QUAND L'OUVERTURE DEVIENT LA NORME
DES INDIVIDUS ENTRE OUVERTURE ET FERMETURE
O Mistério parece se render ao coração que a ele se rende.
Proteger o núcleo sem nome da vida, este nada/tudo ou vazio/plenitude jamais revelado, mas sempre buscado, parece ser uma atitude mais afim com a sensibilidade feminina do que com a masculina.
É nesse sentido que, para Paul Evdokimov, o culto da Theotokos, ou Mãe de Deus, confere, ao cristianismo, um toque muito particular de doçura e oblação, doçura, esta, aliás, própria da sensibilidade feminina dos grandes místicos. O próprio Cristo, pondera Evdokimov, se disse manso e humilde de coração, preferindo a oblação do Cordeiro imolado à espada do libertador terreno.
Não se trata, porém, de uma “feminização” do homem, que conserva sua “violência” evangélica, qual seja a do testemunho viril e corajoso da santidade, em meio à permissividade do mundo, especialmente do mundo atual; o agir do homem santo é, a um só tempo, um reconhecimento da própria fragilidade, e uma reprovação enérgica de um mundo que não se abre à ação transcendente de Deus e segue, sem rumo, inebriado com sua suposta autossuficiência.
O que se quer marcar, desde logo, é que todo aquele que se dispuser a discorrer – supremo paradoxo, porque a razão não alcança estas lonjuras – sobre os abismos insondáveis do coração, nos quais Deus Se abre ao rogo suave da mulher sabedora de seus singulares dons, ou daquele homem, que sem abrir mão de seu carisma viril específico, sabe ser dócil Àquele ou Àquilo que o ultrapassa, há de ser respeitoso e simples. Há de fazê-lo sem deixar de mirar, profilaticamente, o pó da terra (a fim de não se esquecer de que também é pó), porque a altivez prometeica e babeliana é a antítese da humildade toda-receptiva da Virgem, que, nos ícones ortodoxos, usualmente veste uma túnica marrom, a cor da terra, do húmus, da criatura sabedora de que tudo – aí incluída a sua existência – é graça. Há de evitar também os rebuscamentos retóricos, os malabarismos lógicos, as altíssimas torres de orgulho e toda sorte de complexidades vãs, que se destinam tão só à glorificação de si próprio. Não nos esqueçamos de que de que Deus, para o Qual tudo converge, é um e simples; já o diabolos, que a tudo dispersa, dissipa e fragmenta, é múltiplo (legião) e complexo.
À Theotokos, ou Mãe de Deus, é devida especial veneração no âmbito cristão ortodoxo, porque, segundo a fé cristã, foi através dela, do seu todo receptivo
fiat, que o mundo de Deus pôde vir ao mundo dos homens e, com isso, abrir as
portas para que o ser humano pudesse empreender o caminho de volta, de se deificar, de alcançar cumplicidade com as energias de Deus.
Este “faça-se”, isto é, faça-se a Tua vontade, liga-se ao fiat de Deus, quando da criação do mundo e ao fiat do Cristo quenótico (esvaziado de sua vontade), que, ao suar sangue na agonia do Getsemani, acolhe o doloroso cálice.
Mas seria possível erigir uma ponte entre o arquétipo máximo do feminino – a Teotokos -, e a mulher que, em um cotidiano dominado pela dispersão fragmentadora e por uma autoafirmação que, não raras vezes, abastarda o seu carisma originário, ainda se lembra de Deus? Seria factível uma inter-relação entre teologia e antropologia, no que concerne ao feminino? Que papel estaria reservado à mulher quanto ao aspecto mais profundo da existência, qual seja, a busca por Deus?
Talvez ninguém, no contexto ortodoxo cristão – para não dizer em toda a cristandade, ocidental e oriental – tenha enfrentado tais questões de modo tão original e inspirado, quanto Paul Evdokimov333.
A primeira constatação de Evdokimov: os dons e os carismas é que determinam e normalizam o psíquico e o fisiológico, e não o contrário. Neste sentido, tem-se que a mulher é “maternal” não porque, em seu corpo, seja biologicamente apta a engendrar novos seres, mas porque tal faculdade fisiológica e anatômica provenha de seu “espírito maternal”. O homem, por seu turno, é viril porquanto, em seu espírito, haja algo que corresponda à “violência” – o destemor do testemunho – de que nos fala o texto bíblico. O profeta, por exemplo, não é um adivinho, mas, sim, alguém sensível aos desígnios de Deus no mundo e que, como tal, reprova, nos seus contemporâneos, com inaudito destemor, o comportamento desviante de tais desígnios maiores. São João Batista, com sua frugalidade no viver, sua humildade perante Cristo (“não sou digno de amarrar Tuas sandálias”) e coragem ao denunciar as iniquidades do rei, é, na ortodoxia, o arquétipo máximo do masculino, figurando ao lado da Virgem, a Theotokos, na representação exemplar da polaridade homem/mulher.
