Pereira et al (2003) conceitua a linguagem como uma função complexa, constituída por um conjunto de processos que permite a comunicação. É a capacidade de armazenar, evocar e combinar símbolos em uma permuta inesgotável de expressões que permite a elaboração do pensamento.
Os autores citam o modelo clássico da linguagem, conhecido e baseado no estudo de doentes afásicos, com diferentes lesões cerebrais. Segundo este modelo, há uma área frontal expressiva para planejamento e execução da fala e movimento de escrita. designada por área de Broca (1861) e uma área posterior, receptiva, para análise e identificação dos estímulos lingüísticos sensoriais, conhecida por área de Wernicke (1874).
Segundo Pereira et al (2003),a expressão da linguagem requer processos complexos em que interfere a informações sensoriais visual e auditiva, a atenção, a realização de operações comparativas e outras operações sobre a informação obtida, a seleção de uma resposta e expressão desta.A linguagem é uma função que está relacionada a outras funções
como audição, visão, atenção, memória e função motora, necessária para produção dos sons, os quais são agrupados em frases com determinado sentido ou significado.
No processo da linguagem, os autores consideram, então: 1) Fonética – que constitui o processo que comanda a formação e percepção dos sons falados; 2) Fonologia – conjunto de regras específicas da linguagem, através das quais os sons são representados e manipulados permitindo a produção de palavras; 3) Semântica – que permite atribuir um sentido as palavras; 4) Sintaxe- permite utilizar as palavras com o conhecimento do seu sentido para formar frases.
Pereira et al (2003) colocam que as principais áreas cerebrais ativadas na execução da linguagem são:
I) Área de Broca – ocupa a circunvolução frontal inferior do hemisfério dominante. Corresponde à área 44 de Brodmann, e as margens das áreas 6, 12, 45 e 47. Constitui o componente sintáctico-articulatório da linguagem. Gera sinais para a musculatura (dependente do córtex motor) produzir sons significativos. A lesão desta área provoca dificuldade na produção / articulação das palavras, mantendo a capacidade musical (hemisfério direito), permanecendo uma boa compreensão da linguagem falada e escrita.
É conhecido o fenômeno da plasticidade neuronal, em que lesões de crescimento lento, levam a um deslocamento das áreas funcionais para outras áreas anatômicas, podendo existir uma mudança para o hemisfério oposto.
II) Área de Wernicke – localiza-se no segmento posterior do giro temporal superior, na fase dorsal, logo atrás da circunvolução de Heschl e adiante do giro angularis. Correspondem as áreas 22, 37, 39 e 40 de Brodmann (Figuras 10 e 11), contituindo o componente léxico- semântico da linguagem.
Figura 10 – Áreas de Brodmann Figura 11 – Áreas de Brodmann
Visão lateral do hemisfério esquerdo Visão medial do hemisfério direito
Fonte: Gazzaniga (2002, p. 73) Fonte: Gazzaniga (2002, p. 73)
Nos testes de decisão semântica são requisitados sistemas de atenção, memória de trabalho, processos sensoriais e sistemas de resposta motora. São habitualmente utilizados estímulos auditivos que estimulam o córtex auditivo.
Citando Dérmonet, Price et al e Pereira et al, destaca que em um processo semântico estão envolvidas, principalmente, quatro áreas corticais no hemisfério esquerdo:
1. Região temporal póstero-ventral, que inclui parte do giro temporal médio, inferior, fusiforme e parahipocampo;
2. Uma grande região pré-frontal, que inclui os giros frontal superior, inferior, parte do giro frontal médio e giro cingular anterior;
3. Giro angularis;
4. Região peri-esplênica, incluindo o giro cingular posterior e a porção ventral do pré-cuneo.
III) Área de Dronker – está localizada no giro pré-central da insula. A lesão desta área se relaciona com a apraxia da fala, isto é, com a programação da musculatura da fala para a produção de sons na ordem e no tempo corretos. Há uma manutenção da percepção da linguagem, permitindo o reconhecimento e percepção dos sons falados, entretanto com erros articulatórios, reconhecidos pelos próprios doentes. Os erros articulatórios são de pequena intensidade, aproximando-se da palavra pretendida, diferentemente da apraxia oral, na qual há dificuldade no planejamento e execução de movimentos musculares orais voluntários, embora os movimentos automáticos estejam preservados.
