“Alta e, bronzeada e, jovem e amável” 16, poderíamos ainda dizer: loira, poliglota, com olhos azuis, inteligente, com dentes brancos, sexy, “pacífica”, com status social e econômico e herdeira de uma tradição familiar – eis a mulher ideal na civilização ocidental. É bem assim que nosso imaginário funciona na busca de construir padrões de beleza como instrumentos de definição do viver para o belo, para o bom e para o bem.
Para ilustrar essa construção, a imagem na capa de uma revista de moda e beleza serve como exemplo. Nesta imagem (Figura 39) vemos uma jovem loira, magra, de olhos claros em uma pose construída para acentuar suas formas físicas diante de uma praia paradisíaca. A estratégia de uso da imagem da jovem loira e magra como um modelo de beleza impresso na capa de um editorial de moda, como um ideal a ser alcançado, é usado para atrair a atenção das leitoras para as “soluções” ofertadas pela revista para “necessidades” criadas pela indústria para seu público alvo.
Figura 39: Capa da revista Vogue Brasil n° 447 /Novembro (2015).
16 Alusão aos versos da canção popular da Bossa Nova de 1962: Garota de Ipanema (Vinícius de Moraes
Para tanto, a capa da revista escolhe o modelo de beleza a ser alcançado e estipula as medidas através das quais seu público poderá alcançá-lo, criando a ilusão de que se seguirmos as sugestões dispostas em suas páginas conseguiremos, em alguns meses, estar por dentro das “novidades quentíssimas da moda”; ou utilizar os “3 aparelhos, uma dieta e o guia de exercícios para arrasar no biquini” como método de alcançar a necessidade criada por essa indústria para nos impelir ao consumo de seus serviços e produtos.
Indivíduos de diferentes grupos sociais ao redor do mundo expressam-se através de sua imagem de diferentes maneiras. O que se faz relevante aqui não é a especificidade de significado de cada elemento agregado à aparência dos indivíduos, mas sim a reprodução dessa sistemática de aparecer como algo a mais do que a pele ao “natural” seria capaz de mostrar.
Essa necessidade de trazer para a aparência a expectativa imagética dos indivíduos movimenta a indústria de cosméticos – que mantém-se em ascensão há décadas – assim como tudo aquilo que a circunda: revistas e editoriais de moda, profissionais que trabalham com a construção da aparência – tanto de celebridades, quanto das pessoas que almejam aparentar tal como elas –, canais de mídias sociais que oferecem os mais diversos tutoriais sobre métodos, técnicas e ideias de como alterar a aparência etc.
Figuras 40, 41, 42 e 43: Tutorial de beleza: “passo a passo” da maquiagem feita pelo maquiador
Nesse sentido, vemos uma jovem que tem seu rosto redesenhado através da maquiagem (Figuras 40, 41, 42 e 43), aos moldes de milhares de tutoriais que ficaram populares nas redes sociais, para aproximar-se do que está convencionado como belo.
No entanto, ainda que a tecnologia facilite a propagação desse tipo de conteúdo, sobretudo, a partir do advento da Internet e das mídias distribuídas em multiplataformas que tal advento propicia, a busca pela mudança da aparência não é uma questão pertinente à atualidade. O antropólogo Steven Mithen descreve em seu livro A pré-história da
mente (2002) que pigmentos com cerca de mil anos encontrados no interior de uma
caverna foram considerados cosméticos pré-históricos, uma vez que, a falta de pintura nas paredes da caverna, indicavam que esse produto era utilizado para pinturas faciais e corporais. Este episódio coloca a pintura do rosto e do corpo como anterior à importantes manifestações culturais humanas, como o aparecimento de tecnologias complexas e das religiões, que segundo o autor, apareceram entre sessenta e trinta mil anos atrás.
Como vimos anteriormente, muitas tribos nativas de diversos países ao redor do mundo, mantém até hoje o costume de adornar-se com pinturas e outros elementos. Mas esta não era apenas uma prática tribal. Mesmo na Antiguidade 17, em sociedades mais organizadas e tecnológicas, as pessoas também faziam uso de adornos e pinturas para compor suas aparências, à exemplo, citamos a que talvez seja a mais famosa no imaginário das pessoas: o Egito Antigo.
