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Des donn´ ees aux mod` eles, des mod` eles aux donn´ ees

1.2 Radiations ´ evolutives : quelques grands d´ ebats

1.3.1 Des donn´ ees aux mod` eles, des mod` eles aux donn´ ees

Ao século xviii português marcado por um Neoclassicismo mais universa- lizante, sem raízes especificamente nacionais (de que é exemplo a Arcádia Lusi-

tana), sucede o movimento romântico, genuinamente nacionalista, determinado

a solucionar a crise que assolava o país. A primeira metade do século xix é uma época de grande instabilidade política, social e económica: à devastação das in- vasões francesas sucede a ingerência inglesa na política nacional; a Revolução Liberal deu azo a uma guerra civil que dividiu o país; o absolutismo e a repres- são ameaçaram as liberdades entretanto conquistadas. Garrett descreve assim a situação:

Portugal sem comércio, porque lho tolhera e arruinara o gabinete do Rio; sem indústria, porque lha empeciam; sem agricultura, porque lha veda- vam; sem administração, porque não é administração o peculato desfaça- do e público, o roubo e a venalidade patente, [–] descera ao mais abjecto, mais vilipendioso estado, a que jamais se viu baixar nação sem haver perdido sua independência; conquanto pouco era a independência de um Estado na máxima parte governado por estrangeiros delegados de seu chefe ausente (Garrett, 1991: 88).

Perante tal situação, intelectuais como Garrett e Herculano, ambos mar- cados por perseguições políticas que os levaram ao exílio e ao contacto com os romantismos europeus, assumem o protagonismo do ideal romântico aplicado ao ‹‹torrão natal››: pretendem refundar a identidade nacional, perscrutando-lhe as suas raízes, nomeadamente na Idade Média. É a partir do Romantismo que surge na literatura portuguesa a problematização do ser português e do lugar de Portugal no mundo, por oposição ontológica às outras nações: ‹‹O Romantismo é o momento da cultura europeia em que o singular se torna universal, o senti- mento da diferença o fundamento da identidade›› (Lourenço, 1991: 101). Não esqueçamos que é no século xix que se consolida a noção política de nação, alia- da à ideia de Estado independente, conceito aliás com o qual o próprio Garrett está familiarizado, como se constata na seguinte explanação: ‹‹Uma reunião de homens, qualquer que seja o seu número, qualquer que seja a extensão do seu território, que tem leis, que tem forma de governo; eis aqui o que é uma nação. A necessidade de mútuos socorros une os homens em famílias; a necessidade une as famílias entre si, forma as cidades, constitue as nações›› (Garrett, [1985]: 195). Esta ‹‹necessidade›› a que se refere Garrett está relacionada com a componente solidária e fraternal a que está também associada a nação; ou seja, pertencer a uma mesma nação é partilhar de um espírito coletivo que se constitui enquanto ‹‹unidade afectiva››, no dizer de Damião Peres (1992: 38). Assim, Garrett não considera somente o significado político de nação; esta é também o conjunto de ‹‹hábitos››, ‹‹maneiras de pensar››, ‹‹necessidades›› e ‹‹afectos››, elementos fun- damentais na formação da identidade nacional (Garrett, 1991: 173).

É por isso que tanto Garrett como Herculano manifestam, seja nas suas obras, seja nas suas vidas, propósitos pedagógicos que visam despertar na alma nacional uma consciência suficientemente patriótica para reconstruir Portugal. Este conceito da missão cívica do escritor, herança ainda do Iluminismo, leva estes autores a projetos bastante abrangentes, que contemplam não só a literatu- ra, como também a política, o património arquitetónico, a educação, a língua, a revisão da história nacional, entre outros. Apesar dos reveses nas suas vidas pes- soais e na vida nacional; apesar das violentas diatribes à nação que encontramos nas suas obras, o tom geral é sempre de esperança na reconstrução nacional, no rejuvenescer de um país mergulhado em conturbados acontecimentos. Num texto intitulado «Mr. Sheridan Knowles», Garrett reflete sobre o atraso civilizacional de Portugal, mas o tom confiante mantém-se, assumindo a forma metafórica de povo eleito à espera da libertação:

