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Les plus grandes entreprises multinationales du monde

1.1 Le modèle Uppsala

1. Les plus grandes entreprises multinationales du monde

A Amazônia enquanto região é uma construção social em torno da qual interesses políticos, econômicos e científicos são objetos de disputa visando a definição da região amazônica e o estabelecimento de suas fronteiras. A estação científica é uma região dentro da região loteada entre programas e conjuntos de áreas disciplinares. A luta pela anexação da região ao espaço científico tem efeitos diretos sobre a autoridade científica. A possibilidade para os cientistas e a instituição de dispor de um imenso laboratório natural de 330 mil hectares implica ter à disposição condições excepcionais de produção da ciência, o que produz efeito sobre programas, financiamentos nacionais e internacionais, circulação de cientistas e sobre a forma de produzir ciência. Os 330 mil hectares são anunciados pelos cientistas e nas publicações do Museu, enquanto que o IBAMA atribui 200 mil hectares à FLONA. Verifica-se um processo de territorialização científica em um território comum ou público, conforme a mais recente denominação das florestas. Com a amplificação de suas fronteiras tem como efeito a amplificação de indivíduos e grupos.

Os cientistas invocam, com freqüência, o primado da liberdade criativa e a inexistência de fronteiras, no entanto, fazer ciência, como outras atividades humanas, é intensamente marcado pelo social. A respeito das afirmações acima, Bourdieu (2006 : 110) pondera que:

Esta luta pela autoridade científica é menos autônoma do que querem crer os que nela se acham envolvidos e verificar-se-ia facilmente que as grandes etapas de concorrência entre as disciplinas a respeito da noção [de região] correspondem através de diferentes mediações – entre os quais, os contratos de pesquisa não são menos importantes, - a momentos da política governamental em matéria de “ordenamento do território”.

Está em curso, com efeito um intenso processo de reterritorialização da Amazônia por parte do governo federal, com, de um lado, unidades de conservação e do outro grandes obras: estradas e hidrelétricas; sem contar os licenciamentos de mineradutos,

atividades de mineração e agropecuária. O governo estadual do Pará concentrou recentemente seus esforços no zoneamento econômico-ecológico.

Dentro desse processo mais amplo, os cientistas e as instituições atribuem a ciência à colorações do “moderno” (BOLTANSKI, 1994 : 16), em que se criam por “tradução” misturas entre gêneros completamente novos, híbridos de natureza e cultura e/ou por “purificação”, duas zonas ontológicas inteiramente distintas, a dos humanos de um lado e a dos não-humanos de outro45, lugar reestruturando-a e garantindo-lhe uma posição privilegiada diante de outras ciências.

Diferentemente das estações ecológicas, unidades de conservação, destinadas à preservação das espécies e a pesquisa, mediante autorização do IBAMA, a Estação Científica é uma área gerida, no que diz respeito à ciência, pelos cientistas do Museu e de outras instituições, embora estejam sujeitos à regulamentação, licenças e fiscalização do IBAMA, e onde existe a possibilidade de coleta de espécimes visando não apenas pesquisas, mas também a formação de coleções, o que enriquece e empresta autoridade científica às instituições detentoras de espécimes. A Estação Científica constitui-se portanto em formidável capital científico e social, do qual os pesquisadores e instituição podem lançar mão a fim de ocupar novas posições no campo científico.

Campo científico, o espaço social de produção da ciência é, na acepção de Bourdieu (1983 : 122) o sistema de posições objetivas entre posições adquiridas (em lutas anteriores); é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial, em torno do monopólio da autoridade científica, caracterizada conjuntamente como competência técnica e poder social, ou o monopólio da competência científica entendida como capacidade de falar e agir legitimamente (ou seja, de forma autorizada e com autoridade) em matéria científica, socialmente reconhecida a um agente determinado. O capital científico, ao mesmo tempo capital social e competência científica de cada cientista contribui para a definição da posição ocupada no campo. As hierarquias dedutíveis das

45 O primeiro, por exemplo conectaria em uma cadeia contínua a química da alta atmosfera, as estratégias científicas e industriais, as preocupações dos chefes de estado, as angústias dos ecologistas; o segundo estabeleceria uma partição entre um mundo natural que sempre esteve aqui, uma sociedade com interesses e questões previsíveis e estáveis, e um discurso independente tanto da referência, quanto da sociedade. (op. cit. : 16).

posições ocupadas no campo segundo a autoridade de cada cientista se traduzem também em hierarquias entre objetos e métodos científicos.

