Em 2018, o artista Híkel Brawn, o ilusionista Hórus, realizou a ação performativa
Travessia, como um aporte prático para a sua pesquisa de mestrado, realizado sob a
orientação da professora Drª Naira Ciotti, no PPGArC 39. É desse ato performativo que passaremos a tratar, mas, sobretudo, do que Hórus construiu como uma dramaturgia com sua “cara pintada”.
Travessia é um título sugestivo que nos faz pensar em jornada, percurso, caminho, e por si já coloca em ação um sujeito. Inicialmente, precisamos dizer que, por uma questão de compreensão fenomenológica, trataremos o campo da performatividade do ilusionismo como espetáculo. Abordaremos o que se instaura no espaço/tempo da ação do actante Hórus como uma figura que se faz imagem através de um dispositivo cênico muito específico que é a observação.
O jogo que se estabelece entre o ilusionista e seu espectador é, desde o primeiro instante, um jogo de “olhar” para “ver” e, ao mesmo tempo, “olhar” e “não ver”, uma vez que é próprio desse tipo de espetáculo a estratégia da dissimulação como regra.
Para isso, Hórus assume uma persona cuja figura se pauta pela ideia de naturalidade imagética, ou seja, não há nada em sua figura no espaço da cena que destoe, em excesso, da sua figura cotidiana. A similaridade, aqui, tem a função estratégica de sugerir ao espectador a crença na “normalidade”, exatamente, numa não espetacularidade.
Vem desse recurso discursivo a qualidade do “truque” que o ilusionista realiza. Assim, a “cara pintada” de Hórus necessita de poucos ou nenhum recurso material (cosmetológico) para se compor como uma dramaturgia. A própria ausência de tais elementos faz parte da composição do ilusionista de Travessia, que busca extrair do espectador um tipo de reação muito específico de comoção: a surpresa.
Figura 89: Cena da ação performática Travessia, de Hórus – o ilusionista.
Fotografia de Paula Araújo (2018).
No palco uma figura que não difere das pessoas com quem cruzamos em nosso cotidiano. Um homem, alto, cabelos e olhos castanhos escuros, vestindo um figurino composto de calça jeans preta e camisa de botões na mesma cor. Um homem “comum”, como percebemos na primeira leitura que fazemos de sua imagem. Para o ilusionista esse
lugar de “homem comum” é interessante, pois não chama a atenção do público para suas práticas de prestidigitação.
A realização da dramaturgia da “cara pintada” do ilusionista se completa e se organiza junto à tessitura da cena a partir da não utilização de cosméticos, ou da utilização em pequena escala. É uma pintura que não chama atenção para sua figura na interação como o público, exatamente como o ilusionista precisa que seja.
Em uma segunda parte de seu ato, Hórus opta por usar uma venda nos olhos, criando no seu espectador a tensão provocada pelo símbolo do perigo eminente.
Figura 90: Outra cena da ação performática Travessia, de Hórus. Fotografia de Paula Araújo (2018).
A ludicidade aqui está presente justamente no efeito contraditório de ver algo extraordinário (a ilusão que acontece diante de nossos olhos) partindo de algo que consideramos ordinário, que reconhecemos (a figura de um homem comum). A partir da teatralidade existente nesse contexto, acreditamos na verossimilhança da “mágica”. Estar
com o rosto “limpo”, sem adição de cosméticos, próteses e adereços não significa estar com o rosto desnudo. O actante precisou construir a figura ou, em suas palavras, “uma atitude” que se personifica em sua imagem, através da qual o público se ligará com o fenômeno da teatralidade. O que, corrobora o pensamento de MAGALHÃES (2010):
A relação que o atuante mantém com sua personagem dependerá da estética cênica proposta. Por exemplo, na de cunho naturalista o atuante deve manter a atuação ininterruptamente, sem quebras, e levar o espectador a se identificar com a personagem, provocando uma ilusão contínua de que ela é uma pessoa complexa como qualquer ser humano real. A maquiagem, desse modo, segue a estética proposta e deve ser extremamente natural. Qualquer alteração facial pela maquiagem deve ser imperceptível aos olhos do espectador, produzindo o efeito de que o que ele vê é verdadeiro, real, verossímil. (MAGALHÃES, 2010 p. 177).
Ao ser questionado sobre como deveríamos nos referir ao seu trabalho, Hórus nos deu uma a seguinte resposta:
Meu trabalho em mágica, ao longo de dez anos, tem influência do estilo de mágica de palco e rua, uma mescla. Há também elementos da mágica de mentalismo, da magia clássica de palco (manipulação) e do escapismo. Minha poética atual mescla elementos da performance (tanto na maneira de atuar, quanto de compor a ação), trabalho com work in process, estado de performance, pesquisa de material. 40
Para Hórus, em sua atuação ele se coloca “[...] na situação de performance, em ação, me concentro no que realizo no momento”. Para ele, no Travessia, “[...] não há personagem, mas uma atitude, então, a atuação sofre alguns desdobramentos, dependendo do nível de interação da plateia e da organização do ambiente da ação”.
