IV.2 Design du mandrin du solénoïde
IV.2.5 Design thermique
As narrativas bíblicas das origens transmitem histórias da criação de acordo com a cosmovisão de uma época bem determinada. São relatos que, ao narrarem a origem do cosmo
447 Cf. CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL-CNBB. Água, fonte de vida. Fraternidade e
e dos homens, informam também a caracterização da divindade criadora, determinando o motivo da criação e o projeto proposto para a humanidade criada. Da abundância de elementos oferecidos pela cosmovisão do povo formador do universo cultural da Bíblia originam-se elementos éticos que, envolvidos pela análise da ética cristã, são aproveitados como matrizes que informam valores e atitudes de respeito e de cuidado em relação à vida humana e à natureza. Neste item, serão analisados temas como a criação no contexto da aliança entre Deus e Israel e o projeto ético do Deus Criador nas narrativas do Gênesis.
1. A criação no contexto da aliança entre Deus e Israel
Os primeiros capítulos do livro do Gênesis apresentam duas narrativas da criação que incorporam a dimensão ética e teológica do povo da Bíblia e informam a sua cosmovisão. Esses e outros escritos espalhados pelo livro sagrado condensam reflexões milenares acerca da criação do mundo e do ser humano, cujo interesse não é o de suprir as crenças ou interpretações sobre esses fatos, mas lançar um olhar ao homem a partir de posições eminentemente teológicas e religiosas, com a intenção clara de sublinhar a preocupação com a questão moral. Sob esse pano de fundo, este item apresentará aspectos ético-teológicos, abordando temas como cosmovisão do povo da bíblia, criação como um ato de amor e de libertação e Deus Criador, Senhor e dono da vida.
a) A cosmovisão do povo da Bíblia
A análise da cosmovisão do povo da Bíblia e seu relacionamento com a criação ajudam a determinar também qual era a relação com a natureza. L. Garmus 448 analisa a cosmovisão a partir dos códigos das leis do Pentateuco e na literatura sapiencial que se transformam em fontes para o conhecimento da ética de Israel em relação à natureza criada e a fé do povo em Deus Criador, aumentando o entendimento da ligação muito grande entre a fé em Deus Criador e a aliança com Deus libertador.
Baseado na proposta de Ronald Simkins, Garmus propõe a aliança de Deus com a criação e com Israel no Sinai como o elemento que fundamenta a relação de harmonia do povo com a natureza. O autor ressalta, porém, que a relação de harmonia se dá com o grupo interno; enquanto que com os inimigos ou grupo externo, a relação com a natureza era de dominação. A distinção das orientações de valores se dava quando se tratava de um relacionamento com os povos inimigos, em que o rei deveria subjugar o caos, manifestar o
448 Cf. Fundamentos bíblicos de uma ética ecológica. In: ID et al. Exigências éticas na Bíblia. Estudos Bíblicos,
domínio sobre a natureza, como Deus na criação. Para seu próprio povo, o rei tinha a função de manter a ordem criada e a justiça. Desse modo, a relação de harmonia com a natureza era orientada segundo o grupo com quem se relacionava.
Nos relatos das fundamentações da aliança no Sinai, precisamente na “lista de testemunhas”, percebe-se a aliança entre Deus e o povo baseada na criação (Cf. Ex 19,20ss). Esta “lista” contém nomes de divindades dos dois parceiros da aliança, sendo que, muitas dessas divindades são elementos da própria criação. 449 Em Deuteronômio, o próprio Deus convoca a criação como testemunha da aliança: “Cito hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós, de que vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição” (Dt 30, 19a; 4,26).
