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Chapitre II : Analyse comparative de la réalisation des ODD sélectionnés dans les

E. Algérie

Fundamentada nos princípios hjelmslevianos, supracitados, a teoria de Algirdas Julien Greimas (1917-1992) preocupa-se com o exame do processo de produção de significação e sentidos. Já em 1966, o autor lança a obra Semântica estrutural, na qual é possível antever os empreendimentos e futuros desdobramentos das suas demais proposições.

As formulações greimasianas acreditam na existência de uma forma que se projeta sobre a substância de conteúdo, estruturando o conteúdo do que o homem diz em qualquer linguagem. A essa forma, o autor denomina de narratividade, por ele concebida como uma instância geradora dos sentidos e cuja existência virtual corresponde ao sistema, sendo pressuposta como presente em qualquer manifestação discursiva, atuando como “o princípio organizador de qualquer discurso” (GREIMAS; COURTÉS, 2013, p. 330).

O estudioso define a Semiótica como uma metalinguagem que tem por objetivo explicar seu objeto de estudo, que é o texto, compreendido nas relações contraídas entre

conteúdo e expressão. Como já se referiu, ele privilegia o estudo do plano do conteúdo, preocupando-se com as regularidades presentes em sua organização.

Inspirado, inicialmente, na obra de Vladimir Propp32 (1928), que se empenha na formalização das estruturas de conteúdo presentes nas narrativas dos contos russos, Greimas (1979) propõe a denominação narratividade para essa organização subjacente que, acredita, estrutura-se em diferentes níveis. Sem dúvida, são as regularidades encontradas na obra de Propp, que o influenciam na construção de um modelo mais rigoroso, de caráter universal e extensivo a todos os tipos de texto, independentemente da linguagem em que eles se manifestem.

A formulação greimasiana fixa-se, assim, na análise da narratividade, concebida como uma forma organizadora do que o homem diz em qualquer linguagem. Greimas (1979) acredita que a narratividade não esteja presente somente em tipos específicos de narrativa, mas como forma organizadora do conteúdo de todos os textos, independentemente dos gêneros que atualizem e das linguagens em que se manifestem. Dessa forma, a proposta teórica preocupa-se com o que os homens dizem em qualquer linguagem e, mais ainda, como fazem para dizer o que dizem.

Em sua perspectiva, a esse dizer corresponde um percurso de geração de sentidos, que comporta três níveis de profundidade desigual. Tal organização é pressuposta em toda e qualquer manifestação discursiva,

à disposição de seus componentes uns com relação aos outros, e isso na perspectiva da geração, isto é, postulando que, podendo todo objeto semiótico ser definido segundo o modo de sua produção, os componentes que intervêm nesse processo se articulam uns com os outros de acordo com um “percurso” que vai do mais simples ao mais complexo, do mais abstrato ao mais concreto (GREIMAS; COURTÉS, 2013, p. 232).

Essa estruturação do percurso gerativo de sentido em níveis compreende, assim, três instâncias estruturalmente articuladas: a instância fundamental, etapa mais simples, profunda e abstrata, responsável pela operação com os temas e valores em jogo na narrativa; a

instância narrativa, etapa intermediária e com maior grau de complexidade, responsável

pela inserção dos sujeitos, que, embora despidos de características pessoais e particulares,

32 Estudioso precursor nos estudos teóricos e metodológicos das narrativas. Suas principais obras foram

Morfologia do conto maravilhoso e As raízes históricas do conto maravilhoso. Propp, em análise da literatura popular russa, observa e reúne uma proposição de variantes e regularidades, no conjunto de seu corpus, do conto maravilhoso russo, que ao todo somavam 31 funções. O autor propõe um dos primeiros e mais importantes estudos de estruturas de narrativa. As funções sugeridas por ele davam ênfase à sequencialidade de situações nas histórias fantásticas, motivos e desfechos. Greimas, irá reiterar o estudo de Propp, porém, verificando a ausência de um rigor metodológico, atualizará um modelo de estudo da estrutura narrativa em níveis, e não mais em funções.

entram em ação; e a instância discursiva, etapa mais superficial e complexa, na qual se materializam as escolhas feitas pelo enunciador, quanto ao modo de contar seu relato. Na etapa discursiva do percurso de geração de sentido, o enunciador opera com diferentes dispositivos com vistas a conferir maior concretude às suas escolhas, manifestas através do emprego de diferentes estratégias discursivas.

