CHAPITRE II : COMPORTEMENT MECANIQUE DES STRATIFIES GF/PA6 ET
3 Introduction aux matériaux composites
Quando falamos em meio social, estamos nos referindo às cidades, ruas e bairros onde moram os/as jovens. Conhecer como é o cotidiano desses jovens e a relação estabelecida com a cidade onde moram é de grande importância para compreendermos a partir de que lugar físico se constroem as experiências dos/as jovens pesquisados. Segundo Dayrell (2007) as dimensões da condição juvenil são influenciadas pelos espaços físicos e sociais em que elas acontecem.
No trecho a seguir, a entrevistadora aproveita o momento da apresentação e interfere com uma pergunta imanente a qual inicia o grupo de discussão “então pra começar o grupo mesmo eu queria saber”. São feitos três questionamentos com vistas a compreender o cotidiano dos/as jovens nas cidades onde moram e a relação destes com o seu local de moradia. A percepção sobre os espaços urbanos em que vivem nos fornece elementos para compreender as práticas e experiências coletivas e individuais do Grupo Contrastes (ls.38- 54):.
Y: tá gente já que vocês estão falando aí onde moram, então pra começar o grupo mesmo eu queria saber (.) de fato onde vocês moram, em que cidade vocês moram e como que é o dia-a-dia na cidade onde vocês moram, como que é o dia-a-dia de vocês, né, como é que é isso?
Cf: Ah!(.) Eu não sei muito como que é o dia-a-dia da cidade porque eu mudei há pouco tempo pra lá, e eu não tenho muito tempo de ficar lá, até porque eu não moro na @cidade eu moro fora dela@, tipo, fica na redondeza do Paranoá.
?m: na roça
Cf: Dizem que lá é Sobradinho Jgm: invasão
Cf: não sei porquê, mas Jgm: invasão
Tod@s: @3@
Cf: ai tipo eu acordo de manhã muito cedo e saio de lá, tipo, 6 horas da manhã:: eu só volto para casa 7, 8 horas da noite, então:: não tem muito o que: falar ; porque eu não sei como que é.
No trecho a seguir, há uma interação no grupo que pode ser proveniente do fato de serem alunos/as da mesma turma na escola. Cristiane demonstra não ter, ainda, uma relação de pertencimento e proximidade com o seu local de moradia e apresenta três motivos para justificar seu desconhecimento em relação ao cotidiano da comunidade. A sua fala deixa claro que no seu cotidiano, esse espaço aparece apenas como local de partida e de retorno. Não é o local onde realiza atividades diárias como estudar, ir a cursos ou onde encontra os amigos.
Na apresentação anterior a esse trecho a jovem diz morar em um condomínio próximo do Paranoá, mas ainda tem dúvidas sobre se o local faz parte de Sobradinho ou do Paranoá. O condomínio é uma espécie de um conjunto habitacional de casas, fechado, controlado por um funcionário que registra os dados de quem entra e sai daquele espaço, o que pode estar relacionado ao sentimento de insegurança e à conseqüente necessidade de maximizar as possibilidades de proteção.
Os colegas tentam desvalorizar o local de moradia de Cristiane, na medida em que um deles diz que ela mora na roça e Jorge reforça que o local é uma invasão. Morar na roça significa estar longe do espaço urbano e de todos os elementos a ele associados. E de fato, muitos condomínios, no DF, simbolizam esse afastamento sem estarem fora da realidade urbana.
Jorge refere-se ao local de moradia de Cristiane como sendo uma invasão, o que remete à questão das irregularidades quanto à propriedade da terra, como a ocupação irregular de terras públicas por particulares para a construção de condomínios, situação bastante comum no DF. Quando Jorge ressalta que a colega moraria numa “invasão”, pode querer demonstrar que é um terreno ilegal e a possível falta de condições de adquirir por meio da compra um lugar para morar. E todos os colegas parecem concordar com a colocação de Jorge na medida em que riem por três segundos.
