POUR UNE LECTURE SYNESTHÉSIQUE DES ÉVANGILES
3.2 BALTHASAR, ESTHÈTE CROYANT
3.2.1.1 Liberté de l’art et devoir de conscience
Some stories can be told again in endlessly different ways. Amazon.co.uk324
as obras em estudo, The Historian, de Elizabeth Kostova, é uma das mais recentes (foi publicada em 2005) e, talvez, a mais sóbria, pois é a que menos se aproxima dos típicos livros de vampiros, talvez porque, apesar de se tratar de uma narrativa na primeira pessoa – como na obra de Rice -, ao contrário de Lost Souls ou Interview with the Vampire, as personagens principais não são vampiros, mas sim humanos, cultos, estudiosos, académicos, pessoas racionais que, no início, não acreditam sequer na existência de vampiros. Este foi um factor de aproximação até para nós, pois as personagens académicas do livro, que estão a investigar Drácula, parecem desculpar-se, quando mencionam esse fascínio, como se todas as outras pessoas as julgassem por esse facto e considerassem que esse seu propósito era uma simples tolice ou uma mera infantilidade. Aliás, o mesmo já se passou connosco, quando começámos por nos dedicar a este estudo.
D
322 William Patrick Day, Vampires Legends in Contemporary American Culture. What becomes a legend most, p. 89. 323 Idem, p. 90.
Ao contrário das obras atrás mencionados, os aspectos relacionados com a explicação da razão da existência dos vampiros são desvalorizados, não existindo episódios sanguinários ao longo desta obra. Os ataques são furtivos e rápidos, sem grandes descrições, e o interesse de Kostova é, claramente, desenvolver uma história de mistério, densa e com suspense, e não apenas uma história de vampiros ou de terror. Mas é claro que a mitologia dos vampiros não é esquecida e os aspectos mais importantes (sobretudo as lendas da Europa Central por nós já referidas no primeiro capítulo) encontram o seu lugar por entre os meandros da intriga principal.
The Historian é um misto de Indiana Jones325 e Código DaVinci326. Pistas atrás de pistas, mapas,
cartas, Ordens secretas, manuscritos antigos, mosteiros, catacumbas, estranhos rituais e tradições do folclore europeu, lugares exóticos e misteriosos, tudo serve de pano de fundo aos heróis da história, ao mesmo tempo que ficamos com uma ideia bem clara do que é o trabalho de um historiador. Apesar de assumir que não acredita em vampiros, Kostova aprendeu com Stoker – uma das suas principais influências – que o sobrenatural ganha consistência quando lhe juntamos dados históricos, daí que grande parte do livro seja apoiada por factos e documentos históricos sobre a história da Europa Central e do Império Otomano e, sobretudo, sobre a vida de Vlad Tepes, a mesma figura histórica que inspirou Stoker para o seu Drácula – nomeadamente, o suicídio da sua mulher, famoso no Bram Stoker’s Dracula, de Coppola. Os documentos “históricos”, que as personagens descobrem e deslindam, parecem verídicos e são reforçados pelos locais reais em que se encontram. Acerca da obra de Kostova, Rick Kleffel afirma que
Elizabeth Kostova's 'The Historian' is a gripping but beautifully written "cri de coeur" that evokes the experimental spirit that lead writers such as Bram Stoker to tell their story with not just a simple narrative, but a complex weave of correspondence, excerpts from personal journals and even fictional scholarly articles. Kostova interleaves stories from four different timelines, telling each in a detailed, literary style, but cutting from one to another to create tension and a sense of page-turning urgency.327
Na realidade, Kostova cria uma história complexa que levou dez anos a ser escrita: histórias dentro de outras histórias, cartas dentro de outras cartas, saltos no tempo à mistura, tudo é articulado, no entanto, para criar uma narrativa fluida, cheia de suspense, onde facto e ficção se confundem. Num futuro muito próximo (2008), uma narradora anónima conta-nos as consequências de uma estranha descoberta. Aos dezasseis anos, encontrara no escritório do seu pai, um historiador, um misterioso livro com um dragão e um conjunto de cartas endereçadas “My dear and unfortunate successor”. A partir daí, a sua vida nunca mais foi a mesma e os segredos do passado do pai vão-lhe ser revelados, ao mesmo tempo que fica a conhecer o destino trágico da mãe, que supostamente morreu pouco depois de ela nascer. Se é o pai quem começa a levantar a ponta do véu sobre o seu passado, só após o desaparecimento voluntário deste é que conhecemos a história completa, mais uma vez, a partir de cartas que ele deixa à sua filha. Estes documentos relatam ao
325 Indiana Jones foi popularizado nos filmes Raiders of The Lost Ark (1981), Indiana Jones and The Temple of Doom (1984) e Indiana Jones and The
Last Crusade (1989), todos realizados por Steven Spielberg.
