Para Foucault, a alma não pode ser separada do corpo, porque tanto um como outro são constitutivos da subjetividade. Visando essa perspectiva, e pensando na questão do devir, para o travesti, temos corpo e alma como partes de uma mesma força, ou, se preferirem, de duas forças complementares de produção da ação que atualiza o sujeito, ou seja, ATUAL AÇÃO que, instantânea e consecutivamente, promove a atualização constante dessa subjetividade (considerando o corpo como parte fundamental desse processo). Pode-se observar seqüências sincrônicas que ponto a ponto fazem a diferença em um
momento e outro, mas que não diferem quanto à materialidade, ao contrário, produzem materialidade. Dito de outro modo, as forças de atualização sincrônicas cirzem carne e temporalidade produzindo um sujeito diacrônico, um sujeito moderno.
Por outro lado, utilizando-me do pensamento de Derrida, o espírito é da ordem da não-matéria, algo separado do corpo, mas que remete a ele; usando a metáfora de Hamlet, é o fantasma que vem revelar a verdade. Assim, entendo que o espírito, nos termos derridiano, pode ser análogo à memória discursiva que emerge num ponto X, ora para dar sustentação ao ponto Y, portanto revelando-se essencial no plano cartesiano150, como condição sine qua non de existência do ponto (X)Y151. Ou seja, a existência do travesti depende dessa relação de coexistência de dois sexos, mesmo que hipoteticamente. Ora como algo a ser esquecido para operar na produção da ilusão do feminino (Y) em um lugar que a priori seria do masculino (X).
Falar ainda em modernidade não significa estagnar o tempo. A modernidade também é atualizada, por isso procurei traçar nesta tese alguns aspectos dos deslocamentos contemporâneos a partir da observação da metamorfose produtora da subjetividade do travesti. As dicotomias entre o “natural” e o “artificial”
150 Plano Cartesiano: também conhecido como sistema de coordenadas retangulares, trata-se de
um conceito introduzido no século XVII pelo matemático e filósofo francês René Descartes, para representar graficamente o par ordenado (xo;yo). Consiste basicamente de dois eixos orientados que se interceptam segundo um ângulo reto, num ponto denominado origem. O eixo horizontal é denominado eixo das abcissas e o eixo vertical é denominado eixo das ordenadas. Denominamos o ponto O de origem do plano cartesiano, sendo nulas a sua abcissa e a sua ordenada, ou seja, O(0;0).
151 O “X” está entre parênteses querendo remeter à idéia de que o cruzamento do plano se dá
justamente no ponto (XY), no entanto o eixo do X permanece em linha horizontal e o Y em linha vertical. Assim, o X existe como condição dada e, o Y, em linha vertical, passa a representar a busca de uma posição de intersecção com o que já está dado, por isso a ilusão de que só existe o ponto Y, e por isso optei por não colocá-lo entre parênteses.
(produzido) apontam o antagonismo das tradições às novas possibilidades de ser sujeito; desse fato nasce um símbolo do movimento do contemporâneo. Movimento que está imbricado na crise e na necessidade de manter-se em movimento. Crise que busca o equilíbrio de um “desequilíbrio”, que busca imprimir uma estética plástica onde se poderia enxergar apenas o bizarro, que emerge do imaginário e irreal para uma concretude de vida real e nova. E mais, pode-se apontar no travesti uma vontade de combater, até a exaustão, as complexidades e contradições da vida, ao mesmo tempo em que aprendeu a conviver com ela, a fim de encontrar, em si mesmo, em meio à angustia, a beleza produzida por essa crise.
Para o que chamo de transformação de corpo e alma, Florentino (1998) fala na atenção dedicada simultaneamente aos corpos físicos e psicológicos:
(...) de um lado preocupam-se com as questões que envolvem as formas. De outro uma preocupação em moldar o jeito de pensar e agir especificamente como uma mulher. Na transformação, os ideais de beleza do corpo e comportamento femininos estão simbolicamente elaborados. (Ibid.:95).
