A expansão do acesso à televisão no Brasil, a partir da década de 1950, trouxe sua programação nova cômica e dramática (programas de humor, novelas, entre outros). O circo perdeu parte de seu público, mas isso não impediu a permanência do circo nos bairros periféricos das grandes cidades e nos mais remotos recantos deste gigantesco País. Quando da minha primeira visita ao Guriú, em 1996, encontrei-me com um grupo de crianças correndo atrás do pessoal do circo e repetiam as chamadas para o espetáculo da noite: Hoje
tem espetáculo? Tem sim senhor... e o palhaço o que é...é ladrão de mulher.
Quem chegou depois do circo ao Guriú foram as novelas de rádio. Seu Val, pai de Nilda, tinha rádio e assim era possível as suas filhas que foram todas dramistas acompanhar as novelas de rádio. Mariinha datou essa chegada para a década de 1970:13
Olha na época, eu com doze anos de idade (1971) o Guriú não tinha rádio ainda, aí meu pai foi quem trouxe um rádio a pilha, aí a gente botava, as novelas eram por capítulos, revista capricho, isso aí dos dramas não foi trazido de rádio, não foi trazido de novela porque ninguém não sabia, isso aí foi como eu estou lhe dizendo foi geração de geração. A gente fazia assim, a gente comprava a revista capricho em cidade e a gente assistia, ouvia, na hora do capricho, aí dizia as personagens, dizia que ia se apresentar hoje aquela personagem e a gente via na revista Capricho, ouvia pelo rádio e não achava parecido com o drama, não parecia porque na realidade o capricho, a revistinha chamada capricho isso aí era só negócio de capricho de amor, era o modo de uma vida de um pai de família, de uma filha, mesmo jeito de uma novela do jeito que hoje em dia é, não era cantada, o nosso drama era cantado, porque a gente tinha..se eu fosse uma moça e outra fosse o rapaz então eu ia oferecer aquela música a ele, e ele ia me recompensar com aquela música, e aí eu acho que eu não achava parecido por isso, porque é muito diferente, a gente representava quatro moças, representando no salão, agradecendo as pessoas pela acolhida, dava boa noite.
Apesar de a televisão ter atrapalhado um pouco do espetáculo de circo por todo o Território nacional, este foi o impulsionador de muitas programações televisivas. Os programas de variedade incorporaram o humor circense e popular. É o caso de Chacrinha, o “velho guerreiro” com as suas “chacretes”, que podiam ser vistos como um “espalhafatoso, abusando do colorido advindo de nossas raízes populares” (TEMER & MONTEIRO, 1997, p. 46).
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D. Iraci registrou que havia, na década de 1940, uma energia produzida a motor que iluminava casa, a loja do seu pai e a igreja em Guriú. Graças a isso foi possível ter a presença alegre da música, através da vitrola e do rádio, todas as noites. As músicas veiculadas por rádio ou vitrola já eram fontes de pesquisa para as produções das dramistas da primeira geração.
Observei o grande alcance da TV nas brincadeiras e no cotidiano de Guriú. As últimas gerações de dramistas foram expressivas em afirmar a incorporação de tipos televisivos nas representações e no que se refere às mudanças ocorridas com as vestimentas (que encurtaram muito desde os tempos das vovós....).
As baianas guiadas por Maria do Henrique (nascida em 1945) fizeram história e a “evolução do samba que animava a rapaziada”, fazendo o delírio atingir o público que via as baianas. E quanto cantavam e rebolavam essas baianas!
Com a roupa de Raimunda, a baiana da vez se chama Princesa (2000).
A sua mestra Maria do Henrique considera que Raimunda Inácio e Raimunda Laura, as duas Raimundas, eram baianas especiais, e que no seu tempo de dramista até tinha baiana, mas não chegava ao brilho das baianinhas desta geração anos 1980. Essa é a geração que provavelmente tinha conhecimento das maravilhosas dançarinas do Chacrinha, o “velho guerreiro” das tardes de sábado na Globo. Revela Maria do Henrique em reunião com todo o seu grupo:
Tinha, mas nessa minha época, em que eu brincava drama, tinha baiana mas era só para dizer que era baiana, não se requebrava que nem a Raimunda da Comadre Laura, que nem a Raimunda Inácio, não tinha nenhum de nós que soubesse se requebrar, viu? A melhorzinha que era a finada Neva, mas não era nem essas coisas, não é Comadre Laura? Nem se rebolava. Agora, essas meninas aqui, do meu drama, desta época nossa, aí elas se requebravam de verdade, se requebravam muito elas. Mas no meu tempo não tinha uma que se requebrasse como agora, agora que nós ensinamos.