Essa perspectiva que ele apresenta confirma nossa compreensão na experiência como atitude do actante e fenomenologia do espectador. Neste fluxo dialógico, a composição da personagem desaparece. Para Hórus o que prevalece é que o seu “[...] treinamento-processo parte de exercícios técnicos, pesquisa referencial (por vídeos, livros ou assistindo ao vivo a outros artistas) e experimentação com público”. Mas se não há construção de personagem, ainda podemos considerar que em cena Hórus está de “cara pintada”?
É considerável a relevância que tem a “dramaturgia do corpo” nos processos que ele desenvolve como actante. No tocante aos aspectos materiais da performance, seu figurino, seus adereços, como compõe o cabelo, a maquiagem, como se coloca na luz e no espaço, Hórus diz que em Travessia “[...] utilizo um figurino mais neutro, que não desloque o olhar do público para o que estou realizando. Trabalho com materiais reais, ou seja, sem preparação especial (vidros de garrafas, tecido de algodão, moedas, fita adesiva)”. Mas que valor tem essa materialidade para a narrativa que está construindo? No seu processo criativo, será que ele constrói a imagem material do que fará na performance? E ele responde: “A imagem é um dos primeiros elementos que dou importância, sua construção vem ganhando modificações no decorrer do processo. Normalmente, utilizo poucos recursos de maquiagem, uso mais para reforçar um olhar, uma presença, uma atitude”.
Acreditamos que a partir do momento em que o actante emprega sua energia criativa, sua poética, na criação dessa persona, ele está criando sua “cara pintada” que será apresentada ao público com o intuito de construir com eles a ligação que permitirá que eles façam parte da cena junto com Hórus. A presença, a atitude que ele alega que pode reforçar através do uso de maquiagem já está, nesse caso, construída como sua “cara pintada”.
Figura 91: Outra cena da ação performática Travessia, de Hórus – o ilusionista.
Fotografia de Paula Araújo (2018).
O fato de Hórus não utilizar elementos cosméticos para a organização estética de seu rosto em cena não diminui a sua construção, uma vez nessa construção era preciso levar em consideração o que ele queria “tirar de sua cartola”, caso contrário ele corria o
risco de colocar sua relação com o público em um lugar diferente do que considerava como necessário para a concretização de sua ação ilusória.
Aqui podemos verificar que imagem, presença e atitude (ou seja, experiência e percepção) são os grandes campos semânticos que o artista manipula para construir sua narrativa. Da mesma forma, “pintar a cara” é para Hórus uma atitude “Confortável e desconfortável. Mas me passa a sensação de completude da proposta”. Assim, “pintar a cara”, para este actante, o coloca em estado de percepção do que projetou para a performance.
Da mesma forma, quando o actante adiciona à sua composição o elemento que lhe venda os olhos antes da caminhada sobre os cacos de vidro, aceitamos a ideia de que ele está se colocando em uma situação de risco, ainda que imaginemos que não é a primeira vez que o actante realiza aquela ação, pois compartilhamos, enquanto grupo social, a convenção de que os cacos de vidro no chão representam perigo e que caminhar sobre eles sem o agenciamento da visão para nos guiar aumenta ainda mais as chances da pessoa se ferir.
No caso, em suas próprias palavras, “Alguém cego. Um eremita. Alguém em situação de risco”. Ou seja, de fato, ao se construir enquanto imagem reflete o que pensa como ação e, portanto, dramaturgia.
Figura 92: Outra cena da ação performática Travessia, de Hórus – o ilusionista.
Fotografia de Paula Araújo (2018).
Entretanto, é possível que nessa performance Hórus utilizasse outra maquiagem, com outro entendimento, outra aceitação? Ao que ele responde: “Sim. Já imaginei realizar somente a caminhada sobre os vidros, sem uso de venda, mas com o corpo todo pintado,
uma imagem próxima a do brâmane indiano, do faquir. Ainda pretendo experimentar com o público”.
Apesar de considerar que é possível realizar Travessia com uma “cara pintada” diferente e de estar disposto a tal experimentação, Hórus traz como ponto de referência para o segundo momento de sua performance em que supostamente se coloca em situação de risco, o faquir indiano, do qual nós, enquanto membros de uma sociedade ocidental organizada a partir de uma matriz europeia, temos um pré-conceito formado que se baseia na imagem construída do faquir em meios de divulgação de mídia, mas, em grande maioria, ignoramos as questões religiosas, filosóficas, antropológicas, culturais que circundam estes “personagens” orientais. A imagem do faquir nos remetera a cama de pregos e à ideia de que, submetendo-se aquela situação de possível risco a persona não se machucaria, pois estava em “lugar” sobre humano, em que os efeitos físicos da gravidade sobre um corpo que se deita em uma cama feita de pregos pontiagudos não se aplicam.
De qualquer forma, é partindo da imagem que identifica no mundo ao seu redor como um dispositivo para chegar a uma sensação que, em sua criação, Hórus constrói a imagem que assumirá nos palcos, sua “cara pintada”, com a intenção muito clara não só de conduzir suas próprias ações, mas também de como essas ações serão recebidas pelo público e o que será gerado nessa interação, tanto do ponto de vista da construção de sentido, quanto de todos os elementos perceptivos e imaginativos, sensoriais e emocionais que provocarão no seu espectador a catarse surpreendente do ato mágico.
Notadamente, para o performer ilusionista Híkel Brawn – Hórus – a composição da imagem é parte definitiva na sua construção cênica.