326 O famoso livro de Dan Brown, publicado em 2003.
pormenor a missão para encontrar o seu mentor desaparecido, o professor Rossi – cujas cartas guardara –, e o seu encontro com Helen Rossi, filha do professor e mãe da narradora. Tudo isto parece confuso, mas não o é. Em Dracula, de Bram Stoker, a estrutura narrativa assenta muito na leitura de cartas ou páginas de diários, o que confere ao livro um carácter mais intimista, e dá um destaque especial às figuras desses narradores na primeira pessoa. A este propósito, Cavallaro refere que a obra de Stoker “ draws together letters, diaries, newspaper clippings and medical case notes, without any of these forms gaining definitive priority over any other. The text’s composite nature reflects metaphorically the vampire’s identity as an
aggregate of various incarnations of otherness.”328 O mesmo acontece agora com Kostova. A autora recupera
esse ponto de vista e conta grande parte da história através das cartas, postais ou páginas de diários deixados ou encontradas por várias personagens, o que fortalece a aproximação com o leitor. Kostova intensifica ainda mais essa ligação com Stoker com citações de Dracula no início das três partes que compõem o livro e com várias referências feitas pelas personagens (por exemplo, os servos de Drácula chamam-lhe master, como Reinfield). De facto, têm sido imensas as histórias de vampiros escritas desde que Stoker escreveu o seu
Dracula, mas poucas usaram o formato e a estrutura do original.
O engenho com que a autora enleia e desenleia cinco linhas temporais é digno da própria Clio, musa romana da História e da criatividade. As histórias de Paul e Helen (na década de 1950) e da narradora (na década de 1970) vão-se alternando, e a elas se junta a narrativa das cartas de Rossi e da sua própria história (relativas à década de 1930), feita por Paul, e o conjunto de postais deixados por Helen e descobertos pela filha (que datam de 1963). Além disso, a narradora está no presente (2008) a contar tudo. No fundo é um regresso do passado (típico do Gótico) e as consequências que daí advêm é o que está em causa. A este respeito, a narradora comenta: “As a historian, I have learned that, in fact, not everyone who reaches back into history can survive it. And it is not only reaching back that endangers us; sometimes history itself
reaches inexorably forward for us with its shadowy claw.”329 Era impossível a estas personagens fugirem do
seu passado. O mundo destes investigadores e historiadores é abalado e as suas certezas postas em causa, pois o que pensavam ser terrores sobrenaturais, afinal, eram reais. Aos dezasseis anos, a narradora apercebe-
se que “We were all vulnerable.”330, mas poucas pessoas se apercebem do perigo que correm.
O facto de as personagens principais serem quase anónimas não invalida a riqueza da sua caracterização. A ênfase é dada à história dos pais da narradora, Paul e Helen, um par romântico pouco ortodoxo, que segue o rasto do professor Rossi literalmente até ao seu túmulo. As histórias do pai e da filha complementam-se e interligam-se, e, quando chegamos ao fim do livro, aquelas personagens são figuras trágicas com um passado escondido, de quem nos sentimos próximas e com cujo destino nos preocupamos.
