CHAPTER II: OVERVIEW OF NYARUGENGE DISTRICT
2.4. District strengths, weaknesses, opportunities and threats (SWOT analysis)
Como o componente da língua que se reporta ao universo referencial, o léxico está na base do processo de nomeação, de registro de nosso conhecimento do universo. Dada essa sua condição, ele se converte no domínio da língua mais permeável a múltiplas influências e a possibilidades infinitas de expansão, porque, como assinala Vilela (1994, p. 6), “[...] Avanços e recuos civilizacionais, descobertas e inventos, encontros entre povos e culturas, mitos e crenças, afinal quase tudo, antes de passar para a língua e para a cultura dos povos, tem um nome e esse nome faz parte do léxico”.
O léxico, como destaca Biderman (2005), não é formado apenas por um conjunto de unidades simples, palavras isoladas, mas também por unidades complexas, formadas por agrupamentos de mais de uma palavra que se fixam e consolidam e que constituem, em síntese, o que ela denomina “combinatória cristalizada da herança cultural registrada na memória coletiva” (BIDERMAN, 2005, p. 748).
Desse leque de unidades linguísticas que compõem o léxico, interessam para nosso estudo as unidades complexas, mais precisamente aquelas cujas unidades componentes estão tão estreitamente relacionadas
41 Não desconhecemos as controvérsias e dificuldades que se põem quando a questão é definir “palavra”. Como discutir essa questão excede os limites de nosso texto, optamos, para efeito deste estudo, tomar “palavra” como unidade verbal, ou, dito de outra forma, como a representação linguística da categorização de nossa experiência.
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FRASE OL OGISMOS D A GEMA NOS F AL ARES RE GIONAIS DO NORDES TEentre si que perdem (total ou parcialmente) seu significado individual para construir um significado novo. Essas unidades se denominam unidades fraseológicas ou fraseologismos.
Como assinala Ortiz Alvarez (2012, p. 374-375), “[...] o homem criou as unidades fraseológicas utilizando o caudal léxico da língua, a comunidade as aceitou, difundiu, conservou ou fez desaparecer de acordo com o grau de utilidade delas como recurso nominal ou predicativo numa época determinada”.
Para efeito deste estudo, como já referido, seguimos a perspectiva adotada por Tristá (1988) em sua obra Fraseología y contexto42. Nesse
trabalho, a autora tem como objetivo analisar os fraseologismos em seu contexto e delimitar as propriedades que considera fundamentais para definir se uma dada combinação de palavras é, de fato, uma unidade fraseológica, contrapondo-se, portanto, por um lado, às palavras simples, como “gato”, e, por outro lado, a outros tipos de unidades complexas, tais como as combinações analíticas, como “pôr fim”, e os termos compostos, como “reação em cadeia”.
Dessa obra, interessam-nos particularmente os critérios adotados para identificar um fraseologismo. A autora considera três características fundamentais no processo definitório das unidades fraseológicas, embora ressalte que não são exclusivas desse tipo de agrupamento. Entretanto, segundo ela, essas propriedades estão estreitamente ligadas, mantendo uma relação de interdependência, no caso dos fraseologismos. São elas: a pluriverbalidade, o sentido figurado e a estabilidade.
A primeira dessas características, a pluriverbalidade, diz respeito à constituição dos fraseologismos, ficando estabelecido que toda unidade fraseológica deve ser formada por duas ou mais palavras, sendo que, pelo menos, uma dessas palavras deve ser plena, significativa. Esta palavra,
42 Os estudos da pesquisadora cubana Antonia María Tristá Pérez desenvolvidos na década de 1980 se inspiraram, principalmente, nos trabalhos realizados pelos fraseólogos russos. Tristá comunga com a ideia de que as combinações fixas de palavras têm um caráter universal e ressalta que há um número significativo de definições para esse tipo de agrupamento de palavras, ainda que, quase sempre, coincidam no que concerne às características definitórias fundamentais. Assinala ainda, diante da profusão de termos, que não crê ser relevante a denominação dada a essas combinações: fraseologismos, unidades fraseológicas, locuções, frases feitas. Por essa razão, utilizamos, unidades fraseológicas e fraseologismos como termos equivalentes.