Em síntese, segundo Barros:

a) o percurso gerativo do sentido vai do mais simples e abstrato ao mais complexo e concreto; b) são estabelecidas três etapas no percurso, podendo cada uma delas ser descrita e explicada por uma gramática autônoma, muito embora o sentido do texto dependa da relação entre os níveis; c) a primeira etapa do percurso, a mais simples e abstrata, recebe o nome de nível fundamental ou das estruturas fundamentais e nele surge a significação como uma oposição semântica mínima; d) no segundo patamar, denominado nível narrativo ou das estruturas narrativas, organiza-se a narrativa, do ponto de vista de um sujeito; e) o terceiro nível é o do discurso ou das estruturas discursivas em que a narrativa é assumida pelo sujeito da enunciação (BARROS, 2005, p. 13).

Desse modo, a instância fundamental dá conta da estrutura mais simples e profunda, responsável pela organização mais abstrata do conteúdo da narrativa. Nesse nível, em que se inicia o processo de produção de significação e sentidos, estão em pauta os valores que regem a narrativa, organizados por pares opositivos, que podem ser representados pelo quadrado

semiótico33.

A instância narrativa recupera a estrutura fundamental e a organiza a partir da inserção de um sujeito, sempre em busca de um objeto de valor, o que o leva a executar uma série de ações para atingir aos objetivos propostos. É possível perceber, nessa instância, a existência de regularidades na construção da narrativa, assim como de posições ocupadas pelos sujeitos e antissujeitos envolvidos. Essa busca do sujeito pelo objeto de valor prevê três percursos: o da qualificação do sujeito para a ação, o da ação do sujeito e o da sanção do sujeito. Com isso se quer dizer que só um sujeito qualificado pode realizar as ações necessárias para o atingimento dos seus objetivos e que depois sua ação é julgada, tendo em vista a sua precedente qualificação.

Considerando os objetivos da presente investigação, o nível de análise privilegiado é o discursivo, compreendido como a instância que manifesta as escolhas operadas pelo

33 O quadrado semiótico propõe a representação de cada valor contido no texto e suas oposições, em sua

representação gráfica. De acordo com Barros (2001, p. 21), “a estrutura elementar define-se [...] como a relação que se estabelece entre dois termos objetos – um só termo não significa –, devendo a relação manifestar dupla natureza de conjunção e disjunção”.

enunciador. Esse nível é responsável pela conversão das estruturas profunda e narrativa em discurso.

Para esse processo de conversão, o enunciador lança mão de diferentes dispositivos (Greimas; Courtès, 1979), então manifestos através de diferentes estratégias cuidadosamente selecionadas, tendo em vista os seus interesses e as inúmeras possibilidades que lhe são ofertadas.

Os dispositivos são, então, os mecanismos disponibilizados ao enunciador para estruturar o conteúdo do que pretende dizer. Os dispositivos semânticos dizem respeito à

tematização e à figurativização do discurso; já os sintáticos referem-se aos procedimentos

de actorialização, temporalização, espacialização e tonalização, todos eles, formas de manifestação do discurso.

Os temas articulam-se, segundo Greimas e Courtés (1979), através de pares opositivos, que podem ser representados pelo quadrado semiótico – representação visual da articulação de valores. De caráter abstrato, esses temas e valores ganham forma e materialidade através do processo de figurativização, no qual se recorre à instalação de figuras e imagens do mundo. Temas e figuras estão estreitamente articulados, uma vez que um tema só ganha materialidade se recorrer a sua figurativização.

Esses dispositivos semânticos estão relacionados aos de ordem sintática, que operam na constituição dos sujeitos, do espaço e do tempo envolvidos na narrativa. No processo de actorialização, os sujeitos são configurados como atores, desempenhando diferentes papéis. Os dispositivos de temporalização e de espacialização possibilitam “a inscrição das estruturas narrativas (de natureza lógica) em coordenadas espaço-temporais” (GREIMAS; COURTÉS, 1979, p. 432).

Para além desses dispositivos discursivos previstos pela teoria greimasiana, a análise a ser realizada considera um outro, o de tonalização do discurso, proposto por Duarte (2010), que o define como uma forma de interpelação, responsável pela conferência de um ponto de vista, a partir do qual um discurso quer ser lido por seu interlocutor. Segundo a autora, pode-se pensar a tonalização como extensiva a todos os tipos de textos, embora ela ganhe maior visibilidade nos textos midiáticos, em especial, nos televisuais, devido à forte necessidade de que as mídias têm de interpelar seus receptores ao consumo dos produtos.

Duarte (2010) acredita que a relevância assumida pela tonalização no mercado televisual, se deve à dependência que essa mídia tem dos telespectadores, responsáveis pelo consumo de seus produtos. Assim, a tonalização é, em sua perspectiva, uma forma específica de endereçamento que tem como propósito a interpelação dos telespectadores.

Na compreensão de produções televisuais como textos, passa-se, na sequência a examinar as especificidades dos textos televisuais, considerando as diferentes linguagens convocadas para sua manifestação, suas características estruturais, modos de funcionamento, enquadramentos genéricos, entre outras características.