CHAPITRE 4 : DES REPRÉSENTATIONS JOURNALISTIQUES
4.2 Les dimensions transversales de la pratique
Os sentidos da lexia raça modicam-se conforme os diferentes espaços discursivos e tempo histórico em que essa palavra circula. Para a biologia do século XIX, por exemplo, o conceito de raça atrelava-se à divisão dos grupos humanos a partir de características físicas e habilidades particulares. São essas ideias, segundo Lopes (2004, p. 557) que fundamentam o conceito de racismo, “doutrina que afirma a superioridade de determinados grupos étnicos, nacionais, linguísticos, religiosos etc. sobre outros”.
Para Munanga (2004), o racismo nasce exatamente quando se relacionam intrinsecamente características biológicas a qualidades morais, psicológicas, intelectuais e
culturais, como fez Carl Von Linné35 ao classificar, no século XVIII, o homo sapiens em
quatro raças, num dos melhores exemplos de classificação por hierarquização:
Americano: moreno, colérico, cabeçudo, amante da liberdade, governado
pelo hábito, tem corpo pintado.
Asiático: amarelo, melancólico, governado pela opinião e pelos
preconceitos, usa roupas largas.
Africano: negro, flegmático36, astucioso, preguiçoso, negligente, governado
pela vontade de seus chefes (despotismo), unta o corpo com óleo ou gordura (...)
Europeu: branco, sanguíneo, musculoso, engenhoso, inventivo, governado
pelas leis, usa roupas apertadas (MUNANGA, 2004, p. 9).
De acordo com Moore (2007, p. 21), os principais estudos do século XX a respeito do racismo dirigiram-se para a análise e interpretação de “dois grandes desastres na história da humanidade”: o holocausto judeu e a escravidão negro-africana. O segundo “desastre” teve incalculável impacto na formação da sociedade brasileira, e seu legado repercutiu ao longo do tempo, nas dimensões políticas, identitárias, econômicas e culturais do país.
Os quilombolas de Caiana dos Crioulos, ao serem questionados sobre racismo/preconceito racial, relataram que o simples ato de sair de Caiana dos Crioulos e ir até Alagoa Grande era um problema há alguns anos, situação que foi mudando com o passar do tempo:
Antigamente, a gente tinha muito, tinha assim, quando subia pá Alagoa Grande memu, quando passava pela pêmêra rua, aí muita gente dabochava da gente (...), dizia assim: _ Nega preta! nega preta! N’era? A gente ficava tudo com raiva. Ali no rabo da gata num é? A gente ficava tudo com raiva, sem pudê dizê mai nada. Ia simbora. Agora hoje ninguém fala mai (...) mai naquele tempo era triste minha fia. (Inf. 1A-I).
(...) lá atrás era com muita frequência, a gente quando ia assim, pá cidade, aqui em Alagoa Grande, a gente ia assim, até pensava como ia, puque a gente era munto, assim discriminado, a gente sofria munto essa questão. A gente ia e aí, quando a gente chegava assim, logo no iníssu da rua, do povoado ali do final da rua, vindo de lá pra cá, a gente era chamada de... Não só eu, mái todo mundo: lá vem os nego da Caiana! A mata pegou fogo, é... Um monte de coisa, e a gente também reagia, a gente não ficava calado.
(Inf. 7A-I).
Embora as demonstrações explícitas de racismo tenham diminuído, conforme relato dos informantes, manifestações veladas ainda estão presentes na vida diária dos caianenses.
35 Naturalista sueco, também conhecido no Brasil como Lineu, foi quem fez a primeira classificação racial das
plantas (MUNANGA, 2004).
Nos relatos a seguir, o informante descreve-nos dois episódios em que sentiu o preconceito racial expresso em forma de olhares de reprovação:
Racismo? Já sofri munto! Assim, quando eu fui estudar na cidade mesmo, lá no colégio estadual, eu sofri munto, porque eu era o único dentro da sala que era negro e aí eu sofri munto, porque cada um que olhasse pra mim com olhar diferente. É tanto que o professor reunia pra fazer trabalho, assim, eu sempre era o único que sobrava, eu sempre ficava. E eu percebia que era por conta da cor. E até mesmo assim, até a professora também, as vezes, eu percebia que por parte dela (...) tinha a questão do (...) que ela tinha preconceito comigo. (Inf. 7B-I).
Eu sei que existe ainda o racismo, existe o preconceito, vai sempre existir... Eu acho... A gente sempre é discriminado em tudo. Questão de emprego... Eu lembro que quando eu terminei o magistério e fui lá na secretaria, a fim de uma sala de aula, na época, quando eu cheguei lá, a secretária olhou pra mim e disse: _ Você veio fazer o que? Aí eu: _Terminei meu curso e tô procurando um emprego como professor. E eu lembro como se fosse hoje, que ela olhou pra mim, assim, dos pés à cabeça e não precisou dizer mais nada. Eu já conhecia esse olhar de outras vezes. (Inf. 7B-I).
