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A organização pode ser definida como um local onde diferentes agentes contribuem com seus recursos para a produção de objetos e serviços. É também o espaço que cada indivíduo explora, adapta e habita, a fim de realizar seus desejos e objetivos.

A partir dos dados postos em evidência pela Psicologia ambiental, toda organização pode ser analisada segundo o espaço que a estrutura (CHANLAT, 1995). A análise deste espaço pode ser realizada por meio do estudo do clima organizacional que permeia a organização. Neste sentido, destaca-se a visão de Katz e Kahn (1987, p. 83), que salientam:

O clima ou cultura do sistema reflete tanto as normas e valores do sistema formal como sua reinterpretação no sistema informal. O clima organizacional também reflete a história das porfias internas e externas, dos tipos de pessoas que a organização atrai, de seus processos de trabalho e layout físico, das modalidades de comunicação e de exercício da autoridade dentro do sistema.

Para Hall et al. (1980 apud LUZ, 2001, p. 30):

O clima de uma organização é representado pelos conceitos que os indivíduos partilham a respeito do lugar em que trabalham. Como conceitos, as percepções de clima são abstrações significativas de conjuntos de indícios baseados nos acontecimentos, condições, práticas e procedimentos que ocorrem e caracterizam a vida diária de uma organização.

Na base do fenômeno do comprometimento nas organizações, está a identificação. O comprometimento vai se manifestar como parte de um processo na qual a reciprocidade entre indivíduos e organização ocorre no plano da identificação, que passa a estabelecer as relações no campo do trabalho.

Pefffer (1994) entende que, quando os empregados percebem que existe no lugar de trabalho um potencial para a satisfação de suas necessidades psicológicas, envolvem-se com maior entusiasmo no trabalho e dedicam mais tempo e esforço a ele.

O clima interno das organizações deve estimular novas e criativas idéias, de forma que na organização haja um clima estimulante para que as pessoas realizem suas atividades, buscando se superar. A organização deve encorajar a iniciativa e responsabilidade individual e os conflitos devem ser resolvidos na organização, de modo participativo.

Nas ONGs a comunicação livre e eficaz com os empregados no sentido de troca de informações é importante para o desempenho e o envolvimento dos empregados na tomada de decisões e solução de problemas (GUEST, 1989). A integração com os empregados é entendida como uma recompensa social, traduzida pela qualidade dos relacionamentos internos da organização (PFEFFER, 1994).

Para Abbad et al. (1999 apud DEMO, 2005), práticas relativas a condições físicas de trabalho, bem-estar, saúde e segurança devem ser difundidas entre as praticas organizacionais, considerando os valores e expectativas dos empregados. Políticas de conforto, boas condições de trabalho e bem-estar traduzem-se em reconhecimento e valorização dos colaboradores.

5 ASPECTOS METODOLÓGICOS

Este capítulo apresenta o método de pesquisa adotada neste trabalho e objetiva apresentar os procedimentos utilizados, caracterizando a pesquisa quanto aos aspectos pertinentes ao tipo e à sua metodologia, à perspectiva de análise e ao modo de investigação, além dos limites da investigação.

Uma vez que se trata de trabalho de natureza científica, necessário se faz satisfazer certos critérios metodológicos que embasam tais tarefas. Para tanto, foram adotadas as obras de Vergara (2004), Cooper e Schindler (2003), Flick (2004), Lakatos e Marconi (1996) e Yin (2005).

5.1 Tipo de pesquisa

Para a classificação da pesquisa, utilizou-se como referencial teórico a taxionomia elaborada por Cooper e Schindler (2003) e Vergara (2004).

Assim, quanto aos fins, a pesquisa se classifica como exploratória e descritiva. Exploratória por sua natureza investigativa e de sondagem (VERGARA, 2004), uma vez que pretende aumentar a familiaridade do pesquisador com um fenômeno de que há poucos conhecimentos acumulados, para eventualmente modificar e clarificar conceitos (MARCONI; LAKATOS, 1996).

Veja-se que a investigação de assuntos ligados às ONGs está em expansão no meio acadêmico no País, assim como é cediço o interesse por diversos pesquisadores quanto à gestão de pessoas, sobretudo em seus subprocessos de atração e retenção de pessoas. Ainda há, entretanto, carências de estudos que tratem os dois assuntos conjuntamente, o que denota o caráter exploratório do tema.

