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A mais famosa telenovela importada do México e exibida no Brasil, Carrossel, também foi um marco no segmento da teledramaturgia voltada para as crianças. Escrita pelo mexicano Abel Santa Cruz e produzida pela rede mexicana Televisa, em 1989, Carrossel travou no ano em que foi exibida pelo SBT, 1991, uma batalha acirrada com o Jornal Nacional da Rede Globo, na época apresentado por Cid Moreira e na época considerado o programa de maior audiência da televisão brasileira.

O folhetim infantil também competia durante alguns minutos com a novela global, O Dono do Mundo, de Gilberto Braga, que era encenada em meio a banquetes milionários entre os personagens, casais adúlteros, um cenário com pretensões cinematográficas e leves críticas sociais sobre a realidade brasileira.

Essa telenovela [O Dono do Mundo] é emblemática pela rejeição do público, pela ousadia dos temas propostos e pelos procedimentos adotados por Gilberto Braga para retomar a audiência e se ‘vingar’ do público. [a “vingança” diz respeito ao final não-feliz dado aos personagens principais, tornando o vilão vitorioso]. (NOGUEIRA: 2002, p. 22)

Ao contrário da produção suntuosa da Globo, Carrossel apresentava várias características que poderiam ser vistas como motivadoras de um fracasso de crítica e de público.

Carrossel mostra tudo aquilo que se costuma considerar pobre, atrasado e brega na televisão brasileira: o cenário é rústico, os diálogos são declamados e os personagens esquemáticos. Não se vêem mulheres de sensualidade deslumbrante, carros último tipo, cenas de violência, nudez, erotismo ou palavrões. Para piorar as coisas, a dublagem é péssima. (VEJA: 1991)

Entretanto a própria reportagem da revista se contradiz e revela logo adiante:

Quinze dias depois de sua estréia, Carrossel produziu a mais espetacular reviravolta da televisão brasileira dos últimos anos, uma virada mais profunda que a de

Pantanal. [...] Carrossel é um sucesso latino-americano que muitas pessoas imaginam que só pode acontecer com produtos globais. Foi vendida para duas dezenas de países e depois de explodir na América Latina inteira chegou à Turquia, à China e ao Japão. No Brasil, em apenas quinze dias já se transformou numa mania entre meninos de 7 a 10 anos. (VEJA: 1991)

Mas, afinal, o que explica esse sucesso espetacular? Por que Carrossel com o retrato explícito da pobreza entre os personagens agradava mais ao público do que a riqueza suntuosa explorada em O Dono do Mundo? Afinal, o que o público quer assistir? O público- mirim que sintonizava o SBT naquele horário queria ver exatamente aquela trama leve e inocente, muitas vezes rotulada pelos críticos como “dramalhão mexicano”. O fato é que Carrossel se tornou um programa de referência na infância de muitas pessoas.

As crianças da Escuela Mundial, onde a maior parte da história se desenvolvia, divertiam e conquistavam o telespectador que buscava entretenimento, novidades tratadas de modo cômico, uma trama ágil e direta, o direcionamento claro às crianças e a abordagem de fatos cotidianos da vida infantil.

Carrossel fala de problemas do dia-a-dia do público: do menino que não fez a lição de casa, do pai que não tem dinheiro para comprar uma bola de futebol para o filho, da menina que tem dificuldade em se enturmar na classe, do garoto frágil espezinhado pelo grandalhão na hora do recreio. (VEJA: 1991)

Além disso, os pais se sentiam mais seguros ao saber que seus filhos estavam assistindo a uma novela feita para e por crianças. Carrossel foi a única telenovela com essa proposta na época. Assim, em um horário dominado por atrações para adultos, os pais abriam mão das más notícias mostradas pelo Jornal Nacional, e liberavam a TV para os filhos aprenderem com um programa sadio. Afinal, havia outras opções de telejornais em horários alternativos, já as crianças só tinham essa novela infantil.

No horário das 8, são os filhos que têm o direito de brigar, gritar, xingar e espernear para assistir ao programa de sua preferência. O pai, que passou o dia no trabalho, não vai criar caso com a filha porque quer ver no Jornal Nacional a quantas anda a apuração da bilionésima fraude da Previdência, ou qual o jeito que Alexandre Garcia encontrará para elogiar pela trilionésima vez o governo Collor. (VEJA: 1991)

Carrossel também expunha as crianças a temas mais delicados, como desemprego ou divórcio dos pais, mostrando uma realidade muitas vezes escondida das crianças pelos familiares com o argumento de “poupá-las”. Para isso, a novela recorria a uma linguagem simples e impregnada de fantasia para não assustar o público mirim e, ao mesmo tempo, garantir sua atenção e interesse na discussão desses temas mais sérios.

A esse respeito, Jesús Martín Barbero (2001) fala em uma transformação na forma de circular a informação no lar entre pais e filhos:

O que há de verdadeiramente revolucionário na televisão é que ela permite aos mais jovens estar presentes nas interações entre adultos. [...] A telinha as expõe aos temas e comportamentos que os adultos se esforçaram para ocultar-lhes durante séculos. (BARBERO: 2001, p. 26)

A novela não abordava assuntos com grande profundidade psicológica, e nem apresentava personagens ambíguos. Eram tratadas questões palpáveis do cotidiano infantil, sempre direcionadas para a exposição de valores morais e éticos na conduta dos “baixinhos”.

Um dos dramas da novela é o amor não correspondido do pequeno Cirilo, negro e pobre, pela malvada Maria Joaquina, loira e rica. [...] Maria Joaquina diz que os negros são como macacos e vivem ‘cheios de pulgas’. Sem saber o que fazer, Cirilo

vai reclamar com a professora. ‘Sou rejeitado porque o pai dela é médico e o meu é carpinteiro’, diz Cirilo. A compreensiva Helena dá um sorriso meigo e responde: ‘Você sabia que o pai do Menino Jesus também era carpinteiro?’. [...] Em Carrossel, não se fala do divórcio com as palavras leves dos adultos das novelas da Globo, que se julgam preparados para enfrentar a experiência de um casamento desfeito, mas com a crueza das crianças que têm muita dificuldade para entender o que se passa. Para professores e alunos da Escuela Mundial, o divórcio não é uma contingência da vida - é desgraça. Outro menino, Jaime, é maltratado pelo pai, que o considera ‘muito burro’. Na escola, no entanto, Jaime é um exemplo de solidariedade, sempre disposto a ajudar os amigos que têm algum problema. O tom geral de Carrossel é austero. Existem adultos bondosos, como o bedel Firmino, e adultos autoritários, como dona Oliva, a diretora da Escuela Mundial. Não existem, no entanto, adultos problemáticos, daqueles que não sabem por que vieram ao mundo. (VEJA: 1991)

E nessas constatações de que retratar o cotidiano é deixar o telespectador mais à vontade com a história a que assiste e fazê-lo enxergar nos personagens sua própria pessoa ou indivíduos com os quais se relaciona, fica evidente que as novelas têm um grande poder de influenciar decisões e atitudes da vida cotidiana do público.