Acho que as baianas do grupo de Maria do Henrique estavam impregnadas do rebolado das “chacretes” do programa do “Velho guerreiro” nas tardes do sábado. E isso não deixa o circo de fora, mas o faz retornar ou ressoar desta vez na telinha da TV. Chaga faz uma comparação entre o desenvolvimento da hora da baiana, quando acompanhou seu primeiro grupo (lideradas pela mestra Maria do Henrique) e afirma que
...para bem ser sincero, o primeiro grupo foi muito organizado, muito organizado mesmo, uma excelente baiana, que era a Raimunda Laura, excelente baiana. A mulher era uma excelente baiana mesmo, ela não tinha medo para fazer um arrastão, um xaxado bom, ela se desmantelava. Já nesse segundo grupo(2000) nós não tivemos boa baiana. Tivemos boas representações, mas não tivemos boa baiana. Também aquelas meninas estavam começando agora, elas não podiam fazer coisa já de maturidade, elas tendo pegando já a gestação. Eu até admirei! Eu até admirei! Porque igual à Raimunda, um drama por aqui, ainda não chegou e ainda pode chegar ainda, porque tem essa geração nova, vai se modificando vai vendo muitas apresentações em televisão. E elas naquele tempo não tinha este movimento de televisão que nós temos agora, é tão fácil para a gente está assistindo, e elas tinham aquela invocação de fazer aquilo e de fazer bem feito mesmo! Era uma excelente baiana!
Maria do Henrique afirma a supremacia de suas baianas diante de todas as baianas que já impressionaram o público com suas perfomances:
Mas eu tenho na pura certeza que não tem nenhuma que faça como a Raimunda Inácio e a Raimunda da Comadre Laura! Não tem, porque não tem mesmo! As meninas requebrando se desmanchavam mesmo! Essas duas meninas, que todo mundo aqui no Guriú, que não tinha baiana e o drama que nem elas. Não tinham elas! Era demais! Eu sei que as meninas pelejavam para sair, a palma comia, elas pelejavam para sair a palma comia, pelejavam para sair a palma comia, pelejavam para sair e o Henrique, meu marido, agarrava a empanada e fechava, pei, pei, pei, pei. Uma vez caiu a saia e a menina ficou penerando, eu disse: “menina!” (risos). Brincavam mesmo um drama, brincavam mesmo um drama!
Ivonete, que foi baiana na geração dos anos 1970, já diz que antes das duas Raimundas já faziam história as baianas de Guriú:
Era boa baiana, a Raimunda era. Mas as melhores baianas do Guriú, fui eu e Nilda do Lourival. Foram as melhores faladas lá por todo mundo. Eu e a Nilda, que foi a ex-mulher do Wilson. As melhores!
Era uma vez uns pequenos circos que passavam em Guriú, que despertaram o talento de novas baianas-dramistas, que um dia tiveram que encurtar a saia e dançar mais
rápido para encostar-se ao talento das chacretes que também pareciam com as baianas dos velhos circos-teatro populares brasileiros:
O circo tem se projetado cada vez mais na televisão brasileira, em diversos programas das emissoras, principalmente no SBT (sistema Brasileiro de Televisão), evidenciando-se em programas como “Ratinho”, o extinto “Aqui e Agora”, “Domingo Legal”, “Programa Silvio Santos”, entre outros. O programa do Ratinho tem ganho em audiência ao apresentar números grotescos como seres humanos e bichos deformados, figuras excêntricas e também números de shows apresentados em circos que se encontram na cidade. (COSTA, p. 78).
