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Classification par plongement

5.2 Classification supervisée de graphes

5.2.2 Classification par plongement

Jerusalém é um antigo berço da cultura humana e um dos lugares mais importantes para três religiões mundiais. Mas desde que a cidade existe, é a causa e centro de conflitos, tal como alvo e lugar de

disputas e guerras. É ao mesmo tempo vítima e arma.149

Philipp Misselwitz conta-nos, em City of Collision150, que durante a sua história, o

tecido urbano da cidade de Jerusalém foi destruído e exposto a várias mudanças (ver figura 86). Diferentes culturas e etnias tiveram em Jerusalém o seu centro cultural e simbólico, mas esta cidade foi, nos últimos noventa anos, o cenário e o lugar de um violento conflito entre judeus e árabes palestinianos. Estes dois povos têm uma longa ligação cultural com a cidade e reivindicam-na como sua legítima capital.

Este intenso conflito sobre controlo territorial e demográfico deu lugar a um processo de metamorfose urbana. Jerusalém desenvolveu-se exponencialmente e é hoje uma metrópole em crescimento. Neste período, a cidade foi usada como um laboratório para a produção e configuração espacial extrema, numa condição descrita como “urbanismo de conflito”. O tipo de urbanismo que falamos produziu um lugar onde a modernização sempre esteve a par de uma agenda política, alterando a sua forma física e os seus sistemas infraestruturais de modo acelerado. Alguns processos de transformação urbana que requerem longos períodos de planeamento no Ocidente, foram aqui implementados de modo repentino e sistemático, num dinamismo que pretendeu acentuar os factos físicos presentes no território, para assim, marcar a ocupação. Este permanente estado de transformação foi acompanhado por um grande crescimento físico e demográfico, tal como, por um declínio e destruição sem precedentes.

149 MISSELWITZ, Philipp. City of Collision, Birkhauser Verlag AG, Basel, 2006 p. 24 150 MISSELWITZ, Philipp. City of Collision, Birkhauser Verlag AG, Basel, 2006

112 FERRAMENTAS DA OCUPAÇÃO

Em Junho de 1967, vinte dias depois do exército israelita ter ocupado a zona este

de Jerusalém151, os limites da cidade foram redesenhados pelo comité militar com a

finalidade de estabelecer novas fronteiras internacionais. Esta nova linha pretendia unir numa única área metropolitana, a Cidade Antiga (localizada em Jerusalém Oeste), o que restava da parte administrada pela Jordânia, 28 povoados palestinianos, os seus cultivos e segmentos de deserto. O conjunto destes espaços daria corpo a uma Jerusalém sagrada,

eterna e indivisível152; “o primeiro princípio fundamental foi garantir a unificação [e]

construir a cidade prevenindo a possibilidade de esta ser particionada de novo”153. Mas este

conceito de “cidade unificada” permanece frágil, pelo facto da cidade ser descontínua. Depois de serem instaurados uma série de outros planos, emendas e atualizações feitas durante os 40 anos da ocupação, foram construídas duas cinturas de habitação que visavam a divisão do espaço palestiniano, limitando a sua possibilidade de expansão e fragmentando a sua coesão urbana. A primeira cintura era constituída por vinte bairros

judeus de caráter homogéneo, construídos nas áreas incorporadas dentro da cidade154 e a

segunda cintura, denominada por Israel como, “o segundo muro”, foi construída fora da cidade, permitindo a anexação de mais território e era constituída por várias tiras de dormitórios suburbanos. Foi mais tarde, em redor desta segunda cintura, que mais de 60 quilómetros do Muro de Separação foram implementados, separando os cidadãos

palestinianos do território da Cisjordânia155 e os colonos israelitas que ocupavam a

Cisjordânia, de Israel, já que, englobava toda a Jerusalém156 (ver figura 87 e 88). Por isso

mesmo, uma rede de estradas e infraestruturas, em constante expansão, foi construída para conectar os fragmentos desta geografia urbana dispersa de Israel, deixando de fora a população palestiniana, sujeita a um controlo permanente, através das zonas de segurança e rasgando o território que lhe pertence.

151 O governo liderado por Levi Eshkol anexou perto de 70 quilómetros quadrados de solo e incorporou aproximadamente 69.000 palestinianos dentro dos novos limites.

