2 NLKD Architecture
2.2 Core Debug Engine (CDE)
Segundo Gil (2002), a memória, uma das principais funções cognitivas, situa o ser humano em seu contexto. Para tal, trata de sua trajetória e de sua atualidade. Esses dois aspectos se entrelaçam formando dois eixos, sendo um, o eixo seqüencial ou diacrônico, inscreve a memória na abscissa do tempo histórico, e o outro, o sincrônico, no presente. Ambos atrelam-se a diferentes domínios em que a memória atua. O autor destaca que esses eixos se entrelaçam de maneira dinâmica e processual, sendo que a memória em ação, atua numa forma múltipla, podendo processar-se e manifestar-se de várias maneiras, partindo, contudo sempre de uma internalização que é processada pelo cérebro. Assim, inicialmente, procede absorvendo, selecionando e refinando as informações oriundas através dos órgãos dos sentidos; procede a seguir, ao armazenamento dos conteúdos no córtex cerebral, num conjunto de neurônios, nas redes que representam o suporte das informações responsáveis pela estocagem de todo material e por , a habilidade de acessar as informações estocadas.
Este princípio ativo do ato de recordar, segundo Luria (1983), faz parte de um sistema complexo, altamente organizado, funcionando em concerto no córtex, com estruturas subjacentes, sendo que cada um desses sistemas dá sua própria contribuição específica para a organização dos processos mnêmicos. Destaca, ainda, que a destruição ou mesmo o estado patológico de qualquer um desses sistemas deve levar a um distúrbio no curso dos processos mnêmicos, sendo que o caráter desse distúrbio varia de acordo com o sistema cerebral afetado. Portanto, existem diferentes tipos de memórias e determinadas regiões cerebrais são mais voltadas para alguns tipos do que para outros.
Sintetizamos os autores acima através da visão da Lezak (1995), que descreve a memória como um sistema complexo que armazena, retém e recupera algumas exposições prévias de acontecimento ou experiência vivida pelo ser humano. Destaca que as atividades mentais que as pessoas geralmente denominam “memória” envolvem um funcionamento planificado nas pessoas organicamente sem distúrbios. Porém, os padrões se modificam quando existe uma perturbação do nível de eficiência, seja de ordem emocional, deterioração patológica do cérebro, lesão, ou ainda outras causas. As disparidades freqüentemente aparecem entre as várias funções que ela desempenha. Mas, para identificar essas diferenças de padrões é necessário testá-la em seu processamento, para, assim, obter suas distinções anatômicas e funcionais.
A autora alerta para que o uso do mesmo termo genérico para identificar algumas atividades mentais muito diversas, referentes à memória, pode criar confusão. Exemplifica dizendo que muitos pacientes dizem ter dificuldades de memória e não as têm, outros acham que têm boa memória, porque as primeiras memórias são mais fáceis de recuperar, entretanto outras estão prejudicadas; fala ainda daqueles que reclamam de problemas de memória, mas têm desordem da atenção. Destaca, ainda, que, quando se realiza um exame de memória, deve -se investigar, no mínimo, a retenção imediata (retenção de muito curto prazo), mas com interferência; deve-se avaliar aprendizagem em termos de extensão de memória recente, verificando a capacidade de aprendizagem do material armazenado e a eficiência de recuperação tanto da memória recente, quanto a de longo prazo.
Estes múltiplos modelos de funções da memória, aqui relatados, são sistemas funcionais com especificidades diferentes e complementares. A autora, finaliza sinalizando que as desordens de memória devem ser consideradas conforme sua correta designação, devendo-se manter as distinções terminológicas usadas e existentes na literatura científica.
Estas distinções terminológicas mais precisas e específicas da memória ajudarão o clínico no momento da avaliação do paciente.
Funcionamento da Memória
Para abordarmos o funcionamento da memória inicialmente precisamos estabelecer a maneira como ela é evocada pelo cérebro. Essa forma, segundo Squire (1987), citado por Gazzaniga (2002), acontece através do processo de aprendizagem, o meio pelo qual adquirimos novas informações, e a memorização se refere à persistência do aprendizado num
estado que possa ser revelado mais tarde. Aprendizado, então, tem um produto posterior ao qual nos referimos como memória. Em outros termos, o aprendizado acontece quando a memória é criada ou é forçada por repetição. O aprendizado, não é, necessariamente, um processo consciente, pode ocorrer com a simples exposição à informação ou a uma tarefa.
Na leitura de Gazzaniga (2002), aprendizado e memória podem ser divididos em estágios hipotéticos: Captação (encoding), armazenamento e recuperação. A captação tem duas fases separadas: a aquisição registra as entradas em áreas sensoriais intermediárias (buffer) e em estágios de análise sensorial, enquanto que a consolidação cria uma forte representação no tempo. A armazenagem, resultado da aquisição e consolidação, cria e mantém um registro permanente. A recuperação, utiliza a informação armazenada para criar representações conscientes ou executar o comportamento aprendido como um ato motor.