Tenho fé comtudo que, apezar dos nossos oppressores, das suas compa- nhias, de suas malvadas leis, e da escravidão em que fomos vendidos para o Egypto da agiotagem, a Providencia nos acudirá. Este innocente povo, este José das nações, surgirá do captiveiro á grandeza pela sabedoria e

pela constancia na adversidade. A civilisação é tam poderosa e forte que romperá todas estas peas, e nos tirará do carcere: mais dia, menos dia, nós tomaremos tambem o logar que nos compete em Israel (1904b: 220).

E é irónico que, uma vez conquistada a tão desejada estabilidade com a Regeneração (1851), a esperança dê lugar ao vencidismo da Geração de 70, por razões que adiante analisarei.

O objetivo de Garrett revelou-se ser, desde cedo, o de renacionalizar a literatura portuguesa, que sofrera ao longo da sua história interferências do gos- to inglês, do castelhano e sobretudo do francês, como refere na introdução do

Romanceiro (1843) (Garrett, [1997b]: 17-22). Neste texto de teor ensaístico,

Garrett divide a poesia original portuguesa em oito fases, em que a última – o Romantismo – é aquela em que finalmente Portugal recupera a sua ‹‹independên- cia literária›› (idem; 22). No Romanceiro, o autor, etnógrafo avant la lettre, visa estudar as origens da literatura portuguesa e faz uma recolha de poesia popular medieval, a qual ele considera mais próxima do verdadeiro espírito português158.

Contribui, assim, para a missão de fazer Portugal regressar a si próprio, às raízes fundadoras da sua identidade. Este interesse pela literatura popular genuinamente nacional levara-o a recuperar uma lenda nacional em D. Branca (1826), rejeitan- do a mitologia estrangeira e preferindo a nacional:

Vivam as fadas, seus encantos vivam! Nossas lindas ficções, nossa engenhosa Mythologia nacional e propria

Tome emfim o logar que lhe usurparam Na lusitana antiga poesia (Garrett, 1904d: 38)

Assim se compreende que praticamente todas as suas obras tenham Portu- gal – passado e presente – como tema nuclear159.

A obra garrettiana constrói-se enquanto ‹‹processo de autognose de Portugal›› (Lourenço, 1988: 82), daí que se torne fundamental uma revisitação da história nacional, a par de uma reflexão sobre o tempo coevo. Nas suas obras históricas,

158 António José Saraiva refere este papel precursor de Garrett no movimento de pesquisa da poesia popular, continuado depois por Teófilo Braga, Adolfo Coelho, José Leite de Vasconcelos, entre outros (Saraiva, 1996c: 106).

159 Excetuam-se as peças O tio Simplício e Falar verdade a mentir, comédias inspiradas no teatro francês; O Camões do Rossio, feita de intrigas amorosas; os poemas de teor clássico O retrato de Vénus e

O roubo das sabinas, bem como as peças juvenis ainda de inspiração clássica Mérope, Catão e Lucrécia. Catão, porém, representa valores da jovem burguesia liberal portuguesa de 1820: virtudes cívicas, primazia

da lei sobre o poder pessoal. Nemésio considera esta peça um ‹‹panfleto contra o velho regime português em crise, e ao mesmo tempo [...] tomada de consciência cívica da geração liberal›› (Nemésio, [1985]: 130).

