1.1 BIBLE, MYTHE ET FIGURE DE LA RÉVÉLATION
1.1.3.3 La figure du Christ comme accomplissement de l’histoire du salut
pesar de Bram Stoker ter destruído o seu Drácula, o certo é que ele continua a aparecer, numa variedade de romances que desafiam a imaginação. Em 1978, Chelsea Quinn Yarbro partiu de uma personagem histórica (um alquimista do século XVIII que, supostamente, terá descoberto o segredo da imortalidade) e criou o vampiro Saint-Germain, continuando a tendência da protagonização e humanização do vampiro. Yarbro mistura as lendas do vampiro com uma abordagem feminista e os seus vampiros estão livres das superstições e ignorância que marcam a história da humanidade. Artista, cientista, curandeiro e alquimista, Saint-Germain é um ser fabuloso. Ele representa o homem que se libertou de todos os males da humanidade e é símbolo de uma liberdade sexual, intelectual e ética. A tolerância, racionalidade, o amor à arte e à beleza são características deste vampiro, por oposição ao fanatismo, crueldade e ganância do ser humano. Esta inversão de papéis cativa o leitor e, mais uma vez, humaniza o monstro. Como refere Dani
A
307 Poppy Z. Brite, Lost Souls, p. 352. 308 Poppy Z. Brite, Lost Souls, p. 354.
Cavallaro, “In some narratives, the vampire’s own ordeals are used as a means of exposing the monstrosity of humanity itself, the gaping and festering wounds of cultures and civilizations which may only perpetuate
themselves through brutality and iniquity.”310 É o que se passa nas aventuras de Saint-Germain. Ele
representa aquilo em que o homem se pode tornar, enquanto, por exemplo, Barnabas Collins (da série Dark
Shadows) representava o que nós tememos ser, e, os vampiros de Rice, o que temos de aceitar que somos.
Extremamente rico, mas igualmente solitário, ele vagueia pelo mundo em busca de amor e compreensão. Mas Saint-Germain não é invencível e pode ser destruído da maneira tradicional que Stoker apresenta. Aliás, ele partilha algumas das características do Drácula de Stoker: não come, não suporta a luz do sol, não tem reflexo e precisa do solo da sua terra natal.
A maioria das obras de Saint-Germain tem como subtítulo “a novel of historical horror”; apenas a primeira se intitula “a novel of forbidden love”, mas, para Yarbro, não há nada de proibido no amor entre um vampiro e um ser humano e Saint-Germain deseja essa intimidade perdida:
…just the blood is not enough. It will keep me…alive…but it is not enough. So when it is possible, I have intimacy as well. It is not only the blood that nourishes me. It is nearness, pleasure, all intense emotions. Only those who come to me knowingly are…tainted by me. Only those who accept me as I am will be like me.311
Além de esbater as fronteiras no amor entre um vampiro e uma humana, Yarbro esbate também as fronteiras da violência, ao apresentar horrores criados pelo Homem e não por um qualquer monstro da ficção. O horror de que a autora fala não tem nada a ver com os vampiros, mas sim com os horrores da Revolução Francesa, da Florença renascentista ou de Roma Antiga, mais uma vez mostrando o “monstro” que há em nós, numa violenta crítica social, acabando o horror dos vampiros por ser substituído pelo dos humanos. “Yarbro’s vampire stories record human history as a tale of violence and terror far more frightening than any vampire. Within that history the exemplary humanity of Saint-Germain and Olivia appears as both an ideal and image
of the human inability to achieve its best nature.”312
Saint-Germain não deseja dominar o mundo, mas curá-lo dos seus males, apesar de as pessoas não aceitarem o seu saber e experiência. As obras sobre Saint-Germain situam-se em diferentes épocas da história da humanidade, com o Conde a assistir ao desenrolar dos acontecimentos, regra geral, sem intervir e preocupando-se em salvar diferentes mulheres que amou. Por exemplo, Hotel Transylvania (1978), passa-se em Paris, em 1744, com o Conde a salvar a sua amada de um grupo que seguia uma seita satânica. Este é, basicamente, um romance histórico (houve mesmo um hotel com este nome e uma vaga de satanismo entre a aristocracia francesa, que sacrificava mulheres ao Diabo), mas a animalidade e perversidade do vampiro são aqui transferidas para os satanistas. O segundo romance, The Palace (1978), recria Florença na época conturbada do Renascimento. Mais uma vez, o vilão não é o vampiro, mas um ser humano: o monge Savonarola, que, após a morte de Laurenzo de Medici, destrói tudo o que há de belo na cidade, mostrando um fanatismo e um ódio pela arte verdadeiramente nefastos. A ligação da literatura à arte é aqui muito
