Outra importante feira de exposição da cidade de Marabá foi a Feira da Indústria, Comércio e Arte de Marabá (FICAM). Ela surgiu na década de 1990 e foi modelada segundo os critérios de eficiência e racionalidade que comandam o atual processo técnico-científico-informacional moderno e que necessitam de um discurso e de locais que os difundam.
Com a importância que ganhou a atividade de mineração no sudeste paraense e com a entrada de novos comerciantes, prestadores de serviços e indústrias no contexto regional, concentrados na cidade de Marabá (TRINDADE JR. et al, 2012), criou-se a necessidade de se organizar uma feira de exposição com o objetivo de reunir a classe empresarial, trocar informações, realizar grandes negócios, modernizar a produção e estreitar as relações entre empresários e população, e, principalmente, projetar Marabá, o sudeste paraense e o Estado do Pará no mercado mundial.
A feira possibilitava às empresas participantes a divulgação dos seus produtos e serviços. A FICAM era um ótimo instrumento de negócios e marketing. A ACIM sempre busca vencer os desafios que se apresentam para o nosso crescimento e desenvolvimento de Marabá e também da região, porque Marabá é a maior cidade da região, né? com o maior comércio, serviços... Então, o trabalho é duro e a FICAM era um espaço que a gente tinha para confraternizar, trocar uma ideia, rever alguns amigos, vender, claro, conhecer o que tem de mais moderno para a produção, mas, principalmente, era um local para projetar as empresas, fazer conhecer não só o Município, mas também a região, o Estado do Pará, para o mundo (vice- presidente da ACIM, 55 anos, setembro de 2014).
Assim, em 1992, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), em parceria com a Associação Comercial e Industrial de Marabá (ACIM), realizou a I FICAM no ginásio do Serviço Social da Industria (SESI), objetivando divulgar as empresas do Município, além de contribuir significativamente para o avanço industrial e comercial da região. Essa feira foi fundamental na medida em que reafirmou a ligação de Marabá com as dinâmicas modernas. Novas técnicas e produtos eram apresentados e um clima de negócios e shows invadia e modificava a cidade (MARABÁ, 1999) em prol do comércio e da mineração.
A exposição englobava uma grande variedade de produtos e serviços modernos, tendo público-alvo dos micros aos grandes empresários locais, grandes empresas de abrangência regional, nacional e internacional, e também parte da população de Marabá; aquela que tinha condições financeiras de pagar pelos ingressos cobrados na entrada da feira (MARABÁ, 1999; MARABÁ, 1994; UM BALANÇO, 1997). Através de pesquisa em jornais e no acervo de revistas e informes da ACIM, apresentamos os seus aspectos gerais (quadro 16).
Quadro 16: Aspectos gerais da FICAM para os empresários e frequentadores
Eixo Características
Desenvolvimento Essa feira é um importante espaço de fomento ao desenvolvimento municipal e regional, pois gera renda, movimenta o capital na região e facilita a modernização da produção e a dinamização do comércio. Ela atrai pessoas de todas as partes do país e da região, que, ao consumir na cidade, incrementam os cofres públicos através de uma maior arrecadação de impostos (MARABÁ, 1994; SEBRAE, 1996; FICAM, 1996; MARABÁ, 1999).
Espaço Vitrine Na FICAM é exposta a produção regional, atraindo investidores e demonstrando a importância e o dinamismo econômico da cidade de Marabá e da região do sudeste paraense para o Estado do Pará, para o Brasil e para o mundo (FICAM, 1996; V FICAM, 1996; MARABÁ, 1999; UMA DAS MAIORES, 2002). Importância da
participação da população
O número de frequentadores e o movimento de capital interferem diretamente no reconhecimento e na importância da FICAM dentro do cenário das feiras de exposição estadual e nacional. Ela, por atrair o capital, as pessoas e aumentar a arrecadação, fomenta o desenvolvimento, apresentando-se como uma feira de interesse de toda a população (PELO DESENVOLVIMENTO, 2002; UMA DAS MAIORES, 2002).
