3. ETAT DES LIEUX : LES APPROCHES SOCIO-ANTHROPOLOGIQUES DES
3.5 UNE APPROCHE COMPREHENSIVE DES COMPORTEMENTS DE MOBILITE
3.5.3 Mobilité quotidienne et inégalités sociales
Michelle Camargo
Respiro e persigo Uma luz de outras vidas. E ainda que as janelas se fechem, meu pai É certo que amanhece.
(Hilda Hilst, A obscena senhora D.)
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Introdução
Este capítulo se dedica ao resgate de memórias presentes na biografia de Benedita Fernandes e nas fotografias do antigo sanatório que leva seu nome, com vistas à compreensão do protagonismo feminino na elaboração e execução de associações filantrópicas, pouco antes da metade do século XX, que foram responsáveis pela criação das primeiras políticas públicas de saúde mental no noroeste do estado de São Paulo.
Durante os primeiros anos de 1930, época da construção das primeiras casas assistencialistas para crianças, idosos e os considerados “doentes mentais” na cidade de Araçatuba (PINHEIRO; BODSTEIN, 1997), tais associações filantrópicas construíram relações com o movimento espírita local. Assim, a história do hospital psiquiátrico Benedita Fernandes, locus desta pesquisa, mostra-se atravessada pela conjectura política e social da época de sua fundação, pela relação
com os movimentos religiosos espíritas e pela história das associações filantrópicas no Brasil.
2 A trajetória de Benedita Fernandes
Antes de adentrar na trajetória de Benedita Fernandes, para lançar luz sobre a história do hospital psiquiátrico, é necessário definir o que se entende por trajetória.
Suely Kofes (2001), em etnografia sobre a trajetória de Consuelo Caiado, avaliando a impossibilidade de se contar uma história de vida a partir dos relatos da própria pessoa biografada – forma pela qual a antropologia clássica se utilizou do método biográfico –, evidencia ao leitor que não pretende reconstruir a vida de Consuelo em narrativa, mas, sim, focar seu interesse nas experiências do sujeito de pesquisa. Ao perseguir a história de vida de Consuelo Caiado através de sua trajetória, por meio de narrativas plurais, contadas por outros sujeitos que não ele, a autora afirma: “[...] penso, portanto, que posso situar melhor o que estarei aqui chamando de trajetória: o processo de configuração de uma experiência social singular” (KOFES, 2001, p. 27).
Assim como na narrativa sobre a trajetória de Consuelo (KOFES, 2001), dada a impossibilidade de se narrar a história de vida de Benedita por ela mesma, tentei priorizar, neste capítulo, sua trajetória social, ou seja, no que se refere ao seu papel de fundadora, articuladora e gestora de uma entidade filantrópica destinada à prestação de serviços médicos, sanitários e educacionais para a população mais pobre, a partir da década de 1930, na cidade de Araçatuba, no interior de estado de São Paulo. Faço-o com o intuito de apresentar ao leitor a trama que levou à construção do sanatório, mais tarde transformado em hospital psiquiátrico.
Em outras palavras, a experiência social de Benedita é singular, visto que ela foi a responsável pela criação e gestão de práticas assistencialistas destinadas às classes populares, assim como aconteceu com outras entidades filantrópicas e assistencialistas criadas por mulheres (MOTT, 2005).
Pouco se sabe sobre a trajetória de Benedita Fernandes. Dona Benedita, nome pelo qual é retratada, foi sempre descrita pelos informantes com muita afetividade. Essa afetividade, presente nas falas dos funcionários e dos pacientes do hospital, também se faz presente nas fotografias e nas cartas de crianças e adultos que moraram nele.
Nas fotografias levantadas no acervo iconográfico do Hospital Benedita Fernandes (HBF), podemos ver duas crianças que viveram no orfanato, conviveram com Benedita e registram seu afeto, anexando às fotografias algumas inscrições como esta: “À Mãe Dita, com nosso afeto”.
Além das cartas e fotografias do acervo do HBF, levantadas durante os anos de 2014 a 2017, que remetiam a essa identificação afetiva em relação a Benedita Fernandes, sua história de vida se confunde com as histórias das mulheres que moravam no chamado “Abrigo”, casas destinadas às mulheres e aos homens que passaram por um longo período de institucionalização. Em 2015, tive oportunidade de conversar com Laurinha, moradora do Abrigo desde a década de 1990, quando foi inaugurado.
Enquanto conversávamos sobre os itinerários relacionados à saúde mental de Laurinha, sua trajetória de vida até aquele momento e o que ela fazia no curso de seu dia, Laurinha trouxe-me uma toalha bordada, juntamente com outros panos que ela costurava, e pôs-se a falar sobre seu bordado, contando que havia aprendido a bordar observando a toalha em questão e dizendo-me que aquele objeto teria sido bordado por Benedita Fernandes, sua tia.