152 Os novos limites excluíam as áreas densamente habitadas por árabes, numa política de balanço demográfico que pretendia que o número de palestinianos fosse sempre inferior ao de judeus. Para manter os números pós-ocupação, ou seja, três habitantes judeus para cada palestiniano, o governo desenvolveu um conjunto de planos que limitavam a expansão de zonas árabes e que incentivava a expansão judaica.

153 WEIZMAN, Eyal. Hollow Land, Verso Books, London, 2007 p. 25

154 Os bairros de Ramat Eshkol e Monte Francês a norte da Cidade Antiga foram desenhados em arco alongado, cortando os bairros palestinianos de Shuafat e Seikh Jarah.

155 Um dos fatores de escolha para este traçado do Muro que rodeia Jerusalém, foi excluir os palestinianos que agora têm de decidir em qual dos lados querem viver. Ou escolhem Jerusalém, uma cidade com excesso populacional e cara, onde não têm permissão para construir casa. Ou então desistem dos seus direitos de cidadãos de Jerusalém e vão viver nas cidades dos subúrbios da Cisjordânia.

156 Hoje em dia os novos bairros judeus dentro dos limites municipais são a casa de mais de 200.000 colonos e junto com os habitantes dos colonatos dormitório da segunda cintura que envolve a cidade, a população judaica, da Grande Jerusalém, representa cerca de três quartos de todos os colonos nas áreas ocupadas da Cisjordânia, desde 1967.

COLONIALISMO COMO LABORATÓRIO URBANO 113 Figura 86 – Esquema com as dinâmicas fronteiriças de Jerusalém, entre 1949 e 2007.

Cidade Antiga Muro de Separação

“Linha Verde” Terra de Ninguém

Limite Municipal de Jerusalém Zona Controlada por Israel

Zona Controlada pela Jordânia

1949 1967

2000 2003

114 FERRAMENTAS DA OCUPAÇÃO Figura 87 – Vista aérea da zona norte de Jerusalém.

Figura 88 – Implementação do Muro de Separação e a sua relação com bairros palestinianos e judeus em Jerusalém, 2006. Cidade Antiga Muro Construído Limite Municipal Muro em Construção Muro Aprovado Área Palestiniana Construída

Muro para Aprovação “Linha Verde”

Área Israelita Construída 0 5km

COLONIALISMO COMO LABORATÓRIO URBANO 115

Jeff Halper, ao afirmar que “Jerusalém metropolitana é a ocupação”157, refere-se ao

alastramento da sua mancha urbana, que hoje, chega aos limites de Ramallah, a norte, de Belém, a sul e de Jericó, a este, isolando os palestinianos dos seus centros culturais dentro da cidade e cortando as ligações entre norte e sul da Cisjordânia. O projeto para Jerusalém foi apenas alcançado com um grande investimento do governo de Israel que subsidiou toda a construção de infraestruturas e casas para os judeus. Mas este projeto não foi apenas de caráter urbano, foi também um projeto que pretendeu criar uma identidade cultural para o povo judeu e ao mesmo tempo subjugar e domesticar a cultura do colonizado. Para o conseguir, os planeadores e arquitetos não tinham apenas de se centrar na expansão territorial, mas também de adaptar os novos projetos como parte integrante da “capital unificada”, da cidade sagrada. A arquitetura teve aqui um papel importante, ao implantar uma linguagem visual que foi usada para esconder os fatos da ocupação e justificar objetivos expansionistas, numa tentativa de encorajar narrativas nacionais de pertença enquanto fazia esquecer a ocupação, num ato de hegemonia cultural.

Criação do Lugar: Identidade Estética

Em 1967, antes do cessar-fogo, o exército de Israel teve o seu primeiro ato significativo de transformação urbana em Jerusalém, demolindo todo o Quarteirão Norte-

Africano158, localizado imediatamente em frente ao Muro das Lamentações159, a sudeste da

Cidade Antiga. Esta demolição teve como finalidade a abertura de uma enorme praça que se estendia do Quarteirão Judeu até ao Muro das Lamentações e foi o marcar de uma

posição dos militares, que não pretendiam abandonar os Territórios Ocupados (ver figura

89). Depois da demolição do quarteirão, toda a Cidade Antiga de Jerusalém foi declarada local histórico e nenhum edifício poderia ser construído sem antes procederem a escavações arqueológicas na área. A arqueologia era assim uma disciplina central para a formação da identidade de Israel e servia de pretexto para o retorno à Palestina. Esta foi utilizada para demonstrar que a arquitetura palestiniana era na verdade de origem judaica. A paisagem palestiniana é vista pelos judeus como um véu sob o qual, paisagens históricas, campos de batalha, povoados judeus e lugares de culto estão enterrados. O subterrâneo é

157 WEIZMAN, Eyal. Hollow Land, Verso Books, London, 2007 p. 26

158 Chaim Herzog, primeiro governador militar dos Territórios Ocupados e sexto presidente de Israel, afirmou que a demolição das 125 habitações foi uma oportunidade histórica para evacuar a área circundante ao Muro das Lamentações. Anteriormente o acesso ao Muro era feito por um pequeno beco, que se tornou um foco de conflito entre judeus e os residentes do bairro.

