Segundo Cançado (1994, p.55), etnografia “é literalmente a descrição de culturas ou de grupos de pessoas que são percebidas como portadoras de um certo grau de unidade cultural”. A autora ressalta que esse método é muito utilizado em antropologia, no entanto, as ciências sociais o adotam em suas pesquisas “por perceberem a importância de se estudar o comportamento no seu contexto social” (CANÇADO, 1994, p.55). Além disso, em contextos educacionais, a etnografia, conforme apontam Lüdke e André (1986), precisa
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preocupar-se com o ensino e a aprendizagem dentro de um contexto cultural amplo.
Rees e Mello (2011) explicitam que a pesquisa etnográfica pode ser uma alternativa para o estudo do processo de ensino e aprendizagem, pois ela permite ao pesquisador tratar não só de questões teóricas, mas também de questões práticas sobre o que acontece em sala de aula no momento em que a LE é ensinada e aprendida. Além disso, as autoras reforçam que esse tipo de pesquisa possibilita “compreender vários aspectos do contexto institucional da escola, dentre eles, as pressões sociais que os professores e alunos sofrem, as políticas de ensino e uso da(s) língua(s), os fatores sociais que afetam o planejamento educacional, e os discursos concorrentes” (REES e MELLO, 2011, p. 35).
Para se realizar uma pesquisa etnográfica, os métodos adotados podem variar de acordo com o tipo de corpus existente e com a preferência do pesquisador. De acordo com Erickson (1981), existem duas fontes principais de se obter um corpus: “olhar” e “perguntar”. O “olhar” refere-se à técnicas de observação como anotações de campo e gravações de áudio e vídeo, por exemplo; o “perguntar” refere-se à utilização de questionários, entrevistas, dentre outros.
Segundo Vergara (2010), ao se realizar o método etnográfico, o pesquisador se insere no ambiente e no dia a dia do grupo investigado. Ele coleta os dados, normalmente, por meio de observação participante e entrevistas semiestruturadas.
Mercado (2012) salienta que o pesquisador etnográfico precisa coletar os dados de forma sistemática e que esse processo de observação e registro deve ser produzido, em campo, de acordo com os princípios e as necessidades identificadas pelo pesquisador.
[...] uma tarefa do trabalho etnográfico é elicitar [...] conhecimentos dos participantes-informantes da maneira mais sistemática possível; instrumentos, códigos, cronogramas, questionários e agendas para entrevistas devem ser produzidos no local como resultado das observações e das investigações etnográficas. [...] Decisões acerca dos métodos de pesquisa de campo, instrumentos, cronogramas e períodos de coleta de dados são orientados por princípios e respondem a necessidades identificadas pelo etnógrafo no campo de pesquisa (MERCADO, 2012, p.171).
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Segundo Bazarim (2008), em uma pesquisa etnográfica, registra-se em detalhes, um evento que pode ser significativo tanto para o pesquisador, como para os participantes do evento.
Os propósitos essenciais da etnografia são documentar em detalhe o desenrolar de um evento que seja cotidiano para os participantes, bem como identificar os significados atribuídos a esse evento tanto por aqueles que participaram, quanto por aqueles que observaram (BAZARIM, 2008, p.99).
Nesse tipo de pesquisa, o pesquisador pode ser não participante ou participante. Na primeira classificação, ele “não tem uma função didática na sala de aula” (CANÇADO, 1994, p.56), sendo apenas um observador, ou seja, o pesquisador nesse caso não participa do processo de ensino, enquanto na segunda, ele pode ser o próprio professor ou o aluno.
Como Van Lier (1988), esta pesquisadora concorda que não existe uma total neutralidade por parte do observador em seu ambiente de investigação, no entanto, cabe ao pesquisador etnográfico, no momento da aplicação de sua pesquisa, “ter um comportamento de não julgamento em relação ao seu foco de pesquisa, isto é, estudar a interação do jeito que ela ocorre no contexto, sob a perspectiva daqueles que estão sendo estudados” (CANÇADO, 1994, p.57).
Autores como Cavalcanti e Moita Lopes (1991) sugerem um roteiro constituído de sete itens que poderiam ser utilizados pelo pesquisador etnográfico para dinamizar a sua investigação observatória. O primeiro item do roteiro refere-se à definição de um campo por parte do pesquisador; no segundo, ao se estabelecer tal campo, o pesquisador deve assumir um papel e uma maneira de entrar nesse campo de pesquisa; no terceiro, estabelecer quem serão os informantes da pesquisa; no quarto, o pesquisador deve promover um relacionamento com os informantes; no quinto, realizar a coleta de dados, por meio de diários, notas de campo, gravações, entrevistas, questionários e outros; no sexto, realizar a análise do corpus e sétimo, interpretar os dados.
Cançado (1994) destaca, que diferentemente de uma pesquisa quantitativa, que conta com uma quantidade grande de informantes e “em que resultados de natureza estatística são relevantes” (CANÇADO, 1994, p.57), em uma pesquisa etnográfica, os dados “podem ser obtidos de um número pequeno de informantes” (CANÇADO, 1994, p.57). No entanto, essa
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quantidade, segundo a autora, ainda possibilita um grande número de registros para o pesquisador realizar a sua análise.
A pesquisa etnográfica, por ter uma natureza subjetiva por parte do pesquisador, Cançado (1994) alerta que é preciso haver triangulação, ou seja, “o uso de diferentes tipos de corpus, a partir da mesma situação-alvo da pesquisa” (CANÇADO, 1994, p.57). Na presente pesquisa, a triangulação é realizada para conferir confiabilidade aos resultados, salientar conclusões e auxiliar na análise.
Braga (2007) aponta a importância do método etnográfico, pois pode mostrar-se “pertinente e operativo”, mas faz uma ressalva, ao dizer que esse método, muitas vezes, demanda “a complementação de outros aportes teórico- metodológicos” (BRAGA, 2007, p.4).
Diante dos novos ambientes de interação, como as comunidades virtuais e os ambientes virtuais, Mercado (2012) afirma que os estudos etnográficos tiveram que se adaptar para que os dados pudessem ser analisados de forma eficiente. Segundo o autor, esses estudos agora investigam também “os movimentos dos usuários no ciberespaço15, registrados pelos servidores e ferramentas de estatísticas de audiência” (MERCADO, 2012, p.173). Foi em um desses ambientes virtuais de aprendizagem, o Moodle, no qual o curso de inglês desta pesquisa foi oferecido, que registros foram realizados e coletados para a análise dos dados.
Desse modo, é relevante que se explicite o que é netnografia ou etnografia virtual, uma vez que esse método de coleta foi utilizado nesta pesquisa.