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La distance entre les signatures des nœuds

4.3 Descriptions locales de graphes

4.3.2 La distance entre les signatures des nœuds

Daqui somos transportados para Gaza nos anos 70, onde um plano semelhante foi executado com o objetivo de reprimir uma revolta palestiniana, misturando intervenções higienistas e de segurança – o exército israelita inspirado pela intervenção de Haussmann em Paris, racionalizou o esquema do campo de refugiados, deixando-o em ruínas.

Com o êxodo de 1948, 200.000 refugiados fugiram para a zona da Faixa de Gaza, na época controlada pelo Egipto, estabelecendo-se em campos de refugiados densamente ocupados. Com a chegada de 1967, os campos de refugiados foram ocupados por forças militares israelitas, tal como toda a Faixa de Gaza. Ariel Sharon era na época o chefe do Comando Militar Sul e via o conflito com os palestinianos como um problema urbano em rápido crescimento, promovendo uma transformação e redesenho do “habitat do terror”,

onde estavam alojadas as células da luta armada palestiniana29. Estes grupos haviam-se

instalado na densa malha dos campos de refugiados, montando uma rede de enclaves armados, a partir de onde, lançavam ataques contra as forças israelitas – Israel apesar de controlar a área dos campos de refugiados tinha dificuldades para conseguir entrar, numa

situação semelhante ao que aconteceu em Jaffa com as Forças Mandatárias Britânicas30.

A malha das ruas, ao longo das quais, agências da ONU construíram abrigos pré- fabricados para os refugiados da guerra de 1948, crescia de forma caótica, com a aglomeração de estruturas e extensões, formando um labirinto de vielas com menos de um

metro de largura. Perante este cenário urbano, Sharon ordenou a Julho de 197131 uma

campanha de atirar-para-matar contra os suspeitos da resistência, que ficou no entanto marcada pela sua forte componente de desenho urbano produzido pela destruição, ou

como lhe chama Stephen Graham32, uma campanha de “urbicídio”33 (ver figura 19 e 20).

Escrevendo o último e mais brutal capítulo da história urbana da grelha, Sharon ordenou aos bulldozers-militares que rasgassem ruas largas através do tecido de três dos maiores

campos de refugiados de Gaza – Jabalya, Rafah e Shati34 (ver figura 21). Os novos caminhos

podiam agora ser isolados pela infantaria militar. Este também ordenou a limpeza de todos os edifícios e bosques na área que definia como “perímetro de segurança” em redor dos campos, isolando efetivamente a área construída da sua envolvente e tornando impossível

29 Fatah, FPLP e outros grupos armados dissidentes da OLP. 30 WEIZMAN, Eyal. Hollow Land, Verso Books, London, 2007 p. 69 31 Ibidem p. 70

32 GRAHAM, Stephen. Cities, War and Terrorism, Blackwell Publishing Ltd., Oxford, 2004 pp. 192-195

33 “Urbicídio” é o termo usado por Stephen Graham para descrever a tentativa de negar ao inimigo o direito à vida urbana, destruindo os espaços da vida quotidiana.

COLONIALISMO COMO LABORATÓRIO URBANO 53 Figura 19 – Os bulldozers D9 das Forças de Defesa Israelitas marcam uma linha no chão, para que ninguém possa entrar no campo de refugiados. Imagens captadas por um ativista palestiniano durante a Operação Escudo Defensivo, em Abril de 2002.

Figura 20 – Novos traçados rasgados na malha de um campo de refugiados. Imagens registadas por uma camara de um civil palestiniano em Abril de 2002.

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a entrada ou saída dos campos sem se ser notado. Outras intervenções como a pavimentação das ruas e a sua iluminação serviam para permitir às forças de ocupação a entrada de veículos nos campos de forma rápida e sem medo das minas-terrestres.

Eyal Weizman diz em Hollow Land35 que a destruição urbana dos campos de

refugiados em Gaza foi complementada pela proposta de dois tipos de construção, ambos demonstrando o talento de Sharon em mobilizar o planeamento como instrumento tático. O primeiro propôs a construção de colonatos judeus num tipo de desenho que pretendia separar cidades palestinianas entre si e quebrar a área em secções controláveis - esta nova estratégia, chamada “Plano dos Cinco Dedos” pelo seu desenho de cinco pontas, foi uma repetição das táticas utilizadas dentro dos campos mas com uma escala maior: dividindo, desconectando e tornando os refugiados em peças controláveis e manipuláveis. O outro projeto proposto era de caráter “experimental” e propunha a construção de novos bairros

para os refugiados, transformando a temporalidade em permanência36.