310 Dani Cavallaro, Gothic Vision, p. 188. 311 Chelsea Quinn Yarbro, The Palace, p. 152.
acentuada, com o pintor Botticelli a ser uma das personagens do livro e amigo de Saint-Germain. O terceiro livro, Blood Games (1979), descreve a brutalidade da Roma do século I e do reinado de Nero; o quarto, Path
of the Eclipse (1981), situa-se no reinado de Genghis Khan; no quinto, Tempting Fate (1982), Saint-Germain
vem em socorro de uma jovem que é perseguida pelos nazis. Por todo este pano de fundo histórico, as obras sobre Saint-Germain parecem mais romances históricos com um vampiro, do que uma obra de vampiros, um pouco à semelhança do que Elizabeth Kostova vai fazer em The Historian, como veremos a seguir.
Apesar de ser imortal, Saint-Germain é um ser vivo, com uma força física superior ao normal e sentidos apurados. Ele não se transforma em morcego ou nevoeiro e é o herói, não pelas suas qualidades sobre-humanas, mas pela sua grande inteligência, força de vontade e sentido ético, e podia ser qualquer um de nós. Sendo um alquimista, é uma espécie de super-cientista, à frente do seu tempo. Saint-Germain quase não parece um vampiro. Só é violento quando é provocado, o que geralmente se deve à estupidez e crueldade dos homens. Além disso, é o amante perfeito: cuidadoso, belo, sofisticado, feminista, considera as mulheres como iguais e quer agradar-lhes (é o oposto de outros vampiros que menosprezam as mulheres, como Zillah, em Lost Souls, que as atraem apenas para as matarem, como a maioria dos vampiros da sétima arte). Sem ter nada de animalesco nas suas feições e atitudes, a sua beleza e cortesia atraem facilmente as mulheres, que cedem o seu sangue pelo prazer de passarem uma noite com ele. Saint-Germain bebe sangue apenas das mulheres que desejam ser mordidas e, quando o faz, esse acto é relatado como um momento extremamente erótico e não como um momento agressivo ou violento.
Sabemos pouco da vida interior de Saint-Germain. Com quase 300 anos, quando começam as histórias, é um ser experiente, com um grande sentido estético, e é um músico, mas não rege a sua vida por esse princípio. Saint-Germain é um homem do mundo, não vive isolado e interage com os humanos, apesar de não conseguir mudar a história da humanidade para melhor. Mas não deixa de ser uma figura trágica. Apesar de amar e ser amado, o amor, para ele, nunca dura, porque é imortal e as suas amantes não. Mais uma vez, coloca-se em causa o peso da imortalidade e a solidão que esta traz. Esta temática foi sobretudo desenvolvida em The Mortal Immortal (1833), de Mary Shelley, uma história sobre um ser, que, tal como Saint-Germain, está vivo e é imortal. Ele bebe uma poção de um alquimista e descobre que envelhece muito lentamente. Com 323 anos, o narrador conta-nos a sua história e, sobretudo, o pavor que sente pela solidão e por ver envelhecer e morrer todos os que ama: “Thus have I lived on for many a year – alone, and weary of
myself – desirous of death, yet never dying – a mortal immortal.”313
O carácter melancólico de Saint-Germain também deriva da mesquinhez e crueldade que vê no ser humano, o qual ele aguarda que o iguale em conhecimento, sentido ético e estético. St. Germain vai valorizar aquilo que os vampiros “típicos” rejeitavam: refreia os seus instintos, controla-se e respeita a vida humana, muito à semelhança de Angel, da famosa série televisiva com o mesmo nome (criada por Joss Whedon e exibida de 1999 a 2004, no cabal WB). No final do século XX, e com tantas preocupações sobre segurança e terrorismo, a Humanidade procura, cada vez mais, investigar a causa de tanta violência, não conseguindo encontrar outra razão que não seja a que o Homem é, por natureza, um ser violento, cujos instintos mais
terríveis despertam quando menos se espera. Daí que Yarbro inverta e transgrida toda a mitologia associada ao carácter predatório do vampiro e a centre na Humanidade. Não é o vampiro que é o monstro, mas sim o
ser humano. Jeffrey Cohen, em Monster Theory: Reading Culture314, pretende tratar o monstro como um