O primeiro relato confirma o pensamento de Munanga (2005, p. 15), ao apontar a escola como um dos espaços inter-raciais mais conflituosos, onde preconceitos permeiam “(...) o cotidiano das relações sociais de alunos entre si e de alunos com professores”. Esses preconceitos, ainda consoante o autor, apresentam-se no currículo escolar, nos instrumentos pedagógicos e nas contradições e silenciamentos incapazes de criar um ambiente que conscientize o alunado da diversidade étnica e da “importância e riqueza que ela traz à nossa cultura e identidade nacional”.
O racismo anti-negro está presente em todos os segmentos da sociedade e manifesta-se ora de forma velada, ora de forma desmascarada e cruel. O certo é que, dissimulada ou explicitamente, os insultos raciais praticados contra a população negra são antigos e sempre reforçaram a institucionalização da inferioridade desse grupo e legitimaram a existência de uma hierarquia social baseada na ideia de raça. São as manifestações explícitas desses insultos, evidenciados em forma de xingamentos, que analisaremos mais profundamente a seguir.
Subcampo: insultos
Lexias analisadas: nego/nega de Caiana, nego preto/ nega preta, munguengo de Caiana,
urubu.
O vocábulo insulto é comumente conceituado como palavra, comportamento ou gesto que expressa uma opinião extremamente negativa sobre alguém ou alguma coisa. Entretanto, conforme Leach (1983 apud GUIMARÃES, 2000, p. 32), insultar é mais que emitir uma opinião negativa, implica romper com uma dada norma social. Para o pesquisador, o insulto “significa a violação de um tabu, ou seja, consiste na expressão de nomes, atos ou gestos socialmente interditos que geralmente se referem aos muito próximos ou muito longínquos de si”.
Ao serem questionados sobre os tipos de insultos mais ouvidos, os caianenses apresentaram, principalmente, relatos de ofensas vindas dos moradores da “rua”, ou seja, da área central do município de Alagoa Grande. Contudo, algumas vezes, os insultos vinham de pessoas bem próximas, mas de pele um pouco mais clara:
Uma vez eu tava numa conversa cuã menina, uma colega da época, que os pai dela morava na cidade né? (...) e a gente conversano lá, aí entrano em algum detalhe, ela usou a palavra de nego, nego preto, num sei o quê, e lá se vai. Aí eu fui, rematei né, a história dela... Muito pelo contário, num era o que ela pensa não. Negro também é gente, negro também tem direito, não é só quem é branco, que ela num era branca não, que ela só tinha a pele clara. Eu disse: tu só quer ser branca né menina? Tu num é branca não! Tu é negra também. Ela disse: _Eu? Num sou negra não! Disse: _Você é! E você tá pensando que negro também num é gente não? (Inf. 7A-I).
Pronto, até agora, quando entrei na universidade mesmo, entrei na UVA, né, que na minha turma, também só tinha eu, assim de cor bem escura mesmo assim, tudinho... E tinha um menino, meu colega, que a gente estudou junto desde a sexta série, mas assim, eu sempre discutia com ele, por conta disso, ele me chamava de nego, eu chamava ele de amarelo... E era aquela coisa. Aí quando foi agora na universidade, eu não sei porque, ele disse, quando terminou a aula, ele disse: _ Tu observou alguma coisa diferente aqui na sala? Inocentemente eu disse: _ Não! Observei nada não. Aí ele disse: _Tu observou que aqui na sala só tem tu de negro? Aí eu não sei porque ele observou isso e disse isso daquele jeito. Eu me senti mal. Mas, deixei pra lá.
(Inf. 7B-I).
Considerando que a condição social dos negros no Brasil já é historicamente determinada por um longo e antigo processo de subjugação, o simples emprego dos vocábulos “negro” ou “negra”, em determinado contexto, pode ser ofensivo, como depreendemos dos relatos lidos.
Assim, negro ou preto passam a ser uma síntese verbal ou cromática para toda uma constelação de estigmas referentes a uma formação racial identitária. Mais que o termo, a própria cor adquire função simbólica, estigmatizante, como bem o demonstram os sinônimos listados em dicionários de língua vernácula: sujo, encardido, lúgubre, funesto, maldito, sinistro, nefando e perverso, entre outros (GUIMARÃES, 2000, 34).
Em Houaiss (2009), atestando o dito por Guimarães (2000), encontramos para o vocábulo nego, com a rubrica de regionalismo, “pessoa indeterminada, gente, indivíduo, neguinho”. O vocábulo negro, em Ferreira (2004), além de referir-se a “aquele que tem cor muito escura” apresenta “sombrio, triste, melancólico, funesto” ou mesmo “odioso, perverso, mau”, com a rubrica de sentido figurado.
Para a lexia preto, dentre outras acepções, Houaiss (2009) traz “complicado, difícil”, também com a rubrica de regionalismo. Ferreira (2004), além de referir-se a preto como “corpo que apresenta a cor mais escura”, apresenta, como sentido figurado, “algo que é difícil, perigoso”.