Quando Israel rompe a aliança com Deus, a criação é convocada como testemunha no processo contra o povo. “Escutai bem o que diz o Senhor: ‘Instaura um processo diante das montanhas e que as colinas ouçam tua voz! ’ Escutai, montanhas, a acusação do Senhor, prestai atenção alicerces da terra; a acusação do Senhor é contra o seu povo, é contra Israel que ele apresenta sua queixa!” (Mq 6, 1-2). Para Garmus:
A criação é convocada como testemunha na aliança porque esta se baseia sobre a ordem da criação. Em outras palavras, o bem-estar da criação é um termômetro da fidelidade de Israel à aliança. A criação floresce enquanto Israel é fiel à aliança. Mas quando Israel rompe a aliança, a criação sofre as consequências. As bênçãos e maldições estabelecidas na aliança indicam uma relação direta entre a ação de Israel e o mundo natural (Dt 11,13-17; 28; Lv 26,3-13). 450
A bênção ou a maldição era experimentada em Israel por meio do mundo natural, ou seja, estavam em relação próxima os pecados de Israel e o mundo natural, segundo atestam outros escritos, como Am 4, 6-9; 7, 1-6, ou entre a nova aliança e as bênçãos dos frutos da terra, como no-lo mostra Ez 34, 25-30 e Am 9, 11-15. Desse modo, quando Israel era fiel ao Deus da aliança, a terra teria abundantes frutos e o povo seria próspero. Mas as transgressões da ordem criada cometidas pelo povo de Deus causariam seca, pragas, as pestes, a esterilidade, e, em consequência, a pobreza e a morte (Cf. Dt 28; Lv 26). 451
A partir desta cosmovisão israelita, há uma harmonia com a natureza quando o povo é fiel à aliança com seu Deus, concretizada nas bênçãos (Cf. Lv 26, 1-13; Dt 28, 1-14). Por outro lado, quando Israel se torna infiel ao seu Deus, atraindo as maldições, a harmonia é perturbada, sendo manifestada pelo desequilíbrio da natureza (Cf. Lv 26, 14-39; Dt 28, 15- 68). A relação harmoniosa com a criação baseava-se na aliança de Deus com o povo e no
449 Cf. Ibid., p. 14. Em alguns tratados são citados os “montes, os rios, as fontes, os grandes mares, o céu e a
terra, os ventos e as nuvens”.
450 Ibid., p. 15. 451 Cf. Ibid., p. 15.
compromisso de fidelidade que o povo deveria firmar com seu Deus. Sempre que Israel fosse justo e fiel ao seu Deus, a natureza responderia com a bênção, ou seja, equilíbrio harmonioso com a criação. Por outro lado, o desequilíbrio da natureza, a falta de harmonia, era a maldição ou sinal de infidelidade do povo para com seu Deus.
Esta teologia baseada numa troca recíproca entre Deus e o povo, denominada de teologia ou doutrina da retribuição, vai ser contestada pelo livro de Jó. 452 Jó era um homem rico, comparado a um rei, um patriarca, responsável até pelo comportamento de seus filhos (Cf. Jó 1, 5), íntegro (tãm) e honrado (yãshãr) por Deus (Cf. Jó 1,8; 2,3). Trata-se de alguém que pratica a justiça em sua vida social. 453 Jó, porém, sofreu desgraças e perdeu bens, família e a saúde. Tornou-se um excluído do convívio humano: coberto de feridas, sentado no meio das cinzas, perdeu a propriedade, a honra e o status.
A mulher de Jó, após ver seu sofrimento, diz: “amaldiçoa a Deus e morre” (Jó 2,9). Jó, de fato, desencadeia suas maldições contra a sua vida e contra toda a criação (Cf. Jó, 3,1). De paciente transforma-se em revoltado e blasfemo. Ao maldizer o dia de seu nascimento, está pedindo ao mesmo tempo a dissolução da ordem criada, num desejo de arrastar tudo consigo para o abismo profundo das trevas. Ele quer que tudo volte ao caos original da criação, quando deseja que o dia se transforme em escuridão (Cf. Jó 3,5-6). Sente-se uma vítima da arbitrariedade divina, pois sendo justo, Deus o punia (Cf. Jó 7,12-15; 9, 17-19.30-32; 10, 16- 17).
Jó, mergulhado nas trevas e no caos prefigurando o antes da criação, lembra até a imagem mítica de Leviatã, uma criatura do caos (Cf. Jó 3,8) que ele convoca para transformar o cosmo (Cf. Jó 3, 4-6). Também vislumbra uma comunidade cósmica igualitária quando, em meio ao seu desespero, sonha com uma democracia dos mortos no Xeol, “lugar de encontro de todos os viventes” (Jó 30,23), onde estarão juntos reis e magistrados, escravos e prisioneiros, sem divisões sociais (Cf. Jó 3, 14-15. 18-19). Essas maldições vão retornar para Jó como bênçãos; ao invés de retorno ao caos e morte surgem as bênçãos cósmicas das espécies. 454
Jó acusa Deus de ter falhado por não haver governado adequadamente a criação, tornando o justo amaldiçoado e o ímpio repleto de bênçãos. Ele exige explicação de Deus, quer ser reconhecido como inocente. A resposta vem imediatamente pelo diálogo com seus
452 Cf. Ibid., p. 21ss.
453 Cf. GUTIÉRREZ, G. Falar de Deus a partir do sofrimento do inocente. Uma reflexão sobre o livro de Jó.
Petrópolis: Vozes, 1987. p. 27.