A pesquisadora diferencia a transformação da montagem. Na montagem, o funcionamento é o de um ritual em que o corpo do travesti é o próprio suporte. No ritual, a ornamentação e o ensaio comportamental são construídos a fim de desempenhar funções nos eventos e/ou situações. “A montagem em si mesma é um processo momentâneo (...)”. (Id.). A partir dessas observações, pode-se dizer que não é somente o corpo que define a “subjetividade flutuante” do travesti, o corpo é parte, essencial, mas a atuação deste vai ser configurada por uma série
de outros incrementos, conforme a necessidade ou desejo, de indicar qual mulher aquele corpo deverá representar, dentro das representações simbólicas de mulher que temos culturalmente. Vejamos o relato de Silvane:
Normalmente, prá programa, eu vou com uma roupa assim, uma mini-saia, que mostre mais, sabe? Uma roupa mais sensual, mais provocante, né. Como a gente vive discutindo, os homens que vão procurar a gente tão procurando uma vagabunda, não tão procurando uma mulher certinha. Mulher certinha ele tem dentro de casa, né. (...) Mas isso tudo depende. Esses dias eu fui com um vestido bem comprido, e foi o dia que eu mais ganhei dinheiro. (Ibid.:97).
Usando os termos “montagem” e “transformação” pode-se resgatá-los para mostrar que eles não refletem apenas o universo dos travestis, mas para como essas práticas, de produzir a si, permeiam a todos nós contemporâneos, refletindo também nossos valores e apreciações, idéias e ideais, realidades e fantasias acerca do mundo que nos cerca e, em que somos, constantemente, inseridos.
O sujeito converte-se, sobretudo, em formula que nos permite analisar, numa perspectiva funcional, o comportamento dos mais diversos atores que, a partir do advento da modernidade, no seu agir, se dissociam da esfera “teosemiótica” da interpretação. Deste modo, esta tese prende-se à trajetória da esfera de ação da modernidade, tentando delimitar a emergência do sujeito no despontar deste tempo e suas multiplicidades de possibilidades subjetivas pontuadas na crise da modernidade. Este atravessamento à modernidade parte da afirmação de auto- enunciação do sujeito moderno, através da lenta transformação de representação original, em que tudo ainda era manifestação do discurso divino, constituindo, assim, uma cadeia de efeitos. Conforme Carmelo (1998), a definição de Hume do
homem como mera súmula de percepções, ou a “esquematização” e o próprio ”conceito empírico” de Kant integram essa desconstrução.
Subitamente como disse Foucault, no século XIX, o homem, e também as linguagens, emergiam à superfície e tornavam- se no motivo de todos os olhares e estudos indiscretos. Não mais, um e outro, continuaram a ser vistos como algo que Deus distribuíra serenamente ao mundo, no quadro de uma ordem e harmonia indiscutíveis e inomeáveis. A partir de agora, a representação passava a ser uma construção, uma maquinação, um produto complexo e quase industrial, movido pelo esforço transformador e criativo do próprio homem. O sujeito moderno cumpria o termo de uma iniciação algo espartana, rude, mas proveitosa. (Ibid.: 01)152
No mesmo artigo o autor observa que a figura do sujeito “autonomizado”, livre e dotado de racionalidade, ou seja, justamente aquilo que poderia ter sido a obra mais genuína da origem da modernidade, passará a submeter-se ao crivo de uma rigorosa inspeção periódica do seu próprio existir e legitimação.
Desmutiplica-se e polariza-se entre heteronímias, rupturas freudianas e demandas de identidade: é posto em causa por uma linha que une Tocqueville (talvez o primeiro profeta do esvaziamento do sujeito moderno) e Nietzsche, Unamuno, Ortega Y Gasset, ou Heidegger; e, por fim, projecta-se no decantar moderno que se inicia na década de oitenta do já quase finalizado século XX. (Ibid.:02).
Desta maneira, o autor conclui que da emergência à “autonomização” do sujeito e da liberdade à crise do sujeito, eis o traçado que nos encaminha, finalmente, para uma teoria do sujeito global, que vislumbro ser notadamente percebida, de modo acentuado, na figura do travesti. Assim, tem-se o sujeito –
152 Carmelo, Luís – Órbitas da Modernidade: Introdução, disponível em
tanto o travesti como o homem moderno – tomado pela aparência do fim da mediação e pelo desejo de “instantismo”, ou seja, ele tende a expandir-se e a confundir-se com o próprio simulacro, usando o termo de Baudrillard.