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Fuel failure analysis

4. DETECTION, EXAMINATION AND ANALYSIS OF FUEL FAILURES

4.5. Fuel failure analysis

Na época em questão, o único cientista a conclamar os antro- pólogos a fazer tipologias e comparações para desenvolver uma teoria nomotética de processo sociocultural era Alfred-Reginald Radcliffe-Brown. Quando os boasianos afirmavam que não havia “nenhuma lei significante a descobrir tais como o funcionalista procura,” Radcliffe-Brown (1952, p. 187) respondia que

As generalizações sobre qualquer espécie de assunto são de dois tipos: as generalizações de opinião comum, e as genera- lizações que têm sido verificadas ou demonstradas por um exame sistemático de evidências proporcionadas por observa- ções precisas feitas sistematicamente. As generalizações desse tipo são chamadas de leis científicas. Aqueles que mantêm que não há leis da sociedade humana não podem manter que não há generalizações sobre a sociedade humana porque eles próprios mantêm tais generalizações e ainda fazem outras novas da sua própria feição. Portanto, têm que manter que, no campo de fenômenos sociai sao contrário dos fenômenos físicos e biológicos, qualquer tentativa sistemática de testar generalizações já existentes ou para descobrir e verificar outras novas é, por alguma razão não explicada, fútil, ou, como disse o Dr. Radin, “chorar para a lua”. Contestar tal contenção é tão inútil quanto impossível).

Apesar dessas boas intenções, infelizmente, as “leis” que Radcliffe-Brown produziu eram caracteristicamente fracas, com baixa capacidade para predição ou retrodição. Ele criticou os evolucionistas por estarem “procurando não leis, e sim, origens,” embora as “leis” que ele próprio procurava fossem apenas regularidades sincrônicas. Para os boasianos, a solução para evitar reconstituições evolucionárias falsas era proceder a estudos históricos específicos; para Radcliffe-Brown, mais radical ainda, era evitar todo estudo histórico onde não houvesse fartura de documentação de cunho científico.

Tanto Malinowski como Radcliffe-Brown reivindicaram, para si mesmos, o título de primeiro antropólogo “científico”. Embora trabalhassem no mesmo país, eles não se davam entre si.

Tendo sido ambos chamados de “funcionalistas”, Radcliffe-Brown (hifenado) insistiu que a sua abordagem era de “estrutura-funcio- nalismo” (hifenado), para diferenciá-la. “Essa teoria de sociedade em termos de estrutura e processo, inter-relacionados pela função, não tem nada em comum com a teoria de cultura como derivada de necessidades biológicas individuais”, disse ele em 1949.

Radcliffe-Brown, seguindo Durkheim, utilizou o modelo organicista, ou seja, a analogia orgânica, que tinha sido desenvol- vida por Spencer. Como artifício de explanação por comparação, e não mais que isso, tem a sua utilidade. No caso de Radcliffe- Brown, não era apenas uma analogia. O problema aqui é que os organismos individuais são nitidamente separados do meio ambiente e de outros organismos: ninguém confunde onde ter- mina um organismo e começa outro. Infelizmente, não podemos enxergar organismos socioculturais, uma vez que a definição de fronteiras é extremamente fluida ou ainda subjetiva. Isso só pode se der através de observação do comportamento de seres humanos específicos. “A análise estruturo-funcional das funções de partes dos organismos é, portanto, obrigada a proceder sem conhecimento razoavelmente certo de que o organismo inteiro tenha sido colocado, por assim dizer, na mesa de dissecação” (HARRIS, 1968, p. 527). Assim, há bastante margem para a subjetividade na interpretação de quais órgãos estão ou não presentes, e qual a sua importância relativa.

Como os neoevolucionistas que o sucederam, Radcliffe- Brown viu a vida social humana como um sistema, envolvendo quatro conceitos-chave ou pilares de sustentação da sua abor- dagem, a saber: estrutura, função, processo e valor (STANNER, 1955, p. 120). Por causa de controvérsias, ele elaborou mais discussões em torno dos dois primeiros.

1) Estrutura representa a organização de grupos cuja base organizacional é território, parentesco, política etc., e cujas inter -relações constituem o núcleo dos fenômenos socioestruturais. As posições sociais diferenciadas, ou de status, derivam-se de

uma consideração de filiação em agrupamentos sociais (p. ex., clãs) e constituem partes de estrutura social.

