Considerando o ensino de geografia na promoção da educação ambiental, mais precisamente no 8º ano do ensino fundamental, desvelou-se a partir das contribuições teóricas, que o tema gerador “desenvolvimento ético e solidário” apresenta um elenco de conhecimentos, que no âmbito dessas discussões configurou-se necessário abordá-lo. Em conformidade com essas reflexões, Pontuschka et al., (2009) afirma que o tema gerador constitui-se uma proposta de construção dos conteúdos curriculares de geografia para o ensino fundamental, mediante a postura avaliativa das teorias e práticas assumidas pelo professor no contexto do ensino escolar.
Baseando-nos no leque de conteúdos de geografia, no 8º ano do ensino fundamental, podemos ressaltar que o tema desenvolvimento tem se caracterizado bastante frequente, com ampla associação aos aspectos econômicos e tecnológicos, embora, nas últimas décadas, a proposta do desenvolvimento sustentável seja bastante evidenciada.
Nessa discussão, sabemos que na perspectiva do ensino de geografia, nos anos finais do nível fundamental, é frequente atribuir-se ao livro didático a responsabilidade de garantir os meios necessários para se atingirem os objetivos delineados pelo professor da referida disciplina. Nessa visão, menospreza-se a riqueza das práticas e teorias que são capazes de permitir a construção dos saberes no ensino de geografia, em que o conhecimento adquirido pelo aluno, nem sempre contribui signiticativamente para a sua aprendizagem. Nessa
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“Cuidar é mais que um ato, é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilidade e de envolvimento afetivo com o outro” (BOFF, 2009, p. 33)
discussão, Pontuschka et al., (2009, p. 343) afirmam que “[...] o livro didático deveria configurar-se de modo que o professor pudesse tê-lo como instrumento auxiliar de sua reflexão geográfica com seus alunos, mas existem fatores limitantes para tal”.
Nesse primeiro momento, faz-se necessário desvelar o tema desenvolvimento na perspectiva do livro didático. Pelo exposto, podemos afirmar que a ideia de desenvolvimento abordado pelos conteúdos curriculares de geografia, estabelece-se impregnada à visão do domínio europeu ocidental, com relação direta com o projeto colonizador iniciado a partir do século XV, em que gradativamente possibilitou a expansão comercial numa escala mundial. Nesse contexto, vários Estados nacionais da Europa se beneficiaram dessa expansão, como Portugal, Espanha, França, Holanda e Inglaterra (ANDRADE, 1998).
Esse processo de europeização pelo mundo é fruto de uma decisiva expansão marítimo-territorial, que detinha uma forte estratégia militar, equipados com armas e munições muito mais poderosas do que apresentavam os povos conquistados. Os europeus acabaram conquistando as terras, em que impuseram seu projeto colonizador sobre os povos dominados, destruindo seus valores, seus costumes, suas tradições e modos de vida. Nesse período da história, as populações nativas foram submetidas aos interesses dos colonizadores, que acabaram provocando a desestruturação da organização social que viviam, como também, foram vítimas de um dos maiores genocídios da história. Em consonância com essa realidade, podemos afirmar que, enquanto as colônias perdiam recursos, proporcionaram um grande enriquecimento das metrópoles. De acordo com Reigota (2010), a conquista das novas terras estava associada à ideia de desenvolvimento econômico, em que as nações colonizadoras obtinham na monocultura agrícola e na exploração mineral a sua principal fonte de riquezas, levando ao esgotamento ou extinção dos recursos naturais.
Refletir sobre o tema desenvolvimento nos aspectos econômicos, portanto, está diretamente relacionado com o processo de divisão internacional do trabalho, em que as relações de comércio entre os diferentes espaços do mundo se configuravam desigual18. Em conformidade com Andrade (1998, p, 66):
Em regiões superpovoadas e que já possuíam uma agricultura expressiva ou que dispunham de recursos minerais de alto valor – ouro, prata, pedras preciosas -, os europeus criaram colônias de exploração, impondo um sistema de relações em que o habitante da terra passava a produzir mercadorias para vender à metrópole e a comprar os produtos metropolitanos; em outras áreas em que os habitantes eram pouco numerosos
18 “Entende-se por desigualdade a apropriação diferencial de riqueza (renda e bens) por parte de indivíduos e
ou se encontravam em um nível cultural muito baixo, vivendo da coleta, da caça e da pesca, os europeus criaram colônias de povoamento para onde transferiram excedentes populacionais da Europa, promovendo a escravização e o genocídio da população nativa.
Baseando-se no exposto, podemos afirmar que, antes da colonização, havia o processo evolutivo da natureza e da produção para a sobrevivência das populações nativas; portanto, a conquista pelos europeus dessas terras conduziu-os a produzir bens e mercadorias necessárias ao abastecimento e ao comércio de suas nações, que estavam em outras áreas, ou seja, na Europa.