Shinn (1988 : 2-22) realizou uma pesquisa empírica em um laboratório de hidrodinâmica resultando numa estreita correspondência entre a hierarquia no laboratório e a prática científica e os resultados das pesquisas. Assim a relação do pesquisador com o fenômeno que explora e a dimensão de sua rede profissional tem impacto sobre sua forma de trabalho, havendo duas hierarquias quanto aos resultados das pesquisas: uma social, outra cognitiva. Na primeira, o estatuto dos resultados está diretamente ligado à posição do pesquisador dentro da hierarquia do laboratório. A segunda, que funcionaria principalmente em períodos de conflito, os pesquisadores do laboratório, tanto os seniores, quanto os juniores tendem a impor seus resultados face aos do diretor do laboratório.

A própria noção de campo implica em hierarquias complexas, derivadas de posições ocupadas anteriormente e do capital científico de cada cientista. Da iniciação científica ao pós-doutorado são demarcados os degraus que o cientista tem que percorrer, no entanto, diferentes capitais podem implicar diferentes posições para um mesmo nível. De certa forma, a estrutura científica se assemelha a militar, sendo que a exigência não é de obediência e sim de deferência. Um aluno de iniciação científica publicar um paper como primeiro autor não é bem visto nos meios acadêmicos. Via de regra, o aluno, mesmo tendo realizado toda a pesquisa e muitas vezes elaborado a primeira versão do trabalho, tem seu nome colocado em segundo lugar, e em primeiro o nome do orientador. Insubordinar-se a esta “regra” pode trazer sérios transtornos ao jovem iniciante da carreira científica.

Da mesma forma o título de doutor não é um salvo-conduto contra as barreiras impostas pela hierarquia e pelo sistema de posições no campo. O Dr. José Guilherme Soares Maia, químico de produtos naturais dá um exemplo concreto da relação entre hierarquia e resultados:

Em outro projeto, em conjunto com pesquisadores japoneses da Universidade de Akitan, começou-se a estudar a variação da maré e a influência dessa variação nos produtos extraídos ou cultivados pela população tanto para consumo, quanto para comercialização. Infelizmente a equipe não chegou a uma conclusão na pesquisa porque um presidente do CNPq que era da área de

Limnologia deu um parecer contrário, alegando que “tudo o que tinha que ser feito a respeito de variação de marés, já tinha sido feito”.

Nesse caso, a entrada da equipe japonesa no Brasil não foi autorizada e o projeto abortado46.

Cientistas de diversas áreas do conhecimento realizam suas atividades dentro da Floresta Nacional. São biólogos, ecólogos, zoólogos, botânicos, climatólogos, antropólogos (poucos) que se encontram na base física da Estação Científica Ferreira Penna, ponto de apoio para os grupos de estudiosos em assuntos amazônicos. De profissionais experientes, com pós-doutorado, a alunos recém saídos da graduação ensaiando os primeiros passos na carreira científica é formada essa categoria que aqui chamamos de cientistas. Ao longo da pesquisa, encontrei também técnicos de diversas áreas que desempenham papéis fundamentais na construção da ciência e que, via de regra, passam mais tempo em campo do que os doutores. No final do capítulo retomo o tema sobre o conhecimento dos guias de campo na produção da ciência.

A noção de campo aqui apresentada contribui para o entendimento de quem são os cientistas em Caxiuanã e qual é o processo de produção da ciência. A complexidade das redes científicas e institucionais não permite que se faça uma análise exaustiva (que também não é o objeto central da pesquisa), mas as redes, as hierarquias, os capitais científicos acumulados são relevantes para o entendimento de como se faz ciência. A seguir são comparadas as trajetórias científicas dos profissionais que atuam em Caxiuanã. Com isso é possível detectar políticas científicas, periodizações, a relevância de instituições na Amazônia, assim como as formas de construção da palavra autorizada.