3. WORLD OVERVIEW OF FUEL FAILURES FROM 1994 TO 2006
3.7. Evaluation of WWER fuel ‘leakers’
Partindo da ideia da extrema maleabilidade das culturas (a natureza) humanas, os relativistas procuravam a paz e a amizade entre os povos, ao ensinar as diferenças culturais num contexto de compreensão relativista. A ideia era que a compreensão dos outros vem do conhecimento e devia acabar com a intolerância, portanto com a hostilidade e com as guerras; a premissa era que as guerras eram causadas por incompre- ensão, xenofobia e hostilidade (motivações psicológicas) e não por conflitos oriundos da competição por recursos escassos. A Segunda Guerra Mundial explodiu e enterrou essa esperança.
Embora a característica fundamental dos trabalhos nessa categoria de estudos seja a aplicação, na Antropologia, de con- ceitos derivados da Psicologia, existem duas linhas diferentes de acordo com as finalidades do estudioso. Uma, que procura
caracterizar culturas ou nações inteiras (tais como os estudos de “caráter nacional”), tem sido chamada de “configuracionismo9” (ver KEESING, 1961 v. 1, c. 6). Ela está mais perto da linha teórica psicológica chamada Gestalt e, pode-se dizer que tenta caracte- rizar culturas inteiras em termos de conceitos psicológicos ou estilísticos, tais como megalomaníaco, competitivo, conformista, paranoica, cooperativista ou tradicionalista etc., ou seja, “a personalidade da cultura”. Tal linha teórica lembra os epítomes dos medievais e renascentistas, apenas mais pormenorizados e sofisticados. Pode-se chamar essa linha de investigação de “a personalidade da cultura”.
A outra linha teórica procura associar o caráter do indi- víduo adulto com certas práticas de treinamento infantil em determinados estágios do desenvolvimento da criança, numa linha tradicionalmente chamada de cultura e personalidade10, podendo também ser vista como a personalidade na cultura. Assim, muitos estudiosos procuravam entender a cultura através de conceitos psicológicos especificamente freudianos, originalmente elaborados para tratar de indivíduos, através do treinamento infantil e a sua relação com a personalidade do adulto e da cultura como um todo (personalidade básica) etc.
Um grande impulso na influência da psicologia de Sigmund Freud seguiu a associação do antropólogo e linguista boasiano Edward Sapir com o psicanalista freudiano Harry S. Sullivan, na Universidade de Chicago.
Os estudos de cultura e personalidade tendem a usar uma abordagem neofreudiana em vez de Gestalt. Muito importante foi um seminário que incluía o neofreudiano Abram Kardiner, trabalhando com um grupo de antropólogos organizado por Ralph Linton e com outro organizado durante a Segunda Guerra Mundial para estudar o caráter nacional e a cultura a distância,
9 Ver APÊNDICE H – Configuracionismo. 10 Ver APÊNDICE G – Cultura e personalidade.
o qual incluía alguns indivíduos do primeiro grupo. Nesse grupo, atuaram também Cora DuBois, Geoffery Gorer, Margaret Mead, Rhoda Metraux e outros.
Por exemplo, podem-se citar duas destacadas antropó- logas, alunas de Boas, identificadas com essas linhas psicolo- gizantes: Ruth Benedict (Padrões de cultura) e Margaret Mead (Macho e Fêmea, Sexo e adolescência em Samoa). O trabalho citado de Benedict é um exemplo clássico do configuracionismo, enquanto a obra de Mead cabe dentro da linha “cultura e personalidade”.
Em face de um mundo incerto e perigoso, o estudo de cultura e personalidade, ou de padrões (ou configurações) de cultura, e assim por diante, representava uma fuga do mundo real, material e intranquilizante da Segunda Guerra Mundial e da ameaça do Armagedon atômico da “Guerra Fria”, para estudar a cultura e procurar as causas das diferenças dentro das cabeças das pessoas individuais (cultura e personalidade) ou de uma entidade superorgânica mística (configurações).
Alguns poucos antropólogos têm estudado a mudança sociocultural sob a óptica do indivíduo que sofre pressões e busca sua adaptação. Ralph Linton (1940) enfocou o caráter do indivíduo mais propenso a aceitar a inovação, e concluiu que seria uma pessoa marginal ou mal ajustada a sua sociedade e que procura a novidade como um caminho para sair da mar- ginalização para uma situação melhor, por ser o portador da inovação. Linton adverte que, sendo esse o caso, a tendência do resto da sociedade é atribuir à inovação em si o mesmo baixo conceito que antes reservava para o indivíduo margi- nalizado. Isso representa uma advertência para antropólogos que trabalham no campo da Antropologia prática: os membros da sociedade mais aptos a aceitarem a novidade poderiam ser justamente os que os antropólogos deviam evitar, para não ver todo o seu projeto de desenvolvimento ou de assistência técnica rejeitado, e eles, como patrocinadores de uma inovação aceita
por residentes de baixo status social, podem receber também a mesma rejeição.