A partir da segunda metade do século XVIII, a Inglaterra presenciou o advento da Revolução Industrial, que de forma dinâmica expandiu-se para outros países do mundo. Foi um ponto decisivo para as descobertas e avanços no campo da ciência e tecnologia que viriam logo adiante, ocupando uma importância central na vida dos homens. Conforme Gonçalves (2014), o surgimento da Revolução Industrial encontra na concepção cartesiana um terreno fértil para germinar.
Conforme já exposto anteriormente, nesse contexto das transformações da vida em sociedade, o ser humano passa a sentir-se o centro do mundo, como “senhor e possuidor da natureza”, que tudo pode dominar. Nesse sentido, podemos afirmar que o paradigma ocidental e antropocêntrico concebe a natureza como um sistema mecânico e morto e não um sistema vivo (GONÇALVES, 2014). Essa concepção, fruto da filosofia cartesiana e da modernidade, considera especificamente fundamental a oposição homem e natureza. A ideia de desenvolvimento, nessa perspectiva, compreende que os recursos naturais devem ser dominados e explorados ilimitadamente, tendo em vista a necessidade de produção e consumo, condições indispensáveis ao mercado capitalista. Portanto, é próprio da tradição ocidental esse modelo de desenvolvimento, que passa a crer “[...] num progresso material sem limites a ser alcançado através do crescimento econômico e tecnológico” (CAPRA apud GADOTTI 2000, p. 79).
Partindo dessas reflexões, sabemos que muitas atividades estão associadas à indústria, é o caso dos fornecedores de matéria-prima e energia, que abrem oportunidade de emprego e qualificação, geram desenvolvimento para o comércio e serviços, além dos fluxos de transportes e comunicação (ANDRADE, 1998). Sob essa ótica, podemos afirmar que muitos países industrializados estão na vanguarda do desenvolvimento e muitos que não são se tornaram dependentes deles, configurando-se em países subdesenvolvidos, com baixos índices de qualidade de vida e uma elevada concentração de renda. Esses fatores estão diretamente
relacionados ao aumento da miséria, principalmente no grupo de países subdesenvolvidos. No âmbito das discussões, enfatiza-se a preocupação em torno dos impactos ambientais gerados a partir da atividade industrial que, nas últimas décadas, ganharam proporções alarmantes, configurando-se como um dos maiores responsáveis pelo esgotamento dos recursos naturais e pela poluição do ar, da água e do solo. Em conformidade com Reigota (2010, p. 57):
O desenvolvimento industrial não se fez acompanhar de melhorias na remuneração, nas condições de trabalho ou no nível de vida do operariado (inclusive feminino e infantil) e trouxe consigo os problemas de poluição em geral, assim como o êxodo rural ocasionado pelas crises na agricultura. Com isso a qualidade de vida da população atinge níveis catastróficos.
No âmbito dessas discussões, podemos afirmar que o processo de industrialização favoreceu ao desenvolvimento econômico e tecnológico de vários países do mundo, mas contribuiu para o aumento irracional da miséria, das injustiças sociais, da violência, da falta de emprego, das condições inadequadas de trabalho e salário. Esse modelo de desenvolvimento voltado para a produção industrial também evidencia a degradação do meio ambiente natural, trazendo intenso esgotamento dos seus recursos, como a escassez da matéria-prima, alimentos e recursos energéticos, que se fossem utilizados adequadamente, não comprometeria que as gerações futuras viessem atender as suas necessidades.
Pelo exposto, podemos afirmar que o modelo de desenvolvimento concebido, nas sociedades capitalistas, é aquele que tem como contexto a ideologia do progresso, que se refere sempre a um padrão de industrialização e consumo, com elevados níveis de degradação dos recursos naturais. Partindo dessas reflexões, o crescimento econômico ou tecnológico se fez às custas do aumento da injustiça social, com a concentração de renda e/ou patrimônio nas mãos da minoria, enquanto a grande maioria da população estava sujeita às péssimas condições de trabalho e da qualidade de vida. Para Gonçalves (2014, p. 117) “[...] hoje é comum falar-se no Brasil de capitalismo selvagem, é importante lembrar que inicialmente também na Europa e nos Estados Unidos as condições que o capitalismo impôs aos trabalhadores e ao meio ambiente foram extremamente duras”.
Em conformidade com essa via de desenvolvimento, defende-se que uma melhor qualidade de vida é alcançada pelo acúmulo de bens materiais e riquezas e, sobretudo, este é único caminho capaz de gerar a felicidade e o bem-estar dos indivíduos. Portanto, essa realidade configura-se inapropriada aos novos desafios que a ecologia nos coloca hoje, pois essas metas de desenvolvimento só fizeram aumentar casos de miséria, violência, desemprego
e degradação ambiental. Nessa perspectiva, Souza (2013, p. 270) afirma que “[...] podem até permitir que se fale em „desenvolvimento econômico‟ capitalista, mas não de desenvolvimento sócio-espacial”. Nessa discussão, considera-se o desenvolvimento econômico, mas é preciso enxergar para além dele.