Lazer e cultura A FICAM é um espaço de consumo e de contemplação do que tem de mais moderno na indústria e no comércio. Ela cria um clima psicológico na cidade a favor da economia. O lazer e a informação, facilitados pelos grandes shows e palestradas promovidas, aparecem como elementos importantes para a sustentação e organização desse espaço (I CONGRESSO, 1997; MARABÁ, 1999).
Negócios A FICAM é importante também como um espaço de geração de renda para os microempresários e de grandes negócios para os grandes empresários. Os primeiros se beneficiam, principalmente, das transações realizadas nesse local, já os segundos também aproveitam para reafirmar seu nome no mercado e no imaginário popular, bem como para alavancar as suas vendas tanto na feira quanto no período pós-feira (SEBRAE 1996; MARABÁ, 1999; PELO DESENVOLVIMENTO, 2002).
Técnica e informação
A FICAM visa também à modernização das empresas e contribui para o avanço comercial e industrial da região. Ela sedimenta e traz objetos modernos para ser expostos e adquiridos em Marabá, bem como realiza palestras que possuem como eixo norteador: o empreendedorismo, o aproveitamento econômico do espaço e do tempo, a realização de grandes negócios e a participação do Estado no setor econômico (I CONGRESSO, 1997; MARABÁ, 1999).
Fonte: Marabá (1994), SEBRAE (1996), FICAM (1996), V FICAM (1996), Um balanço (1997), I Congresso (1997), Marabá (1999), Pelo desenvolvimento (2002) e Uma das maiores (2002).
Elaboração: Débora Aquino Nunes.
No quadro 16 identificamos as principais características da FICAM. Para os empresários e frequentadores, tal feira proporcionava um aumento no movimento de capital na região, pois ela estimulava a indústria, o comércio e o serviço, através da disponibilidade maior de linhas de crédito e da concentração, em um mesmo espaço, de micros, pequenas, médias e grandes empresas, o que estimulava o consumo, atraindo pessoas para Marabá (MARABÁ, 1999; UMA DAS MAIORES, 2002). Tal atração movimentava o comércio e o serviço da cidade, aumentando a arrecadação de impostos do Município e propiciando o seu desenvolvimento. Dentro dessa lógica, a feira se apresentava como de interesse tanto para a classe empresarial como para a população como um todo (V FICAM, 1996; PELO DESENVOLVIMENTO, 2002).
Percebemos aqui que, assim como na EXPOAMA, a ideia de desenvolvimento está ligada à dinamização econômica do espaço e das relações. Sabemos que tal dinamização não corresponde consequentemente a uma disponibilidade maior de
serviços, técnicas, informações para a totalidade da população e a um melhor padrão de vida nas cidades médias amazônicas (TRINDADE JR., PEREIRA, 2007).
Como espaço vitrine, a FICAM reunia parte da produção regional com vista a atrair novos investidores e novos negócios e a demonstrar a importância e o dinamismo econômico de Marabá e do sudeste paraense ao Estado do Pará, ao Brasil e ao mundo. Além disso, essa feira dava uma grande importância à participação da população enquanto consumidores, não enquanto sujeitos ativos, pois quanto mais movimento de pessoas na feira, tanto maior era a arrecadação com os ingressos e o seu reconhecimento. Em 1996, a FICAM entrou no calendário nacional de feiras de exposição do Ministério da Indústria e Comércio; o que demarca a sua importância para o País (SEBRAE, 1996).
Ademais, a FICAM era um espaço de consumo e de contemplação do que tem de mais moderno na indústria e no comércio. Através de seus símbolos e signos, ela resignificava parte do imaginário popular regional, reafirmando o consumismo, o individualismo e o dinheiro como parte da racionalidade presente em Marabá e na sua região. A FICAM criava um clima psicológico na cidade a favor de uma racionalidade economicista e moderna. O lazer e a informação, facilitados pelos grandes shows e palestras promovidos e mediados por interesses econômicos, aparecem como relevantes elementos para a sustentação e organização desse espaço.
