Chapitre 2 Revue des concepts
2.2 La mise en garde : outil de communication des risques
2.2.4 Règles de conception des mises en garde
2.2.4.2 Directives de conception provenant des normes et de la recherche
Os confrontos em sala de aula entre professor e aluno são iniciados, principalmente, por mecanismos (currículo, método, conteúdo disciplinar, normas, leis) que atuam (in)
diretamente no fazer didático. Ainda que a opção metodológica seja por um modelo orientado à emancipação dos sujeitos envolvidos. O educador se vê inserido em uma teia formada de processos hierárquicos, coercitivos e excludentes que determinam o que é permitido ou não no contexto escolar. Em outras palavras, muitas vezes o docente se sente obrigado a aceitar direcionamentos que legitimam este “engessamento”.
Para refletir sobre este processo, recorremos à ordem discursiva de Michel Foucault (2008), autor que apresenta a hipótese, segundo a qual o discurso utiliza determinados mecanismos de controle, legitimando a noção de que “a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que tem por função conjurar poderes e perigos, dominar seus acontecimentos aleatórios” (FOUCAULT, 2008:8-9).
Para Foucault, os relatos são práticas que compõem a realidade, ou seja, determinam hierarquias, distinções e estabelecem o que “pode” ou “não pode” ser dito. O autor, em A ordem do discurso, introduz o estudo do poder como instrumento de análise ao tratar da explicitação dos saberes. Enfim, sua investigação está centralizada nas relações entre as atitudes discursivas e os poderes que as atravessam.
Há que se considerar o ordenamento linguajeiro no âmbito do complexo administrativo que fiscaliza as instituições escolares, que por meio de programas educativos estabelece situações pedagógicas e planos de ensino. O francês (2008:44-45) entende que o sistema educacional já é uma maneira de manter ou modificar a apropriação de dizeres, com os saberes e poderes que trazem consigo.
O que é afinal um sistema de ensino senão uma ritualização da palavra; senão uma qualificação e uma fixação dos papeis para os sujeitos que falam; senão a constituição de um grupo doutrinário ao menos difuso; senão uma distribuição e uma apropriação do discurso com seus poderes e seus saberes?
O entendimento da escola como espaço mediativo intercruzado por novas linguagens e modos de comportamento e a noção de que os modelos educacionais formais são constituídos por três eixos básicos: hierarquia, coerção e exclusão, são tópicos que Adilson Citelli apresenta em Comunicação e Educação: a linguagem em movimento.
Na pesquisa, Citelli aponta a necessidade de análises mais aprofundadas acerca da organização de conteúdos, no caso: Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), e planos de ensino estabelecidos, o pesquisador reflete sobre como os documentos oficiais se tornam
manuais pelo fato de discorrerem objetivos, competências e avaliações, além de definirem estratégias com exigências por meio de metas e mensuração de resultados.
Pela via da estrutura escolar, considerando sua lógica institucional presente, parece não existir outra forma de aprender senão tendo em mira os conteúdos como finalidades em si e que aliados a outros postos na mesma série terminariam por legitimar as unidades (de conhecimento) chamadas de disciplinas. (CITELLI, 2004:109)
Em relação à Língua Portuguesa enquanto componente curricular, as mudanças históricas ocorridas, citadas anteriormente, e a publicação dos PCN´s foram orientadores que legitimaram a inserção de inúmeras mensagens sociais circulantes.
Quanto ao documento, Citelli lembra que tem também entre seus objetivos a descentralização dos programas escolares. Entretanto, acrescenta (2004:85), nas instituições formais:
a tendência nesse tipo de escola, foi de elaborar programas educativos fechados em que não se ajustam comportamentos que possam levar à quebra das sequências hierárquicas justificadas pela lógica da melhor escolha de conteúdos e pela autoridade de quem as selecionou.
Para o autor, “neste caso, os critérios de valor e importância respondem, sobretudo, aos gestos de perpetuação e manutenção de tópicos que o discurso escolar apresenta como únicos merecedores de crédito” (2004:87-88). Em sua análise, há equívocos em determinadas linhas pedagógicas quanto a uma suposta unicidade na qual o docente assume o papel de “dono da palavra”, restando ao aluno o passivo papel de receptor.
Neste sentindo, “o sintagma ‘ser dono da palavra’ requisita a compreensão mais aprofundada desses mecanismos, pois, ao entrar no jogo parafrásico, o professor, ele próprio, torna-se instância de reprodução discursiva”. (CITELLI, 2004:91).
A seguir, um mapa conceitual25:
25 O mapa foi elaborado por Eliana Ozores em aula da disciplina Linguagem, Comunicação e Educação, ECA/USP, ministrada em outubro de 2008 por Adilson Citelli.
Na proposta acima, acrescentamos que nos chamados sistemas de exclusão, ou melhor, o procedimento de interdição em si, “o mais familiar”, como Foucault descreve, apresenta-se composto por três tipos, formando uma espécie de jogo entre o tabu do objeto, que é a palavra proibida, o ritual da circunstância, isto é, a adequação ao sistema, e o direito de quem fala, ou seja, a “palavra de autoridade”.
Este último, por sua vez, aproxima-se do conceito de “discurso competente” desenvolvido pela filósofa Marilena Chauí, para quem “tal discurso se confunde com a linguagem institucionalmente permitida ou autorizada, isto é, com uma fala na qual os interlocutores já foram, previamente, reconhecidos como tendo o direito de falar ou ouvir” (1981:7). É uma mensagem que tem o poder de fazer com que as supostas verdades da instituição, no caso do sistema de ensino, sejam expressão da verdade de todos.
Retomamos o pensamento de Citelli, pois acreditamos que, em relação aos processos de coerção, é preciso considerar a permanência dos mecanismos tradicionais no ambiente escolar. Sendo assim, por mais que a busca de consenso entre professor e aluno seja um pensamento frequente entre pesquisadores e nas teorias pedagógicas, ainda é possível
observar, na ação didática, verdadeiros monólogos, exemplificados na obra de Chauí e constatados nas relações: coordenador-professor, diretor-coordenador e Secretaria de Educação-gestor.
Em analogia à proposta foucaultiana, pensamos em uma “ordem do discurso escolar”, reconhecendo uma voz em instância superior na “pirâmide hierárquica social”, iniciada na orientação instituída pela rede educacional.