Pesquisadores apontam o uso de maquiagem no Egito Antigo entre 30 e 40 mil anos atrás (FERRAZ; YABRUDE; THIVES, 2011). E, além de seu senso de estética se aproximar do que as sociedades urbanas reproduzem até hoje, também suas paletas o faziam. Ou seja, ainda na antiguidade os cosméticos já haviam evoluído bastante e, apesar do caráter artesanal de sua fabricação, as paletas antigas conseguiam conter quase todas as cores que são reproduzidas nas paletas de cosméticos atuais.
Em um breve percurso histórico podemos perceber a vinculação da maquiagem com os arranjos políticos e sociais de algumas sociedades. Nestes, dois aspectos se fazem presentes: a relação de status social com o embranquecimento da pele e as relações de gênero com a liberdade de uso da maquiagem, que serão abordadas em seguida como dois elos atados, posto que, “(...) although it’s not something we might consciously think
17 Período da história contado a partir do desenvolvimento da escrita, entre 4000 e 3500 anos a.C., até a
about, skin tone is also closely connected to gender” [(...) embora não seja algo sobre o que pensamos conscientemente, o tom da pele também está intimamente ligado ao gênero – Tradução nossa] (ELDRIDGE, 2015, p. 40). Encontramos diversas referências históricas que reafirmam essa ligação em algumas sociedades ao longo do tempo, atrelando o desejo ou imposição do embranquecimento da pele aos direitos e deveres – de expressão e cuidados – das mulheres através do uso de cosméticos.
Diversas civilizações – tanto no Ocidente, quanto no Oriente – buscavam o embranquecimento da pele que, na maioria das vezes, era associado a nobreza, já que a plebe geralmente precisava trabalhar fora de casa, sob o sol, o que resultava no escurecimento da tez devido ao bronze ou a manchas causadas pela exposição constante aos raios solares. Por outro lado, aqueles que possuíam bens e patrimônios não precisavam se expor, conseguindo manter a pele mais clara e livre de manchas.
Civilizações que nunca haviam se encontrado e nem sabiam da existência da outra tinham o mesmo desejo de clarear a pele, conforme afirma Eldridge (2015) usando como exemplo: China (uma das primeiras civilizações que usou maquiagem para empalidecer a pele) e Grécia que, além de partilhar o mesmo desejo de embranquecimento, também usava ingredientes muito similares para a fabricação de seus cosméticos. “No mesmo compasso, na Babilônia, Suméria e Assíria, buscava-se ter uma pele clara”, complementa a pesquisadora Tânia Lobo (2015, p. 39), dizendo ainda que, mesmo no Egito, “[...] consideravam que as mulheres deveriam ter a pele bem mais clara que os homens, elas pintavam a face com argila ou uma mistura feita com leite de cabra e miolo de pão para parecerem mais claras” (LOBO, 2015, p. 39).
E apesar dessa imposição do clareamento, as mulheres egípcias tinham o direito de usar a maquiagem para pintar seus rostos como bem entendessem, conta Eldridge (2015), enquanto na Grécia Clássica
[...] mulheres eram seres destituídos de direitos cívicos. Elas tinham, porém o dever de manter sua pele branca, o que demonstrava que ficavam em seu domicílio e não saíam ao sol, e não deveriam usar maquiagem, exceto para receber seu marido ou amigos. (LOBO, 2015, p. 41).
Assim, a mulher Grega precisava cumprir o seu papel social de “ser virtuosa” e ficar em casa supervisionando o seu funcionamento e, como eram excluídas do mundo exterior, ter a pele clara e intocada pelo sol – o que era o objeto de desejo dos homens da época – era, para elas, uma imposição.
Se essa imposição nos parece familiar, é porque a relação das mulheres com o uso da maquiagem em muitos momentos esteve relacionada à subjugação do feminino em sociedades patriarcais, fortalecido principalmente pelo cristianismo, em que o exemplo de beleza a ser seguido era o da virgem Maria. Assim sendo, a conexão da imagem da mulher virtuosa e recatada que ficava em casa cuidando da família com uma pele bem cuidada e uso modesto de cosméticos – bastante reforçada durante o período Renascentista –, perdura até hoje.