Os negócios realizados também assumiam uma grande importância. Os pequenos empreendedores sempre tiveram um espaço reservado na feira, apesar de serem a minoria, sendo este um espaço relevante para incrementar a sua renda e realizar um pequeno marketing de seus produtos. Para os grandes empresários, a FICAM era uma oportunidade para reafirmar seu nome no mercado e no imaginário popular e alavancar as vendas durante a feira e no período pós-feira.
Assim como na EXPOAMA, principalmente alguns micros e pequenos empresários comercializavam produtos que nos remetem a floresta em pé, como: sorvete, doces e bombons de frutas regionais (UMA DAS MAIORES, 2002), porém, era o setor mineral, sobretudo, que sustentava as dinâmicas e a organização da FICAM.
Essa feira de exposição reunia importantes empresas nacionais, estaduais e regionais, que traziam à Marabá novas informações e técnicas produtivas e de serviços. Após a década de 2000, importantes multinacionais, além da empresa Vale, também se faziam presentes, como a Metso Minerals, a Weir, a Kvaerner e a DEMAG
(PELO DESENVOLVIMENTO, 2002; UMA DAS MAIORES, 2002). As principais atividades destas multinacionais estão ligadas à mineração, à indústria pesada e à produção de tecnologia e informação que facilitam a extração ou produção de energia. Tais atividades agem desestruturando e reestruturando o espaço e a economia na região em prol da produção de capital (TAVARES, 1999). É necessário, então, apropriar-se de maneira desigual e combinada do território, espraiar sua dominação e criar novos espaços e cotidianos (HARVEY, 1996). Dessa maneira, o moderno reestruturou a região e a cidade de Marabá e encontrou na FICAM uma base para disseminação de seus valores e de suas formas de produção e consumo.
A FICAM sedimentava e trazia novos objetos, com suas lógicas de uso e de organização do trabalho, para ser expostos e adquiridos em Marabá, bem como distribuídos na região. Foram promovidos também palestras e o I Congresso Empresarial do Sul e Sudeste do Pará. Os temas trabalhados em ambos englobavam, principalmente, empreendedorismo, aproveitamento econômico do espaço e do tempo, realização de grandes negócios e participação do Estado no setor econômico. Assim, as trocas de informação entre empresários locais e regionais, com empresários nacionais e representantes de multinacionais se estreitavam, facilitando também novas parcerias e transações financeiras (I CONGRESSO, 1997; MARABÁ, 1999).
A exposição englobava uma grande variedade de produtos e serviços, desde os ligados às atividades automotivas, passando pela siderurgia, até à apresentação e comercialização de produtos alimentícios e para o escritório e o lar. As principais instituições privadas de representação da classe empresarial da região também se faziam presentes na feira. O quadro 17 apresenta os principais agentes que mais frequentemente participaram da organização da FICAM, desde a primeira até a última edição. Foram realizadas dezessete edições dessa feira, entre os anos de 1992 e 2010, sendo que em 2006 não foi realizada tal feira por motivos de crise no mercado local34.
34 Informação concedida pelo vice-presidente da Associação Comercial e Industrial de Marabá (ACIM), em novembro de 2014.
Quadro 17: Principais agentes que participaram da organização da FICAM
Nome Exposição Abrangência Participação na
organização Grupo Revemar Utilitários, carros e motos Regional Colaborador /
Patrocínio Grupo Zucatelli Utilitários, carros e motos Regional Apoio Leolar Eletroeletrônicos, eletrodo-
mésticos e materiais para o lar e escritório.
