1.1 Etat de l’art ´
1.1.3 Estimation mono-image
A retextualização, como fenômeno instaurador de mudanças na peça Gota
d’água, também pode ser investigada numa perspectiva lingüística tendo como
base os elementos de referenciação. Sabendo, de acordo com Mondada e Dubois (1995, p. 273), que “os sujeitos constroem, através de práticas discursivas e cognitivas social e culturalmente situadas, versões públicas do mundo”, observamos que cada maneira de fazer referência a um objeto revela não apenas uma escolha do falante, mas também um modo de interpretar a realidade, ressaltando-lhe este ou aquele aspecto. Se adotamos a linha de pensamento das citadas pesquisadoras, entendemos que as categorias e os objetos de discurso não preexistem como etiquetas, mas sofrem elaborações a partir da interação
comunicativa e apresentam transformações a cada contexto. Assim, reiteram Apothéloz e Reichler-Béguelin (1995, p. 242):
De maneira geral, a cada momento do discurso, o locutor dispõe, para designar um objeto dado, de uma série não fechada de expressões lingüísticas utilizáveis em condições referenciais iguais. Não somente o locutor tem o direito de selecionar aquela que ele estima a mais apta a permitir a identificação do referente, mas ele pode, por recategorizações, pelo acréscimo ou supressão de expansões, etc., modular a expressão referencial em função das intenções do momento; estas podem ser de natureza argumentativa (sustentar uma certa conclusão), social (preservar a face do outro, eufemizar o discurso), polifônica (evocar um outro ponto de vista sobre o objeto, além daquele do enunciador), estético-conotativa, etc.(...) Disso resulta que a seleção de uma denominação é uma operação necessariamente contextualizada.
Apothéloz e Reichler-Béguelin mencionam ainda o objeto-de-discurso como um traço da especificidade de sua noção de referência. Sob tal perspectiva, não se toma a referência como designação extensional de referentes do mundo extramental, mas como um fenômeno ligado àquilo que designamos, sem que haja necessariamente uma existência ontológica comprovada no mundo real. Assim, o objeto-de-discurso é oposto ao objeto-de-mundo e se torna o alvo da Lingüística, interessada pelos fatos discursivos.
Estudando os processos de progressão textual das variantes de Medéia, percebemos, por exemplo, que cada obra indica recategorizações da figura da protagonista. Mencionada como “feiticeira”, “macumbeira”, “bárbara”, “exilada”, “infanticida” e “assassina”, para citar só alguns lexemas, Medéia assume a cada texto uma postura diferenciada, de acordo com as mudanças ocorridas nas recriações da peça. É interessante investigar o poder que têm as recategorizações lexicais para fundamentar cada obra em seus aspectos particulares, ao mesmo tempo em que o diálogo com outros textos é inegável. Assim, apesar de captado de outro campo teórico, o conceito de referenciação
pode revelar motivações sócio-históricas muito úteis aos métodos de um analista do discurso.
Em Gota d’água, por exemplo, a abordagem da história de Medéia adquire uma conotação contemporânea – e esse é um fator que interfere na escolha e uso de um determinado lexema. Tal aspecto pode ser conferido no modo como o texto faz referência a Jasão, que enriquece com o sucesso de seu samba e fica noivo da filha do empresário Creonte. Designado pelos amigos como “menino” ou “rapaz”, Jasão passa a ser referido, pelas vizinhas de Joana, como “muquirana”, “safado”, “cafajeste” ou “gangrenado”, e pela própria ex- mulher como “canalha”, “aproveitador” e “gigolô”. Fica claro que as referências feitas a Jasão, os vários modos como ele é designado, dependendo da personagem que o cita, revelam escolhas feitas em função dos propósitos a serem atingidos pelo produtor do texto.
Marcuschi e Koch (1998, p. 9) afirmam que o processo de referenciação trata, em muitos casos, “da ativação, dentre os conhecimentos supostamente partilhados com o(s) interlocutor(es) __ isto é, a partir de um background tido por comum __, de características ou traços do referente que o locutor procura ressaltar ou enfatizar”. Desse modo, no caso de Gota d’água, Jasão ora é tido como um aproveitador, ora como um rapaz que busca melhorar de vida, conforme a análise esteja sob a ótica de uma pessoa amiga ou não.
A recategorização pode ser um fenômeno muito diversificado e por vezes envolve aspectos de remissão com rotulações bastante complexas, elaboradas com estratégias muito variadas. Dentre os processos de designação, encontram-se
não apenas a rotulação e a argumentação, mas também a ressemantização, a associação, a aspectualização, o uso de hiponímia ou hiperonímia, a seleção de membros do conjunto ou o uso de procedimentos de explicitação. Não pretendemos, no entanto, aplicar com detalhes esta teoria em nossa pesquisa, a ponto de a partir daí gerar esquemas ou tabelas definidoras de cada obra. Nosso objetivo é fazer convergir alguns fundamentos na medida de sua aplicabilidade para a Análise do Discurso e, especificamente, para o processo de retextualização que queremos enfocar.
Analisando alguns fenômenos de referenciação em Gota d’água, encontramos os atributos conferidos às personagens pelos diversos modos como elas são designadas, revelando não apenas o ponto de vista do enunciador, mas também aspectos do contexto de interação e da situação extralingüística – mudanças devidas a fatores sócio-históricos, por exemplo.
Realmente, para Apothéloz e Reichler-Béguelin (1995), a prática social e a categorização lexical estão correlacionadas, mas ao mesmo tempo é possível entender a designação como um ato fundamentalmente subjetivo, onde se exprimem, em uma larga medida, o livre-arbítrio e as estratégias persuasivas do enunciador. Assim, o processo de recategorização lexical das peças que trabalharemos revela também uma marca própria de cada autor – uma pista que pode lançar luz sobre as questões de sujeito e autoria, bem como sobre os mecanismos e os limites da retextualização.