a ser utilizada como forma de tratamento íntimo em todo o país possivelmente em virtude do uso de formas variantes de

Vossa Mercê desde o início da colonização. No entanto alguns estudos

sobre a referência de segunda pessoa demonstram que o uso do pronome

tu, em algumas regiões, denota maior intimidade que o uso do pronome você51.

2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS – O PROJETO ALiB

Antes de apresentarmos os dados, trataremos dos procedimentos metodológicos que direcionaram este estudo. O cenário desta pesquisa é um recorte da rede de pontos do Projeto Atlas Linguístico do Brasil (Projeto ALiB), projeto de caráter nacional, que visa realizar um atlas geral do Brasil no que se refere à língua portuguesa.

A primeira manifestação em prol da realização de um atlas linguístico brasileiro remonta ao ano de 1952, quando o governo brasileiro criou, por meio do Decreto 30.643 de 20 de março, o Centro de Pesquisas da Casa de Rui Barbosa. Essa lei propôs como principal

50 Com relação às demais formas (Senhor, Sua Senhoria, Vossa Excelência, Vossa Senhoria), as autoras afirmam que seu uso declina significativamente no fim do século XVIII em diante, chegando a índices próximos de zero no século XIX. 51 Paredes Silva (2003); Modesto (2006); Dias (2007); Martins (2010); Nogueira

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finalidade da Comissão de Filologia da Casa de Rui Barbosa a elaboração do Atlas Linguístico do Brasil. Essa elaboração, no entanto, não começou de imediato. As dificuldades encontradas pelos dialetólogos brasileiros direcionaram a que se iniciasse o mapeamento linguístico do Brasil a partir de atlas estaduais e regionais.

A ideia de elaboração do Atlas Linguístico do Brasil foi retomada somente em 1996, por ocasião do Seminário Nacional Caminhos e

Perspectivas para a Geolinguística no Brasil, na Universidade Federal da

Bahia. O evento contou com a presença de pesquisadores e dialetólogos brasileiros e do Prof. Michel Contini, da Université Stendhal – Grenoble, Diretor do Atlas Linguistique Roman (ALiR) e membro do Comitê Diretor do Atlas Linguarum Europea (ALE). Na ocasião, foi instituído um Comitê Nacional, integrado pelos autores dos cinco atlas linguísticos regionais publicados e por um representante dos atlas em andamento. Foram eles: os Professores Suzana Alice Marcelino da Silva Cardoso (UFBA), que presidiu o Comitê até março de 2018, Jacyra Andrade Mota (UFBA), Maria do Socorro Silva de Aragão (UFPB), Mário Roberto Lobuglio Zágari (UFJF), Vanderci de Andrade Aguilera (UEL) e Walter Koch (UFRGS), este último representando os atlas em andamento52.

Desenvolvido no campo da Dialetologia, o Projeto ALiB segue os parâmetros da Geolinguística contemporânea, contemplando, além da diatopia, as variáveis sexo, faixa etária e nível de escolaridade (apenas nas capitais: nível fundamental e nível universitário). Essa metodologia tem por objetivo principal cartografar os fatos de língua e sua produção de maior relevância se apresenta nos atlas linguísticos.

52 Atualmente, a coordenação do Projeto ALiB está sob a responsabilidade de um Comitê Nacional, constituído de 13 membros, assim estruturado: Diretora Presidente – Jacyra Andrade Mota (Universidade Federal da Bahia), Diretora Executiva – Silvana Soares Costa Ribeiro (Universidade Federal da Bahia), Diretores Científicos – Abdelhak Razky (Universidade de Brasília / Universidade Federal do Pará); Aparecida Negri Isquerdo (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul); Conceição de Maria de Araújo Ramos (Universidade Federal do Maranhão); Fabiane Cristina Altino (Universidade Estadual de Londrina); Felício Wessling Margotti (Universidade Federal de Santa Catarina); Marcela Moura Torres Paim (Universidade Federal Rural de Pernambuco / Universidade Federal da Bahia); Maria do Socorro Silva de Aragão (Universidade Federal da Paraíba / Universidade Federal do Ceará); Marilúcia Barros de Oliveira (Universidade Federal do Pará); Regiane Coelho Pereira Reis (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul); Valter Romano (Universidade Federal de Santa Catarina) e Vanderci de Andrade Aguilera (Universidade Estadual de Londrina).

