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Quando se fala em regeneração urbana, mais do que a mera regeneração física do espaço, fala-se sobretudo da regeneração económica, social e ambiental, numa visão integradora com uma forte componente de parceria público-privada aliada à primazia da

participação pública.

Apesar de cada caso de regeneração urbana ser um caso, conduzindo à dificuldade de encontrar uma definição única, como vimos anteriormente, existem um conjunto de aspectos que estão presentes em todos os projectos como por exemplo a existência de

projectos-âncora dinamizadores do espaço e de atracção dos agentes económicos e

sociais.

Outro aspecto ou dimensão que caracteriza a regeneração urbana são as parcerias

público-privadas que se criam entre os diversos agentes pertencentes a um território. Os

agentes locais, que conhecem as fraquezas e as potencialidades inerentes ao espaço que partilham, têm necessariamente que ser chamados a participar no processo, como forma de o tornar viável e também como forma de responsabilizá-los pelas estratégias definidas ou a definir.

De facto, a identificação de instituições com responsabilidade, directa ou indirecta sobre a área degradada é fundamental, pelo que um processo de regeneração urbana será a congregação de vontades entre entidades públicas e privadas que partilhem uma visão estratégica.

Deste modo, a regeneração urbana actua como um instrumento gerador de consensos e aproximação de interesses, com vista ao desenvolvimento da zona de intervenção, promovendo a abordagem conjunta dos diversos parceiros, potenciando um aproveitamento mais racional dos recursos endógenos.

Na era da “modernidade líquida” e da globalização, perante a emergência da

“civilização da Terceira Vaga39”, a constituição de parcerias entre entidades que actuam no

e para o território confere à regeneração urbana um carácter inovador e articulado na utilização dos recursos existentes, pela necessidade imperativa de superar os estrangulamentos que impedem o desenvolvimento do território, de aproveitar o seu potencial endógeno, de promover os recursos existentes, de criar massa crítica suficiente para apoiar e incentivar projectos que dinamizem e diversifiquem a base económica e social do espaço de intervenção.

Por outro lado, sendo as cidades locais de aglomeração populacional de determinada escala, nas quais o cidadão estabelece relações de vários tipos, nomeadamente, sociais, culturais e comerciais, que vão sedimentando ao longo dos séculos e através das

quais cria a estrutura, identidade e significado da sua imagem40, a questão da participação

pública revela-se de extrema relevância.

Sendo o projecto de regeneração urbana concretizado para a população, o mesmo deve ser concretizado com a população, de modo que os munícipes devem ser chamados a participar na fase da elaboração da estratégia, para que possam apresentar as suas contribuições e sentir o projecto como seu: “(...) é oportuno comprometer os cidadãos na procura de soluções para os problemas urbanos e conceder-lhes um grau de responsabilidade política e institucional que os comprometa com o desenvolvimento da área urbana onde vivem. Deste modo, a identidade territorial e a auto-estima do e pelo povo aumentarão.” (González, 2001:83)

      

39 “(...) somos a última geração de uma civilização velha e a primeira geração de uma civilização nova, e que grande parte da nossa confusão, angústia e desorientação se pode relacionar directamente com o conflito existente em nós e nas nossas instituições políticas, entre a moribunda civilização da Segunda Vaga e a emergente civilização da Terceira Vaga, que avança tumultuosamente para ocupar o seu lugar” (Toffler, 1984: 16).

40 (Mela, 1999): Uma cidade tem quatro tipo de dimensões: 1. Uma dimensão económica, sendo a cidade sede de actividades económicas com a função de produzir bens e fornecer serviços; 2. Uma dimensão política e estrutura social, sendo os centros urbanos locais onde se articulam camadas e classes sociais e se organizam interesses colectivos; 3. Uma dimensão cultural, sendo a cidade centro de oferta cultural e conflito entre várias culturas e sub-culturas, podendo gerar sínteses ou segregação e exclusão; 4. Uma dimensão ecológica, relação entre a cidade como sistema artificial e o ambiente natural e biológico.

Por fim, na regeneração urbana é dada grande relevância aos espaços públicos de

grande qualidade, enquanto elementos simbólicos das novas funções dos territórios e das

próprias dinâmicas da cidade em que se inserem. Como refere Bauman, as praças, os jardins e as ruas das nossas cidades “são lugares onde desconhecidos convergem e, desse modo, condensam e resumem os traços característicos da vida urbana. É nos espaços públicos que a vida urbana, e tudo o que a diferencia de outros tipos de existência colectiva, alcança a sua expressão máxima.” (2006: 67).

A importância de preservação do espaço público decorre das transformações globais que hoje conduzem à construção de inúmeros centros comerciais, onde os indivíduos despendem as suas horas de lazer em consumismo num espaço que é efectivamente privado e que estão a substituir os coretos, jardins e ruas de comércio tradicional, outrora espaços de encontro de eleição, bem como a própria televisão que segundo João Gil é a uma força que impede o alargamento do espaço público: “[a televisão] tornou-se o pilar em que se apoia a nossa democracia. (...) A televisão encolheu o espaço público nacional (...) Uma situação paradoxal paralisa hoje o espaço público português: enquanto se alarga no seu conteúdo, nos seus temas, na sua vontade (subterrânea) de expressão, quer dizer na sua própria substância, vai-se estreitando cada vez mais a área formal da sua manifestação.” (2008: 30).

E se é certo que estamos a entrar na Terceira Vaga, que “traz consigo um modo genuinamente novo baseado em fontes de energia renováveis e diversificadas; em métodos de produção que tornam obsoleta a maioria das linhas de montagem; em famílias novas e não-nucleares; numa nova instituição que pode chamar-se «chalé electrónico», e nas radicalmente modificadas escolas e corporações do futuro” (Toffler, 1984: 14), ou seja, estamos a entrar numa era onde impera o tecnológico e o virtual, a noção de espaço público também se vai alterar. Hoje existem “os debates e fóruns nas rádios, as cartas aos jornais, os artigos na imprensa, os blogs” que “vão formando um espaço cada vez mais vasto e importante onde são diariamente discutidos em público e em pormenor, os problemas decisivos” (Gil, 2008: 30) de uma cidade, de uma comunidade, de um País.

No entanto, mantêm-se a importância de promover o encontro físico entre os indivíduos e a regeneração urbana, de acordo com a sua filosofia para a criação de espaços públicos, pode ser um elemento importante e transformador para que a interacção pública se mantenha.