2) A função, por sua vez, para Radcliffe-Brown, é a contri- buição que qualquer parte da estrutura, instituição ou costume, presta para a manutenção e continuidade do todo de que faz parte.

3) Já o conceito de processo tem sido relegado a um lugar secundário, mesmo pelo próprio Radcliffe-Brown. Em parte, relaciona-se com um conceito de “adaptação”, mas não é a mesma coisa que “adaptação ecológica”. É a função das adap- tações ecológicas e econômicas a sustentar a estrutura social, de acordo com a abordagem estruturo-funcional. É legítimo somente perguntar como um sistema econômico resulta de uma determinada estrutura social, ou contribui para a manutenção desta, nunca como a estrutura social resulta de, ou ajuda a manter um dado conjunto de adaptações tecno-econômicas. Assim, como a estrutura social tem precedência ontológica, estamos diante de um determinismo estrutural, em vez de infraestrutural. Nos trabalhos de muitos estruturo-funciona- listas, temos a impressão de que as pessoas da sociedade em pauta se alimentam de, digamos, sistemas classificatórios de parentesco, e não enxergamos nenhuma procura de comida em lugar nenhum no seu sistema.

4) Talvez o conceito mais interessante e menos divulgado na abordagem seja o de valor. Esse se deriva de dois postulados: uma hipótese, ou seja, a do interesse, e um princípio, o do ajuste, o que seria uma aproximação de convergência de interesses. Por interesse, Radcliffe-Brown quer dizer uma relação entre um sujeito e um objeto (o qual também pode ser outra pessoa). Se um sujeito tem interesse num objeto, a relação pode ser expressa como significando que, para aquele, esse tem um valor. Portanto, o sujeito, uma pessoa ou um grupo, atribui um valor a algo: um ato de valorizar (STANNER, 1955, p. 120-21).

Interesse e valor são termos correlatos, dizendo respeito aos dois lados de uma relação assimétrica. A relação de valor

social surge do interesse mútuo de pessoas, uma pela outra, ou do interesse por um ou mais objetos comuns, ou ainda de uma combinação destes, através de um reajuste dos interesses respectivos pela convergência desses interesses, ou por uma limitação do conflito que possa surgir de interesses continu- amente divergentes.

Quando duas ou mais pessoas têm um interesse comum num objeto, deste pode ser dito que tem um valor social para aquelas. Valor ritual é um dos valores sociais. Interesses e valores são determinadores de relações sociais e, portanto, ultimamente, de estrutura social e processo. Assim, Radcliffe- Brown formulava uma tese de como a assimetria entre indivíduos torna-se simetria social em relação a valores. Se, numa socie- dade, os atos de valorizar tornam-se estabelecidos e estáveis, segue-se a estabilização das relações. Quando ele se refere a uma “rede de relações realmente existente”, está se referindo a atribuir a objetos comuns um valor constante. Além do mais, sendo a função de alguma coisa a contribuição à manutenção do sistema de que faz parte, significa o que desempenha, ao manter o valor que lhe é atribuído. Assim estrutura duradoura significa funcionalmente constante e isso quer dizer valorização estável. É uma pena que estes conceitos de interesse e de valor tenham caído no esquecimento, pois hoje em dia assumem uma importância central. Para mais informações sobre esse ponto, ver Stanner (1955).

Para oferecer um exemplo do raciocínio de Radcliffe- Brown, citamos o caso do irmão da mãe, na África do Sul. O missionário Henri Junod, evolucionista, reportou-se à presença de relações jocosas (liberdades e libertinagens socialmente san- cionadas entre pessoas de determinada relação de parentesco) entre os BaThonga de Moçambique. Na ausência do tio, um rapaz BaThonga tomava liberdades escandalosas com as propriedades e as esposas daquele, sem medo de retaliação: uma relação jocosa assimétrica. Até roubava as oferendas mortuárias ao falecer o

tio. Ao mesmo tempo, tinha que mostrar um máximo de respeito para com a irmã e o irmão do pai. Junod concluiu que a única explicação para tal comportamento era que os BaThonga tinham passado anteriormente por uma fase matriarcal.