Assim como Cristiane, e apesar de morar há muitos anos em uma das quadras residenciais da Asa Norte, Orpheu não estabelece com o lugar onde mora uma relação de pertencimento. Parece estar sempre em outros lugares que não na sua quadra e na sua casa (ls. 55 – 62):
Om é::, ( ) na minha cidade, onde eu moro é um saco, o titiboy lá fica escutando som o dia inteiro na minha quadra e eu fico muito pouco tempo na minha quadra, fico mais na casa dos meus brothers::, na casa de qualquer um, do que na minha quadra
Y: você mora em que quadra? Om: 105 norte
Y: Norte?
Om: eu vou mais pra casa pra dormir e pra comer, só
O jovem destaca que não gosta da quadra, diz que lá é um “saco” e não simpatiza com um grupo que ele chama de titiboys. A casa dos amigos aparece como um refúgio, assim como qualquer outro lugar parece ser melhor do que a sua quadra. Orpheu vai a casa apenas para cumprir com hábitos cotidianos como dormir e comer. Este não parece ser o seu lugar.
Diferentemente dos colegas, Rides demonstra ter uma percepção positiva e algum tipo de relação cotidiana com o seu local de moradia, sobretudo porque trabalha no local onde mora, permanecendo por mais tempo nesse espaço. Rides traz um novo elemento até então não mencionado pelos colegas, o trabalho. Além da rotina da escola ele tem a rotina do trabalho (ls.63 – 70):
Rdm: eu? @ Mf: é, você
Rdm: ta, eu moro em um condomínio RK mesmo, eu trabalho lá também, na locadora lá do condomínio, tipo é lá na frente assim ( ). Minha rotina eu acordo cedo e venho pra escola, da escola eu venho pra casa, quatro horas eu entro no trabalho e depois eu vou dormir, mas lá no condomínio é bom, é tranqüilo, tem muito coisa assim, é de boa. (2)
Já Marcos parece não gostar do local onde mora atualmente (Sobradinho), enfatizando que a vizinhança não é “divertida” nem “amigável”. Faz referência à necessidade de sentir-se acolhido. Contraditoriamente diz que a vizinhança “é boa”. Tem momentos de maior introspecção quando está em casa, mas destaca que vai à casa de amigos (ls. 71 – 77):
Mm: onde eu moro (2) sei lá, eu não gosto muito de lá porque mudei esse tempo agora, eu morava no condomínio dele, é no..., só que aí eu mudei pra lá agora e a vizinhança não é muito assim tipo
Mf: amigável
Mm: divertida, amigável, assim. Mas é de boa eu fico em casa só dormindo, escutando música, de vez em quando eu vou pra casa de amigos também. É isso.
Diferentemente dos colegas, Rafinha, ainda que não passe todo o seu dia na quadra onde mora, faz questão de enfatizar o tempo em que mora lá “já faz 11 anos”, como se quisesse demonstrar uma forte ligação com aquele espaço. Além disso, faz referência a quadra como sendo um lugar tranqüilo, o que não parece ser um fator positivo para ele na medida em que diz “é uma quadra mais tranqüila e tal, mas eu gosto de morar ali.” (ls. 78 – 84).
Rm: bom, apesar de eu não ficar muito também na minha quadra, por eu estudar de manhã, trabalhar à tarde, e a noite eu faço inglês também, mas é uma quadra tranqüila, eu moro na 416 norte eu moro ali também já faz 11 anos, conheço bem a quadra e tal. É uma quadra tranqüila (2) mas é uma quadra que dá mais:: pessoas mais de idade, como sendo a última quadra, campo, Parque Olhos d’Água ali::, é uma quadra mais tranqüila e tal mas eu gosto de morar ali.
Para Patrícia ainda é mais difícil falar sobre a quadra onde mora, porque além de ser moradora nova é recém chegada à Brasília (ls. 85 – 101):
Pf: ah! eu moro aqui tem pouco tem, então, não dá pra falar muito ?m: @cê veio de Mi::nas@
Pf: em relação à minha quadra Y: você morava onde?
