Como já relatamos, o discurso é um momento da prática social e se materializa nos textos. A compreensão dos aspectos ontológicos traz à luz algumas reflexões sobre como pesquisar, como elaborar conhecimento a partir de novas formas de enxergar o mundo. Podemos relacionar o mapa ontológico do Realismo Crítico, em termos do nível de abstração, com a estrutura social e discursiva, conforme Figura 2.
Figura 2 - Relação entre estrutura social e discursiva
Nível do social Nível da linguagem
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A ascensão na carreira depende de fatores como a escola de formação (EsFCEx, AMAN, EsSLog, EsSEx, IME), a Arma (Cavalaria, Infantaria, Artilharia e outras, por exemplo), o Quadro (Quadro Complementar de Oficiais, Quadro de Engenheiros Militares), o Serviço (Serviço de Intendência, de Saúde), os cursos realizados pelo/a militar, as experiências, o desempenho ao longo da vida profissional, dentre outros. Ressalte-se que as oportunidades de acesso a esses elementos são diferentes para militares. Existem cursos específicos para quem estudou em escolas específicas que dão acesso a cursos específicos, que por sua vez dão acesso a postos hierárquicos específicos, o que gera possibilidades diferenciadas de ascensão.
Estrutura social Práticas sociais Eventos Sistema semiótico Ordens do discurso Textos
Fonte: baseado em Fairclough (2003), Ramalho e Resende (2011) e Silva e Ramalho (2008)
A figura anterior indica que a estrutura social está no mesmo nível de abstração que o sistema semiótico, as práticas sociais no mesmo nível que as ordens do discurso e os eventos no mesmo nível dos textos38. Isso implica que as pesquisas em ADC analisam esses elementos e suas imbricações, a linguagem em suas dimensões social e discursiva, partindo de algo concreto, os textos. É na superfície deles que os/as autores/as deixam as pistas de suas crenças e ideologias, suas marcas de identificação, suas identidades. Por essa razão, a análise que aqui faço intenta compreender a linguagem em suas macro e microestruturas.
Textos são quaisquer exemplos de linguagem em uso (FAIRCLOUGH, 2003), portanto passíveis de muitas interpretações. Como material empírico, segundo Santos (2017, p. 43),
todo texto é um modo semiótico-discursivo representativo, ao articular discursos que operam traços que, por sua vez, dizem bastante acerca de quem o produziu; assim sendo, quando um texto é construído, seu/sua produtor/a sempre age socialmente no mundo, pondo em suas representações (desse mundo em que vive ou que imagina) elementos que conformam o texto como particular em sua tessitura: todo o processo é permeado por visões particulares do mundo (ou seja, discursos) que influem diretamente nas escolhas a serem feitas nas representações realizadas. Assim, podemos afirmar que todo texto se alinha a um (ou mais) discurso(s), que corresponde(m) a entendimentos particulares acerca de algum aspecto do mundo social, uma vez que seu/sua produtor/a encontra-se inserido/a nos constantes embates da sociedade [...]. Nenhum texto é neutro, pois sempre somos impelidos/as a assumir posturas diante dos temas da sociedade.
Dito isso, importa enfatizar o potencial de significados que os textos contêm e seus efeitos no mundo. Ação, representação e identificação compõem as significações textuais, conforme veremos a seguir. Tais significados apresentam-se sempre envoltos em questões de poder e contribuem para a divulgação de ideologias, constituição de identidades. Por essa
38 O sistema semiótico pode ser interpretado como aquele que abrange tipos diversos de linguagem, para além da
linguagem verbal. Neste estudo, enfocamos apenas a linguagem verbal nos textos selecionados para análise. Porém, o potencial da linguagem vai além do verbo, inclui várias outras semioses. As ordens de discurso, que equivalem, em termos de abstração, às práticas sociais, medeiam o sistema e os textos e são definidas por Fairclough (2003) como uma rede de práticas sociais no aspecto linguístico. Elas estão ligadas aos campos do conhecimento, assim selecionam certas possibilidades linguísticas para certas áreas da vida social e excluem outras, em uma espécie de regulação. Temos as ordens de discurso jurídico, da educação, do militarismo, entre outras, cada uma com o próprio léxico. Seus elementos são os gêneros, os discursos e os estilos.
razão, como analista de discurso, parto dos textos que compõem o corpus de análise para tentar compreender minhas inquietações.
