David Wechsler nasceu na Romênia em 1896. Seu pai emigrou para Nova Iorque com a família quando Wechsler tinha 6 anos. Em 1916, com 20 anos, completou os seus estudos e graduou-se pelo College of the City of New York. No ano seguinte apresentou sua tese na Columbia University. Em 1918, com a entrada do Estados Unidos na Primeira Guerra foi recrutado para ajudar a marcar e a avaliar o desempenho de vários milhares de recrutas no recém-desenvolvido Army Alpha Test Individual. Após esse treinamento, designaram-no para a unidade psicológica em Fort Logan, Texas. Seu trabalho consistia em avaliar recrutas através da escala Stanford-Binet, o Yerkes Pont Scale e o Army Individual Performance Scale. Foi durante essa prática de avaliar a qualificação militar de recrutas que começou a perceber fracassos significativos no desempenho cognitivo realizados através dos testes padronizados (Matarrazzo, 1976).
Wechsler notava que esta população demonstrava capacidade plenamente satisfatória, tanto para o trabalho como no ajustamento à vida civil. Este trabalho o fez conscientizar-se da necessidade de uma técnica com conceito mais amplo de inteligência do que as disponíveis até aquele momento. Percebia que a inteligência não podia ser separada do resto da personalidade (Matarrazzo, 1976).
A experiência e a necessidade de um instrumento mais adequado para testar a população adulta se fazia emergente, pois Wechsler notava que os instrumentos utilizados até
aquele momento possuíam lagunas significativas e alguns não estavam clinicamente adaptados a indivíduos adultos, por exemplo: a escala de Stanford-Binet. Neste período (1934), os trabalhos de Wechsler ficaram voltados para desenvolver, sistematizar e padronizar uma escala de inteligência que viessem atender esta demanda. Para tanto, iniciou experimentos com um grande número de testes individuais, que lhe parecia mais adaptados aos sujeitos adultos. Neste processo, por tentativa e erro, em 1939, montou uma única bateria chamada Wechsler-Bellevue Scale. Esse material possuía uma concepção e definição de inteligência marcada por uma capacidade global e não única, que envolvia os componentes afetivos e cognitivos, com uma administração na forma individualizada. Trazia, ainda, características que possibilitavam a avaliação de capacidades verbais e executivas independentes entre si. (Matarazzo, 1976; Anastasi & Urbina, 2000).
A escala tornou-se altamente significativa para a avaliação global, sendo proposto o uso de critérios estatísticos para o cálculo do Quociente de Inteligência, em substituição à Idade Mental, usada no Stanford-Binet, e, em uso até aquele momento. Portanto, a partir dessa primeira escala, desmembram-se todas as escalas Wechsler, procurando manter as características fundamentais da primeira (Anastasi & Urbina, 2000).
A organização da Escala Wechsler de Inteligência para Criança, WISC , sofreu revisão com a introdução de itens adaptáveis para crianças pequenas (Wechsler, 1949). Era composta de duas escalas: Verbal e Execução. Os subtestes que a compuseram foram retiradas do Bellevue-Wechsler II, segundo Frank (1986 apud Kajihara, 1993), os seus subtestes foram retirados de outros testes da Escala de Binet-Simon: Informação, Compreensão, Aritmética, Semelhanças, Números e Vocabulário. Do Pinter-Patterson Test: Completar Figuras, Armar Objetos, Cubos e Código. O subteste Labirinto foi desenvolvido especialmente para o WISC, adaptado do Army Beta Test (Kajihara, 1993; Glasser & Zimmerman, 1972, Wechsler, 2002). A partir de então, o próprio WISC passou a servir de parâmetro para o desmembramento das outras escalas que a sucederam: WISC-R (1974); WPPSI (1967, 1989), WISC III (1991) entre outras. A síntese dessas diversas versões foi organizada nos Quadros 1 e 2, que mostram de forma cronológica e abreviada a trajetória histórica das escalas Wechsler, desde a primeira versão até a atualidade com adaptação e padronização no Brasil da versão do WISC III (2002) por Figueiredo.
A partir do exposto, o presente trabalho se beneficiará dos estudos neuropsicológicos realizados com as escalas Wechsler utilizando a versão WISC-III – Escala de Inteligência para Crianças Terceira Edição para o contexto brasileiro. Este instrumento é utilizado na Neuropsicologia clínica, que estuda as relações cérebro/comportamento, como visto no corpo
desta pesquisa. Lezak (1983) define-a como "uma ciência aplicada e interessada na expressão comportamental da disfunção cerebral" (p.7). Os resultados das investigações sobre os déficits cognitivos mostram que a avaliação neuropsicológica fornece informações importantes para o diagnóstico e o prognóstico, fornecendo subsídios para o tratamento desses transtornos (Lefèvre, 1996; Antunha, 2002; Lezak, 1995).
