As primeiras comunidades de hippies emergiram em São Francisco e Nova York, em 1966, quebrando radicalmente com as convenções das gerações anteriores e da sociedade de consumo. Experimentavam modos de vida desregrados, partilhavam as mesmas opiniões e eram companheiros itinerantes. Pouco depois, as primeiras Cooperativas de Habitação surgiram em Londres, Amesterdão, Hamburgo e Stockholmo, sobretudo para estudantes. Outros membros da Beat Generation andavam em carrinhas Volkswagen convertidas, seguindo figurativamente o rasto descrito no romance de Jack Kerouac, On the Road. Nas suas grandes viagens, descobriram a adaptabilidade dos objectos do Terceiro Mundo para os seus próprios usos, assim como almofadas e têxteis da Índia. O Whole Earth Catalogue, que apareceu em Inglaterra em 1968, desde cedo disponibilizou uma grande selecção destes objectos e materiais. Os interiores improvisados correspondem a necessidades espontâneas de um modo de vida comunal alternativo. Muitos deles eram enfaticamente práticos como, por exemplo, as prateleiras feitas com caixotes de fruta. A transferência de objectos de contextos não domésticos, assim como demonstraram os irmãos Castiglioni, nos anos 1950, também conduzem a novas ideias e soluções duradoiras. Dois destes exemplos foram desenvolvidos pelo Atelier A, composto por François Arnal e um grupo de artistas e designers de Paris, durante os anos 1960: uma cadeira loungue-chaise giratória com rodízios em vez de pernas; e uma mesa com pernas de aço cromado, com diferentes alturas e encaixes ajustáveis.
Nos anos 1960, um mercado amplo para produtos de design comerciais, assim como para a música e a moda, emergiram entre os consumidores jovens.
Instalam-se novos modelos de distribuição, como Monoprix e Prisunic, em França. Em 1968, a Prisunic edita o seu primeiro catálogo de venda por correspondência de móveis Prisunic, com a participação de Terence Conran, que desenha assentos e mesas com arrumos para esse catálogo e anos depois passa a ser o fundador da
Habitat. Com os catálogos de venda proporcionava-se que o design fosse acessível a todos, e a preços acessíveis. Surgem assim peças de mobiliário e objectos para um público jovem e para um novo estilo de vida.
A apreciação do quotidiano e a cultura Pop16 quebraram as barreiras entre arte e
comércio, tornando os objectos frequentemente não mais duráveis do que os alternativos para estudantes. Por exemplo, uma cadeira de cartão desdobrável, semelhante à desenhada por Peter Murdoch, produzida em grande número em 1964, tinha supostamente uma duração média de três a seis meses. As ideias de designers e artesãos eram alimentadas pelos media populares: revistas, posters e televisão. Além disso, as artes influenciaram o design assim como a cultura e o design influenciam a arte. Por exemplo, a cadeira Sacco, um descendente da almofada de chão oriental, desenhado em 1968 por Piero Gatti, Carlo Paolini e Franco Teodoro, ganhou o seu grande sucesso como arte aplicada em parte devido à sua afinidade com as Soft Sculptures, de Claes Oldenburg. Os mesmos ditames das poltronas insufláveis, camas, candeeiros e paredes divisórias, introduzidos em Paris por Khanh Quasar, ou a poltrona Blow dos designers italianos de Pas, d`Urbino e Lomazzi, foram igualmente populares na sala de estar ou na piscina. Aqueles que não podiam pagar peças de design em lojas exclusivas, não precisavam de delegar o seu conforto, bastava ter fôlego para encher os insufláveis, que estes respondiam às mesmas funções.
Os materiais elásticos foram responsáveis por uma maior flexibilidade dos novos designs. A grande aceitação destes materiais reside no optimismo geral em relação aos novos desenvolvimentos tecnológicos encontrados, particularmente a produção de plástico, tanto vazado, como moldado por injecção ou espuma. As novas
16 Cultura Popular, cultura de massa ou cultura pop, é a cultura existente numa sociedade moderna. É o
resultado de uma interacção contínua entre o produto das indústrias do cinema, televisão, música e editorais e as pessoas pertencentes à sociedade que consome os seus produtos.
