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Figura 15 – Corte esquemático que permite compreender a evolução do campo de refugiados, desde a habitação com um piso apenas até ao seu crescimento e densificação.

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Como analisa Michel Agier, em From Refuge the Ghetto is Born24, os campos de

refugiados não foram inicialmente planeados como permanentes, mas ao longo dos anos eles foram-se transformando em lugares com uma identidade local forte, como centro da causa palestiniana de retorno. Estes lugares permaneceram como “lugares sem lugar”, mantendo acesa a chama de regressar a casa e de reconhecimento internacional.

Este processo em constante mutação levou os seus habitantes a reorganizarem a sua vida dentro deste espaço. Numa realidade urbana e social em transformação, os campos estão a modificar como processo urbano. As formas materiais e sociais dos campos são definidas como não autorizadas e não oficiais e os que neles habitam, como ser inferior. Este não reconhecimento e o grande crescimento demográfico levaram a que a limitada grelha dos campos se densificasse e que os abrigos iniciais se expandissem para edifícios de quatro a sete pisos, deixando um espaço mínimo entre eles, lembrando a malha urbana do Casbah árabe.

Podemos dizer que o estatuto de lugar, de identidade e resistência do povo palestiniano, complementado com uma grelha complexa e impenetrável levou a que as forças ocupadoras lessem o campo de refugiados como o maior problema urbano dos Territórios Ocupados, como uma espécie de “Jihad dos edifícios” em crescimento. Como resposta à consolidação destes ghettos, as forças militares de Israel, sentiram a necessidade a reorganizar as redes urbanas de modo a torná-las mais facilmente controláveis a partir de dentro e para isso desenvolveram uma série de processos que vão desde a “destruição criativa”, à imagem do que fez o Marechal Thomas Robert Bugeaud em Argel, até à completa reorganização da sintaxe urbana dos campos, penetrando-os através do domínio doméstico e não do público.

Prólogo: Jaffa, 1936

Primeiro falaremos da intervenção militar em Jaffa (em 1936) onde durante os primeiros meses da “Revolta Árabe” as autoridades do Império Britânico cortaram duas ruas que se intersetavam no centro da cidade antiga (Medina), que viam como espaço não legível, para ai, poderem entrar operações militares em regime de cidade aberta (mais

ordenada e manobrável) como conta James C. Scott em Seeing Like a State25.

Com o foco de revolta instalado no porto de Jaffa, lugar encerrado pelos manifestantes da cidade antiga, um conjunto de casas e becos tornaram-se foco de revolta,

24 HAYNES & HUTCHISON, Bruce, Ray. The Ghetto, Westview Press, Colorado, 2012 pp. 277-278 25 SCOTT, James. Seeing Like a State, Yale University, London, 1998 p.53

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até as autoridades britânicas terem medo de entrar na cidade e reabrirem o porto. O então alto-comissário britânico, Arthur Wanchope, com receio de enviar as tropas para uma batalha dentro da densa malha urbana da cidade e enfrentar as consequências económicas e políticas decidiu, numa primeira fase, pavimentar, sob a máscara de intervenção municipal, duas ruas que se intersectavam no antigo centro de Jaffa, permitindo a passagem de carros armados e infantaria. Mais tarde, em Junho de 1936, as forças britânicas romperam pela cidade antiga demolindo várias casas e abrindo espaço para uma nova estrada larga que uniria a zona este à zona oeste, por supostos motivos sanitários. Esta manobra foi permitida por um apelo ao estado de emergência, alegando motivos de segurança, já que,

era uma intervenção ilegal (ver figura 17

)

.

Numa segunda fase da operação, completada a 29 de Junho, uma nova rua foi alarga na união norte-sul. 237 casas foram demolidas na chamada Operação Âncora – o Governo Mandatário Britânico decidiu rasgar um largo boulevard em forma de âncora no

centro da cidade antiga (ver figura 18). O carácter higienista do processo tornou clara a

operação militar, onde a abertura e a melhoria das condições urbanas da Cidade Antiga de Jaffa, através da construção de ruas mais largas e da demolição de edifícios sem condições sanitárias, foram uma consequência da necessidade de aumentar a segurança pública e de se livrarem da congestão não saudável. Esta zona da cidade era retratada como um ninho de

foras da lei e a arquitetura tinha aqui o papel de lhes facilitar os movimentos.26 A cidade

antiga era descrita como um conjunto de becos tortuosos e ruas apertadas, onde os cul-de-

sac27 tornavam as operações militares extremamente complexas.

Tudo isto demonstra-nos, como para Wanchope, o caos espacial leva ao caos social. A velha Jaffa com os seus becos e a sua arquitetura precária representava uma ameaça à segurança do império, pelo que a sua abertura permitiu a circulação de ar, de soldados e eventualmente de mercadorias. A Operação Âncora foi tanto uma intervenção militar como urbana, não havendo uma clara demarcação entre as duas esferas como explica James

C. Scott.28

26 MISSELWITZ & WEIZMAN, Philip, Eyal. “Military Operations as Urban Planning” 2003. In http://www.metamute.org/editorial/articles/military-operations-urban-planning

27 Expressão de origem francesa – O significado literal da palavra é fundo de saco, mas é utilizada para designar um beco-sem-saída ou uma rua sem saída.

COLONIALISMO COMO LABORATÓRIO URBANO 51 Figura 16 – Vista aérea do Casbah de Jaffa, na Palestina em 1936, antes

da Operação Âncora.

Figura 17 – Vista aérea do Casbah de Jaffa, na Palestina em 1936, depois da Operação Âncora.

Figura 18- Operação Âncora: as Forças Armadas Britânicas com o uso de explosivos rasgaram boulevards na densa malha urbana do Casbah de Jaffa, em 1936, para assim melhorarem o controlo estratégico desta cidade portuária.

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