Quadro 1 - Trajetória das Escalas Wechsler3
DATA NOME E VERSÃO DA ESCALA IDADE
1939 Wechsler- Bellevue Intelligence Scale 16 anos a 75 anos
1946 Wechsler-Bellevue Forma II ( P/Exército Americano) – Reteste 16 anos a 75 anos
1949
Wechsler – Bellevue para Crianças (WISC)
WISC*: Wechsler Intelligence Scale For Children – Escala Wechsler de Inteligência para crianças 5anos a 15 anos
1955 WAIS: Wechsler Adult Intelligence Scale 16 anos a 75 anos
1967 WPPSI: Wechsler Preschool and Primary Scale Of Intelligence 4 anos – 6 ½ anos
1974 WISC –R : Wechsler Intelligence Scale For Children – Revised 6 – 16 anos
1981 WAIS-R: Wechsler Adult Intelligence Scale-Revised 16 – 74 anos
1989 WPPSI-R: Wechsler Preschool And Primary Scale Of Intelligence Revised 3 – 7anos e 3m
1991 WISC-III: Wechsler Intelligence Scale For Children – Third Edition 6 – 16 anos
1997 2002
WAIS-III: Wechsler Adult Intelligence Scale – Third Edition
WISC-III: Escala de inteligência Wechsler para Crianças – Adaptação e Padronização Brasileira, 1°.ed.
16 – 89 anos 6 - 16 anos (*) 1964 Ana Maria Poppovic, Traduz a Escala no Brasil, com pequenas adaptações.
Quadro 2 - Versões baseadas nas escalas Wechsler4
ANO NOME E VERSÃO DA ESCALA IDADE
1945 WMS: WECHSLER MEMORY SCALE Adultos
1987 WMS - R: WECHSLER MEMORY SCALE- REVISED 16-74 anos
1991 WAIS-R NI: NEUROPSYCHOLOGICAL INSTRUMENT5 16-74 anos
1992 WIAT:WECHSLER INDIVIDUAL ACHIEVEMENT TEST6 06-16 anos
3Fonte: Anastasi, 1977; Anastasi & Urbina, 2000; Cunha, 1993 e 2000; Van Kock, 1977; Matarazzo, 1976; Spreen, 1998;
Wechsler, 1994; Wechsler, 2002; Lezak, 1995.
4 Fonte: Lezak, 1995; Cunha, 2000; Spreen, 1998; Figueiredo, 2001.
5 WAIS-R NI indicação para avaliação neuropsicológica – Triagem para investigar necessidade de avaliação mais completa. 6 Teste vinculado ao WISC-III, para avaliação de problemas clínicos que interferem na aprendizagem.
1997 WMS- III: WECHSLER MEMORY SCALE 16-89 anos
Desde a primeira escala de David Wechsler, como vimos acima, a Wechsler-Bellevue em 1939, inúmeros estudos e revisões têm sido realizados e validados para o uso e diagnóstico clínico. Entre estes estudos destaca-se a contribuição altamente significativa destes testes para a investigação das funções mentais superiores, como por exemplo o diagrama de McFie (1975), que pela importância do seu trabalho, que muito contribuiu para a análise dos resultados encontrados com às criança com DMD, estaremos abordando-o num capítulo a parte. A neuropsicologia muito tem se beneficiado desta técnica, para investigar uma série de patologias mentais, tanto na forma quantitativa quanto qualitativa dos resultados (Kajihara, 1993). Embora as escalas Wechsler não tenham sido testes originalmente organizados para a neuropsicologia, os estudos dos seus subtestes distribuídos nas escalas: verbal e execução, têm demonstrado serem um instrumento neuropsicológico, pois constatou- se que são partes úteis e integrantes da maioria das avaliações neuropsicológicas (Boll, 1981). Cabe ressaltar que a avaliação neuropsicológica realiza uma interpretação qualitativa do desempenho do sujeito no teste. Faz parte de sua avaliação a análise dos erros (como foram cometidos) e, a partir desta premissa, os erros são vistos como tão importantes ou mais importantes do que os próprios escores (Lezak, 1995).