amigos que deixa muito claro a tese: Jó pecou e deve aceitar de Deus o castigo disciplinar. Deus é soberano justo e poderoso (Cf. Jó 5, 8-16) e toda a criação, especialmente a criatura humana, é contingente (Jó 4, 7-11). A argumentação gira em torno da realidade do ímpio e da realidade do animal. Os animais têm o mesmo destino do ímpio, isto é, a morte, seja por falta de presa (Cf. Jó 4,11) – caso do leão –, seja por falta da tenda (Cf. Jó 4,21) – caso do ser humano –, porém, Deus sustenta o pobre e o sofredor (Cf. Jó 5, 10-11. 15-16), e elimina os projetos dos sábios e poderosos (Cf. Jó 5, 12-14). Por fim, os amigos de Jó propõem uma aliança de paz entre ele e os animais e toda a natureza, impondo uma condição: aceitar a correção de Deus (Cf. Jó 5, 22-23). Fazendo isso, se abrirá para Jó uma possibilidade de esperança. A aliança consistia, portanto, em concórdia e reconciliação entre a natureza e a cultura, uma empatia com o mundo selvagem. 455
Para viver plenamente essa condição da nova aliança proposta por Deus, Jó deve ser reeducado, em cujo processo Deus se revela a ele como um arquiteto que tudo estabelece com precisão (Cf. Jó 38, 4-7): controla a fúria do mar; impõe-lhe limites (Cf. Jó 38, 8-11; Sl 104, 5-9); faz chover no deserto (Cf. Jó 38, 26-27), região sem vida humana, fazendo ali crescer o capim para os animais selvagens; tudo para garantir que a terra se torne um espaço seguro para se viver. Ao contrário do que Jó queria ver Deus lhe mostra a aurora com seu poder de restaurar as forças físicas e morais (Cf. Jó 38, 12-15; Sl 104, 20-23).
Para convencer ainda mais a Jó, Deus lhe mostra os animais e aves que faziam parte da caça dos antigos reis. Animais que, igual a ele, vivem num mundo expulso do convívio humano (Cf. 30, 1-8), vivem num mundo marginal. Deste mundo marginal, Deus mostra o nascimento, a vitalidade, a liberdade e a providência divina a lhes suster (Cf. Jó 49, 1-4). Diante da descrição divina Jó não tem resposta e se recolhe em sua pequenez: “Reconheço que podes tudo e que para ti nenhum pensamento é oculto.” “Por isso, acuso-me a mim mesmo e me arrependo, no pó e na cinza” (Jó 42, 2. 6). Jó reconhece seu erro e cria uma empatia e respeito pelos animais, porque Deus lhes deu a liberdade. Com isso,
Jó conquista um novo nível de dignidade que sai de dentro da natureza e não do confronto com ela. Começa enxergar a natureza como digna sócia e mestra da humanidade. Descobre que, diante destas criaturas, o domínio humano não tem mais lugar, mas dignidade humana sim. 456
Após ser reeducado por Deus Jó reconhece que a prática da justiça não está restrita à vida de um grupo particular ou a uma elite dos “melhores”, porém, baseada na prioridade da vida integral; e que a justiça não é apenas uma questão de civilização humana, mas, de todos
455 Cf. Ibid., p. 22. 456 Ibid., p. 24.
os viventes, do espaço planetário, onde todos os seres têm o seu lugar. Com o novo aprendizado, Jó, já não fica mais vigiando seus filhos; as três filhas também recebem herança junto com os irmãos, trata-as com a mesma gratuidade que recebe de seus amigos e familiares; recupera em dobro seus bens e não mais possui escravos (Cf.1, 5; 42,14-15; 42, 11). Desse modo, “reeducado por Deus, Jó, no confronto com a natureza selvagem, é um homem capaz de viver em comunhão respeitosa com a natureza e com os próprios membros da comunidade, respeitando as diferenças e a dignidade de cada pessoa.” 457
A crítica de Jó à cosmovisão israelita e à teologia da retribuição se baseia na negação de que o pecado humano possa corromper a ordem natural. Além de combater uma religião que se mostra de modo interesseiro, acentuando a ausência da gratuidade da fé em Deus. 458A cosmovisão da teologia da aliança/retribuição defende que as condições da natureza dependem das ações humanas, que são por elas atingidas. Na cosmovisão de Jó os humanos nem entendem como age a criação e Deus não criou os animais em benefício do ser humano, mas unicamente porque quis. Desse modo, o mundo não foi criado tendo o ser humano como centro. Deus, de fato, é maior do que os homens e suas sendas “não são facilmente compreensíveis.” 459
Jó apresenta a teologia da gratuidade, em que Deus se preocupa tanto com ele como com toda a criação. Critica a teologia da retribuição que, segundo o autor bíblico, parece insuficiente para explicar o relacionamento do ser humano com a criação, porque não abraça toda a criação. A harmonia com a natureza parece precária, pois depende do comportamento de Israel em relação aos compromissos da aliança, resultando numa harmonia e na bênção fruto da fidelidade de Israel ao seu Deus ou, desequilíbrio e maldição, fruto da infidelidade a Deus.