assunto cultural que retrata a cultura que o criou. Para este autor, o monstro é a anomalia e ele cria sete teses para o identificar. Essas teses chamam sobretudo a atenção para a contextualização temporal do monstro, pois cada época produz os seus próprios monstros, que estão sempre relacionados com os medos culturais em vigor, e para a sua arbitrariedade, pois nunca se sabe onde ou quando ele vai aparecer. O autor refere que “In
being like men and women, many monsters disrupt categories of sexual difference and humanness.”315 O que
Chelsea Quinn Yarbro faz é precisamente mostrar que, ao longo da história da Humanidade, sempre produzimos os nossos próprios monstros, mas na figura de seres humanos bem reais, e é a partir destes que os monstros “irreais” ganharam vida. Para esta autora, não faz sentido que se continue a utilizar o vampiro como metáfora dos nossos medos e instintos, pois o ser humano é metáfora de si próprio:
The way we have imagined the vampire, whether as demonic, Antichrist, or even gorgeous fiend, is really an image of our limitations. For Yarbro, vampire’s stories cannot be the revelation of our dark side because human history already reveals it in terrible detail. In using Saint-Germain to remind us that, as Walter Benjamin said, the record of civilization is also a record of barbarism. Yarbro’s stance is satirical and hinges on the assertion that the vampire is misidentified as perverse and dangerous because ordinary society is so monstrous and irrational.316
Não é à toa que o mito do vampiro se desenvolveu a partir de figuras históricas como Vlad Tepes ou Elizabeth Bathory. As obras de Yarbro acabam por se centrarem num sentido ético, ao passo que as de Rice, por exemplo, se centram mais nas dimensões estética e psicológica das suas personagens. O que interessa retratar é que a violência e o terror não podem ser impedidos e o homem ideal é, assim, paradoxalmente exemplificado como um vampiro, neste caso, Saint-Germain, como refere Day:
Yarbro’s novels imagine human history as the endless struggle to put aside violence and cruelty, to go beyond being predators and hence become lovers, artists, and scientists. In the notes to Hotel Transylvania, Yarbro writes that the vampire is always “speaking to some hidden part of ourselves.” In a typical vampire story, that hidden part of ourselves is our fundamental desires, what Freud would call the “polymorphously perverse Id.” Yet for Yarbro the vampire is not the image of our atavistic past calling out for liberation but our future as truly civilized, truly human beings.317
Nos últimos anos, o vampiro tornou-se um protagonista, que começa a tornar-se parte da sociedade e perde cada vez mais a ligação com o sobrenatural, mesmo mantendo alguns dos poderes que lhe são comuns. Para cativar os leitores com vampiros que são mais humanos e menos sobrenaturais, os escritores começaram a desenvolver novas histórias de vampiros. Além das histórias de Saint-Germain, outro vampiro atípico surgiu na literatura dos últimos anos. The Vampire Tapestry (1980), de Suzy McKee Charnas, rompe com a tradição das histórias de vampiros (o Washington Post classificou-o de “revolucionário”), com o vampiro a
314 Jeffrey Cohen, Monster Theory: Reading Culture, p. 3-25.
315 Apud Brenda Boyle, “Monstrous bodies, Monstrous sex: Queering Alien Resurrection” In Gothic Studies, vol. 7, no2, p. 166. 316 William Patrick Day, Vampires Legends in Contemporary American Culture. What becomes a legend most, p. 52.
deixar de ser um ser sobrenatural, passando a ser um ser natural. Edward Weyland é o oposto de Saint- Germain. Ele é essencialmente um predador, que goza com o alho e os crucifixos, renega a arte, o erotismo e a empatia com os seres humanos, que considera um insulto ao seu carácter de predador. A própria autora refere que “The task I set myself was to tell the story of a simple and ruthless predator, a true tiger in human form with all his attributes logically accounted for within the terms of animal predation as we know it. No
hypnosis, no fog, no wolves, no tombs, no coffins, no nonsense: let’s observe the tiger, I thought.”318 Lestat
considerava que ser um vampiro era ser um assassino e Weyland dá plena expressão a esta máxima.