Por outro lado, as comédias de drama que dão conta de satirizar a vida adulta e o cotidiano familiar e social têm algo das palhaçadas dos trapalhões “que despontou na Tupi com seu humor circense, e foi para a Globo quando se provou um sucesso de público.(TEMER & MONTEIRO, 1997, p. 40).
Em Guriú, os dramas caíram em desuso por pelo menos dez anos. E na década de 1990, quando comecei a visitar Guriú, as meninas dançavam a música do grupo É o tchan!.
Até 1999, nas falas das crianças sobre as suas brincadeiras, havia só as marcas televisivas. Em 1998, ouvi uma jovem mandar o avô calar a boca, pois estava na hora da novela. A televisão ordenava silêncio dos velhos e lançava suas linguagens na hora da brincadeira das meninas que imitavam a “dança da bundinha” da Carla Perez, e das dancinhas da Xuxa, e reproduziam personagens dos dramas das novelas mexicanas. Tanto que a famosa mestra Mundica pensava que tudo tinha acabado. Vanelda diz que se pensava “que ninguém ia mais brincar drama. E a minha mãe sempre dizia: “Essas moças de hoje em dia não querem mais brincar drama!”. Aí de repente as meninas começaram a ensaiar ali”.
Nova baiana Lucinauda com as antigas saias enfeitadas de brilhos natalinos
E Lucinauda, a baianinha da foto, revela que:
A baiana a gente dançava melhor devido às músicas que a gente tinha dançado, dançado uma bem boa assim no toque para dançar fica melhor ainda. Mas ver Carla Perez na televisão não ajudou que elas não saiam dançando drama. A baiana do drama é diferente da Carla Perez, é muito diferente porque a Carla Perez é uma bota, é um shortinho, um topzinho, uma mini-blusa e a da baiana tem que ter uma saia e um topzinho e tudo.
Lourdes, dramista dos anos 1970 e mestra em 1999 e 2004, fala também do fim...ou seria de um eterno começar do que ainda não se sabe por não ter sido vivido:
Estava acabado. Quando ela ensinou que deixou de mão, aí pronto, a gente pensava que não ia ver mais drama, agora pronto acabou-se chegou televisão, tinha televisão para ver, assistiam a televisão e então pronto. Não acabou! Custa mais as vezes a gente ensina a elas, as vezes a gente encontra, por isso não acabou por causa disso, as vezes passa uns tempos, passa uns anos e alguém diz: “Vamos inventar um drama”. E respondem: “Vamos!”. Mas se não tivesse isso já tinha acabado. Mas eu tenho na minha mente que vai se acabar. Porque a Nilda não faz mais, ela não vai mais se meter nessas coisas, eu acredito que a Alda também não, daqui uns dias também eu não vou ensinar mais, aí acaba! Pode até aparecer outra coisa qualquer no lugar dos dramas, mas não sei não!
O interessante, porém, é que há horas em que parece que o drama é signo do sempre e por isso não acaba jamais. Em outras ocasiões, qualquer gesto de dominação masculina ou qualquer programa de televisão derruba esta edificação de tantas gerações. Não há como não lembrar da expressão francesa: cèst la vie. Ou pelo menos é a narração da vida em Guriú.
Maria do Henrique situa na conta da TV o desaparecimento dos dramas:
Eu tenho para mim, eu tenho assim na mente, que se não fosse esse negócio de televisão no mundo, no Guriú, aqui e acolá tinha drama porque de primeiro tinha e agora não tem! Se hoje inventasse um drama, ‘vamos ensaiar’, tinha uma ou outra que dizia assim: ‘eu não vou não que hoje vai sair à cor do pecado14 e eu não quero perder!’. Dizia, mulher, isso aí, com toda certeza! Por isso que não tem é por causa disso daí! As pessoas acham uma novela melhor e mais bonita do que está ensaiando drama.