Reorganização da Sintaxe Urbana: Balata, 2002

Com a chegada do combate urbano contemporâneo, a cidade entra no espaço doméstico e o desenvolvimento de novos métodos e tecnologias, conjugadas com o crescente medo de intervenções militares nos campos de refugiados – local e condição urbana para a existência de resistentes – levou a que os militares israelitas estabelecessem

novos modos de combate e controlo espacial através da alteração da sintaxe urbana37 do

“campo”, como veremos na intervenção em Balata38 (ver figura 22).

Uma das razões que tornou a doutrina militar de Israel em operações urbanas tão influente para outros países foi o facto de estar em permanente conflito com a Palestina desde que a Segunda Intifada ganhou uma dimensão mais urbana. Os alvos dos palestinianos e israelitas são em primeiro lugar as cidades.

35 WEIZMAN, Eyal. Hollow Land, Verso Books, London, 2007 36 Ibidem p. 70

37 De acordo com Stephen Graham, no livro Cities, War and Terrorism, no fim da Guerra Fria um campo

intelectual de pesquisa foi estabelecido de modo a repensar as operações militares no terreno urbano. Estas escolas militares, tem como finalidade compreender a vida urbana, as suas infraestruturas, sistemas complexos de análise, estabilidade estrutural e técnicas de construção. Existe agora uma relação mais próxima entre conflitos armados, ambiente construído e linguagem teórica que os conceptualiza. As leituras de algumas instituições militares incluem trabalhos datados de 1968 – em particular teóricos que pensam o espaço como Gilles Deleuze, Félix Guattari e Guy Debord – tal como escritos mais contemporâneos de urbanismo e arquitetura que proliferaram a partir dos anos 90.

38 Esta intervenção foi pensada na sequência de uma série de ataques de bombistas-suicidas em espaços públicos das principais cidades israelitas, durante a Segunda Intifada.

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A reorganização da sintaxe urbana por parte do exército de Israel, como referi anteriormente, consistia num método denominado por Eyal Weizman de “atravessar

paredes”39 que começou a fazer parte das operações de grande-escala apenas em Março de

2002, no campo de refugiados de Balata, na entrada este da cidade de Nablus40 (ver figura

23). Este novo método de construção espacial era descrito como uma “geometria inversa”, na qual os soldados evitavam usar a ruas, estradas, becos e pátios que definem a lógica de movimento na cidade, no domínio público, assim como entrar no domínio privado através de portas, escadas e janelas, ou seja, elementos que fazem a transição do interior para

exterior de um edifício (ver figura 24 e 25). Durante a operação, milhares de soldados de

ambos os lados, movimentavam-se pela cidade simultaneamente e eram ao mesmo tempo

invisíveis desde a perspetiva aérea41. Este tipo de manobras transforma o interior em

exterior e o domínio privado em domínio público. As batalhas ocorriam dentro de salas de

estar, quartos e corredores parcialmente demolidos (ver figura 26). Não era a ordem

existente do espaço que controlava os movimentos mas o próprio movimento que produzia espaço à sua volta. Esta manobra tridimensional era uma reinterpretação da cidade, uma desconstrução da sintaxe arquitetónica e urbanística existente. A cidade era agora não apenas o lugar mas o meio através do qual se fazia guerra – uma matéria

flexível/líquida em constante fluxo42.

No caso de Balata, os guerrilheiros palestinianos, cientes dos habituais movimentos do exército israelita, bloquearam todas as entradas do campo de refugiados, numa lógica que não foi respeitada pelo inimigo. O exército israelita entrou pelo campo de refugiados em pequenas divisões que se espalharam simultaneamente, abrindo buracos nas paredes e tetos, movendo-se através das casas de civis, usando um pioneiro sistema de levantamento

39 WEIZMAN, Eyal. Hollow Land, Verso Books, London, 2007 pp.185-218

40 Esta operação foi comandada por Aviv Kochavi, um oficial do exército que, tal como muitos outros, tiraram um curso numa especialidade (neste caso, Filosofia) que lhes permitisse interpretar o espaço de um modo diferente, que lhes permitisse conceptualizar o espaço e compreender as estruturas sociais em relação com o espaço que constroem ou habitam, para assim desenvolverem novas estratégias militares.