Garrett privilegia épocas de crise, momentos em que está em causa a manutenção da independência nacional e em que o povo português revela suficiente força e determinação para resistir ao jugo estrangeiro. Assim, O alfageme de Santarém (1842) retrata a crise dinástica de 1383/85, em que, aliado ao povo, surge a figura do herói cavaleiro e defensor da pátria, Nuno Álvares Pereira. No poema Camões (1825), marco simbólico do início do Romantismo em Portugal, é o grande épico nacional que simboliza a crise pátria: génio incompreendido, regressa solitário à pátria, que o ignora, deixando-o morrer na miséria, e com ele falece também a independência nacional. Garrett mitifica Camões enquanto herói que passa a per- tencer à galeria das figuras identitárias da nacionalidade portuguesa, que evoca na sua épica uma glória a não esquecer. O autor de Camões pretende ‹‹lembrar aos portugueses do presente que as propostas de transformação política e social do seu país não podem ignorar o tempo de vigor e prestígio histórico de que a epopeia camoniana é repositório›› (Reis, 1982: 73).

Em Filipa de Vilhena (1840) enaltece-se o espírito de sacrifício pela causa pátria que leva D. Filipa a armar os filhos cavaleiros para que possam combater contra o domínio filipino. É a época da Restauração (1640), o reverso de Ca-

mões, este último, aliás, escrito na amargura do exílio em que o próprio Garrett

se encontrava. Finalmente, Frei Luís de Sousa (1843), a obra-prima dramática do autor, ao pôr em cena também a época filipina, coloca em primeiro plano o espí- rito de resistência ao inimigo estrangeiro na figura de Manuel de Sousa Coutinho, que prefere deitar fogo à sua própria casa, a ser obrigado a albergar o invasor cas- telhano. Garrett acrescenta aqui um tópico fundamental no questionamento das crises nacionais: o Sebastianismo. A espera do regresso do Desejado, encarnada sobretudo na figura de Telmo, é posta em causa pela chegada de D. João de Portu- gal, que desmistifica a esperança de solução da crise. Garrett pretende sublinhar, com a entrada de Manuel e Madalena na vida religiosa e com a morte de Maria, a inépcia a que conduz a espera sebastiânica, que imobiliza o povo português. Esta peça desmonta o mito e simbolicamente espelha aquilo que deveria ser o destino português: não a espera infindável, mas o avanço para um futuro em que todos os elementos da sociedade participarão na reconstrução de um país minado, material e espiritualmente. Esta desmontagem do Sebastianismo encontramo-la também na comédia As profecias do Bandarra (1845), em que, em tom caricatural, surge um Bandarra dos tempos modernos que, a troco de vinho e comida, recita de cor as trovas do sapateiro de Trancoso, sem delas tirar o menor significado.

O arco de Sant’Ana (1845 – vol. I; 1850 – vol. ii) e A sobrinha do Marquês

(1848) são obras cujas intrigas se tecem, não à volta de crises com o exterior, como as anteriores, mas de lutas políticas internas em fases importantes da histó- ria de Portugal. No primeiro caso, é retratado o reinado de D. Pedro I e os abusos

de poder do clero, encarnado na figura do bispo do Porto. A este contrapõe-se o povo revoltado (povo miúdo e pequena burguesia) que, com o próprio rei justi- ceiro tomando o seu partido, consegue cercear a repressão feita pelo clero. Em

A sobrinha do Marquês assistimos ao confronto entre o Marquês de Pombal e os

jesuítas, estes últimos prestes a retomar o poder com a morte de D. José I.

D. Branca (1826) e Um auto de Gil Vicente (1838) celebram épocas áu-

reas da história portuguesa: a primeira tem como pano de fundo a conquista do Algarve no reinado de D. Afonso iii; a segunda põe em cena a época manuelina, apogeu da Expansão portuguesa. Para além deste regresso ao passado, ambas as obras têm um papel fundamental no campo literário nacional, na medida em que D. Branca recupera a mitologia nacional e as fontes primitivas populares da literatura portuguesa. Por outro lado, Um auto de Gil Vicente marca o início da renacionalização do reportório teatral português, missão que Garrett assumiu patrioticamente. Simbolicamente, escolhe para protagonista aquele que é o fun- dador do teatro nacional.