Como se sabe, Stoker inspirou-se livremente na figura histórica de Vlad Tepes, o sanguinário líder valáquio do século XV, para criar o seu vampiro. Ora, The Historian centra-se também na figura de Vlad Tepes, ainda mais na sua faceta histórica, que na vampírica, sobretudo na primeira metade da obra. Em ambas as narrativas, também, o vampiro pouco fala e o ênfase é dado às figuras humanas, mas, no entanto,
328 Dani Cavallaro, Gothic Vision, p. 113-114. 329 Elizabeth Kostova, The Historian, p. ix. 330 Idem, p. 131.
ele está sempre presente em todas as páginas do livro, acabando por ser a figura em torno do qual a história gira. No romance de Kostova, ele só aparece na recta final, mas no cerne da narrativa está a procura desenfreada do túmulo de Vlad Tepes por parte de três gerações diferentes de historiadores, que nem acreditam verdadeiramente que este esteja vivo. Historicamente, nunca se conseguiu provar onde Vlad foi enterrado. As suposições apontam para a ilha de Snagov, na Roménia, mas uma escavação de 1931 refere a descoberta de um túmulo vazio e alguns relatos apontam para a exumação de um cadáver decapitado, ricamente vestido. Não há provas concretas sobre este assunto, e Kostova partiu desse pressuposto para desenvolver a sua história. A autora parte dos factos verídicos que sabemos sobre a vida de Vlad Tepes e conjura outros que o poderiam ser, nomeadamente com a criação de diferentes mapas e teorias engenhosas para desenvolver uma tese credível sobre o local do verdadeiro túmulo e uma revelação à la Código Da
Vinci com os descendentes de Drácula, que, na verdade, não sabemos se existem, pois a linhagem perde-se algures no século XVII.
Cidade após cidade, e muitas viagens depois, a verdade sobre Vlad começa a delinear-se. As personagens humanas começam a aperceber-se que talvez seja possível que Vlad não tenha morrido e tenha chegado aos dias de hoje, concretizando o mito de Drácula. Drácula ainda está vivo e está a atrair pessoas cultas através de um livro que lhes oferece. Ele acredita que estes estudiosos vão acabar por encontrá-lo, porque a curiosidade é mais forte que eles. Este Drácula tem um carácter muito real, parece mesmo uma personagem humana. A sua caracterização física é tipicamente o retrato das imagens conhecidas de Vlad Tepes e, mais uma vez, as suas vítimas sentem-se paradoxalmente fascinadas pela sua presença e porte aristocrático: “The great body lay there, inert. For the first time I could see his closed, cruel face clearly, and
I stood staring at it in spite of my revulsion.”331 Esta atracção paradoxal aproxima Rossi de Van Helsing,
também ele um estudioso e um académico.
Descrito como um ser culto, o objectivo de Drácula é encontrar alguém digno de catalogar e enriquecer a sua vasta biblioteca, daí a sua admiração por estes académicos. Aliás, ele próprio é um
historiador (“…I am a scholar at heart, as well as a warrior…”332, confessa a Rossi), mas a sua visão da
História é um pouco diferente. Ele aprendeu com ela e avançou, não ficou preso ao passado: “I vowed to
make history, not to be its victim.”333 Ironicamente, os seus historiadores vivem mais agarrados ao passado
que ele próprio. Com o passado aprendeu as lições que o ajudam a lidar com o presente e preparar o futuro,
numa perspectiva muito humana: “The world is changing and I intend to change with it.”334 Esta faceta
distingue-o de outros Dráculas da literatura, como o Stoker, mas a sua paixão pelos livros e pela História aproximam-no também de outros como Saint-Germain. Aliás, a obra fala também sobre o poder da literatura. Sobre este assunto, Elizabeth Kostova refere que “I feel that books are the real keepers of history. I find it wonderful and eerie that language lasts so much longer than people, and that a book can transmit history
from one generation to another, whether or not it's actually a work of history.”335 Um dos principais
331 Idem, p. 734. 332 Idem, p. 730. 333 Idem, p. 741. 334 Idem, p. 731.
mistérios da obra passa precisamente pelo desvendar dos segredos de um livro misterioso que Vlad faz cair nas mãos de diferentes personagens, que está totalmente em branco, à excepção de uma gravura de um dragão nas páginas centrais. Dracul significava dragão e sabe-se que Vlad Tepes pertencia à Ordem do Dragão. O dragão do livro, Drakulya, é o ponto de partida da investigação levada a cabo pelos diferentes historiadores que o recebem.
