As técnicas de construir com a terra utilizadas na região de Sines constituíam um domínio de conhecimento sob a alçada de homens que tinham uma estreita ligação com a actividade agrícola. Os conhecimentos detidos sobre a terra estavam na base da arte da agricultura, da qual dependia a sua subsistência, assim como da arte de construir em taipa as suas próprias casas. Nesta região do litoral alentejano, a taipa sempre esteve à frente como técnica construtiva. Era a mais utilizada. A preferência pela técnica da taipa surge explicada por referência aos atributos da terra e aos conhecimentos construtivos locais. Embora nem toda a terra seja adequada para a taipa, explicou José Pincho, “A pessoa sujeitava-se à terra do seu
terreno.”; “Nem toda a terra serve” para fazer a taipa e, no caso desta não ser boa, “ia-se a 100
metros mais longe arranjá-la, mas nunca mais do que isso.”24
A escolha da melhor altura do ano para a construção em taipa fundamentava-se nas condições climatéricas ditadas pelas estações do ano. A humidade retida na terra após as chuvas de Inverno conferia-lhe a quantidade de água favorável à execução da taipa. Este aspecto trazia muitas vantagens aos taipeiros, que não se escusavam de o aproveitar, pois naquele tempo não havia transportes e carregar água era uma actividade penosa. Segundo Tóino Enjeitado: “A época própria do ano para fazer a taipa vai desde Março até fins de Abril [Primavera], porque é
quando a terra está fresca por natureza e a temperatura que corre é a ideal”.25 A Primavera
prestava-se melhor à prática da taipa porque, por um lado, a terra requeria pouca adição de água, poupando esforços e gastos e, por outro lado, a temperatura permitia que as paredes da casa secassem lentamente, condição favorável às construções em terra crua. O jogo que se desenrolava, neste caso, entre o camponês e a natureza entrava nesta lógica de ajustamento às condições que preenchiam cada estação do ano, de modo a rentabilizar da melhor forma as
24Entrevista a José Pincho, Porto Côvo, Julho 2005. 25Entrevista a Tóino Enjeitado, Porto Côvo, Julho 2003.
energias e qualidades construtivas da terra. A sazonalidade das estações equivalia à sazonalidade da taipa.
O recurso à terra como material principal na edificação de habitações residia na sua disponibilidade ecológica – a casa era normalmente erguida com a terra do próprio local. Esta disponibilidade, além do mais, parece reflectir a percepção de que o aproveitamento directo da ecologia dos campos alentejanos para a construção se traduzia num modo de vida mais
‘saudável’, mais próximo, porventura, dos ritmos da natureza envolvente. De terra se faziam as
paredes da casa e de terra se fazia também o chão. Se o chão era feito de terra, o que distinguia
o chão em terra ‘de casa para fora’ do ‘de casa para dentro’? Retirados os torrões à terra para
que fosse mais certinha espalhava-se por toda a área da casa uma camada com cerca de quinze
centímetros de altura. “Alagava-se muito a seguir para fazer massa” para então “ser batida com uma enxada”, explicou Tóino Enjeitado, fundamentando que o chão feito de terra batida “era um chão enxuto, saudável.”26
A subordinação da prática da taipa quer à sazonalidade da natureza, quer às condições ecológicas da zona ganhava especial importância em face da situação de pobreza. As casas em taipa eram construídas à medida do bolso dos proprietários. Das fundações ao telhado, as casas eram talhadas segundo as condições económicas de cada um. A título de exemplo, foi referido que os que tinham menos construíam a sua casa estreita, de maneira a que o telhado apenas levasse uma trave, para que, assim, a construção ficasse mais barata.
Não menos importante, era o domínio técnico que o mestre taipeiro revelava quando confrontado com fenómenos mecânicos associados às características da terra. Através da vivência e observação do comportamento da casa feita em taipa durante o seu ciclo de vida, os taipeiros conseguiam melhorar significativamente determinados aspectos construtivos. No caso em que as medidas da casa eram generosas, o mestre taipeiro empregaria um estratagema construtivo que apelidava de dar arrasto às paredes. Ou seja, da sua experiência laboral o mestre havia aprendido que as paredes das casas feitas em terra crua ao secarem encolhiam. Por
esse motivo, construíam “as paredes das empenas com prumadas diferentes em que ao meio a parede fugia ligeiramente para fora”.27 Este gesto engenhoso de construir a parede de modo a
que, ao meio, ela tivesse uma prumada diferente para o exterior, permitia o alinhamento da parede, após a secagem, com o prumo dado aos cantos. O resultado era uma parede direita e compacta. Este fenómeno físico deve-se à retracção da argila contida na terra que, na sequência da evaporação da humidade da construção, provoca a perda de parte do volume das paredes.
26Idem. 27Idem.
A técnica da taipa em Portugal: da transmissão do saber-fazer ao ensino formal
Quando secasse, “a parede ficava mais resistente e também ficava mais bonita.”28 Com esta
revelação, Tóino Enjeitado demonstrava que a execução da taipa ía para além de montar e desmontar os taipais e bater a terra. O dar arrasto às empenas trata-se apenas de um entre muitos pormenores a que os taipeiros estavam atentos nas construções a seu cargo, com vista a
gerirem tecnicamente as fragilidades do material terra na construção: “Só se dava arrasto se as
casas não fossem estreitas. Se a casa só tivesse seis metros de comprimento não se dava
arrasto,” confirmou ainda mestre Albino.29