O significado acional 2.2.1
Conforme já mencionado, textos constroem significados das coisas, das pessoas, das instituições, eles representam aspectos do mundo; interpretam as relações sociais entre os participantes de eventos sociais, as atitudes, os desejos e os valores desses participantes; unem partes de textos de maneira coerente e coesa e relacionam textos com o contexto de produção (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004). Dessa forma, textos constroem os significados acional, representacional e identificacional, os quais aparecem simultaneamente, isto é, ao mesmo tempo em que agimos por meio do discurso, representamos o mundo, com nossos valores e crenças, e identificamos a nós mesmos/as e a outrem (NEVES, R., 2013).
Pontua Fairclough (2003) que a ação ocorre por meio dos gêneros; a representação por meio dos discursos e a identificação por meio dos estilos. Gêneros são formas mais ou menos estáveis de agir e interagir discursivamente. Pesquisar significados acionais é o mesmo que perquirir nos textos, que realizam gêneros, a linguagem na e da (inter)ação que acontece nos eventos sociais e a interdependência com os outros elementos que constituem a vida social. Isso, é claro, inclui o poder. Fairclough (2003) relaciona a ação com a relação com e sobre os outros e com o poder (eixo do poder, no sentido foucaultiano)39. Os regulamentos e o manual que compõem o corpus deste estudo são exemplos de gêneros. Eles encarnam a ação institucional sobre seus integrantes, na medida em que prescrevem o funcionamento de escolas e descrevem o processo de entrada (concurso público) de militares. Dessa forma, podemos analisar os arranjos de poder que se materializam nesses documentos, articulados aos discursos e aos estilos.
Os estudos dos gêneros discursivos abarcam uma gama de perspectivas teóricas e metodologias de análise. Lembra Marcuschi (2008. p. 149) que gêneros possuem um amplo potencial passível de discussão e distinção. Ele apresenta definições oriundas de alguns prismas, segundo os quais gêneros podem ser “uma categoria cultural, um esquema cognitivo,
39 Fairclough (2003) estabelece diálogo com Foucault (1994) ao propor a relação entre os elementos das ordens
do discurso, seus respectivos significados e os eixos de Foucault. Assim Silva (2019, p. 43) sintetiza tal aproximação: (i) significados acionais (gênero) implicam relação de controle sobre os outros (eixo do poder) – o que envolve as funções interpessoal e textual da linguagem como ação; (ii) significados representacionais (discurso) implicam relação de controle sobre as coisas (eixo do conhecimento) - o que envolve a função ideacional da linguagem como representação; (iii) significados identificacionais (estilo) implicam relação do indivíduo consigo mesmo (eixo da ética) – o que envolve também a função interpessoal da linguagem como
uma forma de ação social, uma estrutura textual, uma forma de organização social, uma ação retórica”, e ressalva que “[...] cada um desses indicadores pode ser tido como um aspecto da observação”. Acrescenta à discussão sua própria concepção de gêneros não como estrutura formal, mas em termos de função, propósito, ação e conteúdo (MARCUSCHI, 2008).
Gêneros podem ser vistos como uma ação discursiva do ser social com objetivos variados, situada socio-historicamente, atrelada a relações de poder (MARCUSCHI, 2008), o que se alinha à proposta fairclougheana. Vale observar que os gêneros necessitam sempre de um suporte que os apoie e, dada a dinamicidade da vida pós-moderna, mesclam-se a outros gêneros, formam cadeias de gêneros, recontextualizam-se e se transformam.
A mistura de gêneros traz em seu bojo mudanças significativas que podem confundir as pessoas, uma vez que o hibridismo pode camuflar o gênero em seu propósito comunicativo, o que pode resultar em um gênero ser interpretado como outro.40 Por essa razão, Fairclough (2003) aconselha, na análise dos gêneros, uma criteriosa observação da atividade (o fazer discursivo), das relações sociais entre os participantes e das tecnologias de comunicação. A atividade, porque diz respeito à ação, cerne da motivação para o estudo dos gêneros; as relações sociais, porque uma ação sempre acontece com participantes envoltos em relações determinadas por posições sociais atreladas às lutas pelo poder; tecnologias de comunicação, na medida em que dão suporte aos gêneros, principalmente no mundo pós-moderno.
