A busca por compreender e interpretar os conteúdos das mensagens emitidas pelos seres humanos apresenta-se como fato de raízes históricas bastante longevas. Seus inícios estão ligados ao esforço exegético de entendimento da mensagem contida nos livros da Bíblia, na tentativa de encontrar respostas para a questão: “o que esta mensagem significa?” (FRANCO, 2008, p. 7). Segundo Bardin (1977, p. 14), “a interpretação dos sonhos, antiga ou moderna, a exegese religiosa (em especial a da Bíblia) a explicação crítica de certos textos literários, até mesmo, de práticas tão diferentes como a astrologia ou a psicanálise relevam de um processo hermenêutico”.
Os estudos de Bourbon, sobre o livro bíblico do Êxodo, já no século XIX, seguindo uma abordagem temática e quantitativa, desempenharam a importante função de abrir o campo da “sistematização da análise do conteúdo das mensagens, de seus enunciados, de seus locutores e de seus interlocutores” (FRANCO, 2008, p. 7).
Segundo Bardin, desenvolver a descrição do percurso histórico da análise de conteúdo é
Essencialmente referenciar as diligências que nos Estados Unidos marcaram o desenvolvimento de um instrumento de análise de comunicações; é seguir passo a passo o crescimento quantitativo e a diversificação qualitativa dos estudos empíricos apoiados na utilização de uma das técnicas classificadas sob a designação genérica de análise de conteúdo; é observar a posteriori os aperfeiçoamentos materiais e as aplicações abusivas de uma prática que funciona há mais de meio século (BARDIN, 1977, p. 13).
A técnica denominada análise de conteúdo associa-se em suas origens aos estudos no campo da sociologia e da psicologia. No início do século XX, sobretudo nos Estados Unidos, a análise de conteúdo passa a ser utilizada para a interpretação dos artigos da imprensa, segundo um rigor quantitativo, a fim de mensurar o impacto sensacionalista dos artigos estudados.
Com o advento da primeira guerra mundial, o interesse dos estudos voltou-se para a propaganda, cujo expoente é Lasswell. Nesse momento, os conceitos behavioristas encontravam ampla aceitação nos Estados Unidos, direcionando a análise segundo a vertente comportamental objetiva.
Nos anos quarenta, cresce o interesse pelas ciências políticas, e o combate à ideologia nazista, no contexto da segunda guerra, faz uso da análise de conteúdo para
identificar propagandas subversivas. Aumenta o número de pesquisadores que aplicam o método: “com efeito, o domínio de aplicação da análise de conteúdo diferencia-se cada vez mais” (BARDIN, 1977, p. 17).
No final dos anos quarenta, B. Berelson, P. Lazarsfeld e Lasswell propõem um conjunto de regras e códigos de análise, calcado numa metodologia de viés marcadamente positivista, de longeva influência sobre a concepção do instrumental utilizado na pesquisa e que praticamente excluía outras abordagens do material, que não a quantitativa. Segundo Bardin (1997, p. 19), tratava-se de “uma metodologia nascente, onde as exigências de rigor e de objetividade pressentidas adquirem um caráter obsessivo, suscetível de encobrir outras necessidades ou possibilidades”.
A sensibilidade epistemológica do período é epitomizada na famosa definição forjada por Berelson para a análise de conteúdo, que era entendida por ele e seu grupo como “uma técnica de investigação que tem por finalidade a descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto da comunicação” (BARDIN, 1997, p. 19)14.
Os anos do período pós-guerra assistem, de um lado, a um crescente desinteresse, bloqueio e certa frustração e desilusão quanto ao uso do método. Por outro lado, posteriormente dá-se um enriquecimento com o nascer de novas questões e novas soluções no plano metodológico. Bardin chama esse período como o de uma segunda juventude da análise de conteúdo, quando estudiosos de campos variados como a etnologia, a história, a psiquiatria, a psicanálise, a linguística juntam-se aos da sociologia, da psicologia, da ciência política e do jornalismo a fim de apresentar novos questionamentos à técnica além de outras contribuições. Como resultado, ocorre um significativo avanço para além do rigor matemático e quantitativo, abrindo espaço para considerações qualitativas e, no interior desta, ganha reconhecimento a noção da importância da inferência como função ou objetivo do método, mais do que a pura descrição (BARDIN, 1997). Além disso, entre os anos cinquenta e sessenta, a quantidade de estudos que utilizam a técnica expande-se de forma intensa, passando de mais de cem por ano.
Dos anos 1960 para cá, os desenvolvimentos ocorrem em âmbitos diversos, favorecendo o aprofundamento do debate que conduz à superação do conflito entre uma abordagem qualitativa ou quantitativa. O maior impacto advém dos progressos alcançados na informática com a respectiva expansão do uso dos computadores pessoais, as experiências em
14 Hoje são feitas críticas com relação ao uso restrito que Berelson empregava, principalmente no tocante à
negação dos conteúdos latentes ou ocultos da comunicação como objeto de atenção na pesquisa que utiliza a análise de conteúdo.
inteligência artificial e o desenvolvimento de programas de computação que potencializam a verificação da frequência de ocorrência de palavras num texto estudado. Somado a isso, surgem as contribuições da estatística, da semiologia e da linguística.
Do ponto de vista metodológico, a análise de conteúdo chegou até nós na década de 1970 ainda sob forte influência dos postulados epistemológicos positivistas, segundo os quais o conhecimento científico precisa ser construído segundo as características da “medida, objetividade, neutralidade e quantificação” (FRANCO, 2008, p. 9). Tal visão é superada e hoje entende-se que a análise de conteúdo configura-se como procedimento de pesquisa que supõe uma concepção de ciência e de construção do conhecimento no qual o investigador participa ativamente, apoiando-se em uma abordagem metodológica crítica que preserva o cuidado com a qualidade e a sistematização (FRANCO, 2008). Isso implica em que, com frequência cada vez mais notada, a análise de conteúdo voltou-se para “produzir inferências com base em dados, verbais e/ou simbólicos, mas obtidos a partir de perguntas e observações de interesse de um determinado investigador” (FRANCO, 2008, p. 17).