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O objetivo geral do Projeto ALiB, segundo Cardoso e Mota (2012, p. 859), é “fornecer dados empíricos, sistematicamente recolhidos e analisados, para o conhecimento do português do Brasil”. Para atingir esse objetivo e os demais a que se propõe, o Projeto conta com um total de 1100 informantes, sendo quatro em cada localidade, estratificados quanto ao sexo e faixa etária (Faixa I – de 18 a 30 anos e Faixa II – de 50 a 65 anos). Com relação à escolaridade, todos são alfabetizados, tendo cursado, no máximo, até o nono ano do ensino fundamental. Exceção a essa regra são as capitais, nas quais foram entrevistados oito informantes, incluindo-se na amostra, em distribuição equitativa, os que cursaram o nível universitário.

No que tange ao questionário linguístico, o Projeto aplicou três tipos, cada um deles volta-se para os aspectos (a) fonético-fonológico – Questionário Fonético-Fonológico (QFF), com 159 perguntas, às quais se juntam 11 questões de prosódia; (b) semântico-lexical – Questionário Semântico-Lexical (QSL), 202 perguntas; e (c) morfossintático – Questionário Morfossintático (QMS), 49 perguntas. Acrescentam- se ainda: Questões de Pragmática (QPg), apenas quatro; Temas para Discursos Semidirigidos (TDS), composto por relato pessoal, comentário, descrição e relato não pessoal; Questões Metalinguísticas (QMT), seis; e um texto para leitura: a “Parábola dos sete vimes”.

Essa diversidade de questionários possibilita a observação de diferentes níveis de análise do sistema linguístico bem como diferentes contextos de elocução. Dadas as especificidades desta pesquisa e tendo em vista a limitação das outras modalidades de questionário para a ocorrência das variantes em estudo, optou-se por utilizar apenas os dados recolhidos para as perguntas das questões de prosódia (QP), do questionário morfossintático (QMS), das questões de pragmática (QPg), dos temas para discurso semidirigidos (TDS) e das questões metalinguísticas (QMT). Observem-se os exemplos a seguir:

(1) INQ. – Agora, como é que uma mãe diz pro filho pra ele sair da chuva? (QP 08)

INF. – Sai da chuva, tu não pode tomar banho de chuva, menino!

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(2) INQ. – Você vê um amigo assim com uma mala e quer perguntar se ele vai viajar, como que você pergunta? (QMS 24) INF. – Pergunto... você vai viajar?

(Homem, faixa I, nível universitário, Macapá – AP)

(3) INQ. – Você poderia contar pra mim uma coisa que foi marcante na sua vida, pode ser alguma coisa boa, que te deixou muito feliz, ou então alguma coisa que te deixou muito triste... (TDS)

INF. – Uma coisa boa? Assim, a maior emoção que eu tive... eu digo até hoje, não foi ter filhos.

INQ. – Não?

INF. – Não, foi passar no vestibular. (risos) INQ. – Ah, é?

INF. – Foi sim. Eu acho que se não existiu, não sei se ainda, né, vai existir... eu... Foi passar no vestibular... assim... porque tu tá concorrendo com... com um monte de gente que tu não conhece, mas que sabe que tem muita gente que tá estudando... aí é que a gente tem que ser melhor que muita gente, não tem que saber, tem que ser melhor que muita gente...

(Mulher, faixa I, nível universitário, Macapá – AP)

(4) INQ. – Você poderia dar um exemplo de como essas pessoas falam diferente? (QMT 03)

INF. – De como? Ai... tem a minha... a minha cunhada, ela chama fia. Aí até eu brinco com ela, eu digo: menina, tu tá fiando o quê? [ININT] chama fia e ela quer dizer filha, né? (Mulher, faixa I, nível fundamental, Boa Vista – RR)

Por fim, vale destacar que o Atlas Linguístico do Brasil já possui dois volumes publicados, o primeiro é o de Introdução e o segundo apresenta 159 cartas linguísticas, com dados de 25 capitais de estado. O lançamento ocorreu em outubro de 2014, durante o III Congresso

de Dialetologia e Sociolinguística (III CIDS), realizado na Universidade

Estadual de Londrina, em homenagem às Professoras Suzana Cardoso e Jacyra Mota.

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