6.1 Introduction bibliographique des espèces choisies
6.3.3 Desmodium axillare
A análise da metafunção interpessoal nas cantigas de amor revela a existência de verbo modal de modalização (possibilidade) e de verbo modal de modulação (desejabilidade), segundo a LSF. São eles, ‘querer’ e ‘poder’.
Dissemos antes que, segundo a LSF, entre o “sim” e o “não” existem graus intermediários de escolha. O sistema de modalidade dá margem a essa possibilidade. Nas cantigas de amor de D.Dinis o verbo modal é um instrumento de atenuação e é fundamental para o trovador na sua tentativa de não burlar as barreiras da cortesia. Assim, por exemplo, na cantiga XXXV ele diz:
(I) que nunca (eu) pudi fazer; por en querede-vos doer64
(II) Mais Deus, que de tod’ é senhor, me queira põer consselh’ i,65
64 Paráfrase: que nunca (eu) pude fazer;/por isso queira vos doer
em I, ele não diz ‘fiz’, mas ‘pude fazer’, ou seja, o que lhe foi possível fazer diante da situação. Usando um verbo de modalização, ele atenua sua queixa, ao mesmo tempo em que recorre a uma outra voz que não a sua. O verbo modal de modulação – querer – mostra o trovador responsabilizando a donzela pelo seu sofrimento: não diz ‘eu sofro’, mas ela ‘quer’ fazê-lo sofrer.
Novamente (em II) com o verbo ‘querer’, ele introduz a voz do Senhor, invocando Seu conselho para orientá-lo em seu penar.
Em ambos os casos, notamos que o gênero cantiga de amor e o posicionamento de fenhedor fazem com que o eu-lírico coloque-se num grau de inferioridade e sua timidez e insegurança ao falar com a donzela e com Deus é ratificada com o alto índice de verbos modais. Vejamos adiante.
A) VERBO ‘PODER’ MODALIZANDO A FALA DO TROVADOR
O trovador, na posição de Ator, Experienciador, Portador, Comportante, Dizente e Existente, quando aparece com processos acompanhados do verbo modal ‘poder’ revelam duas possibilidades: capacidade ou incapacidade. Nas cinqüenta e três (53) ocorrências do modal poder, a incapacidade do eu-lírico (fenhedor) é enfatizada em trinta e nove (39) situações, 73,58% do total. São contextos do tipo:
“Que uos non posso, nen sey, diz[er] qual,” - cantiga V (incapacidade de dizer); “En que uo l eu podesse merecer.” – cantiga XXII (incapacidade de merecer); “d’al, ca nunca me d’al pudi nembrar.”66 – cantiga XVIII (incapacidade de lembrar).
Já os processos com ‘poder’ que indicam capacidade/possibilidade são muito poucos; catorze (14) em mil cento e sessenta e nove (1169) processos (1,19%), mesmo assim, notamos que desses 14, a maioria apenas ‘hipotetiza’ a possibilidade de realização do processo, como em:
“Algunha uez se uos poder ueer,”67 - cantiga XXV;
“ben que vos podia querer,” - cantiga XXXIX.
66 Paráfrase: de outra coisa, pois nunca pude me lembrar de outra coisa. 67 Paráfrase: Alguma vez se vos puder ver,
B) VERBO ‘QUERER’ (DESEJAR) MODALIZANDO A FALA DO TROVADOR
O trovador, como fenhedor, em sessenta e uma (61) ocasiões emprega o modal ‘querer’ para abrandar sua fala e não ferir as regras de cortesia. A incapacidade do trovador também o obriga a utilizar esse modal estabelecendo fronteiras psicológicas entre o trovador e sua amada reconhecíveis para o leitor. Portanto, o verbo modal ‘querer’ indica, na maioria dos casos, a vontade (atenuada) do eu-lírico que muito pode querer, mas pouco pode realizar. Exemplos:
“Quix ben e quer e querrey tal molher”68 – cantiga XXIV;
“e querrei muit’ i loar mia senhor”69 – cantiga XXXIV.
Fugindo um pouco da normalidade do gênero, D.Dinis, usa o modal ‘querer’ por duas (02) vezes indicando indesejabilidade. Na cantiga V rejeita a possibilidade de morrer (“Se ant eu ia non queria moirer”70) e na cantiga XXII, de forma irônica, rejeita sua condição de sofredor (“Que uos gram ben non ouuess a
querer”71). Em meio a 1169 processos, estas duas situações são praticamente inexpressivas.
