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L’IRRUPTION DU TEMPS DANS LA CONCEPTION DES VILLES

Durante a primeira entrevista, Conrado surpreende com uma revelação: diz que me contaria algo que ninguém sabia. Seria sobre sua origem e o fato de seus pais serem seus tios. Ele é filho de uma irmã de sua mãe adotiva.

Soube por outro irmão meu. Eu tinha 12 anos. Minha mãe disse que não contou porque ficou com medo que eu fosse embora e não voltasse mais. Quando fui atrás da minha mãe

biológica ela não queria ver eu. Eu não queria ficar com ela, era só para saber por que ela não quis ficar comigo. Mas toquei o barco para frente. Foi o que mais fez sofrer, por isso

nunca contei pra ninguém. Mas por que esconderam a verdade? Não precisa esconder a

verdade de ninguém.

Meus grifos ressaltam na fala de Conrado sua necessidade de saber sobre sua origem, atribuindo seu sofrimento a falta de acesso aos motivos que fizeram sua mãe deixá-lo. Segundo seu relato, não houve desejo materno para sua sobrevivência: “Quando minha mãe me teve, ela me deixou jogado em casa”. Sua mãe teria dito: “Pra mim pode morrer, não me interessa”.

Pareceu-me que essa marca inicial teve efeitos na constituição subjetiva do entrevistado, uma vez que diante do não saber sobre os motivos que levaram sua mãe a deixá-lo transformou-se numa demanda de amor dirigida ao outro.

Na segunda entrevista, Conrado inicia dizendo que o fato de ter contado sobre a adoção não significava que ele mentia para as pessoas do CMP (Centro Médico Penal), era uma ferida que ele guardava desde os 12 anos.

Com sua mãe adotiva também haverá um episódio significativo. Em torno dos cinco, seis anos, Conrado teve uma queda do berço. A esse acontecimento atribui à origem de um distúrbio no cérebro “num descuido dela fazendo o almoço eu caí e bati a cabeça”. Essa informação ganha uma significação importante no contexto biográfico de Conrado: será atribuído a esse evento a causa do crime.

Em acréscimo, tive a impressão de uma relação pueril entre Conrado e sua mãe. Por exemplo, no momento da despedida quando Conrado foi transferido para o CMP:

Na saída, minha mãe, chorando, disse: me perdoa, meu filho. Eu disse: não tenho que te perdoar. E disse: você me perdoa, mãe. Ela disse eu te perdôo, meu filho, vai tranquilo,

tenha juízo, toma o remedinho direitinho que eles vão dar pra você não fazer mais besteira. E o dia que você receber alta de lá, nós todos vamos estar de braços abertos pra te receber e esperando por você.

Pergunto por que sua mãe teria pedido perdão, e ele responde que ela o ama muito. A ela, até atribui o fato de se encontrar no CMP (escapando, assim, de ter sido enviado à penitenciária geral):

Se ela tivesse morrido eu não tava aqui, porque acho que minha esposa e meus parentes não iam correr atrás pra provar que eu fiz isso porque tenho um problema. Ela provou no dia da audiência que eu fiz por causa de um problema.

Podemos aqui presumir que sua mãe também atribui ao acidente infantil as atitudes violentas de Conrado e talvez possa ter sido esse o motivo para pedir perdão ao seu filho.

Outro fator de sua biografia:

Eu tinha um problema também que eu não contei pra senhora. Eu estudei em escolas especiais, na Apae. No começo foi difícil. Depois acabei compreendendo e me adaptando. Eu sou normal, converso normal, ando bem: o que estou fazendo aqui? Mas diziam que eu estava lá porque não conseguia acompanhar os alunos.

Seu desagrado é evidente: “Eu sei que a Apae é para uma pessoa deficiente, minha filha participava. Mas foi um problema que eu tive porque não tinha um professor no grupo para me ajudar”.

A Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) é uma instituição tradicional, anterior à discussão sobre a inclusão escolar dos alunos com necessidades especiais, que dirigiu seu atendimento àqueles que possuem algum tipo de limitação intelectual. Conrado frequentou a Apae entre sete e dez anos: “Eu tinha um problema pra escrever, não conseguia acompanhar os alunos. Aí estudava em classes especiais”.

De forma geral, sobre a infância lembra-se de ter brincado muito: “Desde pequeno eu jogava vôlei, beque16. Depois fui ficando mais maduro e comecei a trabalhar. E assim fui levando a vida”.