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C ONTRIBUIÇ ÕES DE ES TUDOS GE OLINGUÍS TIC OS P ARA O POR TUGUÊS BRASILEIRO: UMA HOMENA GEM A SUZANA C ARDOSOpor sua vez, pode vir acompanhada de uma ou mais palavras auxiliares. Mas podem ocorrer também agrupamentos formados por duas ou mais palavras plenas. Como ilustração do primeiro grupo, Tristá (1988) lista como exemplos o que denomina fraseologismos adverbiais, como “a lo loco” (sem pensar), “al dedillo” (detalhadamente). Para o segundo grupo, que, segundo ela, pode apresentar diversas estruturas, dentre as quais as mais importantes e difundidas são as nominais e as verbais, traz como exemplos unidades como “mosquita muerta” (mosca morta), “ser harina de otro costal” (ser outra conversa, ser assunto diferente).
A segunda característica, o sentido figurado, se centra na metáfora, que, de acordo com Tristá (1988), é o principal fator semântico que atua no processo de formação das unidades fraseológicas. Nesse sentido, a metaforização se constitui numa das maiores “forças de enriquecimento” da fraseologia. Em síntese, a autora centraliza seus estudos na metaforização para explicar a geração dos fraseologismos, pois estes
[...] são motivados geralmente ou pela necessidade de denominar as propriedades de alguns objetos ou conceitos, ou como meio de manifestação de expressividade. Salvo exceções, são construídos seguindo o modelo das combinações livres, cujo elemento ou elementos sofrem uma reinterpretação semântica dentro dos limites do fraseologismo; fora deste, recuperam sua acepção primária43. (TRISTÁ,
1988, p. 21)
Tristá (1988) ressalta ainda que no processo de metaforização são frequentes a referência a nomes de partes do corpo, a nomes de animais, de plantas, de objetos, de costumes domésticos.
A terceira característica, a estabilidade fraseológica, diz respeito à propriedade que têm os fraseologismos de ser reproduzidos integralmente. Isso se dá porque as unidades que os compõem estão
43 Do original: “[...] son motivados generalmente o bien por la necesidad de denominar las propiedades de algunos objetos o conceptos, o bien como medio de manifestación de expresividad. Salvo excepciones, se construyen siguiendo los modelos de las combinaciones libres, cuyo elemento o elementos sufren una reinterpretación semántica dentro de los límites del fraseologismo; ya fuera de éste, recobran su acepción primaria” (tradução nossa).
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FRASE OL OGISMOS D A GEMA NOS F AL ARES RE GIONAIS DO NORDES TEtão estreitamente relacionadas entre si que não se pode deduzir seu significado do valor semântico de seus componentes, tendo em vista que, no interior das unidades fraseológicas, estes perdem (total ou parcialmente) seu significado primário, individual para constituírem em conjunto um significado novo.
Tristá (1988) admite que, embora a estabilidade seja considerada como uma das características fundamentais dos fraseologismos, essa estabilidade é, até certo ponto, relativa, admitindo gradação. Vários fraseólogos, dentre os quais se inclui a autora, arrolam um conjunto de impossibilidades – mudança da ordem dos componentes do fraseologismo, sem que isso gere agramaticalidade; intercalação de novos elementos nos fraseologismos; substituição de uns componentes por outros; mudanças morfológicas –, mas, mesmo diante dessas impossibilidades, há muitas possibilidades de variação que, inclusive, afetam o bloco de impossibilidades apresentado.
Postos os fundamentos teóricos que orientam nosso trabalho, resta-nos destacar, neste tópico, que as unidades fraseológicas, frutos da percepção que tem uma comunidade de sua forma de ser e estar no mundo, constituem um importante veículo de identidade e de cultura, como ilustram os dados que examinamos a seguir.