Esta recuperação de várias datas-chave na história de Portugal constitui uma refundação da memória coletiva nacional, típica do espírito romântico. Os momentos evocados são o propulsor de que a nação necessita para se reerguer. Portugal tem de reencarnar a força coletiva e o espírito de autonomia e empreen- dimento que outrora o caracterizaram. Garrett não se limita a retratar o passado; o seu objetivo é que o seu público se reveja nesse tempo pretérito e daí retire lições para o presente. Esta fixação no presente levou Ofélia Paiva Monteiro a afirmar: ‹‹Nenhum dos temas abordados pela ficção histórica de Garrett (de D. Branca a Frei Luiz de Sousa e ao Arco de Sant’Anna) deu azo também a evocações do passado pelo passado; permitiram-lhe, sim, enquadrar numa ambientação antiga problemas, reacções, sentimentos da época do Autor e do seu próprio mundo ínti- mo›› (Monteiro, 1971: 276). O próprio autor dá conta deste facto na advertência da primeira edição a O arco de Sant’Ana: ‹‹O romance é deste século: se tirou o seu argumento do xiv, foi escrito sob as impressões do xix›› (Garrett, s/d d)160.

Viagens na minha terra (1843) é a obra por excelência em que Garrett

discorre sobre a sua época. Romance deambulatório, nele o narrador percorre as várias faces do país real em que se desloca. Moda, política, costumes, literatura, arte, património – são inúmeros os temas focados, contribuindo todos eles para

160 Esta forte centralização na contemporaneidade do autor leva alguns críticos a questio- narem a inclusão desta obra no subgénero do romance histórico. Castelo Branco Chaves considera- -o ‹‹um romance histórico de declínio e deterioração do género››, pois, segundo ele, Garrett não tinha ‹‹conhecimentos arqueológicos suficientes nem bastantes para a reconstituição descritiva do Porto do século xix›› (Chaves, 1979: 36). Cf. também Marinho, 1999: 69. João Gaspar Simões considera-o ‹‹um panfleto político-religioso›› (Simões, 1969: 17).

a elaboração de um retrato multifacetado do Portugal oitocentista. É essencial a perspetiva que nos dá o narrador sobre a implantação do sistema liberal no nosso país. Nesta fase da sua vida já se desvanecera o radicalismo liberal do autor; reco- nhece agora exagerada a marginalização do clero, que teve como resultado o ex- cessivo materialismo de uma nova personagem social: o barão, agiota e corrupto (Garrett, [1994], cap. Xii). A novela da menina dos rouxinóis ilustra este facto: Carlos, após participar nas lutas liberais, enriquece e torna-se barão, ou seja, ins- tala-se na vida, abandonando completamente os seus ideais de juventude. Nesta diagnose da realidade nacional transparece um ceticismo catastrofista de remis- são aparentemente difícil: ‹‹Uma nação grande ainda poderá ir vivendo e esperar melhor tempo, apesar desta paralisia que lhe pasma a vida da alma na mais nobre parte de seu corpo. Mas uma nação pequena, é impossível; há-de morrer./ Mais de dez anos de barões e de regímen da matéria, e infalivelmente nos foge deste corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do espírito›› (idem; 215).

Há, no entanto, uma réstia de esperança naquela que é a base da nação, a massa popular, que se mantém fiel às verdadeiras tradições e valores nacionais: ‹‹Mas ainda espero melhor, todavia, porque o povo, o povo está são; os corruptos somos nós, os que cuidamos saber e ignoramos tudo›› (ibidem); ‹‹ele, aquele sen- so íntimo do povo, vem da Razão Divina e procede da síntese transcendente, su- perior, e inspirada pelas grandes e eternas verdades que se não demonstram, por- que se sentem›› (idem; 216). Na novela, é Joaninha o símbolo deste povo, puro, ingénuo e genuíno; é nele que se encontra o verdadeiro sentido do ser português.

