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de cette double signification du groupement se dessinera nettement après la Seconde Guerre mondiale (B)

2.1. Dados da questão

Ao lado do conflito entre dialécticos ou racionalistas e anti-dialécticos ou fideístas, uma segunda problemática envolvente agitou as escolas e implicou diversas personalidades nos séculos da Escolástica Incipiente. Trata-se agora de uma questão surgida no interior da própria Lógica ou Dialéctica, como resultado do grande movimento dialéctico desse tempo e do grande interesse que suscitou pelas questões da Lógica. Foi a controvérsia dos universais. Tratava-se de saber qual a verdadeira natureza dos universais, quer dizer, daquelas categorias lógicas do nosso pensamento que se aplicam distributivamente a todos os indivíduos de uma mesma espécie ou de um mesmo género.

A controvérsia surgiu também por causa da ignorância de uma boa parte do pensamento lógico de Aristóteles e ainda da generalidade do seu pensamento ontológico e gnoseológico. Na verdade, a problemática surgira já a partir de Sócrates.

127 Outras linhas poderiam ilustrar esta profunda viragem histórica, p. ex.: nas representações iconográficas, o Cristo Pantocrator (Rei Universal) e o Deus Majestatis dão são agora preteridos ou pelo menos acompanhados pela popularização da imagem do Cristo crucificado ou do Cristo Deus Menino, e ainda pelo incremento da devoção à Virgem Maria, aproximando a divindade de Deus da humanidade do homem; Aristóteles vai progressiva-mente ganhando terreno a Platão; no séc. XIII os mosteiros serão suplantados pelos conventos, e com isso o ideal ascético da fuga do mundo dará lugar a uma forma de vida cristã de imersão no mundo.

128 Os marginais constituiram, na Paris do século XII, aquilo que J. Le Goff chama a vagabundagem intelectual. Eram os goliardos, estudantes que se davam à vida errante e à moral libertária. Cultivavam três fundamentais «valores»: o vinho, o jogo e o amor. Da pouca documentação que resta sobre esta casta social são conhecidos os poemas Carmina Burana. A cidade deste tempo será descrita por S. Bernardo como a moderna Babilónia de todos os vícios: «Fugi do meio de Babilónia, fugi e salvai as vossas almas»

Platão encontrara-lhe uma resposta de tipo idealista: os universais são, antes de tudo, ideias exemplares subsistentes no mundo inteligível, de que a mente humana tem em si ideias participadas que aplica às coisas individuais. Esta posição é conhecida como a de um realismo exagerado. Aristóteles, por seu lado, contradisse o mestre, afirmando uma posição de realismo moderado. Para ele, as ideias universais que temos na nossa mente não são participações de ideias subsistentes (que não podem existir como tais), mas abstracções colhidas a partir das coisas individuais. A abstracção é que faz a universalização.

O neoplatónico Porfírio, na sua Isagoge ou Introdução à Lógica de Aristóteles, recebeu esta questão mais como problema do que como solução encontrada. Boécio, seu tradutor latino, por sua vez, recebeu a questão assim embrulhada ou problematizada:

Sobre os géneros e as espécies recusar-me-ei a afirmar se são substâncias ou se existem apenas na inteligência, se são substâncias corpóreas ou incorpóreas, e se existem separadas das coisas sensíveis ou nas coisas sensíveis. Trata-se, efectivamente, de um assunto profundíssimo, carecido de uma investigação mais ampla.129

Como é fácil de ver, o problema de Porfírio era, no essencial, o de saber se a razão está do lado de Platão ou de Aristóteles. No intuito do seu aprofundamento, porém, complicou esta alternativa com mais duas. Boécio, por seu lado, não só não se achou à altura de resolver a questão — «altioris enim est philosophiae», só uma filosofia mais aprofundada poderá fazê-lo — como, talvez no intuito de a simplificar, ainda a complicou mais, ao reduzir tudo a uma alternativa diferente das já postas, ou seja, à de res (realidades) ou voces (palavras).

2.2. O problema na Escolástica Incipiente

Os escolásticos dos séculos XI e XII, não conhecendo da Lógica de Aristóteles mais que aqueles seus antecessores, fixaram-se na alternativa de Boécio, dividindo-se entre duas tendências: a do realismo, ou da afirmação dos universais como res, e a do verbalismo ou nominalismo, isto é, da afirmação dos universais como voces, isto é, palavras de aplicação comum aos vários indivíduos de uma mesma espécie ou género. Se, porém, os segundos não coincidem com Aristóteles, também os primeiros não coincidem com Platão. Com efeito, o realismo destes é já um realismo de modelo agostiniano, tendente a considerar os universais como as próprias ideias exemplares subsistentes na mente de Deus.

Os principais representantes do realismo foram SANTO ANSELMO,ODÓN DE TOURNAI E GUILHERME DE CHAMPEAUX, ao passo que o verbalismo teve como principal defensor ROSCELINO DE COMPIÈGNE. Uma aproximação da solução de tipo aristotélico foi feita por PEDRO ABELARDO, que esboçou uma imperfeita teoria da abstracção. O regresso à genuína solução aristotélica só o fará S. Tomás de Aquino, no século XIII.

129 Veja-se Porfírio, Isagoge. Introdução às Categorias de Aristóteles, trad., introd. e notas de Pinharanda Gomes, Col. «Filosofia & Ensaios», Guimarães Editores, Lisboa, 1994, pp. 50-51. A tradução que aqui se dá é ligeiramente diferente.

2.3. Significado e importância históricos

Sendo embora, na sua aparência, uma questão académica e quase ociosa, a questão dos universais implicava na verdade fundamentais problemas da filosofia. Assim, em relação à ontologia, nela se implicava o problema da verdadeira constituição da realidade: é constituída por realidades individuais? universais? é ideal? é real? Em relação à gnoseologia: como se processa o nosso conhecimento da realidade? a partir das coisas sensíveis? a partir de ideias inteligíveis? Em relação à antropologia e à própria ética: o primado pertence ao homem individual (à pessoa) ou ao homem universal em que aquele se deve considerar absorvido? Deste modo, a controvérsia dos univer-sais acabou por despoletar o engenho filosófico e abrir o leque das grandes questões da filosofia, abrindo caminho à grande especulação do século XIII.

BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA

DE LIBERA, Alain, La querelle des universaux, de Platon à la fin du Moyen Age, Coll. «Des Travaux»,

Seuil, Paris 1996, 512 pp.

— L'art des géneralités, Aubier, Paris, 1999, 702 pp. Estudo sobre os universais em Alexandre de Afrodísia, Boécio, Abelardo e Avicena.

BERNARD OF CLAIRVAUX, On loving God. An analytical commentary by Emero Stiegman, Cistercian Publications, Kalamazoo (Michigan), 1995.

HOLOPAINEN, T. J., Dialectic and Theology in the Eleventh Century, E. J. Brill, Leiden-New York-

Köln, 1996, VII-171 pp.

3. Santo Anselmo de Cantuária

(1033-1109)