No centro dos modelos SFC estão duas matrizes contábeis; a matriz de balanço patrimonial dos setores institucionais e a matriz de transações e fluxo de fundos da economia. As tabelas 2.2 e 2.3 representam, respectivamente, as matrizes do nosso modelo. A matriz de balanço patrimonial registra os estoques de ativos e passivos dos setores institucionais e, por sua vez, a matriz de transações e fluxo de fundos registra as variações dos fluxos monetários e as mudanças nas variáveis de estoque, durante o período determinado, causadas por esses fluxos (Nikiforos e Zezza, 2017).
O modelo simula uma economia de crédito puro, fechada e sem inflação31 que
contém cinco seguintes setores: famílias 1, contratadas pelo setor de produção;
famílias 2, que trabalham no programa do governo; firmas, que são o setor de
30 Por exemplo, em Godley e Lavoie (2007a) nenhum dos modelos apresentados inclui contratação de trabalhadores pelo setor governamental. No modelo DSZ (2008), construído para ser um benchmark para os modelos SFC o governo apenas compra bens das firmas, cobra impostos e remunera os títulos públicos.
produção; bancos, que são o setor financeiro e; por fim, o governo (tesouro e banco central consolidados).
É necessário salientar a divisão dos trabalhadores em duas categorias: a primeira categoria, aqui denominado como famílias 1, engloba os agentes que estão empregados no setor privado da economia. As famílias mantêm sua riqueza na forma de dois ativos; depósitos bancários e títulos públicos. As famílias 2 englobam os agentes empregados no programa do governo, que ganham um salário abaixo do salário do mercado e não acumulam estoque de riqueza.
O setor bancário não realiza lucros (patrimônio líquido igual a zero), isto é, as taxas de juros sobre empréstimos e depósitos são equivalentes, seguindo outros trabalhos como DSZ (2008), Brochier e Silva (2018), Lavoie e Godley (2002).
O comportamento das firmas é orientado por decisões que abrangem os dois fatores utilizados na produção: capital fixo e mão-de-obra. As firmas produzem um único bem32. Parte do financiamento do investimento deriva de lucros retidos (𝐹𝑈) e
o restante se dá mediante empréstimos tomados junto ao setor bancário (o mercado de ações foi abstraído). No modelo, consideramos que os bancos acomodam toda demanda de empréstimos das firmas passivamente, tornando impossível evidenciar o comportamento profit-seeking dos bancos frisado, notadamente, por Hyman P. Minsky (1986). Consequentemente, não é possível lidar com questões relacionadas à fragilidade financeira que emerge a partir das relações de financiamento entre bancos e unidades econômicas privadas. As firmas também utilizam a receita de vendas para pagar salários para o setor famílias 1 e o serviço dos juros dos empréstimos tomados para os bancos.
O governo paga os juros para as famílias detentoras de títulos públicos, os salários do programa de emprego, coleta imposto das famílias e, por fim, realiza o gasto autônomo do modelo, comprando bens do setor produtivo.
Os ativos aparecem com um sinal de positivo e os passivos e o patrimônio líquido aparecem com um sinal de negativo na tabela 2.2. Assim, todas as colunas e linhas que lidam com ativos e passivos financeiros somam zero33, garantindo
consistência na construção da matriz. Esse elemento é central na metodologia e garante que não exista " [...]black holes - every flow comes from somewhere and goes
32 Assim como no DSZ (2008)
33 A única linha que não soma zero é a linha que está lidando com capital tangível, que são os estoques de máquinas acumulados pelas firmas durante o processo de produção.
somewhere” (Godley,1996, p.7). Para mais, ao evitar que existam “black holes” no
modelo, é possível reconhecer que há uma constante intercomunicação entre os setores institucionais.
Tabela 2.2: Balanço Patrimonial dos setores institucionais
Ativos Famílias 1 Famílias 2 Firma s Bancos Governo ∑ Depósitos +D - D 0 Capital Fixo +K +K Empréstimo s -L +L 0 Título Público +B -B 0 Patrimônio Líquido Vh Vj Vc 0 +B +K ∑ 0 0 0 0 0 K
Nota 1: Cálculo do patrimônio líquido das famílias e firmas, respectivamente; Vh = D + B, Vc = K – L. Assim como a matriz do balanço patrimonial, a regra de que cada linha e coluna deve somar zero é empregada na matriz de transações e fluxos de fundos. Cada linha contém os fluxos de transações entre os setores institucionais, por exemplo, o influxo de juro sobre ativos financeiros e o pagamento de juro sobre passivos. As colunas, por sua vez, representam as restrições orçamentária que cada setor deve seguir (Godley e Lavoie, 2007a).
Tabela 2.3: Matriz de transações e fluxos de fundos
Famílias 1
Famílias 2
Firmas
Corrente Capital Bancos Governo ∑ Consumo -Ch - Cj +C 0 Gasto do Governo +G -G 0 Investimentos +I -I 0 Salários +WBh -WBh 0
Salários 234 +WBj -WBj 0 Impostos -T + T 0 Juros- empréstimos - rl t-1 .Lt-1 + rl t- 1.Lt-1 0 Juros- Título público + rbf t-1. Bt-1 - rt-1.Bt- 1 0 Juros- depósitos + rdf t-1 . D t-1 - r t-1 . D t-1 0 Lucros- Firmas + Fd -F +Fu 0 Subtotal Sh Sj 0 Sk 0 Sg 0 ∆ Depósitos -∆D +∆D 0 ∆Empréstimos +∆L -∆L 0 ∆ Título Público -∆B +∆B 0 ∑ 0 0 0 0 0 0 0
Com base na tabela 2.3 pode-se derivar a renda nacional (coluna 3) que consiste em três componentes; renda oriunda de vendas das firmas para as famílias e famílias 2 (𝐶), vendas realizadas para o governo (𝐺) e do gasto das próprias firmas com investimento (𝐼). Pagamento de juro sobre a dívida do governo, ainda que sejam gastos do governo, são considerados transferências e não fazem parte do cálculo do PIB (Godley e Lavoie, 2007a, p.101).
A matriz 2.3, portanto, completa o retrato do arcabouço contábil do modelo e permite derivar um conjunto de equações comportamentais dos agentes. Ademais, a matriz de transações é um grande passo na direção de integrar os fluxos derivados da renda e os fluxos derivados de ativos financeiros (Godley e Lavoie, 2007a, p.33).
A próxima subseção ocupa-se na próxima etapa da elaboração do nosso modelo SFC: a apresentação das equações comportamentais dos agentes.
34 Salário nominal exógeno dos trabalhadores do programa do governo. O salário do programa é menor que o salário nominal do mercado de trabalho privado, visto que o propósito do programa não é concorrer com o mercado privado.