Figuras 44 e 45: Aeromoça. Fotografia promocional (S/A e S/D); Vendedoras de ‘O Boticário’, em loja.
Fotografia S/A (2014).
O uso forte de produtos de maquiagem, e de maneira extravagante, foi incumbido ao teatro ou às mulheres de “pouca moral”, ou seja, as marginalizadas e meretrizes. Curiosamente desde a Grécia antiga essas últimas detinham bem mais direitos sociais que as demais, podendo controlar o próprio dinheiro e, ainda, participar de simpósios, segundo Eldridge (2015), que, elucida ainda, que o domínio de direitos – e de uso livre de maquiagem – para essas mulheres, era um padrão recorrente ao longo das eras em diversos lugares do mundo, o que estabelece, conforme afirma a autora, que “(...) the freedom and rights accorded to women during a given period are very closely linked to the freedom with wich they painted their faces” [ (...) a liberdade e os diretos concedidos às mulheres durante um dado período estão intimamente ligados a liberdade com que elas pintavam seus rostos – Tradução nossa] (Idem, p. 24).
Esse padrão ainda pode ser observado na atualidade se considerarmos que quanto mais independente (financeiramente, emocionalmente) for a mulher, mais liberdade ela tem para manipular sua aparência. Vale salientar que mesmo as mulheres que têm empregos e conseguem arcar sozinhas com seus custos de vida, não são totalmente
independentes financeiramente, uma vez que precisam se adequar ao padrão de beleza atrelado à sua profissão.
Essas imagens (Figuras 43 e 44) trazem exemplos de algumas profissões que convencionam o padrão estético vigente na sociedade contemporânea ocidental como sendo o perfil de trabalho aceitável. Para estar de acordo com a política da empresa, as pessoas que trabalham nessas áreas precisam seguir o padrão de beleza adotado pela empresa, que é reflexo do padrão adotado pela sociedade. Nesse caso o padrão sobrepõe- se à liberdade de manipulação da própria aparência, dado que as pessoas aqui não podem optar pelo não uso dos cosméticos como dispositivo de alinhamento da imagem do indivíduo com o grupo.
O que se pode destacar da relação que se estabelece entre o indivíduo e o uso da “pintura da cara” como elemento de subjetivação é que, ainda que intente destacar-se de seu grupo sociocultural, o indivíduo não pode ignorar as normas estéticas vigentes no grupo. De modo que ao “criar” sua imagem, este individuo não irá diferir totalmente do modelo imagético, uma vez que,
[...] estamos todos refletidos de algum modo nas numerosas imagens que nos rodeiam, uma vez que elas já são parte daquilo que somos: imagens que criamos e imagens que emolduramos; imagens que compomos fisicamente, à mão, e imagens que se formam espontaneamente na imaginação; imagens de rostos, [...] e imagens daquelas imagens – pintadas, esculpidas, encenadas, fotografadas, impressas, filmadas. (MANGUEL, 2001, p.20).
Na acima, vemos a cantora Clarice Falcão utilizando o batom vermelho aos moldes da “pintura de guerra” que era utilizada pelos soldados. A imagem refere-se ao videoclipe da música Survivor, publicado em 13 de novembro de 2015 em seu canal na plataforma de vídeo YouTube. No referido vídeo a artista faz um jogo com o batom vermelho, que tem sido utilizado como um símbolo de resistência à imposição da imagem da mulher nas sociedades urbanas contemporâneas no Ocidente. A pintura de “guerra” visa passar a ideia do combate contra as opressões de gênero, muitas vezes materializadas nas imposições ou proibições de manifestações de personalidade através da autoimagem.
Na atualidade, o fenômeno do embelezamento como advento social pressupõe atitudes mais efetivas por partes dos indivíduos, para que se tornem desejáveis através de sua aparência. Para tal, homens e mulheres se submetem a diversos procedimentos e cuidados que os enquadram nas categorias de belo a qual “cada um pertence”. A mulher, à própria categoria do “feminino”, à qual atrelaram o ideal de beleza – geralmente ditado pelos editoriais de moda – e de “bom comportamento”. O homem, em uma nova categoria criada para flexibilizar o ideal de masculinidade, sem ferir o modelo hegemônico vigente. “Desse modo, é nesse quadro diacrônico, de flexibilidade, de um novo/outro (re)ordenamento dos corpos, dos gêneros, que se encontra o ‘Metrossexual’.” (OLIVEIRA JÚNIOR; CANCELA, 2012, p. 22).
