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Em todas as nove edições de Veja analisadas nesta pesquisa o tema da luta pela audiência entre as emissoras é recorrente. As telenovelas são usadas como ferramentas, ou verdadeiros trunfos, para levantar preciosos pontos na disputa pelo ibope. Duas telenovelas
são mais representativas nesta luta, por terem motivado verdadeiras reviravoltas no histórico de domínio da audiência.
Pantanal, exibida em 1990 pela extinta TV Manchete, e Carrossel, transmitida pelo SBT em 1991, fizeram história por conseguirem desestabilizar a supremacia da Rede Globo no domínio do público, em especial na faixa do horário nobre (das 20 às 22 horas). O próximo tópico deste trabalho será dedicado à Carrossel por ela ter sido o mais importante símbolo da produção de novelas para o público infantil. Portanto, neste tópico o foco principal será a análise do sucesso de Pantanal.
Vale ressaltar que ao apresentar as razões que fizeram de Pantanal a mais bem- sucedida telenovela produzida por uma emissora concorrente da Globo, busca-se fazer um panorama geral sobre o que leva a conquista do público com uma novela de uma emissora que tradicionalmente não domina o cenário de produção desse gênero.
Assim, as explicações para o sucesso estrondoso de Pantanal, novela de autoria de Benedito Ruy Barbosa, que foi o programa brasileiro mais comentado na época de sua exibição, servem de exemplo e referência para as demais novelas que em determinadas épocas conseguiram desestabilizar os índices de audiência das emissoras concorrentes.
Segundo a Veja, Pantanal “caiu definitivamente nas graças do público”, por representar uma gama de novidades na telenovela brasileira. A novela renovou o modo de produzir teledramaturgia, com a aposta na apresentação de atores jovens e desconhecidos pelo público, mas muito talentosos e carismáticos. Para a equipe responsável pela realização da matéria de capa, o principal motivo da novela atingir tão expressiva audiência estava no cenário exótico em que a história se passava:
Tem-se aí uma novidade visual arrebatadora para o telespectador: em vez das ruas e ambientes por onde ele circula todo dia, um panorama que ele não conhece. Em lugar de carros e uma praça cheia de figurantes, atores que circulam entre jacarés, sucuris, onças pintadas, capivaras e tuiuiús. Pouca gente sabia que o Pantanal era tão bonito. (VEJA: 1990)
A prioridade de Pantanal não era conscientizar ou debater temas polêmicos (essa preocupação entre os autores vai surgindo a partir de meados da década de 90). A proposta era fazer a platéia relaxar, encantar os olhos do telespectador com uma locação que fugia do habitual, com personagens belos e de forte expressão que dominavam as rodas de conversa entre o público.
A TV Manchete apostou na época no frescor de novos atores como protagonistas da história: a personagem Juma interpretada por Cristiana Oliveira, José Leôncio vivido por Paulo Gorgulho e o jovem Jove de Marcos Winter. Ao contrário da Globo que dificilmente
colocava um rosto pouco conhecido no time dos personagens principais (postura que nos últimos anos a emissora tem adotado com maior freqüência).
Veja comenta essa escolha dos personagens em comparação com a novela Rainha da Sucata da Globo: “Entre o olhar enigmático de Cristiana Oliveira e os trejeitos de Regina Duarte, a novidade fica com a primeira”. (VEJA: 1990). O público passa a ter uma real opção de escolha na hora de assistir telenovela. Com o crescimento das novas redes de televisão e os investimentos por parte delas na área da teledramaturgia, o telespectador é ser servido por um cardápio mais variado e, conseqüentemente, mais plural em termos de programação.
A Rede Manchete investiu pesado na produção de Pantanal, desenvolvendo equipamentos especiais para a gravação e captação de ângulos inovadores dos cenários, marcados por uma fotografia exuberante e chamativa. A emissora tinha consciência da importância de saber usar com inteligência ferramentas estratégicas e infalíveis na conquista do grande público.
O interesse por uma sub-cultura diferente e desconhecida garantia o sucesso da novela, que mostrava uma civilização com costumes totalmente opostos dos vividos nas cidades brasileiras, em especial nos grandes centros urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo. As cenas que garantiam maior número de comentários entre o público mostravam um ambiente bucólico em que lindos atores desfilavam quase nus e se aventuravam em meio a bichos e plantas.
Esse ambiente de aventuras atraia os moradores dos meios urbanos que chegavam à noite em casa cansados depois de um agitado dia de trabalho e encontravam na televisão um excelente relaxante que os fazia viajar para um outro contexto cultural. Aqui se percebe uma importante marca da televisão: a “telinha” oferece ao público novidades sugestivas, como o contato com uma realidade que rompe com o cotidiano muitas vezes exaustivo do telespectador.
É como se após um longo dia estressante em uma grande cidade, o telespectador fosse convidado a passar uma hora em um outro ambiente bem mais agradável e relaxante, garantindo, assim, o que Muniz Sodré qualifica como “telepresença”, ou o simulacro humano realizado na televisão. O indivíduo mantém uma relação privada com os acontecimentos do mundo por meio da “telepresença” e é também através dela que o indivíduo diminui sua enorme sensação de solidão em meio à massa gigantesca da cidade grande.
Para Sodré ocorre a produção de um espaço/tempo sociais absolutamente novos, técnica a partir da qual as telenovelas aproveitam para criar seu mundo fantástico de diversão
Se já se podia caracterizar como mais ou menos divino o poder de ‘ver tudo que se passa’ do sistema panóptico, a técnica televisiva é realmente mágica por multiplicar infinitamente o poder de ubiqüidade do espectador, agora confrontado a uma (tele) realidade simultânea, instantânea e global. (SODRÉ: 1990, p. 31)
O fato é que seja em razão de Pantanal, ou de outra novela de sucesso, a guerra declarada pela audiência motiva as emissoras a fazerem alterações na grade de programação e criarem alternativas para agradar e reconquistar o público. A concorrência saudável entre as emissoras faz com que o telespectador seja beneficiado com uma programação mais trabalhada e qualificada.
O público aceita bons programas em qualquer emissora. A concorrência abre espaço para uma diversificação no mercado de trabalho e de produção televisiva enriquecendo a grade de programação.
Para Silvio Santos, mesmo que o sucesso no momento esteja com a Manchete, ele se entusiasma com o abalo na Globo e sem um pingo de maldade ou ressentimento. ‘O ideal seria que todas as redes e emissoras apresentassem bons programas, os empresários tivessem bons lucros e os funcionários recebessem ótimos salários’, diz o empresário do SBT. ‘É o que acontece nos Estados Unidos, onde as redes CBS, NBC e ABC disputam a audiência palmo a palmo, há TV a cabo e não falta dinheiro para ninguém’. No Brasil, o tiro certo de Pantanal e a preocupação das redes com o sucesso da novela e a competição para cativar a audiência oferecem uma imagem das virtudes da existência de concorrência. E quem sai ganhando com essa concorrência, em primeiro lugar, é o telespectador. (VEJA: 1990)