Ora, como se disse, o fisiológico e o psíquico dependem do espírito, expressando-o e o servindo. Tal polaridade, formatada pelo espírito, se espraia pelo mundo natural: a biologia faz da oposição polar entre os gêneros e de sua tensão, a condição mais comum da vida.
Apesar da evidente polaridade entre os sexos, ou melhor, entre os carismas do homem e da mulher é preciso resistir à tentação de circunscrevê-la, sem maior aprofundamento, à dicotomia corpo/alma, soma/sema, que é de origem grega, não bíblica.
Com efeito, na Bíblia – como nos lembra Evdokimov – não há, em verdade, conflito entre alma e corpo, mas, sim, entre projeto de Deus e projeto do homem (Babel), desejo de Deus e desejo do homem, santidade e pecado, norma e perversão. E o projeto de Deus pressupõe que o homem e a mulher atuem juntos, cada qual no livre exercício de seus dons específicos, para restabelecer a inteireza perdida com a Queda. Esta última – a Queda - traduz uma ideia de fechamento: Adão (em hebraico, um termo coletivo), a célula originária humana, o homem-
333 Procuramos sumariar, neste tópico, as ideias fundamentais expressas, por Paul Evdokimov, em sua obra “La mujer y la salvacion del mundo”, à qual remetemos o leitor.
mulher, o masculino e o feminino em uma fase ainda de indiferenciação, caiu porque quis pertencer-se a si próprio. Tal fechamento é, em verdade, ausência, solidão, rechaço ao princípio espiritual de comunhão, perda da “virgindade inicial”, isto é, destruição da interioridade (onde homem e mulher viviam juntos) e a exteriorização dos elementos polarizados. Daí a razão da vergonha de Adão e Eva após a transgressão: a vergonha traz consigo o desejo de ocultar algo, de guardar este incômodo algo; quando homem e mulher eram por inteiro um para o outro, a vergonha resultava inconcebível. Esta solidão inconciliável é, em suma, o inferno. Aí se posta o problema terrível da autonomia: inexiste uma ordem humana autônoma, uma vez que existir é participar no ser ou no nada.
Ora, recorrendo aos Padres da Igreja, Evdokimov nos ensina que a “serpente” tentou Eva, não porque a mulher fosse mais frágil do que o homem, mas por se constituir, ela, na “parte religiosa por excelência” do ser humano. Portanto, o caminho de retorno a Deus não pode prescindir da inclinação feminina de, antes de fazer, ser; antes de ocupar espaços, recolher-se ao abismo luminoso de sua ontologia.
Esta complementaridade que se inclina à inteireza está, de modo um tanto desconcertante, presente, todo o tempo, no cristianismo do leste: teologizar, para os padres orientais, não é elaborar um discurso erudito sobre Deus, mas, sim, vivenciar Deus: teólogo é aquele que reza bem, de acordo com o ensinamento de Evágrio Pôntico. Não se trata de uma doutrina puramente abstrata, desprovida de mística, mas de uma ciência experimental, no que se assemelha ao carisma feminino, o qual tem a tendência de preferir a vida concreta, com suas sinuosidades e becos escuros, às utopias de construção de um paraíso terrestre, claro, reto, eficaz e arredio ao que escapa de seu foco, de suas certezas e de sua fúria transformadora; por outro lado, a ascese, o enfrentamento dos demônios no deserto é uma atitude viril, majoritariamente masculina, apesar da reconhecida existência das “mães do deserto”.
O afresco de São Calisto, do século II da nossa era, expressa, belamente, esta realidade: um homem estende suas mãos sobre o pão da eucaristia; uma mulher, em segundo plano, mantém-se em pé, em atitude de oração. Vê-se, aqui, o caráter expansivo do homem, já que o agir é o seu carisma natural, e o caráter fortemente existencial da mulher, visto que sua alma se inclina mais ao ser, ao
mistério da existência, ao cuidado do que existe e à correção dos excessos masculinos.
Ora, a antropologia ortodoxa não é moral, mas ontológica: não está articulada para a conquista deste mundo, mas para a consumação do Reino de Deus na criatura e, por extensão, para a transformação interior do mundo em Reino de Deus, mercê de sua progressiva iluminação pelas energias divinas.
