Vários agentes terapêuticos ou substâncias químicas podem induzir aumento transitório ou persistente na pressão sanguínea, ou mesmo interferir com os efeitos dos anti-hipertensores (ANEXO VIII)(53).
36 Alguns podem causar retenção do sódio ou expansão do volume extracelular, ou ativar direta ou indiretamente o sistema nervoso simpático. Os efeitos mais prejudicais de alguns medicamentos são mais pronunciados em pacientes hipertensos com insuficiência renal e em idosos(51, 54). A avaliação cuidadosa do regime terapêutico de um paciente pode identificar a hipertensão induzida quimicamente e permitir a avaliar se é efetivamente necessário o uso da terapêutica anti- hipertensora. Nestes casos, quando identificado que a causa é química, é recomendado a descontinuação do agente causador, ou se em caso do uso deste ser obrigatório, é realizado um ajuste da dose da terapêutica para a hipertensão(51).
Os fármacos ou substâncias que induzem ou aumentam a hipertensão arterial são, entre outros: Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs);
Contracetivos orais; Simpaticomiméticos; Drogas ilícitas; Glucocorticoides; Mineralocorticoides; Ciclosporina; Eritropoeitina;
Suplementos à base de ervas; Inibidores do VEGF(52).
Os fármacos mais comuns na indução do aumento da pressão arterial são os AINEs e os contracetivos orais(52).
3.6.1 Anti-inflamatórios não esteroides e analgésicos
Os AINEs são a causa mais comum de hipertensão induzida por fármacos. Os AINEs podem induzir um aumento da pressão arterial e interferir com o tratamento anti-hipertensivo, nomeadamente cessar o seu efeito. Embora os mecanismos envolvidos no aumento da pressão sanguínea não estejam bem esclarecidos, as causas podem ser ativação do sistema renina- angiotensina-aldosterona, a retenção de sal e água, indução da vasoconstrição através da endotelina-1, dos metabolitos do ácido araquidónico, e principalmente pela inibição das prostaglandinas vasodilatadoras renais (E2 e I2)(51, 52, 55).
Os efeitos mais prejudiciais dos AINEs, nesta patologia, são o comprometimento da função renal e a lesão aguda do rim, especialmente em doentes de idade avançada, doença crónica renal, hipertensão pré-existente ou diabetes(52).
Os AINEs interferem com alguns agentes anti-hipertensivos, como os diuréticos, os β- bloqueadores e os inibidores da enzima de conversão da angiotensina, mas não com os antagonistas do cálcio e os de ação central(51, 56). A administração concomitante de AINES com antagonistas do cálcio não é acompanhada da elevação da pressão(52).
37 Entre os vários AINES, a indometacina, o naproxeno e o piroxicam estão associados a um maior aumento da pressão arterial. Em relação aos inibidores seletivos da cicloxigenase-2 (COX-2), estudos realizados indicam que o rofecoxib aumenta mais a pressão sistólica do que o celecoxib. Estes últimos têm uma interação maior do que os não seletivos na hipertensão(56-58).
Nos casos da hipertensão resistente, a substituição dos AINEs pelo paracetamol, pode resolver este problema. O alívio da dor é conseguido nos pacientes com osteoartrite e na dor com origem no músculo-esquelético. No entanto, nos casos de doenças inflamatórias crónicas, como na artrite reumatoide, os AINEs possuem uma melhor resposta terapêutica. Nestes casos, é administrado tramadol ou di-hidrocodeína. Contudo, nas situações onde apenas os AINEs são efetivos, deve ser ministrada a dose mínima necessária(52).
3.6.2 Contracetivos orais
Os contracetivos orais representam outra classe de fármacos que são amplamente utilizados e são capazes de induzir hipertensão(59).
O maior estudo realizado para avaliar os efeitos dos contracetivos foi realizado com mais de 60.000 mulheres normotensas durante quatro anos. As mulheres que utilizam contracetivos possuem um risco de 80% de desenvolver hipertensão comparado com mulheres que não tomam este tipo de medicação(59).
O tipo de contracetivo oral também parece possuir interesse clínico. Os contracetivos orais combinados (progesterona e estradiol) são mais associados a elevações da pressão arterial do que os de progesterona(52).
Por outro lado, a drospirenona (quarta geração) reduz a pressão sanguínea quando combinada com o estradiol. No entanto, as guidelines atuais recomendam a uso de contracetivos de apenas progesterona em mulheres com doença cardiovascular estabelecida ou fatores de risco major cardiovasculares(52).
3.6.3 Fármacos anti-VEGF
Outra classe de fármacos que estão a emergir na indução da hipertensão são os fármacos antineoplásicos que possuem como alvo o VEGF (fator de crescimento endotelial vascular). O bevacizumab, que é um anticorpo monoclonal, liga-se à isoforma VEGF-A, bem como a pequenas moléculas que inibem o domínio da tirosina cinase intracelular dos três recetores do VEGF. Este fármaco é utilizado no tratamento de vários tipos de cancro(52).
A hipertensão foi relatada em muitos pacientes que recebiam tratamento com fármacos anti- VEGF. Num estudo realizado, 20-30% dos doentes tratados com bevacizumab desenvolveram hipertensão(52).
O reconhecimento dos mecanismos patogénicos que contribuem para a elevação da pressão arterial por inibir o VEGF pode ser útil para identificar fármacos mais apropriados(52).
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3.6.4 Corticosteroides
A hipertensão ocorre em pelo menos 20% dos pacientes tratados com corticosteroides. O cortisol, por via oral, em doses entre os 80-200mg/dia pode aumentar a pressão arterial sistólica até 15 mmHg em 24horas. A cessação da terapêutica com corticosteroides, por norma, leva à normalização da pressão. No entanto, quando é obrigatório administrar um fármaco desta classe, recorre-se aos diuréticos, pois a sobrecarga do volume é o principal mecanismo pelos quais aumentam a pressão arterial. Nestes casos, pode ser necessário incluir na terapêutica um IECA e por isso, é realizado uma monitorização cuidadosa do potássio(51).
3.6.5 Medicamentos à base de plantas
Alguns produtos à base de plantas têm o potencial de aumentar a pressão sanguínea e podem interferir com o tratamento anti-hipertensivo. Vários estudos têm demonstrado que os suplementos contendo alcaloides de efedrina podem causar hipertensão(51).
Além disso, algumas ervas podem interferir com a biodisponibilidade dos fármacos administrados concomitantemente. A hipertensão também tem sido relatada após a administração conjunta de Gingko e um diurético tiazídico(51).