IV) Facículo arqueado – compreende um feixe de fibras que conecta as áreas de Wernicke e Broca (Figura 12), localizando-se entre BA22 e BA44 (ver Figura 10 e 11). As lesões nesta região caracterizam uma afasia de condução, onde as áreas de Wernicke e Broca estão intactas (figura 13) . Há uma correta articulação e compreensão das palavras, mas incapacidade de repetição das mesmas, estando preservada a capacidade de repetição de números.
Figura 12 Repetição da palavra falada Figura 13 - Componentes chaves do segundo modelo Wernicke-Geschwindgs sistema de linguagem – Hemisfério Esquerdo
Fonte: Bear et al. , 2001, p.647 Fonte: Bear et al., 2001, p. 642
Após termos resvisto aspectos da dinâmica cerebral e sua integração com funções cognitivas, passemos a abordagem do sistema funcional de Luria.
Nos Quadros 11, 12 e 13 são mostrados sínteses esquemáticas, de forma didática do funcionamento do sistema integrado de Luria, com as características gerais das três unidades funcionais (blocos) e o interrelacionamento com as funções cognitivas que envolvem diretamente este sistema na aquisição do processo de aprendizagem, facilitando a visualização da dinâmica do cérebro em ação e em desenvolvimento. Nos quadros também aparecem as estruturas cerebrais anatômicas e sugerem recursos terapêuticos que poderão ser trabalhados com o sujeito.
Os autores destacados, Antunha e Lefèvre, ressaltam que o neuropsicólogo para compreender e interpretar uma lesão cerebral precisa partir do conhecimento da dinâmica do cérebro, e principalmente de cada zona cortical que está sendo investigada. A área específica deve ser explicada e relacionada com a organização total dos sistemas funcionais. O examinador tem a tarefa de saber qualificar a estrutura cerebral e sua dinâmica, percebendo as diversas áreas cerebrais que estão envovidas nas realizações das ações comportamentais que são solicitadas através dos estímulos desencadeados no momento da sondagem cognitiva através dos testes.
Como se está discutindo a investigação cognitiva através de testes, em especial o WISC III, cabe aqui destacar a análise neuropsicológica do funcionamento infantil realizada por Antunha (1994), através dos seus estudos dos sistemas funcionais de Luria Essa autora ressalta que diferentemente do adulto, o cérebro infantil está se desenvolvendo, seguindo os processos maturacionais pertinentes a uma programação estruturada geneticamente, como ocorre nas espécies em gerais.
premaduração. Entretanto o arcabouço do material neurônico, sua formação e os canais de distribuição dos agrupamentos de neurônios estão praticamente distribuídos nas regiões que responderam as necessidades do sistema.
No 7° mês de gestação, a criança já esta com o número de células que iram integrar a estrutura do córtex cerebral, com dez mil milhões de células nervosas. O conteúdo neuronal que vai dar sustentação e vascularização ao cérebro está em processo de organização espacial prévia para adaptação desse ser no mundo: estilos ambientais, coordenação sensório-motora, entre outras. O amadurecimento do sistema nervoso se constrói a partir da atuação da criança no mundo, com a experiência ela vai organizando sua vida psíquica. De forma estrutural a maturação faz parte do processo de mielinização, estendendo-se, após o nascimento, da subcorticalidade à corticalidade, excitando a grande via piramidal que mantém conexão com os analisadores perceptivos corticais.
Sobre a dinâmica cerebral infantil a autora explica que:
“....às funções frontais, bem como a encruzilhada têmporo-paríeto-occipital, desempenham o papel mais importante na elaboração das funções superiores e, se a isto ajuntarmos a informação de que a velocidade do aumento das regiões pré-frontais do cérebro cresce acentuadamente na idade de três e meio a quatro anos e que a isto se segue um segundo salto em torno da idade de sete a oito anos, podemos estabelecer com muita segurança a base neuropsicológica do grande desenvolvimento mental encontrado na meninice...” (1996, pp.120-121.)
Quadro 11 - Síntese das Unidades Funcionais de Luria - bloco 1
CARACTERÍSTICAS GERAIS DAS UNIDADES FUNCIONAIS (BLOCOS) SISTEMAS ESTRUTURAS ANATÔMICAS RECURSOS TERAPÊUTICOS 1° BLOCO
1° UNIDADE FUNCIONAL: -Situada no subcórtex;
-está associada as áreas de projeção:
as “áreas de projeção (primárias)
recebem ou dão origem as fibras relacionadas diretamente com a sensibilidade e com a motricidade
Machado (2000, p. 263)”.