O significado representacional 2.2.2
A multifuncionalidade da linguagem propicia o enlace entre os três significados, os quais figuram simultaneamente nos textos. Ao focalizar o significado representacional, estamos buscando a forma como os/as autores/as dos textos apresentam os atores, os eventos, o mundo, que recursos linguístico-discursivos utilizam, que representações constroem. Discursos são, pois, representações de visões diferentes de mundo. É possível, por exemplo, um texto representar uma mulher somente como vítima ou representá-la como protagonista. Isso depende não somente da opção do/a autor/a do texto, mas de uma gama de elementos que estão aí imbricados, como objetivos, relações de poder, posições sociais, estruturas, contexto. Isso porque os discursos presentes nos textos podem estar em simetria, alinhando-se, ou em
40
Em meu trabalho de mestrado (NEVES R., 2013), investiguei aspectos da mobilização grevista dos/as professores/as da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Ao analisar a cobertura do jornal Correio Braziliense, foi possível identificar ação publicitária travestida de notícia, o que é conhecido como jornalismo transgênico (MARSHALL, 2003). Isso em função da hibridização e do desencaixe dos gêneros, tão comum na sociedade mediada pelas tecnologias. Considero problemático interpretar como notícia um texto que é publicitário, uma vez que tais gêneros têm objetivos extremamente diferenciados.
disputa, competindo, assim os recursos utilizados indicarão a prevalência de um discurso sobre o outro.
Por meio do significado representacional, é possível identificar em textos visões particulares repetidas e reiteradas, o que pode ter como efeito potencial a aceitação do/a leitor(a)/interlocutor(a) dessa visão particular como uma visão geral, compartilhada e verdadeira, uma vez que
os grupos mais poderosos e seus membros controlam ou têm acesso a uma gama cada vez mais ampla e variada de papéis, gêneros, oportunidades e estilos de discurso. Eles controlam os diálogos formais com subordinados, presidem reuniões, promulgam ordens ou leis, escrevem (ou mandam escrever) vários tipos de relatórios, livros, instruções, histórias e vários outros discursos dos meios de comunicação de massa. Não são apenas falantes ativos na maior parte das situações, mas tomam a inciativa em encontros verbais ou nos discursos públicos, determinam o “tom” ou o estilo da escrita ou da fala, determinam seus assuntos e decidem quem será participante e que será receptor de seus discursos. Deve-se ressaltar que o poder não apenas aparece ‘nos’ ou ‘por meio dos’ discursos, mas também que é relevante como força societal ‘por detrás’ dos discursos (VAN DIJK, 2010, p. 44).
O autor enfoca a centralidade da linguagem, dos discursos e do controle destes na sociedade pós-moderna, em que os meios de comunicação ganharam espaço. Nesse sentido, os discursos são tecnologizados (FAIRCLOUGH, 2003) para servirem aos fins dos grupos e a seus objetivos. Isso porque a representação conecta-se ao conhecimento e ao poder de controle sobre as pessoas (o eixo do saber, de Foucault). O trabalho do/a pesquisador/a é, então, identificar diferentes discursos nos textos. Para isso, pode analisar como um discurso está representando alguma parte em especial do mundo social, e se está representando-a de uma perspectiva particular. Uma alternativa é, na análise textual, identificar as principais partes do mundo (incluindo áreas da vida social) que estão representadas – os temas principais; e identificar o ângulo ou o ponto de vista particular do qual eles são representados (FAIRCLOUGH, 2003, p. 129).
Representação dos atores sociais, seleção lexical, dentre outras, são categorias profícuas para dar conta de investigar esses aspectos em textos41. A ação social, isto é, a ação que acontece na vida real, nem sempre corresponde à ação linguística (VAN LEEUWEN, 2008). Assim, nem sempre a ação será textualmente atribuída a um ator, o que influencia a construção da agência e, consequentemente, a mensagem. A teoria da representação dos atores sociais possui cabedal teórico capaz de trazer a lume minúcias do significado
representacional. Esse significado corresponde à metafunção ideacional da LSF, uma vez que esta codifica a experiência no mundo. Dessa forma, a análise textual baseia-se nos constituintes da oração e na forma como figuram no texto (ver Capítulo 5), se ativos ou passivos, protagonistas, vítimas, o que condiz com o que discutimos nesta seção.
