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Des pratiques de formation aux processus d’appropriation linguistique

3 Interroger les pratiques de formation

3.2 Des pratiques de formation aux processus d’appropriation linguistique

Mondada & Dubois (2003), ao mesmo tempo em que propõem a instabilidade constitutiva, reconhecem haver processos que buscam a estabilização dos referentes. Não fosse assim, a reelaboração mental necessária à construção dos objetos de discurso não teria uma base em que se assentar. Os três processos de estabilização de referentes comentados pelas autoras são os protótipos, as anáforas e as técnicas de inscrição.

Segundo as pesquisadoras (2003, p. 42), a criação de protótipos possibilita uma ancoragem às interpretações que fazemos do mundo. ―A nomeação do protótipo torna possível seu compartilhamento entre muitos indivíduos através da comunicação linguística, e ele se torna, de fato, um objeto socialmente distribuído, estabilizado no seio de um grupo de sujeitos‖.

Já as anáforas seriam responsáveis por uma estabilização ad hoc, uma vez que podem ter a função de ―focalizar uma denominação particular, excluindo para isso outras possibilidades, mesmo se elas estiverem potencialmente no texto‖ (MONDADA & DUBOIS, 2003, p. 43).

Sobre as técnicas de inscrição, as autoras comentam que a escrita possibilita uma descontextualização dos itens lexicais, o que permite pensar a língua como objeto de estudo em si mesmo, independente da atividade discursiva. Elas lembram ainda que o surgimento da imprensa possibilitou o sucesso da ciência moderna, que passou a fornecer enunciados visuais

produzíveis com exatidão e longevidade. ―Uma vez assim estabilizados pelos textos e pelas inscrições visuais, os fatos resistirão às desestabilizações possíveis da controvérsia, terminando por se impor como sendo evidentes e por tornarem-se referentes estáveis da ciência‖ (MONDADA & DUBOIS, 2003, p. 48).

Os fatores de estabilização, de caráter eminentemente social, promovem restrições aos interlocutores no que toca à atividade de referir. Portanto, conclui-se que o objeto de discurso, mesmo em se tratando de uma entidade criada mediante a elaboração cognitivo-discursiva, não é consequente à vontade individual do sujeito, que tem um pensamento e o elabora independentemente de quaisquer fatores. Isso revela uma concepção de uma atividade cognitiva isolada, completamente alheia a outros fatores que concorrem para a tarefa de produzir textos.

É preciso, pois, não extrapolar no que diz respeito ao papel da subjetividade dentro das negociações de sentido, (daí Mondada & Dubois falarem em intersubjetividade, salientando a ideia de subjetividade partilhada e dependente do interlocutor). Caso contrário, cair-se-ia no extremo oposto da noção de língua como espelho da realidade: a noção de língua como expressão do desejo e pensamento individual do falante113. Quanto a isso, concordamos com Marcuschi (2000, p. 82), para quem ―a realidade empírica extramental existe, mas mais do que uma experiência estritamente sensorial e especularmente refletida pela linguagem é discretizada no processo de designação discursiva e dependente de um trabalho cognitivo realizado no discurso‖114

.

Ainda falando sobre a reelaboração dos dados sensoriais mediada pelos sujeitos, acrescenta o autor (2000, p. 82):

Nossa tese é a de que essa reelaboração se dá essencialmente no discurso. Não postulamos uma reelaboração subjetiva, individual, em que cada qual pode fazer o que quiser. A reelaboração deve obedecer a restrições impostas pelas condições culturais, sociais, históricas e, finalmente, pelas condições de processamento decorrentes do uso da língua.

113Mais uma vez, devemos caminhar no ―fio da navalha‖, como dizem Maturana & Varela (1998).

114 Cardoso (2003, p. 84), analisando a problemática da referência para três grandes perspectivas de análise linguística (Estruturalismo, Linguística da Enunciação e Filosofia da Linguagem) postula posição semelhante:

―A realidade não existe em si e por si como um objeto dado, objeto de contemplação, esperando para ser

compreendido e interpretado, mas a realidade existe e é inteligível somente com relação à ação humana‖ (grifo nosso). A mesma posição é compartilhada por Salomão (2005, p. 165-166): ―Na perspectiva sociocognitiva não há cesura entre linguagem e mundo. O realismo cognitivista (não-metafísico) reconhece que o mundo existe e que a mente é inseparável do mundo em sua materialidade e em sua história: de fato, a mente é parte do mundo e, nesta condição, não o representa, mas atua nele, e o transforma ao transformar -se [...] a verdade, tanto quanto o mundo, existe e se produz como entendimento, construído em condições comunicativas densamente radicadas e vividamente experimentadas‖ (grifos da autora).

Portanto, o sujeito não cria sua realidade do nada, conforme seus desejos. Em primeiro lugar, deve-se levar em conta que, ainda que não seja igual ao ―objeto do mundo‖, o objeto de discurso é uma construção ancorada no mundo real ordinário115, já que ele resulta de uma elaboração do ―real‖, o que implica que a sua construção está sujeita a restrições concretas, dentre as quais o entorno sociocultural e o contexto imediato de interação. Em segundo lugar, já vimos que o espectro do componente cognitivo, acionado na produção e processamento dos referentes textuais, não está restrito apenas a conhecimentos individuais, imutáveis e independentes que um sujeito possa ter, mas, sim, à maneira, dinâmica, como esse conhecimento é arquivado, processado e ativado frente a pressões sociais.