41 Este tipo de intervenção militar é denominado metaforicamente como “infestação” ou “enxame".

42 As referências canónicas de teoria urbana aplicada à prática militar estudadas por Aviv Kochavi estavam

ligadas às ideias Situacionistas da dérive (psico-geografia) e do détournement (adaptação dos edifícios a novos propósitos). Estas ideias foram concebidas por Guy Debord e outros membros da Internacional Situacionista como um confronto à hierarquia da cidade capitalista. Eles quiseram romper com as distinções entre privado e público, interior e exterior, uso e função e substituir o espaço privado por uma superfície pública fluida, volátil e sem limites, através da qual o movimento fosse livre e inesperado. Outra referência era Georges Bataille que expressou o seu desejo de atacar a arquitetura, desmantelar o rígido racionalismo e libertar os desejos humanos. Estas reflexões foram concebidas de modo a contrariar a ordem burguesa estabelecida da cidade planeada na qual o elemento arquitetónico do muro – como elemento doméstico, urbano ou geopolítico – projetava-se como sólido e fixo, como a corporalização da ordem social e politica. Porque as paredes funcionavam não apenas como barreiras físicas mas também como dispositivos que excluíam o visual e o espiritual, elas desde o século XVIII representavam a infraestrutura física para a construção da privacidade e subjetividade burguesa.

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tridimensional da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, que abrangia desde a escala do território até à modelação das casas.

Neste contexto, a transgressão dos limites domésticos deve ser entendida como a própria manifestação da repressão do estado. O remover do muro é a imagem da remoção da lei – a prática militar de atravessar paredes liga as propriedades físicas da construção com esta sintaxe de ordem arquitetónica, social e política. Quando a parede deixa de ser solida e legalmente impenetrável, a sintaxe espacial criada em volta dela colapsa. O romper do muro físico, visual e conceptual expõe novos domínios do poder político e assim

desenha um claro diagrama físico do “estado de exceção”.43

As novas táticas empregues em Balata acabaram por falhar, pela superior

preparação dos guerrilheiros palestinianos44. Os guerrilheiros acabaram por derrubar uma

série de edifícios em cima de militares israelitas, matando-os e como resposta o comandante israelita responsável pela missão evacuou as tropas e enviou um bulldozer- militar, que derrubou vários edifícios, matando combatentes e civis inocentes, numa mistura de corpos e ruínas. O “urbicídio” voltou então a ser a primeira opção das

operações em campos de refugiados, alterando o seu desenho e mesmo a sua topografia45.

Vimos como apesar de diferenças óbvias entre autoridades biopolíticas - o Mandato Britânico e o exército de Israel (FDI) a partir dos anos 70 – o espaço urbano oriental foi permanentemente forçado à sua legibilidade. Contudo este “desenho criativo” não é a única técnica governamental, já que a construção ilegal de colonatos, a complexa rede de bloqueio e checkpoints e mais recentemente o Muro de Separação, jogam ainda com a subjugação dos palestinianos pela sua ofuscação espacial e social.

43 Hannah Arendt compreendeu o domínio político da cidade clássica, onde o muro representava a lei e a ordem. Para esta, a estabilidade política é garantida por dois tipos de muros – o que envolve a cidade, que define a zona política e os muros que separam o espaço privado do domínio público, assegurando autonomia ao domínio doméstico.

44 Aviv Kochavi e os outros oficiais responsáveis pela operação seriam acusados mais tarde de arrogância intelectual, pela grande complexidade estratégica destes novos métodos. O comandante ignorou a má preparação e a falta de formação dos soldados israelitas neste tipo de missões. Os soldados acabaram por construir percursos caóticos dentro da malha urbana do campo de refugiados.

45 No campo de refugiados de Jenin os escombros dos edifícios derrubados foram usados para barricar ruas e passagens, alterando por completo o seu desenho.

COLONIALISMO COMO LABORATÓRIO URBANO 57 Figura 22 – Campo de Refugiados de Balata, Nablus, 2003.

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