A aliança está intimamente ligada ao tema da eleição; uma tem a ver com a outra. No contexto da condição humana, fica claro que a partir da revelação do Deus da aliança, há uma demonstração de compromisso da parte de Deus que entra em comunhão com o ser humano com um único objetivo: “libertar da escravidão, do exílio, da doença, da perseguição, do pecado etc., para que o ser humano possa viver uma situação nova de liberdade, de saúde, de paz, felicidade etc.” 460
457 Ibid., p. 24.
458 GUTIÉRREZ, G. Falar de Deus, p. 29. 459 Ibid., p. 85.
460 GARCIA RUBIO, A. Elementos de Antropologia Teológica: salvação cristã: salvos de quê e para quê?
A aliança mesma realizada por Deus com a humanidade ao longo da história até a definitiva, em seu Filho Jesus Cristo, revela hoje uma interpretação da ordem do mundo, em que o mesmo Deus revelado aos antepassados renova a cada instante a aliança de amor com o ser humano e com a humanidade. Ao mesmo tempo, reata um pacto cujo intuito é reconduzi- lo de modo permanente ao seu projeto de comunhão.
Portanto, a dimensão da comunhão para a qual Deus convida toda a criação, pois tudo vem dele, remete naturalmente ao reconhecimento de sua gratuidade para com as criaturas e defesa do pobre explorado. Ao mesmo tempo, sugere que Deus está acima do ser humano e que diante da sua forma de governar o mundo, às vezes incompreendida por muitos, é revelado seu amor Criador e salvador.
b) A criação como um ato de amor e de libertação
Como entender a criação como um ato de amor e de libertação? Quais aspectos precisam ser destacados para essa compreensão? Quais as implicações dessa afirmação na vida do ser humano crente? Para responder questões iguais a essas é preciso remontar à situação do povo de Israel e à sua condição depois da ação libertadora de Deus. A compreensão que o povo da Bíblia tinha com relação à criação está ligada à concepção de aliança e a posição que ele adquirira como povo eleito.
Alguns autores da teologia da criação analisam esses aspectos e afirmam que a fé do povo de Israel aparece ligada primeiramente não à natureza, mas à sua história; 461 ou seja, antes de criar uma doutrina criacionista, Israel percebeu que seu Deus havia criado para si um povo, gratuitamente, do nada. De um conjunto de escravos, fez para si uma nação poderosa; de várias famílias nômades deu uma rica residência estável. E tudo isso passando por cima de inimigos poderosos e dificuldades sem fim (Cf. Dt 26,5-10). 462
Israel, ao ser escolhido de sua condição de anonimato e desimportância e libertado da escravidão para um pacto de aliança de amor, conhece o ato libertador de seu Deus. Deus que tanto cria como salva. “Ou melhor: Deus que cria para salvar.” 463 O ato libertador também foi vislumbrado do ponto de vista cósmico como intervenção criadora de Deus para afastar o caos
461 Cf. REIMER, I. R. Criação e bíblia, p. 135.
462 Cf. RUIZ DE LA PEÑA, J. L. Criação. In: SAMANES, C. F; TAMAYO-ACOSTA, J. J. Dicionário de
conceitos fundamentais do cristianismo. São Paulo: Paulus, 1999. p. 153-161.
e a carência de objetivos. “O Deus da Aliança de Israel promete não apenas uma nova terra, mas também um novo coração numa nova aliança” (Jr 31,31; Ez 37,26). 464
A formulação explicita da fé na criação só será feita no profetismo pré-exílico, quando a fé do povo entra em crise por causa do exílio. Dêutero-Isaías no “livro da consolação” (Cf. Is 40ss), proclama a total confiança na força de Javé: a força de Javé não conhece limites; o mesmo que libertou o povo da escravidão dos egípcios, voltará a salvá-lo agora; o mesmo que criou para si um povo, do nada, o recriará novamente, pois
Assim diz o Senhor Deus, que criou o céu e no alto o estendeu, que plantou a terra e tudo o que nela brota, que dá o sopro da vida à população que lhe está em cima, o espírito, aos que andam sobre ela. Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão. 465
Israel, portanto, “por mais pretensiosa que pareça, [...] interpretou a origem do mundo em função de sua própria origem como povo de Deus.” 466 A força da fé no Deus salvador e libertador é transmitida à figura de Deus como o Criador.
