l’indice prospectif
10. Quels liens entre sommeil et cognition dans le cancer du sein ?
Um dos factos curiosos acerca das obras de Mary Lavin e de Sophia de Mello Breyner Andresen é que, sendo ambas críticas de certos aspectos socio-religiosos (no primeiro caso) e político-sociais (no segundo) dos seus países, nunca foram objecto de censura.23 E, no entanto, a censura existia em ambos os países e bania obras de outros escritores.24
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“A população activa agrícola, que, em 1950, concentrava quase metade dos activos (48%), passa a 42% em 1960 e a 32% em 1970” (Rosas, 1994: 426).
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Importa frisar que, muito embora os livros de Sophia não tenham sido censurados, o mesmo não aconteceu com outras publicações dela. Diz a poeta, em entrevista: “[n]ão me censuraram os livros, mas censuraram as entrevistas, por exemplo. E censuraram-me poemas nos jornais… Sim, cortaram-me poemas inteiros. (…) Revistaram a minha casa… Censuravam-me as cartas dos amigos” (Sigalho, 1989).
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Na Irlanda, por exemplo, foram banidas obras de James Joyce, Séan O’Casey, Séan O’Faoláin, Frank O’Connor, Liam O’Flaherty, Edna O’Brien, Kate O’Brien (ÓhEithir, 1989: 69). Em Portugal, escritores
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Como se explica esta aparente contradição? No caso da Sophia, os escritos mais subversivos encontravam-se nos livros de poesia (veja-se, por exemplo, o Livro Sexto). E, como nota Fernando Martinho, a poesia era tida pelos censuradores como “lida por um público menor” e, portanto, pouco impactante.25 Quanto a Lavin, Angeline Kelly argumenta que, graças a um sábio uso da ironia, a escritora conseguia fintar os membros do Censorship Board (Kelly, 1980: 181). Contudo, como repara Theresa Wray, o recurso à ironia não é uma estratégia suficiente para disfarçar a voz crítica de uma obra. Concorda, ainda assim, que a moderação de Lavin ao escrever sobre situações que lhe desagradam constituía uma forma de defesa (Wray, 2013: 78)26.
Na Irlanda, a censura foi estabelecida em 1929, com a criação do Irish Censorship Board, que se destinava a banir tudo o que fosse considerado “indecente ou obsceno”27 (ÓhEithir, 1989: 78), estendendo-se dos filmes à imprensa, passando pela rádio e pelos livros. Era seu objectivo, segundo Brown, preservar a exclusividade da cultura gaélica, impermeável à influência de outras culturas, tais como a inglesa e a de Roma, central para o Catolicismo (Brown, 1981: 68). Na realidade, continua o autor, resultou num fomento da pobreza intelectual, impedindo a população de conhecer as mais recentes correntes filosóficas e artísticas, em nome de um conservadorismo exacerbado (ibid.: 148-149). Uma censura apertada das publicações persistiu na Irlanda até meados dos anos 60, altura em descomprimiram as leis relativas a publicações (ÓhEithir, 1989: 69).28 No entanto, de certo modo, o regime censório era uma realidade que se coadunava com a própria sociedade censurada, uma vez que, para esta, “the written word was taken very seriously” (Brown, 1981: 150). O conto “Sarah”, como veremos, demonstra claramente a seriedade da palavra escrita na sociedade irlandesa de meados do século XX.
como Urbano Tavares Rodrigues, Miguel Torga, Alves Redol, Natália Correia, Herberto Hélder, Aquilino Ribeiro e Vergílio Ferreira também foram censurados (Nicolau, 2014).
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Documentário O Nome das Coisas, 2007.
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A preocupação de Lavin com a consideração tida pela família e com a sua reputação enquanto escritora levava-a a olhar a censura com seriedade (Wray, 2013: 62-63). Por isso, a crítica socio-religiosa existente no
corpus da escritora é implícita e não aberta. Ainda assim, como sublinha Wray, “[i]f Lavin does fall short of
‘bitter realism’, subsequently avoiding censure, it is cleverly managed, for narratives as explicitly revealing as ‘Sarah’ would have disrupted the censorship board’s sense of security” (Wray, 2013a: 92).
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O significado de “indecente” seria, entre outros, o de “calculated to excite sexual passion” (Kiberd, 1996: 361).
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A censura ainda existe na Irlanda actual, embora tenha um peso muito pouco significante comparado com
o que teve no passado. Para mais informação, ver
https://web.archive.org/web/20060720235148/http://www.oasis.gov.ie/culture_and_recreation/arts_and_cultu re/censorship_in_ireland/censorship_of_publications_in_ireland.html.
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Durante a II Guerra, na Irlanda, a censura constituiu uma “weapon in internal security” (Lee, 1989: 266). Isto é, era uma forma de prevenir a divisão interna do país num período especialmente conflituoso, ao não permitir que se passasse à população informações sobre o apoio dado pelo Estado irlandês ao Reino Unido, mantendo assim a imagem inabalável de país neutro. Por outro lado, era uma forma de impedir a entrada de informações chocantes sobre a guerra na calmaria da ilha atlântica (ibid.:), o que resultava num crescente isolamento do mundo circundante.29 Resultava igualmente na formação colectiva de uma falsa moralidade: “[t]he return on the investment in ‘self-respect’ would be safer if one did not know what one did not wish to know” (ibid.: 267).
Em Portugal, a censura prévia à imprensa foi implantada na sequência do Golpe Militar de 28 de Maio de 1926 e mantida até ao fim do Estado Novo (Rosas, 1996: 139). De acordo com Oliveira Marques, “[v]isou assuntos, não apenas políticos e militares, mas também morais e religiosos, normas de conduta e toda e qualquer notícia susceptível de influenciar a população num sentido considerado perigoso” (Marques, 1998: 440). Ou seja, a mesma ideia de ameaça para a normalidade dos costumes que vimos no caso irlandês parece estar igualmente na origem da censura portuguesa. Há que sublinhar o facto de, no caso português, a censura funcionar a priori, garantindo um eficaz autocontrolo da parte dos publicadores daquilo que iriam escrever e obrigando os escritores a arranjar formas mais subtis de transmitir opiniões subversivas. Na Constituição de 1933, a liberdade de expressão do indivíduo está garantida na 4.ª alínea do artigo 8.º mas logo de seguida dá-se conta de que “[l]eis especiais regularão o exercício da liberdade da expressão do pensamento” (artigo 8.º, 20.ª alínea, § 2.º da CRP).30 Em Maio de 1936, de acordo com Fernando Rosas, “uma postura estendeu a censura prévia de documentos da imprensa à publicação de livros” (Rosas, 1996: 140).31
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“British visitors to Dublin in the years of war (…) discovered a city that seemed an island of pre-war life in the midst of a sea of international change” (Brown, 1981: 176).
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De um modo muito semelhante, na Constituição Irlandesa de 1937, na sua versão original (doravante CRI), advoga-se “[t]he right of the citizens to express freely their convictions and opinions”, direito adiante restringido: “[t]he publication or utterance of blasphemous, seditious, or indecent matter is an offence which shall be punishable in accordance with law”. Porém, uma diferença crucial entre esta lei e a lei portuguesa é que na primeira se admite “criticism of Government policy” (artigo 40.º, n.º6, alínea 1, i) da CRI).
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Rosas está em contradição com Oliveira Marques, que sustém que “[e]mbora a censura não se aplicasse aos livros, estes podiam ser frequentemente retirados do mercado por ordem das autoridades” (Marques, 1998: 444).
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