(http:\\pt.wikipedia.org/wiki/pop)
fig. 83 - Peter Murdoch, cadeira de cartão Spotty, 1970.
possibilidades oferecidas pelos plásticos iam para além de um novo sistema de formas, na tentativa de criar um novo sistema de vida. As novas formas exigiam outra concepção de sentar, de comunicar com os outros, no fundo, uma nova e sofisticada concepção do lar.
O entusiasmo público pela exploração do Espaço, desde a introdução do Sputnik em 1957, o primeiro satélite artificial, até à primeira viagem espacial do homem, inspirou designers e arquitectos a criarem mobiliário e ambientes de habitar que ofereciam um estilo de vida próprio, livre de constrangimentos espaciais. Em 1967, o ano em que Stanley Kubrick introduziu o seu filme 2001: A Space Odyssey, o designer industrial Raymond Loewy projectou o interior da estação espacial, a Skylab.
O tempo era propício ao desenvolvimento de cadeiras que se assemelhavam a cápsulas espaciais; quartos completamente mobilados sobre rodas; automóveis como salas de estar, equipados com invenções de auto-sustento; e formas de sentar modulares, que eram tão flexíveis que implicavam a capacidade de acomodar o ser humano.
fig. 84 - Pas, d`Urbino e Lomazzi, Blow, 1967. (www.retrotogo.com)
fig. 85 - Khanh Quasar, Pouf, 1968.
(www.objetdeco.com)
fig. 86 - Piero Gatti, Sacco, 1968. (Couturier, Élisabeth, 2006, p. 162)
fig. 87 - Raymond Loewy, design do interior da estação espacial Skylab,1969-72. (Charlotte e Peter Fiell, 2001, p. 343)
fig. 88 - Piero Gilardi, Guido Drocco, Franco Mello, Mod Flad, 1970. (Schwartz-Clauss, Mathias, 2002)
O espaço amplo e indistinto era o pré-requisito para a concretização de muitas ideias para interiores nos anos 1960 e 1970, e o insucesso de algumas era atribuído não só a uma falta de compreensão por parte dos moradores, mas também à falta de interiores adequados. As unidades de parede tiveram grande sucesso e formavam uma grande variedade de sistemas modulares. Por vezes o mobiliário encontra-se na fronteira entre nómada e sedentário, quando não está preparado para desmontar e mover facilmente, assume o papel de parede divisória, no interior de pequenas habitações.
A década de 70 é a da conquista do espaço, do desenvolvimento da electrónica e da chegada das tecnologias de ponta. Este período caracteriza-se por um grande impulso da criatividade, relacionada com as revoluções que se produziram.
Os novos materiais e as novas tecnologias convertem-se no suporte ou no pretexto de projectos totalmente diferentes. Os designers apropriam-se das matérias plásticas e dos novos materiais: estratificados, PVC insuflável, papel maché, fibra de vidro, aço inoxidável, espuma de poliuretano, etc, e assim como Joe Colombo, desenham cadeiras de molde, injectadas numa só peça.
Reinventa-se o espaço e desaparecem as convenções e as tradições. Pensa-se em termos de comodidade, liberdade individual e personalização. Em total contraposição com os esquemas anteriores, as cores eleitas para o fabrico de móveis são as cores fortes.
Surge o móvel por elementos, em kit, universal e multifuncional. O mobiliário passa a ser perecível ou mesmo descartável.
fig. 89 - Marco Zanuso e Richard Sapper, cadeira de criança Modelo K 4999, 1964. (www.moma.org)
fig. 90 - Technisches Büro Snaidero, unidade de cozinha flexível Isola, 1969.