interactionnelle et consultation médicale
3. Lesinteractions verbales :
3.2. Ses fondements :
3.2.1. Les courants d’appartenance psychologiques
A expressão ser negro e tornar-se negro é empregada aqui desta maneira para dar ênfase ao conceito NEGRO, como categoria de análise social e de admissíveis novas proposições baseadas nos movimentos sociais de vanguarda que discutem a valorização da cultura afrodescendente brasileira. Na verdade, os termos negro e afrodescendente coexistem, por considerarmos, neste contexto de produção acadêmica, como sinônimos.
Existe toda uma construção social, cultural e também política nas negações de pessoas e de suas trajetórias, no apagamento de suas dinâmicas de luta e de seus saberes, por aqueles que detêm um poder hegemônico. Pessoas negras, movimentos negros, instituições e saberes afrodescendentes no Brasil, foram historicamente colocados fora, à margem do tecido social.
O sujeito afrodescendente suporta as violências que lhe são infligidas pela sociedade, em que o ideário de beleza e a padronização dos comportamentos é o dos membros dos grupos de pertencimento racial branco. Assim, ponderar sobre a identidade afrodescendente, pode significar, em alguns momentos, em sofrimento para estes sujeitos.
A negativa da negritude pode ser problematizada para o negro de forma muito intensa, em um extremo de angústia em que a pessoa simplesmente não se reconhece como tal, levando à possibilidade de um cenário quase patológico. Fanon declara que
se ele se encontra a tal ponto submerso pelo desejo de ser branco, é que vive em uma sociedade que torna possível seu complexo de inferioridade, em uma sociedade cuja consistência depende da manutenção desse complexo, em uma sociedade que afirma a superioridade de uma raça; é na medida exata em que esta sociedade lhe causa dificuldades que ele é colocado em uma situação neurótica. (2008, p.95)
Ao dialogarmos com Nogueira (1985) surge a contradição que o negro sofre por interiorizar a cultura hegemônica historicamente construída que não reconhece de maneira ampla as heranças negras:
O drama do negro que, vivendo no mundo dos brancos, é induzido, ainda que com relutância, a interiorizar os valores culturais destes, inclusive sua preferência etnocêntrica pelas características físicas caucasoides. Do negro que subjugado pelo branco, introjeta a sua imagem e vê a si mesmo do ponto de vista dele. É o drama do negro colonizado, escravizado, destribalizado, despojado de sua cultura e imerso na cultura do branco. (NOGUEIRA, 1985, p. 16)
É como se o afrodescendente que recusa sua identidade tivesse uma chaga no corpo. O cancro do corpo se transfigura em ferida do pensamento. Um pensamento compelido a não poder conceber a identidade real do sujeito, é um pensamento mutilado em sua natureza.
A violência racista é tão sinistra que arranca do sujeito afrodescendente a possibilidade de empreender seu potencial de criatividade, encanto e prazer que é capaz de construir. Então, estes sujeitos encerram seu pensamento, devido às ações das imposições do dominador, em um outro pertencimento racial. Isto leva a um bloqueio, a uma negação de si mesmo pela agonia de refletir sobre a própria identidade.
Conforme os apontamentos de Costa (1982), destaca-se o trecho a seguir como um dos elementos constitutivos da violência racista:
O racismo que, através da estigmatização da cor, amputa a dimensão do corpo negro, também perverte o pensamento do sujeito, privando-o da possibilidade de pensar o prazer, e do prazer de funcionar em liberdade. O pensamento do negro é um pensamento sitiado, acuado e acossado pela dor de pressão racista. Como consequência, a dinâmica da organização mental é subvertida. (COSTA, 1982, p. 8)
O sujeito negro, o sujeito afrodescendente, em decorrência da violência racista que lhe subordina, não encontra o deleite de ser negro e então estabelece os processos mentais arrancando o prazer do centro de seu pensamento. O prazer dá lugar à dor. O flagelo de ser negro. Em virtude disto, muitos buscam maneiras para esconder a violência que sofrem, como o anseio de ser
branco, de modificar as características fenotípicas e não se identificarem como negros quanto ao quesito cor.
Como decorrência, a violência racista induz o sujeito negro a desejar e introjetar um destino identificatório antagônico quanto à realidade de seu corpo e de sua história étnica e pessoal. Souza (2003) faz a ressalva quanto à contradição existente no desejo dos negros em almejar a brancura:
Mesmo os negros sabendo que os brancos europeus foram responsáveis por diversas formas de opressão, escravidão, guerras contra o seu povo e que por causa disso já condenaram milhares de criaturas de sua raça à miséria física e moral, nem por isso deixam de almejar a brancura porque ela se tornou símbolo de evolução, civilização e progresso. A ideologia racial branca fez da brancura algo transcendente e universal. E por tudo o que o negro sofre e sente, ele passa a desejar uma realidade contrária a que ele vive e isso significa repudiar a sua própria cor, a sua pessoa, a sua existência. (SOUZA, 2003, p. 154 - 155).
Para negar ser negro, o negro empresta o branco como referencial, como se a supremacia da estética branca definisse o belo e a superioridade. Como contrapeso, para fins de conformação dessa ideia, Souza (1982) elucida que o negro que toma o branco como ideal de ego, concebe em si mesmo uma chaga narcísica severa e mutilante.
Com base nos argumentos já citadas, assumir ser negro não é tarefa simples. É participar da mesma história de desenraizamento, servidão e discriminação racial, embora esse compartilhamento por si só não garanta aos sujeitos, nesta qualidade, a identidade negra.
Quanto a essas constatações, Souza (1982), conclui o seguinte:
Ser negro não é uma condição dada, a priori. É um vir a ser. Ser negro, é tornar- se negro. É tomar consciência do processo ideológico, através de um discurso mítico acerca de si, engendrar uma estrutura de desconhecimento que o aprisiona numa imagem alienada na qual se reconhece. Ser negro é tomar posse dessa consciência e criar uma nova consciência que reassegure o respeito às diferenças e que reafirme uma dignidade alheia a qualquer nível de exploração. (SOUZA, 1982, p. 77)
Destaca-se que ser negro é reconhecer-se negro. É sobrepujar os discursos alienantes de negação e invisibilidade ideologizados frente as estratégias de superioridade dos grupos de outros pertencimentos raciais. É procurar conscientizar-se da urgência do respeito a si mesmo e dos outros, independente do pertencimento racial.