-Abrange o Tronco Cerebral
especificamente a Formação Reticular, mantendo conexões com o córtex sendo estimulado pelos processos metabólicos:
1°) processos reguladores
diretamente monitorados pelo hipotálamo (formação reticular do bulbo e do mesencéfalo integrado a este órgão);
2°) informações do meio externo
desencadeando reflexo de orientação, o alerta diante das mudanças que o meio desencadeia;
3°) ativação intencional agindo na
formação reticular, que se refere ao planejamento decisório seletivo de interesse pessoal, com núcleo no lobo frontal.
-o sistema límbico também esta
envolvido nesta dinâmica cerebral.
FUNÇÃO GERAL DESTA UNIDADE:
ativar o córtex cerebral regular o tônus para manter integra a capacidade atencional, a vigília e o domínio da informação proprioceptiva. (Antunha, 2002; Fonseca, 1995; Lefrèvre, 1996)
SÍNTESE DAS UNIDADES FUNCIONAIS
1. Atenção;
2. Seleções das informações neurossensoriais;
3. Regulação e ativação: Vigilância e tonicidade;
4. Facilitação e inibição;
5. Controle da informação exterior; 6. Memória; 7. Seqüencialização temporal; 8. Modulação neurotônica e emocional. (Fonseca, 1995, p.164) 1. Formação Reticular (Substância Reticular):
Influencia quase todos os setores do sistema nervoso central, o que é coerente com o grande número de funções que lhe tem sido atribuída:
a)Controle da atividade
elétrica cortical: sono e vigília; b) Controle eferente da sensibilidade; c) Controle da motricidade somática; d) Controle do sistema nervoso autônomo; e) Controle neuroendócrino; f) Integração de reflexos. Centro respiratório e vasomotor.( Machado, 2000, p.196) 2. Sistemas: Vestibulares/ proprioceptivos Informam sobre a posição no espaço das partes do corpo onde estão localizados, bem como da atividade muscular e do movimento das articulações. São responsáveis pelo sentido de posição e de movimento (Machado, 2000, p.300). • Tronco cerebral:
Interpõe-se entre a medula e o diencéfalo; dividi-se em:
a)Bulbo, situado caudamente; b) Mesencéfalo, situado
cranialmente;
c) Ponte, situado entre ambos.
(Machado, 2000, pp.43-45) (Figura. Bear, 2001) • Estruturas talâmicas: - Situada no diencéfalo (Machado, 2000, p. 243) • Hipotálamo
- Situado numa pequena região
do diencéfalo, abaixo do tálamo (Machado, 2000, p.57) • Corpo caloso • Cerebelo -- Metabólica; -Estimulação geral (multi e antigravítica, fisiognômica e polissensorial) (Fonseca, 1995)
Fonte: Adaptada de Fonseca, 1995, p.164, pela pesquisadora
Quadro 12 - Síntese das Unidades Funcionais de Luria - bloco 2
CARACTERÍSTICAS GERAIS DAS UNIDADES FUNCIONAIS (BLOCOS) SISTEMAS ESTRUTURAS ANATÔMICAS RECURSOS TERAPÊUTICOS 2° BLOCO
2°UNIDADE FUNCIONAL: - Situa-se no neocórtex, - engloba as parte posteriores e
subjacentes dos lobos occipital (visual), temporal (auditivo) e parietal ( sensibilidade geral -), áreas do córtex somestésico.
-Regiões vinculadas as informações
exteroceptiva e proprioceptiva: através da visão, da audição, do tato ocorre a análise, codificação e armazenamentos das informações vindas destas regiões, encarregadas de ajustarem todos os tipos de
informações que chegam ao cérebro.