159 Acredita-se que o Muro das Lamentações é o que resta do Templo de Herodes, o local mais sagrado do Judaísmo.

116 FERRAMENTAS DA OCUPAÇÃO

assim entendido como uma geografia paralela ao monumento nacional e o papel do estado será remover essa capa e provar a pertença destes terrenos ao povo judeu. A arqueologia influenciou a reorganização da superfície territorial e novas cidades e colonatos foram estabelecidos perto ou mesmo por cima de zonas de escavação, adotando o seu nome bíblico. Esta anexação do subsolo nos Territórios Ocupados faz dele a primeira zona a ser colonizada, lendo a história de um modo não-linear e politizado. Esta tentativa de criar uma linguagem identitária para uma nova Jerusalém, fez uso da arqueologia, como

disciplina que possibilitava o reencontro entre os judeus e a sua origem160.

Na Cidade Antiga, em particular, os achados arqueológicos foram incorporados no

desenho urbano global e Louis Kahn, que chefiava o Comité da Bienal de Jerusalém161 em

1968, pensou a reconstrução do Quarteirão Judeu, evacuado em 1967162, como uma grelha

arqueológica na qual as novas formas urbanas eram desenhadas no seguimento do traçado das ruínas (ver figura 90). Este plano elaborado por Kahn teve uma influência considerável na arquitetura israelita e para o arquiteto Ram Karmi este projeto marcou o fim do modernismo em Israel, associado à geração fundadora do país. Agora era feita uma fusão entre as disciplinas da arqueologia e da arquitetura, algo que representava uma

oportunidade para preencher um vazio existente163.

Aqui o papel da arquitetura foi também de enorme importância e no caso particular de Jerusalém isso pode ser lido no plano projetado para a cidade em 1968. As diretrizes deste plano previam um compromisso estético com o orientalismo ligado ao regionalismo colonial, uma caraterística do período em que os britânicos estavam responsáveis pelo território palestiniano, entre 1917 e 1948. Este tipo de manifestação estética era promovido dentro do Império Britânico pelos seguidores e membros do movimento Arts and Crafts, numa tentativa de preservar e incorporar as tradições locais, tal como os seus materiais em edifícios contemporâneos. Numa escala urbana isto foi expresso como uma tentativa de dissolver o antigo com o novo, fazendo na continuidade do tecido arqueológico a nova Jerusalém. As leis britânicas para o planeamento municipal em Jerusalém, que remontam a 1918, apontavam para a aplicação de uma pedra calcária, geralmente conhecida como

160 WEIZMAN, Eyal. Hollow Land, Verso Books, London, 2007 pp. 37-39

161 De certo modo este Comité, composto por arquitetos como Christopher Alexander, Bruno Zevi ou Lewis Mumford, nunca contestou a dimensão política do plano proposto em 1968 para a “unificação” de Jerusalém, que visava colonizar e expulsar os palestinianos do seu território, compactuando com a estratégia de Israel. 162 O Quarteirão Judeu era o destino para muitos refugiados palestinianos, mas depois de 1967 o governo quis atribuir o quarteirão a famílias judaicas, expulsando quem lá estava.

COLONIALISMO COMO LABORATÓRIO URBANO 117 Figura 89 – Limpeza do Quarteirão Norte-Africano adjacente ao Muro das Lamentações, 1967.

Figura 90 – Reconstrução de Kikar Batei Machase, a praça principal no Quarteirão Judeu nos inícios dos anos 70.

