2.1.
Contextualização
Em todo o mundo, as doenças cardiovasculares são a principal causa de
morte e invalidez [33]. As dislipidémias, particularmente o aumento do colesterol
total no sangue, é um importante fator de risco cardiovascular e provoca um
número estimado de 4,4 milhões de mortes a cada ano em todo o mundo [34].
Para a prevenção de doenças cardiovasculares e controlo da dislipidemia, as
diretrizes internacionais recomendam os inibidores da Hidroximetilglutaril-
coenzima A redutase (HMG-CoA redutase), as estatinas, como fármacos de
primeira linha [33].
A ideia de abordar este tema surgiu pelo fato de um utente recorrer à
farmácia para comprar uma estatina, tendo comentado que sentia “dores nas
pernas” desde que tinha iniciado esta terapêutica e que estaria a pensar
interromper a medicação. Desta forma tentei pesquizar uma alternativa válida às
Estatinas que não provocasse como efeito adverso mialgia. A alternativa
encontrada foram os suplementos de Arroz Vermelho. Estes suplementos
suscitaram-me curiosidade científica no intuito de conhecer a sua eficácia com
eventual alternativa às Estatinas. Acresce o fato que simultaneamente deparei-
me, na mesma altura, com uma encomenda deste produto efetuada pela
farmácia.
2.2.
Estatinas
As Estatinas são o tratamento de 1ª linha para a redução de lípidos, devido
à sua eficácia bem demonstrada para reduzir a morbilidade e mortalidade
cardiovascular [34].
As estatinas atuam num passo crucial da biossíntese do colesterol, na "via
do mevalonato" (Fig.3). Ao inibir a HMG-CoA redutase, a síntese de mevalonato
é reduzida e, em consequência, várias outras vias de isoprenóides são afetadas,
Unidade Curricular Estágio 28
incluindo, por exemplo, a ubiquinona, que participa no transporte de eletrões na
membrana mitocondrial [35].
Figura 3 - Via do mevalonato, que indica o local de ação das estatinas e os produtos finais da reação da HMG-CoA redutase, incluindo o colesterol e os isoprenóides [35].
Contudo, as estatinas estão associadas a efeitos adversos musculares tais
como, miopatia, miosite, mialgia e rabdomiólise [36]. Existem estudos que
referem que 10% dos pacientes desenvolveram Mialgia Associada a Estatinas
(SAM) e a recorrência de mialgia pode chegar aos 57% quando os pacientes
estão a tomar duas estatinas [37].
A ocorrência destes efeitos adversos, a baixa adesão á terapêutica após 1
ano e o aumento da utilização de medicamentos à base de plantas, fez com que
os utentes procurassem outras terapêuticas alternativas, tais como os
suplementos alimentares com Arroz Vermelho (AR) [37, 38].
2.3.
O que é o arroz vermelho?
O arroz vermelho (AR) é arroz fermentado com Monascus purpureus
(levedura vermelha) [33]. O arroz vermelho, também conhecido como “Koji
vermelho” no Japão e “Hong Qu” ou “Angkak” na China, tem sido usado há
séculos para fazer vinho de arroz, como potenciador de sabor em peixe e carne,
como corante alimentar, e para "promover a digestão e a circulação" [37, 38].
Unidade Curricular Estágio 29
Os benefícios de saúde documentados do AR vão de anti inflamatório,
hipotensor, redução do colesterol, cardioprotetor, antidiabético e anti-
cancerígeno, contudo de entre estes benefícios, o com mais potencial
terapêutico é a sua capacidade de reduzir o colesterol [39].
O efeito de redução do colesterol do AR pensa-se ser devido a Monacolina
K (fig. 4), substância quimicamente idêntica á lovastatina, que se encontra
naturalmente presente e que inibe a HMG-CoA redutase, que é a principal
enzima na biossíntese do colesterol [37, 39] (fig. 5). Além da Monacolina K,
existem outros compostos no AR com potencial de redução do colesterol tais
como,
outras
monacolinas,
esteróis,
isoflavonas
e
ácidos
gordos
monoinsaturados [40].
Figura 4 - Estrutura química da Monacolina K (lovastatina) [41].
Vários estudos já demonstraram que o AR é eficaz a reduzir o colesterol
total, triglicerídeos, o colesterol de baixa densidade (LDL-c) e a aumentar o
colesterol de alta densidade (HDL-c) comparativamente com placebo [37, 39, 40,
42].
Vários estudos demonstram que o AR e algumas estatinas como a
sinvastatina e a pravastatina, tem efeitos similares na redução do colesterol total,
do LDL-c, dos triglicerídeos e no aumento do HDL-c e isto poderá dever-se ao
facto da Monacolina K ter propriedades químicas, farmacocinéticas e
farmacodinâmicas semelhantes á lovastatina e á sinvastatina [33, 43]. Também
vários estudos mostraram um menor número de casos reportados de SAM,
comparativamente com outras estatinas [33, 40, 43].
Unidade Curricular Estágio 30 Figura 5 - Mecanismo de ação do AR [39].
A dosagem de Monacolina K é um parâmetro importante para a eficácia do
AR [39]. O efeito benéfico do AR é alcançado com uma dose diária de 10mg de
Monacolina K [39, 44, 45]. Contudo, devido ao facto de não haver um controlo
governamental existe uma enorme flutuação da quantidade de Monacolina
presente nos suplementos alimentares de AR [39, 40]. Neste momento, os
suplementos de AR ainda são considerados alimentos, não estando assim sob
o controlo do INFARMED, não havendo assim um controlo mais apertado da
quantidade de Monacolina K presente em muitos dos suplementos á venda no
mercado.
2.4.
Conclusão
A hipercolesterolémia é uma realidade portuguesa. Sendo as Estatinas o
fármaco de primeira linha, têm contudo alguns efeitos secundários que podem
levar á diminuição da adesão à terapêutica, tal como as mialgias. O AR pode ser
uma nova terapêutica com menores efeitos secundários, o que pode ser benéfico
nos casos dos utentes que padecem de SAM. No entanto, este ainda é
considerado um suplemento alimentar, não estando sob o controlo de qualidade
dos medicamentos, pelo que a sua prescrição é atualmente limitada.
No caso do utente que se queixou de mialgias, quando sugeri a alternativa
do arroz vermelho este mostrou-se muito interessado, contudo, eu sugeri que
falasse com o seu médico antes de tomar alguma decisão, visto que os
Unidade Curricular Estágio 31
suplementos de arroz vermelho não devem ser administrados ao mesmo tempo
que as Estatinas.
A experiência adquirida na farmácia e na realização deste trabalho
permitiu-me não só tomar conhecimento do elevado número de utentes com este
fator de risco cardiovascular que não estão sob vigilância, bem como aconselhar
nalguns utentes com hipercolesterolémia ligeira a moderada a utilização deste
suplemento.
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THE BLACK BOX SOCIETY
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