Sistema de memória sensorial e curto prazo
A definição de memória implica em componente temporal. Quando nos recordamos o fazemos para coisas de momentos, curtos períodos e longos períodos. Endel Tulving (1995) apud Gazzaniga, (2002) descreveu algumas formas de memória como “Viagem mental no tempo”. Desta forma, ele caracteriza memória pelo tempo de retenção da informação de interesse.
Para Gazzaniga (2002), a memória sensorial tem duração de milisegundos de segundos, como quando recuperamos o que acabamos de dizer ou para possibilitar, por exemplo, a comunicação entre duas pessoas, na forma de dialógo.
Memória de curto prazo é associada à retenção acima de segundos a minutos. Isso inclui estar lembrando o número do telefone enquanto faz-se uma rediscagem.
Memória de longo prazo é mediada em termos de datas ou anos – um elemento na infância ou na última semana.
Memória sensorial
O autor refere-se à informação verbal auditiva, assim que apresentada parece persistir
como uma espécie de eco na cabeça, mesmo quando o sujeito não está muito atento. Gazzaniga (2002) refere-se a este processo como memória sensorial ou traço de memória sensorial (ou, ainda como registros sensoriais). Especificamente, para audição, como memória ecóica. Na visão, como memória icônica (às vezes, armazêm icônico).
Memória de curto prazo: esquecendo em segundos
Para explicar a memória de curto prazo, o autor, evidencia os contrastes existentes com memória sensorial. Atribui grande capacidade a memória sensorial, mas com traços sensoriais de vida curta que não são considerados disponíveis no estado consciente, já a memória de curto prazo é severamente limitada na capacidade, tem tempo de duração contado em segundos a minutos e é, provavelmente, disponível para o estado consciente.
Gazzaniga (2002) cita os psicólogos Richard Atkinson e Richard Shiffrin (1968), que elaboraram os detalhes do modelo modal para a memória de curto prazo (Figura 4).
Figura 4 - Modelo Modal para memória de curto Prazo
Fonte – Gazzaniga (2002, p.312) Entradas Sensoriais Registro Sensorial Memória de Longo Prazo Memória de Curto Prazo Atenção Ensaio
Figura 4 adaptada pela pesquisadora
Neste modelo a informação é, primeiro, armazenada na memória sensorial. Itens selecionados por processos intencionais podem movê-la para armazenagem de curto prazo e, daí, se o item é ensaiado, ele pode ser movido para a memória de longo prazo.
Gazzaniga (2002) refere que nos anos 70, Alan Baddelley e Hitch propuseram o modelo da memória de trabalho formada por três partes: um sistema central executivo (atencional) e dois sistemas auxiliares ou escravos, o loop fonológico e o esquema vísuo- espacial. Evidências sobre a natureza distinta desses subsistemas, primeiramente, vêm a partir de estudos de pacientes com lesões específicas no cérebro. Lesões do girus supramarginal esquerdo (Brodmann área - 40, ver Figuras 5 e 6) indicam déficits na memória fonológica de trabalho.
Figura 5 - Áreas de Brodmann Figura 6 - Áreas de Brodmann
Fonte - Gazzaniga (2002, p.313) Fonte – Gazzaniga (2002, p.313)
Pacientes com lesões nessa área têm reduzidos “spans” da memória auditiva-verbal; eles não podem manter grupos de palavras na memória de trabalho. O processo de ensaio da alça fonológico envolve parte da região pré-motora esquerda (área 44). Assim, consistida da rede do hemisfério esquerdo dos lobos frontal lateral e parietal inferior, subservem a memória de trabalho fonológico. Estes déficits na memória de trabalho, para material auditivo-vebal (dígitos, letras, palavras), não têm sido detectados como associados a déficits na percepção ou produção da fala.
O esquema vísuo espacial é comprometido por lesões na região parieto occipital de ambos hemisférios, mas lesões no hemisfério direito produzem déficits mais severos na memória visuoespacial de curto prazo. Paciente com lesões na região parieto-occipital tem dificuldades com tarefas não verbais da memória de trabalho visuo espacial, como reter e repetir a seqüência de blocos tocados por outra pessoa. Lesões similares ocorridas no hemisfério esquerdo podem levar a prejuízo na memória de curto prazo para material lingüístico apresentado visualmente.
Modelos de Memória de Longo Prazo
Informações mantidas por um tempo significativo são referidas como memória de longo prazo. Gazzaniga (2002) destaca que a memória de longo prazo tem duas subdivisões que classifica como principais: memórias declarativas e não-declarativas.