118 FERRAMENTAS DA OCUPAÇÃO

“Pedra de Jerusalém”164, como único material permitido nas paredes exteriores dos

edifícios (ver figura 91). Esta lei aplicada pelo Coronel Ronald Storrs tinha como finalidade, marcar a carga emocional deste material, que estimulava sensações da memória coletiva de um povo e estabelecia uma grande ligação à cidade sagrada de Jerusalém. Aqui o caráter espiritual tornou-se também numa questão política e de planeamento, ou seja, a partir do momento em que dentro dos limites da cidade de Jerusalém estamos em território sagrado, o objetivo principal da arquitetura é estabelecer este laço entre os judeus e o seu lugar de origem bíblica. Nos seus noventa anos de história a lei da pedra foi aplicada em diferentes

períodos, desde o regionalismo colonial à arquitetura pós-moderna165 que emergiu em

Jerusalém depois de 1967166.

Em 1974, Karmi foi eleito o responsável pelo Ministério da Habitação, numa época marcada pelo crescimento da construção barata, com o aparecimento dos blocos de habitação modulares em Israel. Ram Karmi era um defensor da visão historicista e tal como os jovens arquitetos da sua geração, era apoiante do Partido Trabalhista, que entre 1967 e 1977, foi a força executiva por detrás da colonização de Jerusalém e dos Territórios Ocupados. Para eles a arquitetura dos anos 50 e 60 era estéril em soluções, desumana e sem significado histórico e por isso voltaram a Israel não por nacionalismo ideológico mas porque lhes era permitido construir e estar no centro da discussão arquitetónica mundial.

Depois de tomar posse, Karmi reuniu novos especialistas para desenhar um plano de desenvolvimento para Jerusalém. Para ele, a busca de uma identidade nacional deveria ser procurada através da arquitetura. Estes arquitetos não iriam começar do nada, a sua inspiração foi encontrada tanto acima como abaixo do solo. Abaixo do solo procuravam o que restava da sua cultura, acima do solo estava o tecido da arquitetura vernacular palestiniana, encontrada nos povoados da montanha e nos bairros de Jerusalém e que os arquitetos israelitas acreditavam reter uma complexa densidade histórica, como formas fósseis de autenticidade bíblica. E foi assente neste paradoxo, entre o desejo de imitar ou até habitar o estereótipo vernacular árabe e ao mesmo tempo se definir contra a sua cultura, que tentaram encontrar uma identidade para Israel. Os sionistas viam os

164 O nome da pedra é fruto de uma manipulação discursiva, já que, esta não é extraída em Jerusalém, mas sim na Palestina, nos arredores de Hebron e Ramallah. É um paradoxo o facto de o material usado para revestir a Jerusalém judaica ser o mesmo que impulsionou a economia palestiniana.

165 Aqui o estilo pós-modernista emergente fez parte das tentativas de orientalização da arquitetura israelita,

aproveitando um período de incerteza no panorama arquitetónico mundial, as vanguardas fugiram à lógica funcionalista do Movimento Moderno e voltaram a sua obsessão para uma linguagem carregada de símbolos históricos.

COLONIALISMO COMO LABORATÓRIO URBANO 119

palestinianos como o povo que havia chegado depois deles e ao mesmo tempo como os

descendentes da cultura hebraica e da narrativa judaica167.

O fascínio dos arquitetos israelitas pelo vernacular palestiniano foi inspirado também por um enquadramento teórico proeminente na época. A exposição de 1964 Architecture Without Architects, organizada por Bernard Rudofsky, promovia a integração dos princípios presentes na arquitetura vernacular dentro do contexto internacional moderno. Contudo, centrando-se na dimensão formal destas influências, a exposição ignorou o contexto social e político das comunidades responsáveis por este tipo de arquitetura,

demostrando mais interesse na integração do “nobre selvagem”168 (ver figura 92 e 93).

Numa atitude semelhante ao grupo Atbat-Afrique que projetou para a cidade de Casablanca, os arquitetos israelitas nutriam um fascínio orientalista pelo vernacular palestiniano, ignorando o complexo contexto em que este se desenvolveu. Eles assumiram, à partida, que tais formas se haviam desenvolvido organicamente e sem planeamento, como uma

natureza selvagem e irracional169.

Mas para lá desta perspetiva orientalista, que condenou os povoados palestinianos a um permanente subdesenvolvimento alimentado pelo romantismo histórico, estes arquitetos não compreenderam a contradição da sua atitude e os projetos desenhados por eles tiveram como consequência a destruição dos povoados e cidades palestinianas que lhes serviram de inspiração. No caso do Quarteirão Judeu de Jerusalém, apenas vinte por cento os edifícios originais foram conservados e tudo o resto foi refeito de origem, com mais pisos de modo a cumprir os planos do governo, que pretendia acomodar mais pessoas por habitação. Hoje, o quarteirão pode ser descrito como um bairro artificial, etnicamente homogéneo e encerrado, como um parque temático bíblico, separado do resto da cidade por zonas de segurança que permitem a entrada apenas a judeus, turistas e exército.