A pesquisa da identidade nacional em Viagens na minha terra passa também por uma inventariação do património arquitetónico, negligenciado pelos sucessivos governantes e em avançado estado de degradação161. A porta de Atamarma, a Vir-

gem da Vitória, a fachada gótica da Graça, a igreja do Santo-Milagre (e o túmulo de D. Maria da Assunção que aí se encontra), o Colégio de Marvila de Santarém, o Convento de S. Domingos, o Real Convento de S. Francisco de Santarém, o túmulo do rei D. Fernando – estas são as edificações em ruínas que levam o narrador a uma ‹‹descida aos infernos da nação›› (Mendes, 1999: 106), uma vez que são simbólicas de uma história nacional esquecida e até vilipendiada, em alguns casos por restau- ros ‹‹modernizantes›› simplesmente descaracterizadores.

161 Esta preocupação com a ruína ou a errada restauração de monumentos encontramo-la em outras obras do autor: em O arco de Sant’Ana, logo no primeiro capítulo, o narrador lamenta a demolição do referido arco em prol de uma melhor iluminação da rua; na introdução à Lírica de

João Mínimo são referidos a Sé Velha de Coimbra e o Convento de Odivelas (Garrett, 1904g, I:

16-18); em nota a Camões, fala do estado degradado da Torre de Belém (s/d b: 184-186, nota L); no canto iv de D. Branca choca-o o estado deplorável das torres do Infante D. Henrique, em Sagres (1904d: 40).

Garrett, como Herculano, chama a atenção para a necessidade de preserva- ção do património arquitetónico, pois este é um marco da história nacional, um ele- mento fundamental para a reconstituição e manutenção da memória coletiva por- tuguesa. Prevalece um discurso de teor construtivo, daí que discordemos de Victor Mendes quando afirma que ‹‹uma leitura simbólica, de correspondência perfeita entre monumentos e história, é inviabilizada. O que podemos ler é um conjunto de histórias, por sua vez, também de fracasso e degradação›› (idem; 141). As ruí- nas não implicam desidentificação; a carga simbólica e fundadora do monumento permanece. Por outro lado, a indignação que provocam as ruínas negligenciadas é também um modo de reativar o sentimento de identidade nacional162.

Também a obra lírica de Garrett, embora sobretudo de forte temática amo- rosa, inclui poemas que refletem sobre a situação política do país. Assim, Lírica

de João Mínimo163 (1829), Flores sem fruto164 (1845) e Folhas caídas165 (1853) recordam o exílio a que o sujeito poético é obrigado, fruto da repressão, ao qual estão ligados o patriotismo e o sentimento de saudade e de abandono. A par do enaltecimento da Revolução Liberal, Garrett lamenta os períodos de despotismo a que o país foi submetido e que o levaram a deixar a pátria amada. No poema «Sonho profético», datado de 1819, retoma-se o mito do passado lusitano por- tuguês, celebrizado por Camões: o sujeito poético sonha com um Portugal per- sonificado numa figura feminina – ‹‹Lysia era a matrona›› – que tem ao peito as Quinas, símbolo nacional (1904g, I: 54). Evocando o passado imperial português, agora lamentavelmente perdido, explora-se um contraste intenso entre passado e presente; de vencedor e dominador, Portugal passou a vencido: ‹‹Éstas mãos victoriosas, que, outro tempo,/ Empunharam o sceptro do Oceano,/ D’onde o fado pendeu d’Africa e d’Asia,/ Agora em vez do sceptro, em vez das palmas,/ Grilhões!... ferreos grilhões!›› (idem, I: 53). Porém, o texto termina com nota positiva: a profecia do sonho é a da libertação da matrona.