- Todas estas áreas são formadas por
áreas primárias com grande especificidade modal, recebendo os impulsos;
-Especificidade modal: o lobo
occipital sendo um centro para análise visual, não participa na decodificação de sinais acústicos, enquanto que o lobo temporal participa de forma somente específica na organização da informação visual;
- organizações mais complexas até a
terceira área são formadas por neurônios associativos, sendo responsável pela agregação dos diferentes analisadores na qual se dá a passagem da percepção concreta para pensamento abstrato. Funções fundamentais do processo cognitivos ( Lefèvre, 1996; Antunha, 2002)
SÍNTESE DAS UNIDADES FUNCIONAIS
1. Processamento: Recepção e análise sensorial;
2.Organização espacial; 3.Simbolização esquemática; 4.Codificação da Memória (armazenamento);
5.Integração sensorial e perceptiva dos proprioceptores (tatilquinestésico) e telereceptores (visão e audição) (Fonseca, 1995) Áreas associativas corticais (parte posterior): a. secundarias (unimodais): Sensitivas e motoras – estão relacionadas, embora indiretamente, com uma determinada modalidade sensorial ou com a motricidade. As conexões de uma determinada área de associação unimodal se fazem predominantemente com a área primária da mesma função.Ex:área de associação unimodal visual recebe fibras predominantemente da área visual primária ou área de projeção visual. (Machado, 2000. pp.263)
“ Um neurônio que tenha recebido uma informação transmite esta a outros neurônios através de impulsos chamados de potenciais de ação esses sinais propagam-se na forma de onda ao longo do axônio do neurônio convertendo em sinais químicos nas sinapses, ponto de contato entre os neurônios” (Antunha,
1996 pp.119).
1.Córtex Cerebral Hemisférios
Esquerdo e Direito;
2.Lóbulo Parietal
(tatilcinestésico);
3.Lóbulo Occipital (visual); 4.Lóbulo Temporal (auditivo).
(Fonseca, 1995) • Input sensorial específico; • .Motricidade; • .Integração sensório- motora; • Estruturação perceptiva: a) visuomotora b) auditivo-verbal
Fonte: Adaptada de Fonseca, 1995, p.164, pela pesquisadora
CARACTERÍSTICAS GERAIS DAS UNIDADES FUNCIONAIS (BLOCOS) SISTEMAS ESTRUTURAS ANATÔMICAS RECURSOS TERAPÊUTICOS 3° BLOCO 3°UNIDADE FUNCIONAL:
abrange as regiões anteriores dos hemisférios cerebrais, lobo Frontal.
-Relaciona-se intimamente com a
formação reticular do tronco cerebral, suprida com canais de conexões ascendentes e descendentes;
-As partes médio-basais podem ser
consideradas como uma importante estrutura cortical sobreposta aos sistemas do tronco cerebral superior;
- Mantém conexões importantes com
o córtex motor e com as estruturas do segundo bloco;
- Este lobo atinge o amadurecimento
de suas estruturas durante o 4° e 5° ano de vida e seu desenvolvimento ocorre, geralmente, de maneira rápida, quando as aquisições da aprendizagem necessitam das primeiras formas de controle consciente do
comportamento;
- A dinâmica das funções , desse lobo,
são de formas expressivas e não receptivas.
-As áreas pré-frontais, são
responsáveis pela planificação do comportamento.
- De maneira geral este lobo é
responsável pela organização da atividade consciente, através da programação, regulação e verificação do comportamento, pela execução e desempenho da atividade solicitada. Esta unidade funciona com as áreas de sobreposições que abrangem áreas pré-frontais e frontais).
(Lefèvre, 1996; Antunha, 2002)
SÍNTESE DAS UNIDADES FUNCIONAIS 1.Planificação; 2.Programação; 3.Intenção; 4.Síntese; 5.Execução; 6.Verificação 7.Correção
8.Seqüencialização das operações
cognitivas (Fonseca, 1995). 1.Sistema piramidal (ideocinético) 2.Áreas associativas corticais terciárias (supramodais) do cérebro: a.Áreas pré-frontais: compreende a parte anterior não motora do lobo frontal : não se
ocupam mais do processamento motor ou sensitivo, mas estão envolvidos com atividades psíquicas superiores como por exemplo, a memória, os processos simbólicos e o pensamento abstrato. Mantêm conexões com várias áreas unimodais ou com outras áreas supramodais.
As áreas de projeção estão relacionadas com a sensibilidade, a motricidade, e as áreas de associação e de sobreposição estão relacionadas com funções psíquicas complexas: gnosias, linguagem, esquema corporal, memória, emoções, etc. (Machado, 2000). 1.Córtex Motor; 2.Córtex pré- motor; 3.Lóbulos Frontais. (Figura Fonseca, 1995) • Psicolingüísti- ca; • Psicomotrici- dade • Pensamento; • Formulação intencional; • Linguagem interior • Feed-back
Fonte: Adaptada de Fonseca, 1995, p.164, pela pesquisadora