Rdm: @ela gosta de quei::jo uai@ Eu vim lá de Conta::gem@ Pf: @6@ Eu morava em Contagem, Minas Gerais @2@ Rdm: @lá tinha queijo pra tudo@
Pf: @para com isso véi@
Rdm: @quei:jo de manhã, tirava leite das vacas@
Pf: @mas eu não conheço@ eu conheço pouquíssima gente lá na minha quadra e tal e tipo de tarde ou eu tô no CIL ou tô na natação, eu só fico em casa mesmo a noite e (.) geralmente@
Mf: não vê nada
Pf: é @ não tenho contato com nada e nem ninguém aqui@ Y: humhum
Mf: pronto? Pf: pronto
Especialmente um dos colegas aproveita para imitar o sotaque de Patrícia que tem o caráter bem regional e característico do estado de Minas Gerais. Rides carrega na imitação do sotaque de Patrícia, até que ela sorrindo estabelece um limite e pede para que ele pare. Patrícia destaca ter poucos conhecidos na sua quadra e que o único tempo que teria para estar com outras pessoas, à noite, não encontra ninguém. A sua fala nos leva a pensar sobre esse período de transição pelo qual passa Patrícia, não é natural desta cidade e precisa estabelecer novos vínculos afetivos. Essa é a transitoriedade da qual fala Dayrell (2007) que é uma das dimensões da condição juvenil.
Morar perto da escola é uma vantagem para Maitê. Sua rotina é dividida entre atividades como a capoeira e a escola. De forma mais esporádica se envolve com um tipo de “bico” que seria fazer tranças raiz. A capoeira e a trança raiz aparecem no seu discurso como uma referência à sua familiaridade e contato com elementos culturais que são partes da contribuição cultural da população negra no Brasil.
Ressalta que na sua quadra há muito barulho, é movimentada pelo comércio de bares, já que é uma “quadra de bar”, é caracterizada pela presença do tráfico de drogas porque, segundo Maitê, e também é agitada pela violência. Há um registro especial para a truculência e intolerância policial quanto a atos suspeitos ocorridos nas imediações, como detalhado a seguir (ls. 102 – 118):
Mf: eu moro aqui perto da escola ali na 408 e eu passo a maior parte do meu dia em casa, né, (.) só: venho pra escola estudá, eu faço capoeira e às vezes eu, eu trabalho fazendo trança raiz, e às vezes eu vou trabalhar (.) mas não é muitas vezes não. E a minha quadra, eu moro (1) é uma quadra de bar, então ela não é uma quadra tranqüila, é cheia o tempo todo vive movimentada ela não tem um horário assim pra tá livre e tals, então é zoada o tempo todo e eu moro na comercial, em cima de um bar aliás, então é mais zoada ainda, é mais barulho ainda, e ela é quadra de, de tráfico também, então tipo assim, é muito movimentada, ela vive cheia de gente tals, qualquer horário que você chegar lá a rua tá cheia e tals, mas assim apesar disso lá aconteceu assim tipo de:, de coisas, violência e tals, normalmente quando acontece, da última vez que aconteceu foi quando a polí::cia matou uns:: meninos de rua lá, mas não foram os meninos, tipo eles num, um, um tava roubando carro, mas o outro não tava fazendo nada e tals, e a polícia foi lá e matou, e aí foi tipo (1), o que acontece tipo de violência é mais isso, assim, não tem muito tiroteio e tals, um cara morreu lá também mas:: são coisas raras.
Ao se apresentar, no início do grupo, Jorge afirmou que morava “aqui”, mas logo foi corrigido pelos colegas que o fizeram dizer que ele mora em Sobradinho e “aqui”. É confuso para ele assumir o seu local de moradia, demonstrando a necessidade de fazer uma divisão clara entre o tempo que passa em Sobradinho (Lago Oeste) e na Quadra 716 norte (ls. 120 – 141):
Jgm: bom, eu moro em Sobradinho no Lago Oeste, bom, assim (.) moro lá mais nos fins de semana, porque a semana eu passo mesmo aqui numa quitizinha ali na 716 norte que:, porque (2) eu estudo de manhã, trabalho a tarde e a noite eu tenho inglês ou (.) algumas outras responsabilidades, ai não tenho tempo e nem transporte (.) ((entra um funcionário)), tá atrapalhando, tá atrapalhando.