O desenvolvimento deve estar relacionado, sobretudo, com a melhoria da qualidade de vida das pessoas e da liberdade que elas desfrutam. Amparados pelas ideias de Sen (2000, p. 29):
Um número imenso de pessoas em todo o mundo é vítima de várias formas de privação de liberdade. Fomes coletivas continuam a ocorrer em determinadas regiões, negando a milhões a liberdade básica de sobreviver [...] além disso, muitas pessoas têm pouco acesso a serviços de saúde, saneamento básico ou água tratada, e passam a vida lutando contra uma morbidez desnecessária, com frequência sucumbindo à morte prematura.
Nessa concepção, a pobreza precisa ser vista não apenas pelo baixo nível de renda entre as pessoas, mas um problema social diretamente relacionado à falta de melhorias nos serviços de saúde e educação, à ausência das participações democráticas, dos parcos recursos investidos nas áreas de infraestrutura e saneamento básico.
Direcionando o tema desenvolvimento para o ensino de geografia na promoção da educação ambiental, concebemos ao tema gerador “desenvolvimento ético e solidário”, como sendo estritamente viável a essas abordagens. Isso indica que se deve partir das necessidades, nos dias atuais, da valorização da integração das relações humanas, permitindo uma maior inclusão, tendo compaixão pelo sofrimento e necessidades dos seres vivos. A esse respeito, Gadotti (2000) reforça que o desenvolvimento ético e solidário constitui-se numa virtude necessária à sobrevivência do planeta e dos seres que nele habitam.
No âmbito dessa discussão, Boff (1999, p. 138) esclarece melhor a noção sobre desenvolvimento:
[...] o desenvolvimento social visa melhorar a qualidade da vida humana enquanto humana. Isso implica em valores universais como vida saudável e longa, educação, participação política, democracia social e participativa e não apenas representativa, garantia de respeito aos direitos humanos e de proteção contra a violência, condições para uma adequada expressão simbólica e espiritual.
Partindo dessa concepção, podemos afirmar que a construção coletiva da sociedade dar-se-á a partir de uma maior integração coletiva do social, contribuindo pela construção de
valores sociais, como a solidariedade e a ética, a compaixão pela Terra e todas as suas mais variadas formas de vida, criando estratégias de convivência e cordialidade nas relações humanas. Sobretudo, numa sociedade em que o sistema capitalista hegemonizado pelo acelerado desenvolvimento tecnológico e pelas relações competitivas de mercado estabelece condições de crescimento num ritmo perigoso de desequilíbrio e insustentabilidade.
Em conformidade com o exposto, Morin (2011, p. 60) posiciona-se acerca do tema desenvolvimento:
Concebido unicamente de modo técnico-econômico, o desenvolvimento chega a um ponto insustentável, inclusive o chamado desenvolvimento sustentável, é necessária uma noção mais rica e complexa de desenvolvimento seja não somente material, mas também intelectual, afetiva, moral...
Baseada nessa visão, a Comissão Brundtland em 1988 institui a teoria do “desenvolvimento sustentável”, em que o referido evento elaborou a seguinte concepção sobre esse tema: “[...] o Desenvolvimento Sustentável é aquele que atende às necessidades do presente, sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades” (DIAS, 2004, p 120). Podemos afirmar que, constituída essa ideia de desenvolvimento sustentável, considera-se na prática uma “fórmula vazia” (ALTVATER, 1995). Portanto, não se pode pensar em crescimento sustentável num capitalismo em que o lucro é a sua principal meta, numa sociedade em que as riquezas são concentradas e mal distribuídas, em que há exploração do trabalho, numa sociedade em que é comum a convivência com o desrespeito e a exclusão social.
De acordo com Gadotti (2000, p. 60-61, grifo do autor) “o desenvolvimentismo levou a uma „agonia do planeta‟”. No entanto, essa ideia de desenvolvimentismo a partir de uma visão predatória precisa ser repensada, pois como já exposto anteriormente, uma economia baseada no lucro, pelo acúmulo ilimitado de bens materiais, pela exploração do trabalho não é capaz de levar a um crescimento sustentável. Para Gadotti (2000, p. 61), o desenvolvimento sustentável “[...] só tem sentido numa economia solidária, numa economia regida pela compaixão e não pelo lucro”. É nessa perspectiva que o tema gerador “desenvolvimento ético e solidário” deve germinar, com vistas a tentar ressignificar os conteúdos curriculares de geografia. E essa concepção se torna ainda mais complexa e dinâmica à medida que são levadas em consideração as teorias e práticas do ensino geografia na promoção da educação ambiental, tarefa eleita como ponto central deste trabalho.