Figuras 47, 48 e 49: Tutorial de maquiagem de contorno masculino para a dimensão metrossexual que o
homem contemporâneo se permite. Fotografias S/A e S/D.
Muito embora a maior pressão em relação ao senso estético ainda seja atribuída ao gênero feminino, os homens já não estão isentos das cobranças de um padrão de beleza que, na maioria das vezes, também só é alcançável através de intervenções estéticas. Com
isso, mesmo entre o público masculino os tutoriais de beleza e moda fazem sucesso, como exemplificado nas Figuras 47, 48 e 49, uma vez que criam a ilusão de que possibilitam aos indivíduos o alcance da beleza ideal.
Identificados na categoria de metrossexuais, atendendo a padrões de aparência física global, os homens se permitem (re)construir esteticamente a sua aparência. Isto é, ceder aos comportamentos de embelezamento a partir de padrões de beleza que antes eram votados ao universo das mulheres. Para tal, esses homens submetem-se a cuidados estéticos – uso de cosméticos, de serviços especializados com o cuidado de cabelos e barba, depilação, cirurgias estéticas, clareamento dental, harmonização da face etc. e cuidados com o corpo, geralmente relacionados à prática de exercícios físicos e dietas.
Na busca pela aparência desejada (e desejável), esses homens não poupam gastos ou esforços, o que os coloca como um novo campo de exploração da indústria da beleza, que logo se adapta ao novo nicho, elaborando linhas de produtos e tratamentos voltadas para esse público – que “assume” seu lugar no consumismo estético, antes tido como tradição do universo estético feminino.
A aceitação e uso do termo metrossexual como “sinônimo” de “belo” e de “bem cuidado” obriga este “novo” homem a sair de um lugar de “confortável” desleixo – “naturalizado” em sua tradição cultural – para fazê-lo adentrar em um fluxo ativo da economia da beleza e tornar-se um “homem” que deseja se vê enquadrado em um padrão aceitável e que, ainda, se denuncia como um homem desejável, parte do que se compreende como o que tem “bom” gosto. Nesse sentido a metrosexulidade também é uma “necessidade” criada pela indústria, para atingir um público que, antes, não se via pressionado a consumir os produtos e serviços relacionados aos “cuidados” com a autoimagem.
Neste “novo” contexto, é possível entender a aproximação das relações que se dão entre o parecer e o ser, na estreita medida da aceitação social. Cada vez mais, à medida em que os sujeitos podem escolher como querem ser vistos e se dedicam a se transformar no que veem de si, refletido no espelho ou nas imagens fotográficas, que produzem; e discursivas, que recebem do imaginário de seu grupo social, torna-se mais difícil delimitar até que ponto esse “novo” homem se constrói a partir de seu próprio desejo (e) de (seu) ser. E até que ponto sua subjetivação é contaminada pelas expectativas projetadas no individuo pelo seu grupo social.
Com o advento das redes sociais, o aparecer se fragmenta, criando na imagem do sujeito uma possibilidade de afirmação de um seu ser virtual, que não está muito mais para o que se deseja, do que para o que se é; e o que se deseja dialoga diretamente com a construção econômica vigente na sociedade, uma vez que:
Como reflete Trinca (2008, pp. 114-115): “Aparecer, assistir, consumir, adorar e se projetar nas imagens e nos modos de vida dos ricos, poderosos e famosos passou a constituir a nova moral, um novo ideal de felicidade que tem a vida como entretenimento”. Através da mídia a sociedade acompanha o espetáculo da vida do outro: bens materiais, o corpo dito perfeito, todos indicando uma vida feliz e de sucesso (LOPES; MENDONÇA, 2016, p. 22).
Portanto, o ser virtual se localiza em um mundo paralelo, construído nas mídias sociais interativas, para suprir as expectativas indistintas do ser na sociedade, de modo a fragmentar os indivíduos em imagens que constroem um Storytelling 18 de sua vida – mais desejada do que vivida – que, de modo espetacular, busca aproximar-se do estilo de vida com seguem traços potentes de espetacularidade que, por sua vez, são o modelo fundamental de vida das celebridades.