Os insultos raciais seguem a lógica do distanciamento existente entre o insultador e o insultado, relacionando o segundo a algo que é inferior ou nocivo. Segundo Elias e Scotson (1994 apud GUIMARÃES, 2000), existem modos particulares de estigmatizar um grupo determinado, sendo eles: referência à pobreza ou à anomia social, atribuição de deficiência de limpeza e higiene e pelo tratamento do outro como animal.
Com base nesse pensamento, podemos dizer que os quilombolas de Caiana, ao serem chamados nego de Caiana ou munguengo de Caiana, por exemplo, são estigmatizados por pertencerem a uma ordem social anômica, uma vez que o adjunto de Caiana, por si, carrega forte carga semântica relacionada a um passado de escravidão, fuga, sofrimento, enfim, de enfrentamento e resistência à ordem social estabelecida.
Chamava de munguengo de Caiana, nera? Era! Munguengo de Caiana. A gente dizia assim: _ Nós somo preta, mai temo o que cume! (risos) Era... Eu dizia assim, eu mermo eu disse, puque eu tinha raiva, a gente assim, no seu canto quieto, num é? Num tá bulino com ninguém, mexeno cum ninguém. Pá que mexê com a vida dos ôto? Aí eu dizia... Se eu sô uma nega pêta... Eu sô peta, mai tu sôi amarelo. Poi eu disse, mai menino qu’eu num disse? Eu disse! (Inf. 2A-II).
(...) ainda tem preconceito, mais diminuiu, mais ter, ainda tem. Hoje até tem medo de falar né? Mas antigamente, meu Deus! Era nega preta, nega de Caiana, essas coisa. Hoje, quem fala é quiancinha assim, tudo bestera né? Sua cor é essa que Deus lhe deu, a minha é essa que Deu me deu. Num foi a gente que fei. Se fosse a gente que fei seria tudo de uma cor só, ou branco ou
preto, todo mundo devia se respeitar, puque vai tudo pum buraco só. É a pior bestera. E o pai é um só. (Inf. 9A-I).
Outra forma característica de estigmatizar, como vimos, é a atribuição de animalidade ao insultado. Segundo Guimarães (2000, p. 34), “quando se trata de um insulto propriamente racial, a animalidade é atribuída principalmente através dos termos macaco e urubu, usados indistintamente para ambos os sexos.” Em Caiana, não temos registro do vocábulo macaco utilizado com o intuito de ofender. O segundo, no entanto, figura com alguma frequência, e nesse relato a seguir, compõe o trecho de um “versinho” racista:
(...) antigamente era munta discriminação, a gente num podia nem ir nessa tal de Lagoa Grande, puquê quando ia, quando os pessoá descia pá Lagoa Grande, pronto, quando a gente ia chegano na rua, os pessoá já ficava dizendo: _ Eita, a mata pegou fogo! Eita, o céu tá tão azul... Num morreu
boi, nem cavalo, donde vem tanto urubu!? (Inf. 8A-II).
Em outro depoimento, o cheiro do negro é comparado ao cheiro do urubu, configurando um bom exemplo de modo de estigmatizar por atribuição de deficiência de limpeza e higiene ao insultado. Segundo Guimarães (2000, p. 36), o estigma da sujeira é reforçado por termos como “fedida, merda, podre, fedorenta, porqueira, nojento e sujo”. No depoimento a seguir, os sintagmas “catinga de nego” ou “catinga de urubu” reforçam a ideia que o negro tem como condição natural o mal cheiro.
Aí, a secletária de saúde, a coordenadora do programa da família, aí colocou a importância de a gente chegar nas casa, saber chegar, pra ir com fardamento, né? Se apresentar pás família, tudo mais, aí nessa questão toda, uma senhora, já bem de idade assim (...) aí ela foi disse que, num tava feito besta, saí pá trabalhar, todos os dias com uma cômisa só, com um fardamento só, pra saí com uma catinga de urubu, uma catinga de nego não (...) Ela num disse diretamente comigo, mas como eu tava lá, pra mim foi munto forte. E eu jamais fiquei calada, imediatamente, eu fiquei cega, num olhei nem quem tava, disse: _Minha filha, pra você que não sabe, nego não fede não, quem fede é a sujeira, independente de ser nego ou branco! (Inf.
7A-I).
Diante do lido, percebemos que os insultos elencados reforçam, como dito, a institucionalização do negro como um ser inferior. Concordamos com Guimarães (2000, p. 47), quando este compreende o insulto como um meio simbólico de “fazer o insultado retornar a um lugar inferior já historicamente constituído e reinstituir esse lugar”. No senso comum, o insulto racial é visto como recurso de ataque num conflito interpessoal. Em Caiana, percebemos, de outro modo, que as ofensas não foram motivadas pela alteração dos ânimos
de pessoas envolvidas em uma discussão calorosa, uma vez que, em nenhum dos relatos há a narração de uma briga que motivasse tais insultos. Diferentemente disso, os relatos demonstram uma predisposição racista do ofensor e um desejo gratuito de diminuir o insultado, com o intuito de demarcar a separação racial existente entre quem ofende e quem é agredido.