Ademais, a pesquisa exploratória confere a possibilidade de posteriores e mais profundas pesquisas sobre o assunto, empregando técnicas de análise que permitam verificar relações de tipos diversos.

A presente pesquisa também é descritiva, porque pode atender os objetivos de descrever fenômenos ou características associadas à população ou descobrir associações entre diferentes variáveis (COOPER; SCHINDLER, 2003). Noutras palavras, busca identificar, descrever e analisar criticamente aspectos ligados a atração, desenvolvimento e retenção de pessoas nas organizações pesquisadas.

Como menciona Gil (1999), este tipo de busca é conduzido com o objetivo de descrever características de determinado fenômeno, levantar opiniões e percepções de certa população acerca de um fato, situação ou fenômeno, ou mesmo descobrir associações entre as variáveis que constituem o problema estudado.

Quanto aos meios, a investigação se caracteriza como de campo, ou seja, realizada nos locais onde, quando e como ocorrem os fenômenos, bem como onde se dispõe dos elementos para explicá-lo.

Para fundamentar a coleta e a análise dos dados empíricos, realizou-se pesquisa bibliográfica, a qual possibilitou a delimitação do problema da investigação e a sistematização dos principais conceitos a ele relacionados. Foi utilizado material escrito e em meio virtual, como livros, teses, dissertações, artigos científicos, papers, informações da internet etc. Também foi realizada pesquisa documental, a fim de obter informações relevantes das organizações pesquisadas, obtidas na ocasião da entrevista/questionário.

Por se tratar de pesquisa exploratório-descritiva, optou-se pela utilização da investigação do estudo de caso múltiplo, uma vez que pretende aprofundar a compreensão sobre o fenômeno e o contexto no qual ele se manifesta. Como salienta Yin, a

[...] investigação de estudo de caso enfrenta uma situação tecnicamente única em que haverá muito mais variáveis de interesse do que pontos de dados e, como resultado, baseia-se em várias fontes de evidências, com os dados precisando convergir em um formato de triângulo, e, como outro resultado, beneficia-se do desenvolvimento prévio de proposições teóricas para conduzir a coleta e a análise de dados (YIN, 2005, p. 33).

Assim, foram realizados 3 (três) estudos de casos, como o objetivo de verificar se as ONGs pesquisadas constituem espaços de investimento profissional e analisar a gestão do fator humano nessas organizações. As organizações pesquisadas são: 1) ESPLAR – Centro de Estudos e Assessoria, 2) Comunicação e Cultura, e 3) CETRA – Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador.

Para atingir os objetivos pretendidos, a coleta e a análise e interpretação dos dados foram estruturadas em: caracterização dos respondentes, a relevância da gestão de pessoas para a consecução dos objetivos das ONGs, as expectativas e motivações profissionais de ingresso, permanência e evasão dos colaboradores pesquisados, e as práticas formais e informais de gestão de pessoas, especificamente quanto a atração, retenção e desenvolvimento de pessoas, na visão dos gestores e colaboradores respondentes.

Por fim, os objetivos do presente trabalho denotam a escolha de método quanti-qualitativo de análise (HAIR et al., 2005). Segundo Flick (2004), o cerne das idéias que levam a uma pesquisa podem ser de natureza qualitativa ou quantitativa. Para o autor, a pesquisa qualitativa se diferencia da quantitativa, uma vez que aquela

[...] consiste na escolha correta de métodos e teorias oportunos, no reconhecimento e na análise de diferentes perspectivas, nas reflexões dos pesquisadores a respeito da pesquisa como parte do processo de produção de conhecimento, e na variedade de abordagens e métodos.

Bem assim, como anota Yin (2005), a opção por uma pesquisa qualitativa acarreta estabelecer, a princípio, o fato de que o resultado final não se volta para a generalização, contudo para análise em profundidade de um número reduzido de situações.

Esta busca também se classifica como quantitativa, uma vez que se caracteriza pelo emprego de instrumentos estatísticos, tanto na coleta quanto no tratamento e análise dos dados. Richardson (1999, p. 70 apud BEUREN et at, 2003), ensina que a abordagem quantitativa

[...] caracteriza-se pelo emprego de quantificação tanto nas modalidades de coleta de informações, quanto no tratamento delas por meio de técnicas estatísticas, desde as mais simples como percentual, média, desvio-padrão [...]

Isto significa que a utilização dessa tipologia nesta pesquisa se fez relevante à medida que se utilizou de instrumentos estatísticos desde a coleta, até a análise dos dados.