Retomando o caso, Radcliffe-Brown raciocinou assim: como o papel da mãe é ser carinhosa e indulgente, assim também se consideram os irmãos e irmãs dela; como o pai é um patriarca duro, também os irmãos e irmãs dele. Desde que essa equivalên- cia contraria a diferenciação sexual de papéis, o maior grau de familiaridade pode-se dar somente entre pessoas do mesmo sexo. Se a mãe e as suas irmãs são carinhosas e indulgentes, o irmão dela, cujo termo significa “mãe masculina”, mais ainda será. Ao contrário: se o pai exige respeito, a irmã dele (“pai feminino”) exigirá mais ainda. Talvez o significado estruturo-funcional da relação jocosa assimétrica dos BaThonga seja a contribuição que proporciona à manutenção das patrilinhagens. Mas, como provar isso cientificamente?

O ritual é um enfoque de interesse especial para os estruturo-funcionalistas, pois se considera que a sua função é reafirmar ou restabelecer a “solidariedade social” e o papel de cada um dentro do sistema, o que precisa ser feito periodi- camente para se manter o bom funcionamento da interação social. Porém, como é que se pode medir, intersubjetivamente, o nível de solidariedade social, tanto antes quanto depois do ritual, para demonstrar que realmente houve esse resultado ou função? Radcliffe-Brown nunca explicou isso. Para um exemplo da formulação de “leis” feitas por esse cientista, temos aquele citado com indignação por Lowie (1937, p. 224-225 apud HARRIS, 1968, p. 533):

uma lei sociológica universal, embora ainda não sendo possível determinar o grau do seu alcance, a saber, que em certas condições específicas, uma sociedade tem que se munir de uma organização segmentária [clânica. Lowie protestou:] Quem já ouviu falar de uma lei universal com um grau de aplicação ainda não definido, de uma lei que está vigente em

certas condições específicas, mas não especificadas? É uma lei em que algumas sociedades têm clãs, e outros não têm? Newton não nos informou que os corpos ou sobem ou caem.

Mas, em 1941, Radcliffe-Brown confessou a incapacidade explanatória da abordagem estruturo-funcionalista. “Se se fizer a pergunta: ‘Como é que os Omaha – ou qualquer tribo considerada – têm o sistema (de parentesco) que têm?’ – então é óbvio que o método de análise estrutural não proporciona uma resposta”. Embora aqui tenha chegado a um paralelo com os boasianos, o mesmo autor ainda considera que o método estruturo-funcional “é o único pelo qual se pode esperar chegar a generalizações válidas sobre a natureza da sociedade humana”.

Se esse método não pode fazer tanto, então ninguém pode. Como diz Harris, a ciência pode buscar a origem da vida nas condições da atmosfera primordial de cinco bilhões de anos atrás, mas perguntar por que uma tribo tem clãs e outra não, é impossível. Encontra-se o mesmo ecletismo dos boasianos na Antropologia Social britânica, o que os leva a ignorar, ou até ofuscar, a ordem que a História humana realmente apresenta. Tal Antropologia recusa-se a enfrentar o fato de que formas biológicas e socioculturais incluem muitos exemplos de estru- turas altamente funcionais, todas fadadas à extinção. Sem dados diacrônicos, não temos meios de descobrir quais sistemas são os mais funcionais em termos das condições específicas da sua evolução.

Essa cegueira em relação à História conduziu os estru- turo-funcionalistas a interpretações insustentáveis em relação à África, tomada como um conjunto de sociedades estáticas, ignorando os 350 anos ou mais de transtornos de grande escala devido às guerras associadas com o comércio de escravos. Grandes mudanças devidas a guerras, despovoamento, trans- tornos políticos e desarranjos demográficos não sugerem uma restrição a estudos diacrônicos do período entre as duas guer- ras mundiais como condições adequadas para se entender o

processo sociocultural humano. Como comentam Lauglin e Brady (19878, p. x),

[...] o pesquisador de campo em geral inicia a sua experiência de campo onerado pelas proposições simplistas e sincrônicas sobre a natureza dos sistemas sociais aprendidas pela esco- laridade e literatura tradicionais [...]. O resultado inevitável é um corpo enorme de literatura que, por demais das vezes, descreve os sistemas sociais humanos como relativamente estáticos em forma, cada um aparentemente fixo no tempo e sem responder ao que conhecemos intuitivamente de ser um ambiente dinâmico e estruturado de maneira complexa. Tais modelos são errados de fato e, em geral, inadequados à tarefa de explanar mudança e adaptação sistêmicas.