Weyland é um “mutante” e não um ser sobrenatural. Extremamente inteligente e ancestral, é uma figura solitária, que não conhece outros como ele e se preocupa apenas com a sua sobrevivência, reinventando-se constantemente para se adaptar a cada época. Hibernando por longos períodos de tempo, quando acorda, Weyland retém conhecimentos linguísticos e sociais, mas não se recorda da sua vida. Como predador, usa a sexualidade para atrair as suas presas, homens ou mulheres, mas desagrada-lhe o sexo com os humanos e não é, decididamente, uma figura romântica como Saint-Germain ou Louis. O amor não o limita, como a Saint-Germain, mas aqueles que se lhe entregam, fazem-no por amor e é a força desse amor e dessa entrega que acaba por perfurar o coração de Weyland e quebrar as diferenças entre eles: “With the courage of love, the longing of love, the hopefulness of love, they reach across the immense gap between
species, and what is brave and needy and hopeful in him is awakened and responds.”319
Apesar de não se identificar com os homens, que, para Weyland, são como gado a abater, os seus diferentes encontros com humanos levam-no a simpatizar com os que o rodeiam, o que, como predador, vê como uma falha e uma fraqueza. Weyland não deseja tornar-se humano; pelo contrário, repugna-o essa perspectiva. Mas o facto de viver entre os humanos humaniza-o mais do que deseja e ele acaba por arriscar tornar-se naquilo que não quer. Daí que, cada vez que hiberna, perca as suas memórias e recupere apenas o instinto de predador. Se não hibernasse, seria como Barnabas ou Louis, um ser dividido que luta contra a sua natureza. A história de Weyland serve para explorar a natureza do predador e, no contexto da história de vampiros, serve também para criticar o vampiro romântico ou humanizado. Charnas explica que “I just decided that there would be something that preyed specifically on us, but in a much more rational manner
than we prey on the rest of the world”320.
Suzy McKee Charnas partilha a ideia generalizada de que o vampiro é, cada vez mais, a metáfora para o Mal que nos rodeia e que está dentro da humanidade: “The vampire as a concept reflects the discovery that the monstrous is and always has been located primarily not outside us, in mythical creatures, but in our
human neighbours on this planet; and sometimes in ourselves.”321 Apesar do seu aspecto humano, Weyland é
um ser alienado, por ser o último da sua espécie e por ser um predador, um monstro com inteligência superior à nossa, mas com sentimentos pouco desenvolvidos:
318 Suzy Mckee Charnas, “Meditations in Red: On Writing The Vampire Tapestry” In Joan Gordan & Veronica Hollinger, Blood Read. The Vampire
as Metaphor in Contemporary Culture, p. 60.
319 Idem, p. 67.
320 Apud Margaret Carter, “The Vampire as Alien in contemporary Fiction” In Joan Gordan & Veronica Hollinger, Blood Read. The Vampire as
Metaphor in Contemporary Culture, p. 33-34
321 Suzy Mckee Charnas, “Meditations in Red: On Writing The Vampire Tapestry” In Joan Gordan & Veronica Hollinger, Blood Read. The Vampire
Weyland defines the difference between vampires and humans by the fact that he is a pure predator and we are not; our capacity for empathy, which allows us to form relationships and to represent ourselves through art, is simply beyond him – except for that one small moment before he sleeps.322
De facto, para Weyland, hibernar é um alívio, pois não deseja ultrapassar os seus instintos de predador e aceitar as suas relações com os humanos. O vampiro serve assim, mais uma vez, para explicar a natureza humana. O facto de o romance, a moral, o tormento psicológico ou a arte terem nenhum ou pouco impacto em Weyland, no fundo, mostra aquilo que nós receamos vir a ser: um animal com intelecto.
Charnas apresenta a arte, a tolerância, o amor e a razão como alguns dos seus principais valores, mas não os incorpora no seu vampiro. Além disso, ele não tem o mesmo sentimento de culpa ou self-awareness dos vampiros de Rice e é incapaz de amar. A humanização que vai sofrendo, à medida que interage com os humanos, com todas as memórias desse relacionamento, é totalmente perdida quando hiberna, daí que ele nunca se consiga integrar no mundo. Paradoxalmente, Weyland quer apenas saciar a sua sede e ser deixado em paz, não querendo interferir na história da humanidade, mas acaba por ser o homem do futuro, devido à sua imortalidade, pois é ele quem, não sendo humano, vai acabar por assistir à evolução da humanidade e marcar a sua evolução. Para Day, esta obra “severs all links with the Gothic, the supernatural, and the nineteenth century. Weyland, who has no past, is the man of the future; it is he who will awaken in a hundred
years to find a new kind of society after all the people he has known during his last life are dead.”323