7. SECONDARY FUEL FAILURES
7.3. Degradation characteristics
Pode-se definir a Teoria Geral de Sistemas (TGS) como “um conjunto de termos e conceitos juntamente com as suas definições, princípios e leis hipotéticas em relação a sistemas nos seus diversos níveis de complexidade” (GLASSOW, 1972, p. 289). Ludwig Von Bertalanffy fez uma formulação inicial, utilizando-se deste mesmo termo, mas Ilya Prigogine e Magoroh Maruyama preferem o termo “Segunda Cibernética”. Frityof Capra (1997) é quem apresenta o melhor resumo histórico e situacional desse tipo de abordagem. Embora sem utilizar a abordagem matemática de Von Bertalonffy, vamos utilizar o seu termo “Teoria Geral de Sistemas” (TGS), por questão apenas de precedente histórico, ou então simplesmente “Abordagem Sistêmica”.
Partindo das Leis da Termodinâmica, porque todos os sistemas auto-reguladores são sistemas termodinâmicos, a TGS investiga as características de tais sistemas, que são complexos e captam matéria/energia e informação, incorporando-as e expelindo produtos. Essas Leis aplicam-se a todo o universo.
A abordagem é explicitamente para o estudo de sistemas altamente complexos, como sistemas biológicos e sociocultu- rais (sistemas vivos) e de servomecanismos e computadores (sistemas artificiais). “A Primeira Lei (da Termodinâmica) diz
que a energia não se cria nem se destrói, pois a quantidade de energia do universo é constante; no entanto, a energia pode ser transformada de uma forma (ou local) para outra” (Miller jr., 1990, p. 34).
“Consequentemente, a não ser que o sistema esteja cres- cendo ou diminuindo de tamanho, as quantidades de matéria e energia contidas nele são constantes, e o total dos inputs” (GLASSOW, 1972, p. 291) igualaria ao dos outputs (ver Figura 5), se a Segunda Lei não interviesse.
Essa Segunda Lei é da maior relevância para a TGS, como afirma Glassow, “porque justifica a existência de sistemas aber- tos que processam a matéria e a energia”. Ela diz que
embora a quantidade de energia seja fixa no universo desde a sua criação, a forma está sempre degenerando no sentido de mais organizada para menos organizada (mais dispersa), ou seja, níveis sempre mais baixos de organização de energia. A degeneração energética à qual se refere [...] chama-se entropia. Entropia é, então, a constante de desperdício de energia (o “pó”, a “serragem”, subproduto das transformações energé- ticas) (MILLER JR, 1990, p. 34).
Tal dispersão está “na direção de estados de distribuição aleatória” ou alto nível de entropia (GLASSOW, 1972, p. 291). A tendência é constantemente para
níveis mais baixos de organização, na forma, por exemplo, de calor, o qual, visto no microcosmo, é o movimento de moléculas. Um exemplo seria a conversão para o calor de uma fonte de energia (uma reação química, uma conflagração etc.). Certas reações são direcionais, pois procedem num sentido só, sendo irreversíveis, sem a adição de mais energia. Por quê? Porque, na transformação de um estado para outro, perde-se energia (na forma de calor ou movimento molecular), o que pela convecção é levado embora. A saída dessa energia implica na irreversibilidade do processo, se não se acrescentar mais energia para compensar [...]. Outro exemplo seria o gasto de energia da força gravitacional, de uma pedra rolando ladeira abaixo. Se se quiser levá-la de volta para cima, tem-se que acrescentar energia (trabalho) (MILLER JR, 1990, p. 34-35).
Ao contrário da Segunda Lei da Termodinâmica, os siste- mas autorreguladores aumentam a variedade e complexidade no universo porque se alimentam da entropia para crescer, evoluir e se reproduzir, sendo que acumulam e organizam informação.