Estes atos de reconstrução da “cidade unificada” tiveram sempre como consequência a expulsão da população palestiniana das suas terras. O esquema introduzido no Quarteirão Judeu foi aplicado à zona suburbana de Jerusalém. Estes subúrbios não eram considerados colonatos pelo simples facto de se encontrarem dentro da alargada área municipal da cidade. O bairro de Gilo, localizado nos limites de Jerusalém, numa montanha sobre os campos de refugiados circundantes é um dos melhores exemplos da tentativa de

167 WEIZMAN, Eyal. Hollow Land, Verso Books, London, 2007 pp. 41-45

168 Um dos projetos que pretendia unir esta ideia do “nobre selvagem” com a modernidade foi proposto pelo arquiteto israelita, Moshe Safdie, na exposição Architecture Without Architects. Este projeto conjugava a tecnologia construtiva modernista com a estética e a espacialidade das cidades palestinianas e foi um símbolo para esta geração de arquitetos.

120 FERRAMENTAS DA OCUPAÇÃO

Figura 92 – Edifício Habitat 67 do arquiteto israelita Moshe Safdie. Este edifício foi parte integrante das exposições: Architecture Without Architects e Expo 67, esta última realizada em Montreal, Quebec, no Canadá.

COLONIALISMO COMO LABORATÓRIO URBANO 121 Figura 94 – Em cima temos uma maqueta do bairro de Gilo em Jerusalém. Em baixo temos a equipa de arquitetos que nos anos 70 desenhou o bairro. Ao centro desta imagem temos o líder da equipa, Avraham Yaski, o arquiteto que mais tarde recebeu o prémio mais importante da arquitetura israelita. Ram Karmi, o responsável pelo Ministério da Habitação está sentado e com óculos de sol no centro da imagem.

122 FERRAMENTAS DA OCUPAÇÃO

reproduzir um desenho coincidente com o da Cidade Antiga. Este bairro é, segundo o arquiteto que o projetou, Avraham Yaski, uma espécie de continuação orgânica da cidade de Jerusalém, que replica o centro clássico da cidade com a sua escala mais humana, numa arquitetura semelhante a uma eclética aglomeração de elementos, como um museu (ver figura 94 e 95). Este era um modo de domesticar a expansão de Jerusalém, colocando todos os subúrbios dentro dos limites da eternamente unificada capital do povo judeu, não permitindo a abertura para negociações territoriais com a Palestina e fortalecendo os factos

materiais em solo ocupado170.

Epílogo: Jerusalém, Símbolo da Ocupação

De uma perspetiva ocidental, Jerusalém é frequentemente vista como uma inquietante lembrança do passado, lugar de violência colonial e terrorista que mancha a distinção entre o militar e o civil, entre o bem-estar público e a discriminação étnica. Para o mundo, Jerusalém serve quase como um símbolo da ocupação sionista em territórios palestinianos e apesar de ser o centro cultural e religioso de árabes e judeus, esta cidade

representa a segregação e divisão dos dois povos dentro de uma mesma área “unificada”171.

Como símbolo da ocupação, aqui estão reunidos todos os paradoxos das políticas territoriais violentas do Estado de Israel, desde a destruição urbana, à sua reconstrução e

desenho com o recurso ao chamado “arqueologismo”172, um termo utilizado pelo arquiteto

Zvi Efrat para descrever uma colaboração estratégica entre arquitetos e arqueólogos, que escavavam, restauravam e reconstruíam simultaneamente, zonas inteiras da cidade.

Nesta Jerusalém “unificada” por um desenho panótico, que a encerra da Cisjordânia, através da construção de duas cinturas de bairros e colonatos judeus, em redor dos quais passa hoje em dia o Muro (ver figura 98), as políticas de separação são evidentes na distribuição infraestrutural e mesmo urbana, com uma divisão metódica de bairros e pontos religiosos, numa paranoia fragmentadora. Hoje foi atingido o limite projetual de se desenhar uma setorização vertical utópica dentro de uma mesma cidade e até dentro de um mesmo edifício. Este tipo de estratificação social recorda-nos as políticas de Haussmann