Tod@s: @3@
Funcionário: você que tá de estagiária? Y: é::, não ((pausa na gravação))
Y: é então continuando então, o Jorge tava falando um pouco dessa coisa de morar.
Jgm: é, aí eu to agora lá na, eu passo mais a semana inteira lá na 716 norte sozinho (.), tô trabalhando de tarde num tribunal, no TRT, e::: assim estagiando certo? E:: tô tentando aí ganhar:: (.) a vidinha aê, um dinheirinho, fazer o meu currículo entendeu, com esses estágios aí até porque (2) é uma experiência profissional né? E:: estudando aê vê se eu consigo passar num concurso aê, caso eu não passe na UnB, não entre na UnB (2) e é isso aê.
Y: é você mora, é você quem paga a quitinete? Jgm: não, não, quem paga é meu pai
Y: ah! Tá Jgm: eu pago o pão Y: @É@ (3)
Jorge parece não ter conseguido desenvolver qualquer tipo de relação afetiva com esses lugares, na medida em que não se remete a eles, mas apenas ao seu cotidiano e a necessidade de morar em dois lugares. Suas responsabilidades vão além daquelas assumidas pelos seus colegas, na medida em que além de uma rotina dividida entre a escola, o estágio e o curso de línguas, mora sozinho e tem que estabelecer ele mesmo os seus limites.
Jorge não assume completamente uma responsabilidade financeira, porque não paga o seu próprio aluguel, mas destaca que paga por alguma coisa. Ou seja, demonstra que o seu dinheiro tem uma finalidade que não é apenas a diversão, mas o fornecimento do seu próprio alimento.
No seu discurso aparece a preocupação com o futuro, com a perspectiva de emprego e trabalho quando fala “estudando aê vê se eu consigo passar num concurso aê”. Está preocupado em adquirir experiência com o estágio. Lembrando-nos que essa é uma das grandes limitações que dificulta a inserção dos jovens no mercado de trabalho, a falta de experiência.
Há uma mobilidade espacial entre os jovens estudantes do Centro de Ensino A. Orpheu, Maitê e Patrícia moram em quadras próximas à escola. Já Rafinha e Jorge, ainda que morem mais afastados moram na Asa Norte. Diferentemente, Rides, Cristiane e Marcos deslocam-se de suas cidades para estudar na Asa Norte.
O espaço físico da casa é o local menos freqüentado por eles. Os/as jovens estão se movimentando entre o trabalho, escola, cursos, casa de amigos e, muitas vezes, voltam pra casa só a noite. Esse ir e vir dá a dimensão da velocidade dos encontros, das atividades e da utilização do tempo ocioso, uma característica peculiar a contemporaneidade74.
As amizades fazem parte desse cotidiano, a casa dos amigos é também o lugar dos encontros, das descobertas. Mas ainda falam sobre as responsabilidades como a aquisição de conhecimento técnico, por exemplo, já pensando no futuro. A inserção no mercado de trabalho acontece, nessa fase da vida, por meio do estágio que lhes parece uma forma de obter experiência para, futuramente, se firmarem neste mercado.
A partir desse lugar de fala é que surgem as elaborações sobre o mundo em que estão inseridos. A diversidade da escola pública em Brasília torna possível o encontro de jovens advindos das mais diferentes cidades do Distrito Federal, o que possibilita trocas que os fazem conhecer e se posicionar em relação às desigualdades e contrastes sociais encontrados
74 As pecularidades das juventudes contemporâneas foram alvo de outras pesquisas, como por exemplo: Magnani (2005), Dayrell (2005); Carrano (2002).
no Distrito Federal. No item a seguir os jovens resgatam o exemplo de uma colega da escola, para ilustrar como a desigualdade no Distrito Federal é alarmante.