Como se pode explicar que a evolução envolve o aparecimento de formas cada vez mais complexas ou organizadas, diante do fato de que a entropia é uma constante no universo? Que a organização da matéria do universo torna-se cada vez mais baixa? E, como compatibilizar isso com o enunciado da Segunda Cibernética, de que o universo de seres vivos tende a níveis cada vez maiores de complexidade de organização (evolução) e de heterogeneidade (enquanto a entropia conduz a homo- geneidade)? É que os organismos e as sociedades, os sistemas socioculturais, aproveitam as transformações energéticas para captar energia que incorporam em si. Alimentam-se da entropia para aumentar a sua organização. Isso é o contrário da entropia: é a Neguentropia. Se não houvesse as correntes de água desper- diçando a sua energia gravitacional potencial ao procurarem o lugar mais “baixo”, não haveria rios para navegação nem correntes para girar as pás da roda-d’água. Se não houvesse a dispersão molecular em correntes de vento, não haveria meios de velejar, nem de bombear água pelo moinho de vento. Se não houvesse a desintegração da matéria no “forno” solar, não haveria energia solar para as plantas captarem na constituição de carboidratados pela fotossíntese [...]. A libertação dessa energia resulta num nível mais baixo (disperso) de energia, depois de a reação ter terminado, mas, uma parte desta energia nós captamos e usamos (MILLER JR, 1990, p. 36-37).
Para os organismos vivos, socioculturais e artificiais, isso tem um significado todo especial. Como Glassow (1972, p. 292) nos informa:
[...] os sistemas existem em virtude de, e apesar de tendências naturais na direção de entropia, e, se um sistema é de se manter num estado-estacionário, ou seja, se os componentes e a sua organização são para permanecer existindo, tem que haver inputs adicionais de matéria e energia para substituir aquela que se degenerava para estados relativamente altos de entropia. Igualmente, tem que haver outputs de entropia tal que essa não se acumule dentro do sistema. Uma vez parados os inputs e outputs, tal como quando um sistema vivo morre,
a entropia começa a aumentar. Outro aspecto da segunda lei da termodinâmica assevera que qualquer conversão ou transferência de matéria/energia resulta nalguma energia sendo convertida para outras formas a estados maiores de entropia. Em outras palavras, a conversão ou transferência não pode se dar sem algum “consumo” de energia. Portanto, o trabalho que um sistema desempenha na sua manutenção resulta em perda de energia como entropia, exigindo inputs de mais energia/matéria, a baixo estado de entropia, para continuar a manutenção. Um sistema não pode nunca esperar sobreviver somente através de reutilização daquela energia nele contida nalgum momento particular.
Figura 5 – Um circuito simples de retroação
Fonte: Miller jr. (2009)
Fundamental é o conceito de informação. A energia pode mudar de forma (se transformar) e pode mudar de lugar (fluir, ver Figura 5), embora a quantidade de energia no universo seja constante (Primeira Lei), não podendo nem aumentar nem dimi- nuir. Se eu quiser colocar energia num lugar, eu tenho que tirá-la de outro, da mesma maneira que, se eu quero dar dinheiro (uma forma simbólica de energia) para João, eu tenho que tirá-lo do meu bolso ou da minha conta bancária, porque o mesmo dinheiro não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo.
A informação, ao contrário, embora também flua, não está sujeita às restrições da Primeira Lei: de fato, a quantidade de informação (genética ou verbal-simbólica) no universo aumenta. Eu posso transmitir informação a um sem-número de pessoas: alunos na aula, leitores de livros, a plateia numa palestra ou pela televisão, sem ter que perdê-la da minha cabeça. Por isso o mundo termodinâmico fica cada vez mais organizado e com- plexo, ao contrário da entropia, porque a informação – portanto a organização – aumenta.
Na Antropologia, de máxima relevância são os métodos de análise dos sistemas auto-reguladores, os quais possuem a capacidade de se adaptar internamente (aos seus subsistemas) e externamente (ao seu ambiente, incluindo sistemas colaterais, e aos seus supra-sistemas).
A cibernética [...] propõe métodos próprios para o estudo de alguns tipos de sistema, nos quais os procedimentos científicos tradicionais utilizados nos sistemas determinados com alto grau de coerções internas mostram-se ineficazes. Nos sistemas mais simples, os métodos da cibernética não apresentam, às vezes, qualquer vantagem óbvia àqueles conhecidos há muito. É quando os sistemas se tornam complexos que os novos métodos revelam seu poder [...]. A complexidade dos sistemas [...] implica a impossibilidade prática, em muitos casos, de tentar sua descrição exaustiva. Tampouco é possível utilizar o tradicional método científico de isolar as variáveis tornando todos os fatores, menos um, constantes. A complexidade acarreta, então, a utilização de métodos específicos, como o da caixa-negra, das séries estocásticas etc. Não que estes métodos isoladamente sejam absolutamente novos, mas a sua aglomeração numa metodologia específica é uma das carac- terísticas essenciais da Cibernética (EPSTEIN, 1986, p. 23-24).