5.2 Critérios de Escolhas

Não se é conhecido com precisão o número das ONGs, como também não é sabido o composto amplo e heterogêneo de organizações do terceiro setor (SAMPAIO, 2004). No Brasil, a “Comunidade Solidária” trabalha com o número de 6.614 ONGs, que representam mais de 3% das organizações do terceiro setor, estimada em 250 mil organizações (IBGE, 2004; RITS, 2003). No Estado do Ceará, estima-se que existam cerca de 200 a 250 ONGs (FIEGE, 2003).

Não há banco de dados - oficiais ou não – que permita o acesso a informações sobre a totalidade dessas organizações. Esses fatores concorrem para a impossibilidade de se realizar com segurança a delimitação da população a ser pesquisada, por conseguinte, de se proceder a uma tipo de amostragem probabilística.

Neste sentido, foram julgados certos critérios considerados relevantes pelo pesquisador que permitiram identificar e selecionar as ONGs objetos do presente estudo. Os casos foram pinçados buscando-se selecionar um campo de organizações que possuem identidades em comum – ONGs -, diante do vasto e heterogêneo espaço do terceiro setor. Sendo assim, a seleção dos casos para pesquisa baseou-se nos seguintes critérios para eleição da amostra intencional:

• organizações sediadas na região metropolitana de Fortaleza; • organizações filiadas à ABONG;

• número de colaboradores (com empregados em quantidade igual ou superior a 20 pessoas);

• movimentação de recursos (orçamento igual ou superior a R$

1.000.000,00); e

• data de fundação (fundada e em atividade há mais de 10 anos).

Considerou-se a escolha em organizações da região metropolitana de Fortaleza, uma vez que as “maiores” organizações estão na Capital do Ceará, muito embora desenvolvam atividades e ações em todo o Estado, ou até mesmo em outras unidades da federação do Nordeste.

Buscou-se, também, a eleição de organizações caracterizadas como ONGs, a fim de realizar a investigação de aspectos inerentes a um campo específico de organizações. Como se sabe, o universo das organizações que compõem o terceiro setor é vasto e nada homogêneo, portanto, optou-se por definir, com base na caracterização de ONG dada pela ABONG, as organizações pesquisadas.

Como diz Falconer,

O setor de ONGs, no Brasil, exclui as organizações sem fins lucrativos tradicionais, como entidades filantrópicas e organizações voltadas exclusivamente à prestação de serviços. Ser ONG, tal como o conceito foi apropriado no Brasil, significa mais do que o status jurídico de associação sem fins lucrativos. Implícito no termo estão um campo e uma forma de atuação predominantes: a defesa de direitos, através de assessoria e capacitação de movimentos populares, e atividades melhor descritas pelo termo inglês advocacy: mobilização popular, articulação política, conscientização e disseminação de informação. (1999, p. 98).

A eleição por organizações de maior porte ocorreu em função da maior possibilidade de a ONG possuir uma estrutura administrativa e, por conseguinte, que venha a adotar práticas e procedimentos de gestão do fator humano. Bem assim, entende-se que as ONGs que possuem maior destaque/expressividade no cenário cearense despertam o interesse profissional das pessoas para fazer carreira nesse espaço.

Assim, as organizações eleitas para a amostra da pesquisa são: ESPLAR – Centro de Estudos e Assessoria, Comunicação e Cultura e CETRA – Centro de

Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador. A seguir o demonstrativo da eleição dos critérios de escolha das ONGs pesquisadas; e

Critérios da amostra ESPLAR Comunicação e

Cultura CETRA

Sediada em Fortaleza sim sim Sim

Filiada à ABONG sim sim Sim

Número de colaboradores

31 20 30

Orçamento 1.000.000,00 1.300.000,00 1.000.000,00

Data de fundação 1974 1991 1978

Quadro n.° 6: Demonstrativo dos critérios da amostr a intencional

Fonte: Elaborada pelo autor.

Como fonte de informações para seleção das ONGs, foram utilizados: • o mapa do Terceiro Setor, organizado pelo Centro de Estudos do

Terceiro Setor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo; • a publicação “ONG´s do Brasil, perfil da ABONG”;

• cadastro de organizações associadas ao Grupo de Institutos e Fundações Empresariais – GIFE; e

• Anuários do Ceará de 2003, 2004 e 2005, publicados pelo jornal “O Povo”.