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PARTIE II : POTENTIEL ET IMPACT

5. CRISPR et Latence Virale

A prospectiva hoje, está algures entre a projecção do presente e a antecipação do futuro, entre o diagnóstico e o prognóstico; a principal tarefa da prospectiva não é extrapolar tendências ou acertar no alvo, é expandir campos de possibilidades e múltiplos futuros.

A prospectiva é uma nova teoria do tempo social na perspectiva das relações que a sociedade mantém com o futuro, de como este é antecipado, decidido e configurado.

Em vez de uma grande prospectiva para a configuração de um futuro melhor, temos hoje uma rotina burocrática e administrativa, uma micro-prospectiva, se quisermos, uma modernização reflexiva no quadro de instituições e burocracias.

A prospectiva deixa de ser o futuro como progresso e passa a ser o futuro como risco e probabilidade. Vivemos um mundo de consequências secundárias e efeitos colaterais. Trata-se, portanto, para a prospectiva, de minimizar o risco sistémico e os seus efeitos colaterais, por um lado, e de alargar o campo das possibilidades, por outro.

As reflexões que se seguem beneficiaram muito da leitura das obras de Daniel Innerarity: A Transformação da Política (2005), A Sociedade Invisível (2009), O Novo Espaço Público (2010), O Futuro e os seus Inimigos (2011), todos editados pela Teorema.

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I. Elementos de reflexão para um debate sobre a prospectiva hoje

Conhecer o futuro é também uma teoria histórica conhecida que começa nos oráculos e profecias, passa pela superstição e bruxaria, pela planificação e previsão e vem desembocar nos métodos da prospectiva.

Quem responde, de modo responsável, perante o futuro?

A actual situação de opacidade em matéria de imputação de responsabilidade é muito do agrado dos agentes políticos que assim alargam bastante o seu espaço de acção e manobra. Em matéria de prospectiva estamos, portanto, necessitados de um conceito de responsabilidade política e pública adequado à actual complexidade da sociedade contemporânea.

A prospectiva é também uma corrida contra o tempo, uma guerra do tempo e das velocidades, e nessa cultura da velocidade o tempo domina o espaço, por isso o território é a principal vítima. Pense-se, por exemplo, na justiça intergeracional ou no modo como ocupamos o território. Nas condições actuais de extrema contingência muitas decisões políticas são absolutamente irrelevantes; a decisão política tornou-se modesta mas, por isso mesmo, estamos continuadamente obrigados a tomar decisões. Vivemos o tempo da prospectiva incremental ou incrementalista em face do risco sistémico e interdependente, dos efeitos colaterais, da ingovernabilidade política e do radicalismo político-partidária.

No plano conceptual a nossa reflexão recaiu sobre alguns autores que, em cada época, fizeram abordagens distintas desta racionalidade limitada: Herbert Simon (a racionalidade limitada), Michel Crozier (o actor e o sistema e o fenómeno burocrático), Mancur Olson (a lógica da acção colectiva), Elinor Ostrom (as instituições, a regulação e o governo dos comuns), a modernização reflexiva e os riscos globais (Ulrich Beck), contingência e aprendizagem cognitiva (Daniel Innerarity). Embora os pontos de partida sejam distintos todos eles convergem no sentido de uma cultura da contingência cognitiva.

Na mesma linha, este é o meu modesto contributo para o debate da prospectiva hoje, uma espécie de teoria geral da incerteza e da aprendizagem cognitiva:

1. A prospectiva é um campo paradoxal, uma espécie de campo minado, pois estão lá todos os nossos receios e todas as nossas esperanças.

2. O drama da prospectiva é que nada é pensado para durar, tudo é pensado para ser consumido; por isso, a prospectiva hoje vai da configuração para a adaptação, da ousadia para a prudência, da retórica da previsão para as tarefas da gestão e da monitorização.

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3. Face à incerteza do futuro, a política é uma actividade de responsabilidade limitada, ninguém está muito interessado em fazer esta ligação ao futuro responsabilizando-se por isso; face à contingência e ao risco, a política é irresponsável e inimputável.

4. A prospectiva hoje é mais um aparato que um pensamento: sistemas de advertência e prevenção de riscos, dispositivos de auto-regulação, a socialização dos prejuízos difusos. 5. A prospectiva hoje está muito mais “institucionalizada” por causa do risco e das suas consequências não-intencionais e indesejáveis; por causa dessa institucionalização, quantas vezes abusiva, (défices e dívidas públicas retratadas no orçamento geral do estado) vivemos todos uma espécie de fadiga ou melancolia institucional.

6. Face a esta “prospectiva melancólica” os políticos e as suas clientelas são os mestres deste jogo bastante viciado de socialização dos prejuízos não-intencionais ou indesejáveis e dos seus efeitos sistémicos e colaterais; dito de outra forma, a corrupção está, de algum modo, protegida nos termos de uma teoria geral da irresponsabilidade ou inimputabilidade políticas.

7. A contingência e a complexidade da ordem política produzem, como dissemos, uma imensa necessidade de decisão incremental; a prospectiva fica enleada num labirinto de processos, procedimentos e regulamentos.

8. Para lá do que desejamos e planeamos está aquilo que nos acontece; a incerteza deixou de ser uma questão de erro ou variância e passou a ser o núcleo central da nossa existência.

II. O lado paradoxal da prospectiva

Nunca tivemos tanta e tão boa prospectiva e nunca o futuro foi tão enigmático, misterioso e perigoso. Paradoxalmente, quando, apesar de tudo, diminuímos a incerteza perante o futuro, perdemos, do mesmo passo, graus de liberdade para intervir nesse mesmo futuro, pois ficou mais estreito o campo de opções e possibilidades acerca do futuro. Digamos que quanto menos hipóteses ficam em aberto, mais surpresas e outras tantas opções ficam pelo caminho. Eis alguns desses efeitos paradoxais:

1. O efeito velocidade

A velocidade aproxima o futuro do presente; o que poderia ser o entusiasmo acerca do futuro transforma-se por causa da velocidade no tédio do futuro.

49 2. O efeito risco moral

O futuro congestiona devido à velocidade, logo os comportamentos de risco aumentam vertiginosamente, o risco moral e o free raider passam a ser uma constante da acção colectiva.

3. O efeito instrumentalização do futuro

A proximidade do futuro conduz à tentação de o instrumentalizar, de o colocar ao nosso serviço, de viciar ou enviesar as tendências em nosso benefício.

4. O efeito ciclo eleitoral

A perspectiva de um elevado custo político-eleitoral leva à substituição da grande prospectiva pela média e pequena prospectiva, os políticos não querem ser enganados pela prospectiva, preferem as soluções de urgência, de curto prazo e provisórias que permitem em qualquer momento corrigir os erros eventuais just in time.

5. O efeito défice de prospectiva horizontal

A falta de tempo da prospectiva vertical rouba um tempo precioso à prospectiva horizontal, isto é, ao diálogo, a cooperação e a concertação, os recursos baratos mas imprescindíveis da negociação informal.

6. O efeito privatização do futuro

Para os jovens o futuro é do foro individual e não da competência política; o futuro