O que podemos afirmar é que o objeto de discurso apresenta duas faces (concorrentes, não excludentes): de um lado, resulta de escolhas dos indivíduos; de outro, está restrito a constrições diversas116. Em outras palavras: as escolhas, embora múltiplas, não são infinitas. Conforme Costa (2007, p. 14), a partir de Blikstein (2003) e de Mondada & Dubois (2003), ―o referente é instável, porque é construído e reconstruído continuamente; [...] é, por outro lado, estável, porque se submete às convenções da língua, construída ao longo do tempo, nas interações sociais‖.

A título de exemplificação, tome-se a restrição que alguns gêneros não humorísticos vinculados ao discurso político apresentam em contraste com os gêneros humorísticos. Reportagens, notícias e editoriais de jornais e revistas, embora tenham um vasto leque de expressões (mais ou menos avaliativas) para construir referentes ancorados nas personalidades Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva, não podem, por exemplo, escolher as expressões ―Don Doca FHC Boca de Sovaco‖ e ―Luís Enrolácio Lula da Silva‖117

.

115 Veja-se o caso do exemplo (16) (p. 112), sobre as ações da Polícia Federal: os objetos de discurso construídos a partir das expressões ―desfile de carros da Polícia Federal‖, ―homens parrudos de colete negro‖, ―cidadãos apanhados de surpresa‖ e ―previsível espalhafato‖ têm como base elementos que pertencem a situações percebidas no mundo real ordinário.

116

Essas constrições incluem, também, as questões normativo-gramaticais, conforme salientamos em Custódio Filho (2005; 2006; 2007).

117

A primeira expressão era utilizada nas crônicas humorísticas de José Simão, à época em que Fernando Henrique era presidente; a segunda apareceu nos esquetes do programa humorístico Casseta e Planeta Urgente.

Na verdade, a lição aqui esboçada já se encontra nos primórdios da Linguística da Enunciação, quando Bakhtin (1997)118 subverte a concepção saussuriana de signo linguístico. Ao dizer que o signo é instável porque procede de alguém e se dirige a alguém (sendo que os sujeitos determinam sua participação a partir da situação específica e das condições sócio- históricas), o pensador não deixa de mencionar que a ―língua‖ chega, na interação, impregnada de significações, as quais não são deixadas de lado completamente. Os sujeitos em interação se encontram, assim, eternamente desafiados a participar do equilíbrio entre o ―velho‖ e o ―novo‖.

A discussão sobre instabilidade / estabilidade remete à consideração do caráter representacional das linguagens (e, por extensão, do referente). Grosso modo, há uma insistência das perspectivas relativistas (entre as quais se incluem as perspectivas enunciativas da linguagem) em negar o caráter representacional da(s) linguagem(ns), alegando-se que não é função primeira da língua representar objetivamente o mundo circundante. Já vimos, exaustivamente, que, de fato, não ocorre, nas trocas interacionais, uma representação fiel da realidade. Contudo, ocorre que, embora não seja possível falar em representação nos termos de apreensão objetiva do mundo, as linguagens exercem um papel de ―transição‖ entre o real e a práxis (cf. BLIKSTEIN, 2003), que pode ser denominado como ―representação‖, se especificarmos a natureza (inter)subjetiva do processo. Podemos dizer, com isso, que haveria, sim, representação, salientando-se o caráter multifacetado de tal fenômeno, como fazem Kress & van Leeuwen (2006, p. 7):

nós vemos a representação como um processo no qual os produtores de signos, criança ou adulto, pretendem fazer a representação de algum objeto ou entidade, física ou semiótica, e no qual o seu interesse no objeto, no ponto de fazer a representação, é complexo, emergindo da sua história cultural, social e psicológica, e focalizado no contexto específico no qual o produtor de signos produz os signos119.

Os autores deixam claro que a representação ―parte‖ da necessidade de falar do mundo, de algum ―objeto ou entidade‖, a qual só pode ser plenamente satisfeita pela concatenação de diferentes dimensões (sociocognitivas) constitutivas do processo. É possível,

118 Ciulla e Silva (2008, p. 14) destaca que ―Embora Bakhtin enfatize os aspectos mais ideológicos da enunciação e nem utilize o termo referência, sua visão sobre a relação entre linguagem e mundo coincide com a que defendemos, na medida em que postula a significação também como dependente de uma enunciação numa

situação concreta‖.

119―we see the representation as a process in which the makers of the signs, whether child or adult, seek to make a representation of some object or entity, whether physical or semiotic, and in which their interest in the object, at the point of making the representation, is a complex one, arising out of the cultural, social and psychological history of the sign-maker, and focused by the specific context in which the sign-maker produces the sign‖.

então, considerar que a representação continua a fazer parte do esquema sociocognitivo de entendimento das linguagens, o que é particularmente importante para a referenciação. Cavalcante (a sair, p. 1) mostra bem o novo caráter da representação, quando diz que ―É na interação, mediada pelo outro, e na integração de nossas práticas de linguagem com nossas vivências socioculturais que construímos uma representação – sempre instável – dessas entidades a que se denominam referentes‖.

A partir do exposto sobre a estabilidade relativa das linguagens e sobre o caráter representacional dos referentes, podemos acrescentar que o processo da referenciação é constitutivamente dinâmico e ancorado nas experiências situadas no ―real‖. De posse desse quadro geral das características dos processos referenciais, passamos para o próximo passo de nossa argumentação, em que delineamos as duas tendências dos estudos atuais em referenciação.