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BWRs — Channel bow

6. FUEL STRUCTURAL DAMAGE AND OTHER FUEL ASSEMBLY ISSUES

6.2. Assembly bow

6.2.2. BWRs — Channel bow

A influência boasiana – ecletista, antievolucionista, antiambientalista e antiteórica – inibia quaisquer tentativas

17 Ver APÊNDICE L – De volta às Teorias Monistas e APÊNDICE M – Neoevolucionismo, incluindo Ecologia Cultural.

de procurar regularidades em processo cultural. Em nenhum lugar a influência de Julian Steward foi tão importante quanto no combate a essa posição.

Steward foi aluno de A. L. Kroeber, que trabalhou muitos anos dentro de uma perspectiva de influência ambiental per- missiva na formação das culturas estudadas etnograficamente (ex.: Áreas culturais e naturais da América do Norte nativa, em 1939).

Em 1949, Julian Steward publicou o primeiro trabalho teó- rico norte-americano importante desde o século XIX (Causalidade

e Lei cultural: uma formulação exploratória). A essa altura tal obra

não deve causar espanto, mas, em retrospecto, percebe-se que escrever sobre teoria na época da grande influência boasiana acabou forçando Steward a dedicar a maior parte do seu ensaio a uma justificativa por fazer um trabalho teórico, como se esse fosse visto, de alguma maneira, como ilegítimo.

Nesse trabalho, um verdadeiro divisor das águas no desen- volvimento da teoria antropológica e arqueológica, Steward insis- tiu que a tarefa do investigador é de comparar sequências culturais específicas em lugares específicos, nos seus contextos, para induzir a regularidades (evitava o palavrão, “Lei”) no seu desenvolvimento. Separou conceitualmente um “núcleo” da cultura, fundamental- mente tecno-econômico, e mais sujeito a influências ambientais de que os aspectos periféricos (“estilísticos”) que proporcionam às culturas o seu “sabor” ou individualidade.

Surge, assim, a Ecologia cultural como parte do “Neoevolucionismo”, com colocações pioneiras de Steward, que também desenvolveu o conceito de Evolução Multilinear.

A abordagem da Ecologia cultural enfatiza a relação entre o homem e o meio-ambiente, donde tira o seu sustento, conduzindo a uma abordagem sistêmica (“ecossistemas”) e à atual abordagem da Ecologia Humana. A da Evolução Multilinear permitiu uma visão de mudança evolutiva que não esbarrava com o fato da diversidade das civilizações observáveis.

Steward rejeitou a abordagem superorganicista do seu mestre, A. L. Kroeber, de que a cultura só se entende através da cultura. Para ele, a Antropologia devia

descrever as similaridades e as diferenças culturais no espaço e no tempo e de explicar tais variações em termos de regu- laridades de forma, função e processo que poderiam levar a generalizações sobre as causas de tais respostas [...]. A resposta a esse problema seria encontrada no uso de uma metodologia comparativa baseada em duas importantes suposições: forma e função podem surgir em sequências historicamente inde- pendentes pela operação paralela de causalidades similares (MORAN, 1990, p. 57; STEWARD, 1955, p. 14, 108).

Isso o conduz ao conceito de Evolução Multilinear. Os evolu- cionistas do século XIX consideravam que as sociedades humanas tendem a passar pela mesma sequência apriorística de estágios de desenvolvimento, o que Steward chama de Evolução Unilinear.

A continuação em termos mais modernos desta visão pode-se encontrar no trabalho de Leslie White, que, ao pes- quisar os Iroqueses de Nova York, redescobriu Morgan e o Evolucionismo. Em vez de falar nas linhas de evolução das diversas culturas humanas, White fala em termos genéricos da evolução da cultura como um total de patrimônio humano.

Essa abordagem Steward chama de Evolução Universal, a qual, segundo ele, apresenta conclusões tão gerais que acabam sendo apenas banalidades. Ele prefere traçar empiricamente as diversas linhas de adaptação e desenvolvimento de cul- turas específicas em contextos específicos e daí procurar as regularidades transculturais na experiência humana. Assim, podem-se separar linhas diferentes de desenvolvimento demons- travelmente repetitivas, por serem apropriadas a conjuntos específicos de condições-limites, embora não inevitavelmente. Alguns povos conseguiram aumentar o seu controle energético e a sua complexidade social, enquanto outros não. “A evolução multilinear, portanto, busca leis capazes de explicar as inter-re- lações entre populações humanas e o ambiente, relações essas

que se repetem em culturas com ecologias semelhantes, mas

não são necessariamente universais, já que existem alternativas

específicas para as populações em termos microecológicos e históricos” (MORAN, 1990, p. 57; STEWARD, 1955, p. 29).

Em A Metodologia da Ecologia cultural, Steward explica como fazer isso: “a ecologia cultural apresenta um problema e um método. O problema é verificar se os ajustes das sociedades humanas aos seus ambientes requerem certos modos particu- lares de comportamento, ou se permitem certa liberdade nos possíveis comportamentos” (MORAN, 1990, p. 58).

Steward enfatiza que a pesquisa em questão deve testar empiricamente as sequências históricas reais, e não construir Histórias conjeturais com vistas a procurar exemplos depois.

A crítica de que a Ecologia cultural representa um determinismo tecno-econômico é insustentável face ao seu empirismo. Falhou ao não levar em consideração certos fatores outros (p. ex., demografia), embora isso seja compreensível por ser o seu trabalho pioneiro. Depois de desbravada a picada é que se pode ver o que tem em volta.