Quanto ao pai, aparece ele com menor frequência no discurso de Conrado. É lembrado pelo uso do álcool, o que por muitos anos provocou o sofrimento dele e da sua mãe. Seu pai o incentivava a beber:

Toma um golinho meu filho, isso não vai fazer mal nenhum. Aí sempre falava pra ele: eu

não quero, quero refrigerante. Minha mãe tinha pensamento diferente. Nunca pus bebida alcoólica na boca, não usei drogas e nem nada. Nunca fui de baile.

Por longos anos, a esposa, parentes e amigos solicitavam para que seu pai parasse de beber. Tal ocorreu após o nascimento de sua irmã e a conversão familiar para a religião Testemunhas de Jeová.

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Sua irmã é apresentada como alguém muito diferente dele: “Minha irmã não é igual eu. Gosta de ir em baile, fuma, bebe. Ela não fazia nada em casa”. Mas é atribuída a ela o auxílio que o levou a perder sua timidez com as mulheres.

Em sua fala, observamos o acento na figura da irmã como sua antítese: o seu não- eu, o diferente dele. Nesse contexto de diferença, será possível a aproximação à sexualidade.

Acerca de sua sexualidade, informou que durante a infância sentia-se tímido e não retribuía as cartinhas das meninas. Com 13/14 anos gostou de uma menina, mas paquerava por carta. Deu seu primeiro beijo aos 17 anos. Aos 22 anos fez o que considera uma loucura de amor:

Ela foi empregada da minha mãe. Na hora do almoço, quando ela passava roupa, eu ia conversar com ela. Olha só, tudo por amor! Falei que eu gostava dela e disse: vamos fugir. Você tem coragem de fugir, ela disse. Você realmente gosta de mim? Comprei passagens e ela foi comigo, sem explicar que tinha marido e filhos. Quando foi seis horas, peguei uma corda do varal e abaixei minha mala pela corda e deixei na garagem. Aí fui pra rodoviária. Tava chovendo muito, achei que ela não viria. Ela chegou com o sapato cheio de barro e fomos pra são Paulo. Ficamos um mês e pouco. Foi a loucura que fiz por amor. Aí ela começou a falar que tinha três filhos e queria voltar, mas não pro marido, que batia nela. Voltamos pra uma cidade do interior e meus pais me acharam. Meus pais disseram que se eu gostasse mesmo dela e se valeu a pena essa loucura, que podia ficar com ela. Chegou um dia, ela tinha voltado para o marido. Até pegar amor por outra pessoa demorou. Porque a primeira pessoa a gente não esquece.

Essaloucura eu fiz porque gostei dela.

Em sua fala, verificamos que o termo loucura aparece apenas em referência ao amor, em nenhum momento foi utilizado para justificar seu crime. Em certa medida, para Conrado, amar é uma loucura.

Com 23 anos, conheceu sua esposa. Sobre ela conta uma história, que resumo a seguir:

Uma vez, uma amiga da minha irmã perguntou quem deixava tudo limpinho e lavava a louça. Tava lavando a calçada e, de repente, passa aquela mulher, coisa mais linda. Aquele cabelo comprido, aquele sorriso. Olhou para mim e disse: oi, tudo bom? Eu sempre fui educado e disse: tudo bem e você? Ela foi ao mercado, voltou e disse: muito poucos homens gostam de limpeza como você. Quero saber se é solteiro ou casado. Você

tem carro? Disse: tenho. Almocei com ela, jantei, tomei banho na represa. Ela morava com os pais numa chácara. Depois de um mês mais ou menos, ela disse que queria um companheiro e eu disse: aceito. Mas tinha que falar com os pais dela. Eu criei coragem, comprei alianças e pedi ela em compromisso. Cheguei na casa dela na hora do almoço. Disse: gosto muito da sua filha, queria ter compromisso com ela. Se vocês aceitariam. Tudo bem, aceita. Aí dois anos de namoro, e com 25 anos casei.

Nas entrevistas, percebemos que Conrado se identifica ao modelo feminino imaginário dos estereótipos, por exemplo, cuidar de uma casa, fato este que desperta o interesse da sua esposa.

Sua primeira relação sexual foi com a empregada com quem fugiu.

Foi com a Marta. Com a Luciana, que veio antes, mandava cartinha de amor, uma flor, uma rosa, bombom. A primeira relação sexual foi com a Marta. Eu lia muita revista e matéria na televisão, então não estranhei. Pra mim foi muito especial, tinha vontade de ter relação antes, mas fui criado como evangélico.

Resumindo as informações deste tópico, temos as referências familiares de Conrado, iniciando-se com a rejeição da mãe biológica, um pai adotivo alcoólatra, a atribuição ao acidente infantil como causa de um distúrbio cerebral e sua entrada na sexualidade genital tornada possível após sua fuga engenhosa da casa dos pais.