Ciene e Silvia foram dramistas na década de 1990
Quando cheguei a Guriú e comecei a pesquisa e até 1999, os acordes restantes de dramas cantados saíam da garganta das idosas entrevistadas. Enquanto isso, as novelas
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Novela exibida pela rede Globo em 2004, ocasião em que foi feita essa reunião com a mestra e suas ex- dramistas
mexicanas eram as prediletas de toda a população. Laura, mãe da famosa dramista Raimunda, fala da televisão:
Apareceu televisão, o pessoal fica tudo na televisão, acha que aquilo ali é importante e aí verem aquelas coisas que passam na televisão, esquecem mais aquelas brincadeiras, e aquilo que passa é parecido um drama, passa muitas partes na televisão que é parecido um drama, e a pessoa se diverte mais. Podem dizer assim “se é de gastar dinheiro em drama, eu vou é assistir mesmo uma novela, que é coisa melhor e não gasto dinheiro”.
Passando as noites nas salas lotadas para ver televisão, eu levava os dias ouvindo Otília a cantar seus dramas. Preferia ouvir os dramas e rapidamente aprendia a cantar e acompanhava. Fui observando uma demasiada semelhança entre as abandonadas comédias de drama e a dramaturgia do SBT. As novelas mexicanas haviam preservado a dramaticidade das antigas comédias. Sofrimento igual às representações das comédias faladas havia também nas novelas do SBT.
Chaga que acompanhou uma geração dos anos 80 e voltou a participar de drama em 2000, reflete sobre a ligação entre TV e drama:
Eu acho que em certas partes a TV é amiga do drama, porque tem muitas apresentações que você pensa que é um drama. Tem algumas apresentações que é muito unida. Quando eu tocava no drama no Guriú, tinha pouca TV no Guriú. Era a casa que tinha! Bem pouquinho, pouco! A TV não teve influência sobre mim, para mim não. Mas eu acho que talvez as meninas tiveram. Acho que para a Raimunda Laura teve. Teve que ela era muito curiosa para escutar as coisas, às vezes ela viu alguma coisa na televisão e já imaginava de fazer aquilo no palco, não é. Eu acho para mim que teve.
Mantive contato telefônico com Raimunda Laura em janeiro de 2006 e indaguei sobre a hipótese acima expressa por Chaga Bela e perguntei sobre a relação entre a sua famosa performance de baiana e o que era veiculado pela televisão. A famosa baiana, na ocasião, contestou a conjetura, afirmando que a televisão ainda não havia chegado ao Guriú e que ela mesma havia inventado sua maneira baiana de ser.
Há quem veja, porém, até possibilidades de fácil diálogo entre o drama e a TV. A televisão brasileira, bem ou mal, não tinha conseguido anular a produção dramática popular da qual o circo e o dramas de Guriú fazem parte. Enilza, irmã de Nilda, comenta que:
A televisão por uns pontos ela é amiga dos dramas, mas na mesma hora ela é inimiga, mas só que na televisão também tem muitas partes também, tem aquelas partes que dá para fazer um drama. Eu e a Nilda, a gente às vezes,
eu a chamo de Biinha, e ela me chama de Duinha, e ela diz assim: “Duinha, se a gente meditasse, se a gente fosse mais nova, se a gente meditasse, a gente fazia um drama aí, daí dá para fazer um drama”, porque é mesmo como essa novela aí, dava para a gente fazer um drama falado, e dava mesmo e dá mesmo. Com novela dá para fazer um drama falado.
As memórias das avós me relataram que os dramas cantados eram apresentações públicas ocorridas nas suas infâncias, destinadas ao povo em geral de Guriú. Até 1999, os gestos, músicas, vestes e apresentações tinham ficado para trás! A televisão tinha trazido as suas cores, suas novelas, suas danças e novas atrizes. Com a chegada da televisão15 e seu sabor de melancia doce, ficavam para trás (na memória das idosas) o que tinha sabor de maxixe sem gosto (os dramas cantados)?
Fui a uma reunião na sede da Associação de Moradores e estava falando do encontro com Otília e que ela havia cantado os dramas, e que eu tinha ficado encantada com o acervo. Um senhor disse que ninguém ia deixar de provar melancia doce (televisão) para comer maxixe sem sabor (os dramas de antigas meninas de Guriú). Hoje é sabido, todavia, apreciando o que dizem as dramistas que os dramas sempre se articularam com seu tempo, e a chegada da TV não destruiu o encanto. Trouxe a dramaticidade para a sala de visita, ao lado do tucum. Ver TV deitado é muito comum em Guriú.