O presente de opressão, cativeiro e guerra civil leva-o a evocar um dos mi- tos fundadores da nacionalidade: o mito de Viriato (poema «A caverna de Viria- to»). O pastor dos Montes Hermínios é simbólico da ‹‹lusitana antiga liberdade››

162 Num passo anterior, Victor Mendes afirma, num tom niilista que nos parece desadequa- do a propósito de Viagens: ‹‹falham os objectos intermediários que representam o passado, não há originais e o resultado final é «nada!»›› (Mendes, 1999: 136).

163 Referimo-nos aos poemas «Sonho profético», «A liberdade», «À pátria», «Ao Corpo Académico» (dois poemas homónimos), «A liberdade de imprensa», «Aniversário da Revolução de 24 de Agosto», «Ao Rei – jurando a Constituição», «A guerra civil», «O carcere», «O exilio», «A lyra do proscripto», «A morte de Riego», «O Natal em Londres», «O anno novo» (Garrett, 1904g, I).

164 Poemas «A Domingos Sequeira. Sahindo de Portugal», «A caverna de Viriato», «A victoria na praia» e «O juramento. Canto patriótico» (idem, ii).

e da ‹‹honra e lealdade›› (idem, ii: 40) e é a antítese da situação actual: ‹‹Patria... não temos patria.../ Oh! Não há para nós tão doce nome./ Grilhões, escravos, car- ceres e algozes,/ De quanto outr’ora fômos,/ Isto só nos restou, só isto fomos.›› (idem, ii: 42). No entanto, a ‹‹sombra›› de Viriato responde com esperança: ‹‹O dia da justiça/ Do Eterno chegará›› (ibidem). Na mesma obra – Flores sem fruto – dois poemas que formam um todo («A victoria na praia» e «O juramento. Canto patriótico») celebram a vitória liberal na ilha Terceira num tom mítico: surge a figura de um cavaleiro montado num ‹‹corcel branco››, com o ‹‹Real pendão de Ourique‹‹ na mão (idem, ii: 55) e anuncia que ainda há nos portugueses o ‹‹santo amor da liberdade››, ‹‹honra e lealdade›› (idem, ii: 56). Garrett aglutina, assim, dois mitos identitários fundamentais: o milagre de Ourique (segundo o qual Cris- to apareceu a Afonso Henriques aquando da batalha de Ourique e o sagrou vito- rioso) e o mito do Sebastianismo (o regresso de D. Sebastião, montado num ca- valo branco, numa manhã de nevoeiro, para libertar Portugal). Ambos são mitos que consagram Portugal como pátria eleita pela Providência Divina para dirigir os destinos do mundo. Esta réstia de providencialismo surge, aliás, nas preces que os liberais dirigem a Deus: ‹‹Confunda-os, Senhor, tua ira,/ Desarme-os teu braço eterno;/ Manda a confusão do inferno/ Suas hostes baralhar›› (idem, ii: 64- 65). Não esqueçamos que, para Garrett, os portugueses legítimos são os liberais e que esta é uma luta dentro da própria nação. Para Garrett, esta é mais uma guerra entre portugueses e estrangeiros do que entre falanges nacionais. Ao longo dos seus escritos políticos, Garrett recrimina a facção miguelista por ser fanática e vendida, sobretudo aos espanhóis166.

Já na farsa O corcunda por amor, Garrett caricaturara os conservadores – os ‹‹corcundas›› – na personagem do doutor Lapafuncio, um velho corrupto que simboliza os valores decadentes do Antigo Regime. A peça acaba por ter uma moral política, uma vez que Lapafuncio se ‹‹converte›› ao Liberalismo, num momento de revelação quase religiosa: ‹‹e faça um tal exemplo abrir os olhos áquelles, que por ignorancia ou perversidade, querem ser cegos à verdadeira luz, e surdos aos clamores da justiça›› (Garrett, 1904l: 111).

Por último, resta-nos referir a peça de um só ato Um noivado do Dafundo