Em resumo, Epstein (1986, p. 23) e Pask observam que
os sistemas que mais se sobressaem exibem a capacidade de se auto-organizar e de se autotransformar. O tema da Cibernética diz respeito a como os sistemas se autorregulam, se autorreproduzem, evoluem e aprendem. Seu ponto mais relevante é a questão de como os sistemas se auto-organizam.
Aqui se deve encarar a sobrevivência como um ponto fundamental no desenvolvimento de sistemas, sejam organismos biológicos, sejam sistemas socioculturais, um sine qua non:
1) Para sobreviver, o sistema tem que substituir a energia (entrópica) gasta;
2) Ao absorver energia e procurar sobreviver, esse tem que incorporar os mecanismos adequados, para aí, de acordo com o princípio da Limitação de Possibilidades (que envolve coerções negativas), entrarem na classe de sistemas termodinâmicos;
3) Tais sistemas, limitados pelas leis do universo (por exemplo, a Segunda Lei da Termodinâmica) e princípios conheci- dos (por exemplo, os de Parcimônia, de Coerência e de Limitação das Possibilidades), entram em processos com sequências já conhecidas e documentadas repetidas vezes;
4) Os que não fazem isso desaparecem e não estão mais aqui para serem observados. Com a entrada do sistema na sequência, todas as outras regras que dizem respeito a sistemas entram em vigor.
Em termos de crescimento e de evolução, Herbert Spencer e outros estudiosos têm enfatizado o “imperativo” da evo- lução, seja linear, como queriam os evolucionistas clássicos, seja multilinear, como quer Julian Steward, Darcy Ribeiro e outros. Da nossa perspectiva a posteriori, é impressionante a carreira progressiva das espécies biológicas e dos sistemas socioculturais. A Segunda Cibernética mantém que a tendência do universo termodinâmico é na direção da complexidade e da heterogeneidade, ou seja, da Neguentropia.
Entretanto, se adotarmos outra perspectiva, outro ponto de vista, pode não parecer tanto assim. A evolução é um processo dialético no sentido de ser um diálogo entre a espécie e o seu ambiente. As mudanças genéticas são aleatórias, embora as pres- sões seletivas tendam a ser direcionadas – a curto ou médio prazo.
Os ambientes, assim, também mudam, mudando, portanto, o conjunto das pressões seletivas e, em consequência, a sua apa- rente direcionalidade. Embora as mudanças em nível específico sejam irreversíveis (ao menos até hoje, e a irreversibilidade é uma das características do universo termodinâmico, de acordo com Prigogine), certos aspectos não o são: alguns caramujos simples de hoje são descendentes de outras espécies mais complexas. A simplificação pode ser adaptativa em condições específicas. Os Cuna de San Blás, Panamá, de nível tribal, são descendentes do povo de uma chefia bem avançada, e que fugiram para o mato para se esconderem dos seus algozes espanhóis.
Sob a ótica de Morin, a complexidade e o caos (variação, informação) na instabilidade conduzem à morfogênese. Isso, por sua vez, nos parece inevitável (“progresso”) porque “aparece como tal, de início, por ilusão de óptica, visto que esquecemos suas mutações que não produziram resultados, os grupos sociais desaparecidos, as espécies eliminadas, uma pela outra” (MORIN, 1979, p. 96).
Realmente, da perspectiva do panorama florístico, faunís- tico e cultural atual, vê-se um grande impulso para o Progresso, para estágios cada vez mais altos. Mas, se examinarmos o grande e impressionante número de espécies e de culturas extintas na paisagem mundial, tal “impulso” ou “imperativo” cederá ao ponto de aparentar ser, afinal, uma tendência demonstrável apenas entre os poucos sobreviventes. Sahlins e Service insis- tem que o ponto final do êxito adaptativo é a especialização a condições que, quando desaparecem, deixam a extinção como o resultado mais provável.