Linton teve influência no Brasil, sendo associado à Escola Livre de Sociologia e Política, em São Paulo, a qual, durante certo tempo, ele praticamente patrocinou.
No estudo da mudança cultural, Homer G. Barnett argu- mentou que a aceitação de uma inovação é replicar, na mente da pessoa que a aceita, o mesmo processo de invenção daquele que inventou ou descobriu e, sugeriu a aplicação da novidade original. A invenção ou inovação, de acordo com Barnett, é a associação de dois ou mais elementos abstraídos de outros complexos ou conjuntos de elementos ou ideias, por análise, e inseridos em outros, por analogia.
Assim, botões, que, para os índios da costa do Pacífico da América do Norte, não tinham utilidade, foram assimilados como sendo iguais aos pequenos ornamentos de madrepérola costurados nas roupas como enfeites. Do mesmo modo, índias maias do litoral de Iucatã, recolhendo roupas de crianças de um naufrágio espanhol, um barco de mercadorias destinado ao México, como não podiam imaginar vestir crianças com roupas, engomaram as roupinhas e inventaram um novo estilo de chapéu feminino.
Barnett apresenta o diagrama seguinte: ideia x consta em relação r1 com elemento y, enquanto a consta em relação
r2 com ideia b:
x---r1---y
a---r2---b
Certo cidadão considerou o sistema da mudança de casas de madeira nos Estados Unidos, que são transportadas por caminhões grandes, cujo principal problema está em colo- car a casa na carroçaria do caminhão. A solução em uso era escavar penosamente por debaixo da casa até que o caminhão
pudesse entrar pela escavação e, retirando mais e mais o resto da terra que sustentava a casa, deixá-la por fim assentada no caminhão. Esse cidadão, ao trocar uma vez o pneu de seu carro, visualizou, assim, a seguinte correlação: a escavação da terra (x) para colocar a casa em cima do caminhão (r1) para efetuar a mudança desta (y) é paralela à sequência de usar o macaco (a) para erguer o carro (r2) para trocar o pneu (b). O cidadão reformulou a Gestalt ou padrão da seguinte forma: usar macacos grandes especiais (a) para erguer a casa e colocá-la no caminhão (r1) e fazer a mudança (y). Temos, assim, em vez da relação anterior, a seguinte, na qual essa nova constelação de elementos representa a invenção: a---r1---y.
Barnett considera que efetivamente todas as invenções e descobertas de novas funções procedem dessa maneira, tanto na cabeça do inventor, quanto na de quem aceita a mudança. No caso dos índios da costa do Pacífico, botões (x) para abotoar (r1) roupas (y) substituíram fragmentos de madrepérola (a) para enfeitar (r2) as roupas indígenas (b) não abotoadas, dando o seguinte como invenção: x---r2---b.
Outro estudioso que usa a abordagem Gestalt é Anthony F. C. Wallace, que estudou movimentos nativistas, milenares e messiânicos. Um grupo subordinado e “deprivado” (sentindo privação em relação a bens, prestígio e outros fenômenos consi- derados legítimos), passando, portanto, por muito estresse, fica desesperado porque as suas respostas tradicionais não estão mais diminuindo o nível de tensão, e o sistema, consequente- mente, entra em estado de crise, à beira de uma desintegração. Um indivíduo “recebe” uma “visão” (um estalido mental ou mensagem do além), a partir da qual se dá uma reformulação dos elementos tradicionais com alguns novos ou alienígenas, numa sincretização que não é nem o velho sistema nem o novo, mas uma terceira coisa diferente (“emergente”), como o sal é diferente tanto da soda cáustica quanto do ácido hidrocloreto. Em seguida, o “profeta” tem que comunicar a sua “visão” aos
outros, se for para a novidade se tornar um movimento viável. No mesmo sentido, como diz Barnett, o “profeta” tem que colocar a sua nova ideia na cabeça dos outros para conseguir discípulos. Uma vez estabelecido o movimento, se esse não for perseguido (o que conduz à radicalização), tende a se rotinizar11.