Desde a década de 1930, Steward trabalhou com bandos patrilocais, começando com os Shoshone da Grande Bacia da América do Norte. Destes, ele mostrou a relação entre a sua organização social e certas compulsões e limitações do ambiente.

Ele foi atraído pela obra do sinólogo Karl Wittfogel (Oriental

Despotism, 1957), o primeiro membro da Academia Soviética de

ciências, mas que abandonou a Rússia por causa de desavenças com V. I. Lenin, que não permitia mais referências ao Modo de Produção Asiático. O “Despotismo Oriental” de Wittfogel não era nada mais do que isso.

Posteriormente, Steward, juntamente com Karl Wittfogel, Angel Palerm, Richard A. Adams e outros, desenvolveu um estudo mais profundo sobre as “Civilizações de Irrigação” como um exem- plo da metodologia da Evolução Multilinear. Juntos, descreveram

as sequências paralelas de desenvolvimento de civilizações como Egito, China, Inca, Asteca e muitas outras, todas elas predicadas numa economia de agricultura intensiva de irrigação.

Na formulação de Wittfogel, um determinado ambiente representa, para seus habitantes, um conjunto não só de limi- tações, mas também de possibilidades, as quais podem ser aproveitadas ou não. Todavia, como se viu no caso do Princípio da Limitação de Possibilidades, cada escolha, partindo da inicial, limita a gama de escolhas possíveis depois.

No caso de ambientes desérticos ou semidesérticos corta- dos por rios, Wittfogel discute as qualidades específicas da água, especialmente sua capacidade de fluir e de se acumular. Daí a possibilidade de o povo, com tecnologia rudimentar, escolher levar a água de um lugar para outro, para armazenar ou para distribuir através da paisagem seca.

Isso implica a necessidade imperiosa de uma organização altamente eficiente por parte de um grande número de pessoas. Nos casos do Egito Antigo, da China, do Peru, do México e do Vale do Indo, entre muitos outros, incluindo casos incipientes como o do Havaí, os desdobramentos de circuitos de retroação positivos nesses sistemas conduziram à necessidade de se vir a desenvolver a geometria (para uma redistribuição de ter- ras), os sistemas de medidas, a astronomia (para desenvolver calendários e prever a época de enchentes), o recenseamento e uma sociedade altamente burocratizada, hierarquizada e centralizada (“monolítica”, nos termos de Wittfogel). Chega a extremos surpreendentes, tais como o Chefe de Estado tido como um rei-deus descendente do Sol, como princípio macho na fertilização da mãe-Terra (na maioria dos casos), comum a estas sociedades, e de leis determinando a repartição, em partes iguais, da terra, entre todos os filhos, legítimos ou não, de um agricultor ou fazendeiro falecido, para evitar a acumulação de terras produtivas em níveis que poderiam comprometer o poder absoluto do Estado.

Nem todos esses ambientes, porém, produziram socieda- des de “Despotismo Oriental”; encontram-se tais civilizações somente naqueles locais em que o povo fez aquela primeira esco- lha que desencadeio toda a sequência (armazenar e distribuir água), ou onde ele caiu sob o domínio de outros que já o fizeram. É provável que todas as civilizações “primárias” tenham sido desse tipo, com outros tipos surgindo sob a influência destas.

Críticas à formulação de Wittfogel apontam para o fato de que, embora essas civilizações tenham aparecido também em áreas onde a irrigação (obras públicas em grande escala) não era tão importante, e não se deu em certos lugares aparentemente propícios (p. ex., o baixo Rio Colorado, entre os Estados Unidos e México). Alguns estudiosos têm sugerido que um fator possi- velmente determinante seriam os conflitos sobre a distribuição da água, a qual exigia uma autoridade central. O importante é que a formulação pioneira suscitou mais pesquisas, levando a ciência a ganhar com isso.

Por outro lado, concorda-se com a observação de Willey e Sabloff, de que Steward e White, provavelmente, tiveram mais influência na Arqueologia de que na Antropologia. Por quê? A resposta se relaciona com a influência de Franz Boas: a Arqueologia não pode se dar ao luxo de ser antievolucionária, mentalista e ecletista e ainda ser Arqueologia e, Steward e White eram evolucionistas, materialistas e generalizantes.

Em relação ao ambiente, vale destacar que há uma dife- rença entre o ambiente real, empírico ou potencial e aquele que o povo acredita ser o ambiente: o ambiente “efetivo” dos geógrafos humanos, o ambiente “cognizado” (LAUGHLIN; BRADY, 1978, p. 6-7; ver o conceito de “potencial cultural” em contraste ao “potencial objetivo” de Richard N. ADAMS, 1975). Sempre houve minério de ferro na Serra dos Carajás, mas os índios que lá habitavam durante milênios nada sabiam da sua existência, naquela localidade, não fazendo parte, assim, do seu ambiente efetivo.

A abordagem da Ecologia cultural (às vezes com outros nomes e ênfases) entrou no elenco de atividades do Museu Goeldi, de Belém. Um antropólogo dessa linha que trabalhou lá é o cubano e norte-americano Emílio Morán (A Ecologia Humana

das Populações da Amazônia). Na Universidade de São Paulo, a

etnóloga Renate Viertler (1988) oferece essa opção com Ecologia

cultural: uma Antropologia da Mudança e, Walter A. Neves (1996),

antropólogo físico com experiência na Arqueologia, trabalhando tanto em Belém quanto em São Paulo, com Antropologia ecológica:

um olhar materialista sobre as sociedades humanas18.