Figura 50: Moça com cabelo moicano. Fotografia S/A e S/D.
Vale salientar que “não é cabível a todos os indivíduos ostentar riqueza e poder, tampouco fazer parte da rede de influências que os sustenta na mídia, [então] resta aproximar-se do que se encontra mais acessível a qualquer um: a aparência corporal” (LOPES; MENDONÇA, 2016, p. 22). Assim, o mundo virtual se mostra como um espaço
18 No inglês, derivação de Storyteller: a person who tells a story, conjugando o verbo no infinitivo, portanto
“uma pessoa que está contando uma história”, ou “uma história sendo contada por uma pessoa”. (Easier English Student Dictionary – S/D).
ideal para a construção do que Stuart Hall (1992) chamou de “narrativa do eu” (p. 13), em que o homem pós-moderno é tido como um
[...] sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável [que] está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas. Correspondentemente, as identidades, que compunham as paisagens sociais “lá fora” e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as “necessidades” objetivas da cultura, estão entrando em colapso, como resultado de mudanças estruturais e institucionais. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável, problemático. (HALL, 1992, p. 12-13).
Ou seja, a “narrativa do eu” pós-moderno, sobretudo se identificada através das redes sociais, não precisa condizer com a identidade “real” do indivíduo, aliás, não precisa assumir uma identidade fixa desse indivíduo. Ele, fragmentando-se, assume posturas na construção de seu Storytelling que variam de acordo com a situação vivida (e apresentada ao “público” através dos recortes escolhidos para serem postados em suas mídias sociais). Mas é preciso levar em consideração que, como afirma Hall (1992, p. 13), se acreditamos que existe “uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora ‘narrativa do eu’ [...]”.
Acreditar em uma “verdade” identitária sobre nós mesmos pode ser tranquilizante, mas as possibilidades que se abrem no mundo virtual dentro da busca por visibilidade, confronta essas identidades, modificando-as a serviço do parecer.
Figura 51: Ana Flávia Santos e seu cabelo Black Power. Fotografia S/A e S/D.
O indivíduo almeja visibilidade, que nas redes sociais é alcançada através da interação com o outro. Essa interação é provocada a partir da exposição de si, daí a
importância dos “likes” 19, que demonstram que a foto publicada está agradando um público “sem rosto”, ou seja, querer agradar ao público através das redes sociais não é senão querer satisfazer seu próprio desejo de autoafirmação como uma pessoa de aparência desejável. Para tal realização, tornou-se comum o uso das Selfies 20, em que o indivíduo produz ele mesmo a fotografia (retrato) e é ele mesmo o objeto fotografado, expressando sua identidade – ou uma delas, se levarmos em conta o pensamento de Hall (1992) sobre o homem pós-moderno – através da imagem de seu rosto/corpo, que será, obviamente, compartilhada em suas redes sociais “uma vez que elas [as selfies] não são absolutamente um produto privado para uso privado” (SANTOS, 2016, p. 3).
Escolhendo os elementos que constituem a imagem, tais como enquadramento, luz, posição do rosto e cabelos, filtros etc., estamos, portanto, através das Selfies publicadas nas redes sociais, criando uma narrativa pessoal dentro da perspectiva da dramaturgia da “cara pintada”.
Figuras 52 e 53: Norma Jeane Baker e sua Alter ego, Marilyn Monroe. Fotografias S/A e S/D.
As imagens da transformação (figuras acima) da “pessoa” Norma Jane Baker no “fenômeno” Marilyn Monroe, glamoroso ícone pop de beleza e sensualidade feminina, considerada o maior Sex appeal de todos os tempos, nos levam a compreender a ideia da virtualidade estética como construção de valor imagético. O que a indústria cultural
19 “Like” ou “curtir” é a forma mais básica de interação em redes sociais como Instagram, Facebook e
Twitter, usada para demonstrar sua aprovação em relação a determinado conteúdo publicado.
20 “[...] as selfies – no feminino, que passa por ser o de emprego mais utilizado pela mídia brasileira –