Memória declarativa refere-se ao conhecimento ao qual temos acesso consciente, incluindo conhecimento pessoal e do mundo. Em contraste, memória não-declarativa refere- se ao conhecimento ao qual nós temos acesso de forma não consciente, como habilidades motoras e cognitivas (conhecimento procedimental), percepção primária, comportamento simples aprendidos que derivam do condicionamento, hábitos ou sensibilidade. A essencial relação entre as formas de memória de longo prazo está sumarizada na Figura 7.
Figura 7 - Relação entre formas de Memóaria de Longo Prazo
MEMÓRIA
Figura 7 adaptada de Gazzaniga (2002, p.314)
De forma geral, teorias da memória incluem duas principais distinções sobre como nós aprendemos e retemos conhecimento. O primeiro é que a memória pode ser definida pelo tempo de retenção. Desta forma, os autores têm identificado memória sensorial, memória de curto prazo ou de trabalho e memória de longo prazo. O segundo principal conceito envolve as idéias de que memórias podem ser caracterizadas por seu conteúdo e que diferentes tipos de informação podem ser parcialmente ou completamente retidas em sistemas de memórias distintos. A questão que permanece é se estes diferentes sistemas de memória são apoiados por diferentes circuitos neurais e sistemas no cérebro.
Lent (2001) destaca a organização dos processos mnemônicos. Inicialmente a aquisição: entrada de um evento qualquer como um objeto, um som, um acontecimento, um pensamento, uma emoção, uma seqüência de movimentos. Os sistemas neurais captam o evento interligado-o à memória. O autor relata que estes eventos podem surgir tanto no
Memória de Longo Prazo
Memória de Curto Prazo Memória Sensorial Memória de curto prazo ou de trabalho
Memória Declarativa
(memória explícita) Memória não declarativa (Memória implícita)
Eventos (memória episódica) Fatos (memória semântica) Experiências Pessoais Especificas Vindas um particular tempo e local Conhecimento de mundo; conhecimento de objetos; conhecimento da linguagem; conc.primitivos
Lobo temporal Medial Diencéfalo médio Neocórtex especializado O córtex Pré-Frontal Memória Procedural Sistema de Representação perceptiva Condicioa- mento clássico Aprendizado não associativo Habilidade (motora e cognitivas) Perceptual
primário Condicionada Resposta Entre dois estímulos Habituação e sensibilização Gânglio Basal e Cerebelo Neocortex perceptivo e de associação Músculo
mundo externo quanto interno do sujeito, passando por um processo de seleção que busca previlegiar aspectos significativamente relevantes para a cognição, emoção e os mais focalizados pela atenção marcados por fatores sensoriais ou aqueles priorizados através de critérios desconhecidos.
No passo seguinte, Lent (2001) destaca o armazenamento como produto selecionado de um evento que pode ter a duração de muitos anos, algumas vezes por segundos. Esta dinâmica faz parte do processo de retenção da memória. Relata que a retenção nem sempre é permanente. Quando desaparecem, é o esquecimento. Entretanto, o tempo e a importância que o sujeito dá para a aquisição da informação interfere na memorização e sofre variações de indivíduo para indivíduo.
O autor cita alguns estudos realizados por psicólogos sobre a capacidade de retenção do indivíduo, sinalizando que este domínio se estrutura conforme os tipos e subtipos da memória utilizada (Quadro 14). Enfoca que eles também organizaram este processo classificando-o conforme as características inerentes a cada etapa do processo de memorização. O trabalho classificatório “se mostrou importante, pois se verificou que os tipos de memória são operados por mecanismos e regiões cerebrais diferentes”(p.593).
Quadro 14 - Tipos e Características da Memória
Tipos e Características da Memória
Tipos e Subtipos Características
(1) Ultra-rápida Dura de frações de segundos a alguns segundos; memória sensorial
(2) Curta duração
Dura minutos ou horas, garante o sentido de continuidade do presente
Quanto ao tempo de reação
(3) Longa duração Dura horas, dias ou anos, garante o registro do passado autobiográfico e dos conhecimentos do indivíduo
(1) Explícita ou declarativa
Pode ser descrita por meio de palavras
Episódica Tem uma referência temporal; memória de fatos seqüenciados.
Semântica Envolve conceitos atemporais; memória cultural
(2) Implícita ou
não declarativa Não pode ser descrita por meio de palavras
De representação
perceptual Representa imagens sem significado conhecido; memória pré-consciente De procedimento Hábitos, habilidades e regras Associativa Associa dois ou mais estímulos
(condicionamento clássico), ou um estimulo a uma certa resposta (condicionamento operante)
Não associativa Atenua uma resposta(habituação ou a aumenta (sensibilização) através da repetição de um mesmo estímulo
Quanto à natureza
(3) Operacional Permite o raciocínio e o planejamento
do comportamento Fonte: Lent, R., 2001, p. 593.