O significado identificacional 2.2.3
A identificação refere-se às relações com a própria pessoa, à ética (FAIRCLOUGH, 2003). Liga-se ao uso que fazemos da linguagem para dizer um pouco de nós mesmos e dos outros. Qualquer texto contém significados acerca do/a autor/a, de suas visões de mundo e de suas afinidades, de como ele/a é, assim como também de outras pessoas com e de quem ele/a fala. Dessa maneira, “a linguagem contribui para a formação de identidades sociais ou pessoais particulares e para a identificação de outras pessoas e grupos sociais em textos” (RAMALHO; RESENDE, 2011, p. 68).
Os significados representacional e identificacional se interpenetram e se influenciam. Isso implica que, dada a dialética entre os significados, em um texto, discursos (faceta da representação) e estilos (faceta discursiva do ser) internalizam-se. Dessa forma, as representações podem influenciar a construção e a negociação das identidades, e estas, por sua vez, podem influenciar novas representações, as quais podem legitimar ou questionar tais representações. Identidades estão, portanto, concatenadas com o eixo do ser ou do sujeito (FOUCAULT, 1994) e podem ser investigadas mediante categorias que focalizem os estilos.
Identidades não são entidades fixas e imanentes. “Somos sujeitos de muitas identidades. Essas múltiplas identidades sociais podem ser, também, provisoriamente atraentes e, depois, nos parecerem descartáveis; elas podem ser, então, rejeitadas e abandonadas. Somos sujeitos de identidades transitórias e contingentes” (LOURO, 2000, p. 12). Por essa razão, as identidades são passíveis de reinvenção, sempre. Ocorre que, nos textos, muitas vezes, um aspecto das identidades de um grupo é ressaltado como se fosse o único, o que definiria esse grupo. Não se leva em conta a fluidez e a multiplicidade das identidades. Em relação às identidades da mulher militar, essa concepção (como fixa e generalizada, “toda mulher é assim”) é muito comum na instituição, nas conversas do dia a dia, nos bate-papos de corredor. Circula uma visão da mulher baseada em estereótipos de gêneros, dando a impressão de que a militar não passou por um treinamento nem tem capacidade de assimilar habilidades exigidas dos outros militares. Isso, no entanto, entra em conflito com as representações oficiais, presentes nos documentos que regulam a vida militar
(ver Cap. 5), como também nas narrativas das militares entrevistadas (ver Cap. 4). O interesse é, então, cotejar tais percepções e realizar uma crítica explanatória (BHASKAR, 1998), o que pode resultar em caminhos para identidades e representações talvez mais valorizadas.
2.3 Discurso em seus microaspectos: Análise de Discurso Crítica e Linguística Sistêmico-Funcional
A ADC, como ciência transdisciplinar, propicia diálogos com outros campos do saber, a exemplo da LSF. Esse enlace, profícuo teórica e metodologicamente, é favorável à compreensão mais ampla do objeto de estudo, já que enfoca as duas dimensões da linguagem: exterioridade e interioridade. Dessa forma, é possível trazer a lume discussões sobre como questões sociais amplas são transpostas para o plano linguístico e como recursos linguísticos podem interferir nas concepções que temos das questões sociais. A partir desse diálogo, pesquisadores/as podem “refinar seus estudos”, a partir do foco (da LSF) nas escolhas linguísticas (registro) para (inter)agir em um contexto de cultura (gênero) e do foco (da ADC) nas ordens do discurso e nas relações de poder que forçam essas escolhas linguísticas (CARVALHO, A., 2016, p. 87).
Isso porque a LSF tem uma compreensão da linguagem como sistêmica e funcional simultaneamente. Sistêmica na medida em que a língua é vista como rede de sistemas linguísticos, utilizados pelas pessoas em suas interações com as outras pessoas, nas quais constroem significados (MARTIN; MATTHIESSEN; PAINTER, 2010). Em outras palavras, esse uso da língua não é aleatório, ele segue regras de um sistema as quais permitem que os interlocutores consigam compreender e enviar mensagens, interagindo. É funcional porque explicita as estruturas que concorrem para que um texto construa significados. O foco é, dessa feita, descrever o funcionamento da língua e os significados que ela realiza.
Para Halliday e Matthiessen (2014, p. 25), de maneira mais ampla, usamos a linguagem para (i) realizar nossas interações com as outras pessoas, isto é, mediar a vida social, já que habitamos o mesmo locus e precisamos nos comunicar/entender de alguma forma; (ii) construir os significados dessa interação. Isso significa que a gramática precisa se articular aos elementos extralinguísticos, como os acontecimentos, as condições do mundo e os processos sociais nos quais nos envolvemos. Concomitantemente, “a gramática tem de organizar a interpretação da experiência e a representação de processos sociais, para que possam ser transformados em redação”. Halliday e Matthiessen (2014) propõem dividir esse esforço em dois passos: no primeiro, “a parte da interface, a experiência e as relações
interpessoais são transformadas em significado; esse é o estrato da semântica”; no segundo, o significado é transformado em redação; esse é o estrato do léxico-gramática.