C) VERBO ‘QUERER’ EMPREGADO PARA REPRESENTAR A DESEJABILIDADE DA DONZELA:
O verbo modal de inclinação ‘querer’ exprime a desejabilidade da donzela com trinta e cinco (35) processos. Como vimos na análise da metafunção ideacional (mentais desiderativos), esse contexto é sempre negativo para o trovador e de certa forma, funciona como um limite aos desígnios do trovador; o ‘querer’ da donzela marca o limite do ‘querer’ do trovador e da própria figura do fenhedor, como nos exemplos:
“que mi queredes peior d’outra ren;”72 - cantiga XXVI;
“A quen me quis e quer, per boa fe, (mal)” – cantiga XXIV.
68 Paráfrase: Quis bem e quero e quererei tal mulher 69 Paráfrase: e quererei muito assim louvar minha senhora 70 Paráfrase: Se antes eu já não queria morrer
71 Paráfrase: Que vos grande bem não ouvesse a querer 72 Paráfrase: que me quer pior do que (qualquer) outra coisa
D) VERBO ‘PODER’ E ‘QUERER’ MODALIZANDO AS ORDENS E CONSELHOS DO TROVADOR PARA SUA AMADA
Raramente o trovador ousa um pouco mais e dá ordens (imperativas), dirigindo-se diretamente e aconselhando sua donzela. Todavia, sua condição de fenhedor o obriga a utilizar o verbo modal ‘querer’ para amenizar a oração e respeitar a ideologia cortês. Isso ocorre onze (11) vezes. Exemplo: “Querede uos de min doer”73 – cantiga XXXII. Algo parecido também acontece na única ocasião
em que se dirige a Deus (que mi queira dar guarida – cantiga XLIX).
As relações entre trovador e donzela com os modais ‘poder’ e ‘querer’ costumam apresentar situações como as visualizadas na cantiga XLIX (CBN 544)
Significados construídos através dos modais Verbos modais (em negrito)
Significados
de superfície Significados de profundidade
que meu mal quis sempr’ e quer, inclinação donzela quer o mal dele (ela é algoz dele) e me quis e quer matar; inclinação Idem (agravante do processo material) e ben o pod’ acabar capacidade capacidade da donzela
[...]
A min fez gran ben querer inclinação desejo do trovador de tê-la Amor ua molher tal
que sempre quis o meu mal inclinação desejo da donzela de repudiá-lo e a que praz d’eu morrer
E, pois que o quer fazer, capacidade ela pode fazer o que quer non poss’eu fazer i al; incapacidade ele não pode fazer nada Excerto da cantiga XLIX (CBN – 544) – edição de Machado (1970)
Paráfrase: que meu mal sempre quis e quer,/e me quis e quer matar;/e bem o pode acabar/[...]/A mim fez grande bem querer/Amor (a) uma mulher tal/que sempre quis o meu mal/e a que praz (deseja) de eu morrer/E, pois que o quer fazer,/não posso eu fazer outra coisa sobre isso.
E) VERBO ‘QUERER’ MODALIZANDO O FAZER DE DEUS
Em nove (9) orações o ‘fazer’ de Deus também é modalizado pelo verbo de inclinação ‘querer’. A bem da verdade, como Deus é um participante diferenciado, o que o trovador pretende, é pleitear a ajuda divina (“Se o Deus quisesse guysar,” - cantiga VII) ou indicar a inclinação do Senhor a favor da donzela (“Ca mia senhor
quiso Deus fazer tal,”74 - cantiga XXXIV).
73 Paráfrase: Queira uos de mim doer
F) VERBO ‘DEVER’ DE MODULAÇÃO E ‘DEIXAR’
Apenas três (03) orações apresentam o verbo ‘dever’ de modulação: “Non me deuedes y culpa poer.”75 – cantiga XXII; “Senhor, nen deuo por end a
morrer.”76 – cantiga XXII; “Non deuedes ende pesar auer,”77 – cantiga XXV. Nos
refrões das cantigas XXX (“rogu’ eu a Deus que end’ á o poder,/que mi a leixe, se lhi prouguer, veer”78) e LII (“ou ar leixade-m’ ir morrer.”79) o verbo ‘deixar’ indica o
pedido do trovador a Deus, requisitando-lhe permissão.
No total, as cantigas de amor de D.Dinis listam cento e oitenta e quatro (184) processos com verbos modais.