De acordo com tal antropologia, o espírito religioso, no humano, se expressa pela mulher, dotada de uma particular sensibilidade ao espiritual, tanto que, quanto mais avançam a secularização e o ateísmo – anota Evdokimov – tanto mais a civilização se masculiniza (aí incluída a conduta de mulheres que, renunciando ao seu carisma próprio, adotam as piores características dos homens sem discernimento espiritual). Tal civilização – completa ele – quanto mais se desespera, tanto mais se distancia de sua verdadeira feminilidade, isto é, da resistência à desumanização, característica marcante da Theotokos. Sob essa perspectiva, é possível afirmar que toda moral dimana, ou deveria dimanar, precisamente, do princípio maternal, o qual se expressa pela pureza sacrifical (a renúncia da própria vontade) e pelo compadecimento pelo semelhante que sofre. Observe-se,
porém, que tal entendimento é periférico em nossa conturbada modernidade, na qual o amor por vezes é visto como loucura ou mesmo fraqueza de caráter. Evdokimov cita o exemplo de Kant, para quem o amor é “uma afecção sensual e patológica”, porquanto seja ele – o amor – irracional e arredio ao cabresto da vontade racionalmente dirigida.
Neste sentido, para Evdokimov, nenhuma verdadeira mulher é kantiana, mas muitas se encantam pelo pensamento de Pascal e Bergson, dentre outros, filósofos, estes, mais intuitivos ou céticos no que tange à pretensa onipotência dos ditames racionais. De fato, uma visão excessivamente masculina de Deus fará prevalecer Sua justiça e Sua onipotência absolutas, em detrimento de Sua caridade e de Sua disposição infinita em perdoar o que, sob o prisma exclusivo da justiça retributiva, não poderia ser perdoado. No âmbito das coisas do mundo, por outro lado, a hybris, a desmedida humana, geralmente perpetrada pelo homem, tende a, cada vez com mais frequência, profanar os mistérios (vide os dilemas da bioética) e rejeitar os valores espirituais (vide o crescimento, em nossos dias, de um ateísmo agressivo, panfletário, militante e supostamente científico). Ora à mulher, que após inspecionar- se em seus recônditos mais secretos, apercebe-se de seu dom singular, cabe,
justamente, preservar o coração do ser humano, o centro integrador de cada um de nós.
Segundo Evdokimov, a resposta da fé cristã ao problema da mulher é esta: é ela, idealmente retratada na Virgem Maria - a Theotokos -, quem ocupa o primeiro plano na antropologia respectiva, uma vez que a Bíblia considera a mulher como o princípio religioso da natureza humana, tendo em vista o poder de unificação e integração presentes na castidade – na total disponibilidade ao operar divino e na renúncia de si –, na pureza e na intuição imediata de Deus, que informa, pela base, este princípio. Aduz nosso autor que na esfera religiosa, o sexo forte é a mulher, bem como que constitui erro clássico dos comentadores do relato da Queda afirmar que Satanás se dirigira à Eva, por ser, ela, o sexo frágil, o ponto mais vulnerável da alma humana. Segundo ele, Eva foi tentada justamente por ser o princípio religioso da natureza humana, princípio, este, que, antes de qualquer outro, deveria ser vulnerado, para que o homem fosse corrompido. Quanto se logrou perturbar o órgão mais sensível, o mais receptivo entre o ser humano e Deus, o mais se fez sozinho, sem esforço.
É curioso notar, ainda, que, embora a promessa da salvação passe, necessariamente, pela mulher, visto que a Encarnação somente se deu em razão do
fiat da Virgem, o abismo demoníaco da desintegração do ser humano também a
espreita de perto, e se consuma toda vez que a mulher se desencarna de seu mistério mais profundo, de seu carisma peculiar, de seu fiat à vontade divina, fazendo-se arredia ao amor de Deus. E aí o esfacelamento do ser humano é, realmente devastador, porque sua parte religiosa sofreu um corte profundo. Não por acaso, o marxismo tratou, desde sempre, de “emancipar” a mulher, com o escopo de torná-la igual ao homem, esquecida de seus dons específicos, de sua idiossincrasia ontológica, e, assim, ferir de morte o princípio religioso no ser humano, circunscrevendo-o à esfera horizontal da existência, na qual reina, soberana, a política. Também não por acaso, coube, majoritariamente, à mulher russa, manter viva, em seu país, a chama do Espírito quando lá foram prescritas as práticas religiosas.
Enfim, para Evdokimov, a salvação somente nos chegará pela santidade e a mulher terá papel preponderante nesta metanóia, nesta mudança da mente. A santidade, em chave ortodoxa, não se liga à conquista, por esforços humanos, de uma suposta perfeição moral, mas, ao revés, do cultivo interior de uma
disponibilidade/humildade que se faz solo fértil para o ato de Deus que nos capta e conhece. A moral horizontal é agressiva e se perfaz pela criação e a imposição de valores; já a moral vertical é humilde e generosa, pressupondo a descoberta de valores eternos na essência de cada ser humano, bem como a vivência natural de tais valores.
É, pois, sob o prisma desta disponibilidade/humildade tão bem expressas no arquétipo da Theotokos, ou “Mãe de Deus”, que teologia e mística se fundem, mais uma vez, na obra de Paul Evdokimov.