De maneira mais específica, o principal expoente da LSF explica que a linguagem possui três funções básicas: representar a experiência humana, construir relações entre os seres sociais e organizar os textos (a materialidade da interação). Essa teoria deve muito ao antropólogo Malinowsky, em virtude do pioneirismo da visão da língua como manifestação da cultura de um povo; ao linguista Firth, que realizou as primeiras sistematizações baseadas nessa concepção; a Halliday, aluno de Firth, que depois concebeu a teoria e, juntamente com Matthiessen, foi aprimorando (FUZER; CABRAL, 2014). Destaque-se, também, o trabalho de pesquisadores/as brasileiros/as como Denize Elena Silva, Leila Barbara, Cristiane Fuzer, Sara Cabral, Orlando Vian Júnior, dentre outros.
A LSF concebe a linguagem como um sistema sociossemiótico organizado em quatro estratos: semântica - plano da linguagem em uso, isto é, por meio de sentenças; léxico-
gramática - o plano dos morfemas e palavras; fonologia – o plano do conteúdo da linguagem; e fonética - o plano mais elementar, da representação sonora e gráfica da palavra (grafologia).
Mas esses quatro estratos estão agrupados em dois planos: o plano de conteúdo e o plano de expressão (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014). A Figura 3 resume esses estratos.
Figura 3 - Estratificação da linguagem
Fonte: traduzido de Halliday e Matthiessen (2014, p. 26)
Todos esses estratos mostrados na figura acima estão dentro de um contexto, que é o
locus da ação. Há um ambiente mais imediato em que ocorre a interação - o contexto de
situação - e outro mais amplo, pois a interação ocorre em uma determinada cultura - o contexto de cultura. É no contexto de situação que se localiza o eixo das possibilidades de escolhas linguísticas a serem utilizadas para a construção dos textos – o registro. Quando falamos de “escolhas”, há que se ressalvar que não se trata de opções livres dentro de um
Conteúdo Conteúdo: semântica Conteúdo: léxico-gramática
Expressão: fonologia
vasto inventário, tendo em vista que as pessoas não desfrutam do mesmo leque de recursos linguísticos, nem das mesmas posições que dão acesso à fala. Sendo assim, no contexto de situação, existem as variáveis que condicionam a interação: o campo da atividade, as relações sociais entre os participantes da interação e o modo como ela é construída em textos42. Olhar para esses três elementos é crucial para uma boa análise, uma vez que esses conceitos relacionam-se com, respectivamente, as metafunções ideacional, interpessoal e textual, indispensáveis para uma compreensão robusta do fenômeno em estudo. Ressalte-se que a análise não pode negligenciar o contexto de cultura, isto é, as estruturas sociais com crenças, coerções, possibilidades e ideologias.
Focalizamos, neste estudo, a linguagem como sistema em funcionamento em contextos sociais, no qual a experiência é descrita, informações são trocadas e marcas linguísticas são deixadas na superfície do texto, seja por meio de avaliações positivas ou negativas, o que sugere alinhamento ou desalinhamento a certos pontos de vistas lançados. É nessa perspectiva que a LSF oferece um suporte para as análises, uma vez que propõe metafunções da linguagem, as quais codificam: (i) os significados da experiência, isto é, da interação humana; (ii) o modo como essa interação é construída nos textos, ou seja, como as informações são “trocadas” pelos interlocutores nas interações; e (iii) as mensagens que materializam a interação, ou melhor, como são construídas textualmente, por exemplo, o que aparece em primeiro plano, em segundo plano e o que é obscurecido. Silva (2010, p. 66) esclarece que:
utilizamos a língua para falar sobre a nossa experiência de mundo, para descrever eventos e as entidades que os envolvem; para interagir com as outras pessoas, bem como influenciar o seu comportamento, além de expressar nossos pontos de vista e também solicitar às outras pessoas que expressem seus pontos de vista sobre tudo.
Nessa trilha, a LSF fornece um ferramental que auxilia na compreensão de eventos