Regional Apoio
Supermercado Alvorada
Grãos, carnes, frutas, verduras e produtos alimentícios industrializados. Regional Apoio / Colaborador Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) Projetos sociais, importância da empresa para a região e exposição de rochas Internacional Patrocínio Companhia Siderúrgica do Pará (COSIPAR) Importância da empresa para a região e exposição de rochas Internacional Patrocínio Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (SEBRAE) Informações sobre a instituição, prestação de serviço e organização da feira. Nacional Organização / Apoio Federação das Associações Comerciais, Industriais e Agropastoris do Estado do Pará (FACIAPA) Informações sobre a instituição, importância do comercio, indústria e projetos agropecuários para a região e organização da feira Estadual Organização Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA) Informações sobre a instituição e importância do setor industrial. Estadual Colaborador Associação Comercial e Industrial de Marabá (ACIM) Informações sobre a instituição, importância do comercio e da indústria de Marabá para o desenvolvimento da região e organização da feira Regional Organização
Fonte: Um balanço (1997), FICAM (1999), Marabá (1999), Pelo desenvolvimento (2002), Uma das maiores (2002) e ACIM.
Através da análise do quadro 17, constatamos que, dos 10 principais agentes que participaram da organização da FICAM, todos possuíam uma abrangência que vai para além da cidade de Marabá. Os principais grupos e empresas identificados foram: a CVRD, posteriormente transformada em empresa Vale, que se apresentou como a principal patrocinadora da feira, estando presente em todas as suas dezessete edições; o grupo Revemar e o Supermercado Alvorada, através da sua colaboração direta, como local de vendas de ingresso e de patrocínio, a partir da sua sexta edição; os grupos Zucatelli e Leolar, através do apoio para a logística e infraestrutura da feira, principalmente, a partir da oitava edição; a COSIPAR, que da sétima à última edição da feira, participou ativamente através de patrocínio; a ACIM e o SEBRAE, que eram as instituições que organizavam, articulavam e promoviam a FICAM; e a Federação das Associações Comerciais, Industriais e Agropastoris do Estado do Pará (FACIEPA) e a Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA) que sempre colaboraram com a infraestrutura e logística da feira.
Esses agentes aproveitavam a FICAM, principalmente, para se autopromoverem na região, reafirmando a sua importância para reorganização regional. Alguns agentes, como as federações, as associações, o SEBRAE e a CVRD, apresentavam projetos sociais que eram por eles realizados, a fim de criar uma imagem positiva junto à população. Produziam-se, então, discursos que giravam em torno dos benefícios trazidos pelas atividades modernas, principalmente de mineração, para o município, munícipes e para a região. Tais atividades transformaram o espaço regional e tentaram limpar ou se apropriar das dinâmicas presentes, com a ajuda do Estado, em prol da produção econômica mundial. Essa estratégia é realizada até hoje pela Vale, só que na EXPOAMA35.
Após a crise de 2008 no mercado mundial, a FICAM foi perdendo força. Isso porque atualmente com a maior especialização do espaço, hierarquização produtiva, financeirização e conexão dos mercados e da produção, uma crise imobiliária gerada em outro país, mais especificadamente nos Estados Unidos, por excesso de crédito e aumento da inadimplência atingiu de forma diferente e desigual a maioria dos espaços do mundo, inclusive a Amazônia. A falta de confiança no mercado gerou a queda de preço de alguns produtos primários, como o ferro (MACHADO; FONSECA, 2010), base do setor industrial de Marabá.
A instabilidade do comércio e da indústria levou a ACIM a realizar a última edição da FICAM em 2010; ano em que um novo sistema de determinação de preços veio se estabelecer tendo como base a média do mercado observada nos três meses anteriores, o que baixou o preço da tonelada de ferro no mercado internacional (MACHADO, FONSECA, 2010).
A crise reafirma a ligação direta que a FICAM possui a em relação ao circuito superior da economia e à lógica reticular do capital. As relações que produziam essa feira eram orientadas por interesses distantes, pouco se integrando às dinâmicas regionais. A floresta, entendida como objeto exterior e estranho ao homem, era negada intensamente e a exploração do espaço regional atendia à necessidade do capital e não das pessoas. Nesse sentido, quando o mercado internacional entrou em crise e atingiu várias atividades e dinâmicas a ele ligadas, alguns espaços que difundiam sua lógica e seus produtos, como a FICAM, entraram também em crise, desaparecendo.
CAPÍTULO 4 - AS POLÍTICAS PÚBLICAS URBANAS E REGIONAIS E A RELAÇÃO