Ao buscar averiguar tal informação do parentesco entre Laurinha e Benedita junto às assistentes sociais, conhecedoras da história de vida de Laurinha, pude logo compreender que essa informação era uma história recriada por Laurinha, em suas narrativas em delírio, na (re) elaboração das rupturas de seus laços familiares consequentes de longos anos de internação.
Assim, a história (re)construída por Laurinha sobre seu parentesco com Benedita Fernandes, que ela chamava de “tia Dita”, demonstra o quanto a vida de Benedita, ou a representação do que se criou sobre ela, se atrela a memórias das moradoras do ex-sanatório, bem como a um imaginário social que faz com que ela seja sempre citada quando adentramos no universo desse hospital psiquiátrico.
O próprio campo me levou a querer compreender melhor a história de vida de Benedita e como ela está relacionada simbolicamente à história da instituição, seja nas histórias de vida de outras pessoas que por ali passaram, nas narrativas de mulheres moradoras do hospital, ou mesmo nas inscrições encontradas nas fotografias.
Nesse sentido, contar o que se narra sobre tia Dita também auxilia na compreensão da relação entre associações filantrópicas, o movimento espírita e a psiquiatria, presente no momento em que o hospital psiquiátrico Benedita Fernandes foi construído. Essa tríade,
na década de 1940, quando da fundação do hospital, foi a responsável pela implementação das primeiras políticas públicas de saúde mental na cidade de Araçatuba, no interior do estado de São Paulo.
Apesar das inúmeras menções a Benedita Fernandes por parte de pacientes e de gestores, permanecem escassas as referências bibliográficas acerca dessa personalidade. Há apenas um livro sobre ela, intitulado A dama da caridade: apontamentos sobre Benedita Fernandes (CARVALHO, 1987), de caráter religioso, impresso por uma editora espírita e que conta – através das atas de fundação do sanatório, entrevistas com os espíritas que conviveram com tia Dita e mensagens psicografadas1 por ela – a trajetória de uma mulher vista como uma
médium ou medianeira.O sujeito médium ou medianeiro, segundo a
cosmologia espírita, é alguém que possui a capacidade de se comunicar com os espíritos (CAVALCANTI, 1983).
Tal mediunidade foi responsável, segundo Carvalho (1987), por uma visão espiritual, um tipo de transe consciente, vivenciado por tia
Dita quando se encontrava confinada na cadeia de Araçatuba. Nesse
episódio, a médium teria estabelecido contato com espíritos, que lhe ofereceram a redenção espiritual no cuidado com os mais necessitados em troca da cura de sua loucura. Desde então, tia Dita teria sido libertada da cadeia e iniciado seus labores.
Logo no início da segunda edição do livro de Carvalho (1987), explicita-se uma preocupação nas considerações da editora em narrar um episódio ocorrido dentro de uma sessão mediúnica, em um centro espírita na cidade de Penápolis, no interior de São Paulo.
Segundo a narrativa, o espírito de Benedita Fernandes, por meio de um transe mediúnico, teria feito um pedido de reedição do presente livro em março de 1987, bem como a publicação de outro livro, sobre a vida de um dos membros de tal centro espírita, líder do movimento espírita local, que teria convivido com ela (CARVALHO, 1987).
Segundo o relato da editora, o membro do movimento espírita que estaria naquela sessão mediúnica teria negado tal biografia, o que teria gerado uma reação do espírito de Benedita Fernandes, que insistia na necessidade da publicação de biografias de pessoas que teriam lhe ajudado em vida:
1 “A psicografia é uma forma de mediunidade que ocupa lugar importante no
Espiritismo. Sua origem é simultânea à constituição dessa religião [...]. Em estreita ligação com o Estudo, a psicografia afirma num outro plano a valorização da palavra escrita” (CAVALCANTI, 1983, p. 121).
“Então, hei eu de ficar aí, sem pai nem mestre, solta no espaço, para que não vejam a mão que me sustentou na desgraça, em meio às quedas morais e a insânia, só porque o senhor não permite? Há de ver que para a humildade há medida, e que as flores servem para ficar na ponta dos galhos e não sobre o chão” (CARVALHO, 1987, p. 8).
A publicação de tal mensagem, atribuída ao espírito de Benedita Fernandes, logo no início do livro, permite compreender a importância do movimento espírita local na trajetória de Benedita Fernandes, bem como a influência espírita dentro das dinâmicas e terapêuticas do próprio HBF. O referido livro, que narra a história de Benedita, é citado tanto nos planos de ação terapêutica e gestões elaborados pela equipe técnica do HBF quanto no conteúdo do site2 do HBF, que resgata a história de Benedita para explicar a própria história.
Deste modo, a utilização da obra A dama da caridade (CARVALHO, 1987) no website do hospital, nos planos de ação elaborados pela equipe técnica, bem como nas memórias dos funcionários – que me indicaram o referido livro no primeiro dia de campo, como fonte historiográfica de grande relevo – demonstra como esse contar da história do HBF é indissociável do contar da trajetória de Benedita, dos assistencialismos das entidades filantrópicas e do movimento espírita que a ela se atrelam.