O Deus de Israel que se revela ao povo como salvador vai firmando sua fé relativamente. “Só lentamente [Israel] vai percebendo quem é o Deus do Êxodo e dos Patriarcas.” 467 Isso porque a revelação de Deus no A.T. está encarnada na história de um povo, com sua grandeza e com sua consciência, que não é melhor do que os outros. Rúbio enfatiza que Deus Criador precisamente é aquele que se revela como salvador. Tomando a iniciativa, age de maneira gratuita em favor da salvação, libertação do ser humano, do conjunto da humanidade. Elemento fundamental é a iniciativa de Deus que atua com total gratuidade. 468
O autor ressalta a relação entre criação e salvação no Antigo Testamento pela dimensão do amor “pessoal” de Deus manifestado para com a criação. O Deus da revelação bíblica se mostra “...Um Deus apaixonado pelo ser humano”, que age no coração da história humana, um Deus comprometido com a libertação e com a salvação de suas criaturas. 469 O Deus da fé bíblico-cristã é experimentado como um Tu que interpela, que ama e espera uma resposta confiante e amorosa da parte do ser humano.
464 SUESS, P. A superação do mal. Ambivalência das idéias bíblicas de redenção no passado e no presente.
Concilium, Petrópolis, n. 274, p. 57, 1998.
465 Is 42, 5-6a.
466 RUIZ DE LA PEÑA, J. L. Criação, p. 153.
467 GARCIA RUBIO, A. Elementos de Antropologia teológica, p. 44 468 Cf. Ibid., p. 44.
Por outro lado, a ideia de a criação já ser um sinal da salvação acompanha o povo de Deus em toda a sua caminhada. Por experiência, o povo vive a ambiguidade da salvação e da não salvação. Nesta realidade conflituosa vivida por Israel encontra-se a atuação do Deus soberano que ama o ser humano com infinita ternura, com um amor eterno e profundamente apaixonado (Cf. Is 49,14-15; 54, 8; Os 2, 16-17. 21-22; 3, 1; Is 62,4-5; Jr ,2.2; Ez 16,8-60). Isso quer dizer que “as libertações que o povo ou o indivíduo experimenta são expressões concretas de uma realidade muito mais profunda: Deus se autocomunica amorosamente ao ser humano! A salvação consiste nessa autocomunicação amorosa de Deus.” 470
Ademais, salvação e criação aparecem unidas na mesma revelação de Deus no Antigo Testamento como duas faces dela. Para muitos autores, foi necessário um longo espaço de tempo de amadurecimento na fé em Deus salvador até que se tornasse necessária uma explicitação da fé em Deus Criador. 471 Somente por volta do século V a. C, na época do exílio, é que aparecem Dêutero-Isaías e o relato da criação sacerdotal (Cf. Gn 1,1-2,4a) que apresentam a fé em Deus criador de forma mais elaborada. A narrativa sacerdotal trata-se da mais “completa elaboração teológica da fé em Deus Criador.” 472 Frente a realidade de abandono e da dura experiência do exílio, a fé em Javé está em crise. Onde está Javé, o salvador do povo? São os deuses da Babilônia mais fortes e poderosos do que o Deus de Israel?
A narrativa sacerdotal dá uma resposta firme e forte: não há porque duvidar da força libertadora de Javé. O problema é com o povo que não cumpre a lei nem pratica o verdadeiro culto, tornando-se, aos olhos de Deus, infiel aos compromissos assumidos com Javé. Apesar de toda a realidade de infidelidade, Javé é poderoso libertador que livra o povo da situação de miséria. A argumentação fundamental é aquela que apresenta a fé em Deus Criador como o único Criador do mundo e do ser humano e, por isso mesmo, tendo criado o céu e a terra e, especialmente, o ser humano, tem também poder para libertar os israelitas da situação de exilados e conduzi-los mais uma vez à pátria.
O ato criador de Deus o tornou senhor e dono da vida; por isso mesmo a promove, protege e a reproduz. Como um ato de amor, do amor profundo do ser de Deus, é bom