A obra de Kostova deve muitas influências à obra Dracula, de Bram Stoker, e aos clássicos da época vitoriana, como a própria autora admite. De facto, numa altura em que os meios de transporte estavam pouco desenvolvidos, a literatura era um dos meios que permitia aos seus leitores viajar, nem que fosse só na imaginação de cada um, a partir dos locais evocados nos livros. Se Stoker também evoca diferentes lugares no seu Dracula, The Historian prima nesse aspecto. Lugares reais e históricos como a igreja de Saint
Matthieu des Pyrenees Orientales, em Perpignan, França, a câmara Radcliffe, em Oxford, no Reino Unido, a
Hagia Sofia, em Istambul, na Turquia, ou as ruínas do castelo de Vlad Tepes, o castelo Poelari, na Roménia, aliam-se para formar um autêntico roteiro turístico, fazendo com que experimentemos os sabores e culturas aí presentes, sem, no entanto, haver um abuso de descrições. Holanda, Itália, Grécia, Bulgária, Hungria, Turquia e Reino Unido são apenas alguns dos países em destaque no livro, que consegue transmitir a atmosfera de uma Europa pós 1ª Guerra Mundial ou da repressão da Guerra Fria e do Comunismo nos países de uma Europa Central fronteira do Cristianismo e do Império Otomano. Casada com um búlgaro, a autora confessa que um dos motivos de inspiração da sua obra foram as próprias viagens que realizou pela Bulgária, onde assistiu a rituais e tradições antigas, e uma viagem que realizou com a família, quando tinha sete anos e o pai leccionava na Eslovénia. “Those journeys gave me a sense of a world that's closer to a European past
and was preserved by the creation of the Iron Curtain.”336, explica a autora. Na altura em que viajaram pela
Europa Central, o pai contou-lhe uma série de histórias de vampiros, baseadas sobretudo nos filmes a preto e branco clássicos sobre o tema e nas lendas europeias. A partir daí, para ela, Drácula ficou sempre associado às viagens e lugares históricos que visitou. Foram as histórias de vampiros que o pai lhe contou que serviram de ponto de partida para o livro, daí que tenha decidido usar esse mesmo tema como ponto de partida do seu romance histórico.
Em The Historian, Drácula não deixa de estar associado às pestes e epidemias do passado, mas a sua simbologia passa sobretudo pelo valor da imortalidade. O poder que está associado a essa condição é referido por mais de uma ocasião, inclusive pelo próprio Drácula, que refere que essa foi a vitória suprema sobre os seus inimigos. Ele ainda vive e eles não. A personagem Helen compara-o com Estaline e Hitler, aludindo ao perigo que seria pessoas assim descobrirem o segredo da imortalidade. Além disso, este romance é extremamente actual pelas constantes referências à luta entre Vlad e o Império Otomano, pois já nessa altura se tratava de uma guerra pela religião – como acontece hoje no Iraque ou na Palestina – e com traços de guerra biológica, pois Vlad mandava pessoas doentes com peste ou malária para os campos inimigos, disfarçados, para infectarem o máximo de pessoas possível, antes de morrerem. “…Kostova blends fact and
fantasy to remind us that the original Dracula legend is rooted in monstrous acts and unblinking evil.”337,
336 http://trashotron.com/agony/reviews/2005/kostova-the_historian.htm (consultado a 25 de Junho de 2007). 337 Elizabeth Kostova, The Historian, contracapa.
afirma Connie Ogle, do Miami Herald, e, de facto, uma das ideias que atravessa a obra é que a humanidade sempre apresentou sinais de crueldade e há que não esquecer que Vlad Tepes foi uma figura real da História da humanidade, uma das mais cruéis, mas é essa crueldade que lhe confere a imortalidade, nem que seja só na literatura. A narradora apercebe-se desse facto e do papel que cada um de nós pode ter para que esses momentos de terror da humanidade não se repitam:
For all his attention to my historical education, my father had neglected to tell me this: history’s terrible moments were real. I understand now, decades later, that he could never have told me. Only history itself can convince you of such a truth. And once you’ve seen that truth – really seen it – you can’t look away.338
Está bem presente, nesta obra, a maldade inerente à condição humana quando Drácula afirma que
“History has taught us that the nature of man is evil, sublimely so. Good is not perfectible, but evil is.”339 Daí
que Jessica Treadway, do jornal Chicago Tribune, considere que “The Historian is intriguing for its thorough
examination of what constitutes evil and why it exists.”340 E este é um dos factores que atraiu todo o tipo de
leitores, mesmo os que, à partida, não se interessariam por histórias de vampiros.